O que vem depois do celular?

Foto em detalhe do AI Pin, da Humane, grudado a um moletom branco com gorro. Foto tratada com efeito dithering.

Após anos de promessas grandiosas, um TED que mais pareceu comercial de TV e US$ 240 milhões em investimentos, a Humane, startup fundada por um casal de ex-executivos da Apple, revelou seu primeiro produto: o AI Pin, uma espécie de broche inteligente.

Seria apenas um produto curioso, inovador, não fossem as tais promessas grandiosas. Com o AI Pin, a Humane quer substituir o celular.

Para isso, aposta na interface de voz e no “cérebro” do ChatGPT. Aposta arriscada. No vídeo de lançamento1, o AI Pin/ChatGPT errou por meio planeta o melhor lugar para assistir ao próximo eclipse solar e a quantidade de proteínas em um punhado de amêndoas.

Tem quem ache que toda tentativa de inovação deva ser celebrada. Talvez esse AI Pin seja o embrião de algo realmente revolucionário, mas acho meio complicado aplaudir uma Alexa de pendurar na camiseta como se fosse algo genial.

Após ruminar as informações por alguns dias, fica óbvio que a prioridade da startup é evitar telas, a ponto dele ter um laser que se projeta na mão como interface alternativa.

Se tem uma tela, vira celular. E se vira celular… boa sorte concorrendo com Apple e Google.

Criar e dominar a próxima plataforma dominante pós-celular é uma obsessão no Vale do Silício, de startups à big tech. A Meta sentiu o calor de não ter uma plataforma para chamar de sua, de ficar à mercê de decisões da Apple e, em menor grau, do Google, que lhe afetam diretamente.

É o que explica o delírio do metaverso e produtos como os óculos feitos em parceria com a Ray-Ban.

A aposta da Meta é oposta à da Humane. Em vez de evitar telas, Mark Zuckerberg quer trazê-las para ainda mais perto dos olhos — e, com isso, afastar-se do iOS e do Android do Google.

Os incumbentes não ficam parados. A Apple confrontou o dilema do inovador e, no início do ano, revelou sua própria solução para suceder o iPhone e, de quebra, o Mac: o Vision Pro, um headset de realidade aumentada.

O que une todas essas apostas é um vício do Vale do Silício, o de que problemas da tecnologia podem ser resolvidos com mais tecnologia.

O celular, à parte todos os benefícios e vantagens que trouxe, tem sua cota de problemas. Ele nos vicia, nos separa, nos isola.

Se de um lado é difícil imaginar um dispositivo pior que o celular como remédio para as mazelas causadas por ele, por outro tampouco é fácil acreditar que um capacete que exclui as pessoas ao redor será útil para esse fim.

  1. O vídeo foi ou seria corrigido e reenviado. Quem viu, viu.

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7 comentários

  1. apesar do ridículo, acho que “no futuro” vamos ter uma coisa assim

    referência óbvia: Start Trek (não a primeira série), onde os comunicadores eram “distintivos” presos à roupa … tá certo que era um ambiente fechado (a nave, ou a estação espacial)

    outras referências

    num livro do Orson Scott Card sequência de O Jogo do Exterminador (tem o filme também), as pessoas usavam um “brinco” com esse tipo de funcionalidade

    no seriado Fringe, no universo B as pessoas usavam também uma espécie de brinco como celular

    mesmo que não substitua o celular, acho que tem pelo menos um mercado potencial de nicho

  2. Com celulares do tamanho de uma agenda telefônica, fico entusiasmado com qualquer coisa que não pareça um tablet ou pese 200 gramas. Mas não, esse Ai Pin não vai ser o substituto do celular, lógico. Mas algo vai ser. Até lá, veremos coisas assim ao decorrer do tempo. Faz parte.

  3. Cada vez mais eu entendo as piadas e as críticas que “Sillicon Valley”, a série, fazia com as startups do Vale.

    Vejamos os próximos comunicados dessa nova ideia “revolucionária”.

  4. Notícias e especulações do Vale do Silício sobre o futuro… do Vale do Silício. Isso lembra os programas da Globo trazendo convidados e entrevistados da Globo, apresentando reportagens com o assunto “do momento” que não é mais do que o tema da mais nova novela da Globo, etc., etc. Será mesmo que o futuro tecnológico vai vir daquele pedaço da Califórnia?

  5. Só mais uma empresa garimpando trouxas (aka investidores) para sugar dinheiro. Como já falei em outro momento, esse AI Pin é minha aposta de fail de tecnologia de 2024.

  6. Até hoje não consigo me dar bem com Alexa, Google Assistente ou qualquer assistente de voz.

    O ChatGPT por trás pode trazer um avanço na interação e respostas, mas ainda estará muito longe da facilidade de interagir com a tela do celular.

    Interessante como um experimento, porém deve parar por aí mesmo.

  7. Não, péra. A Apple se mostrou perdida ao revelar o gadget mais obvio e caro possível. Isso não vai canibalizar o seu celular, e eles não tem coragem de fazer isso. Estamos em 2023, é outra empresa.

    Acredito que o foco da apple é serviços. Assinaturas, cloud e até cartão de credito, joga a merda na parede (tipo google mas fazendo certo) e ve se dá uma Microsoft. Acho que eles sabem claro o risco de ser uma empresa de um device, e justamente estão se movimentando. Mas não arriscando o mercado que “dominam”.

    PS: esse treco ridículo de distintivo que não é o “futuro do celular”.