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O que foi a bolha da internet

Montagem. Gráfico das bolsas norte-americanas no período da bolha da internet. Atrás, mascote do Pets.com, CDs da Aol e o logo da eToys do lado esquerdo; no direito, emoji das notas de dinheiro com asas.

No começo do século XVII, não existia uma economia mais pujante e sofisticada que a holandesa. Enclausurada num pedaço de terra do tamanho do Espírito Santo, a Holanda tinha sido forçada a desenvolver tecnologia para escapar das limitações geográficas. Para tanto, os holandeses conquistaram as águas, fosse para a construção de diques que possibilitassem o desenvolvimento de cidades em áreas alagadas (60% da população mora em áreas abaixo do nível do mar, logo o nome Países Baixos) ou a criação de uma potente indústria naval.

A tal da Era de Ouro Holandesa durou quase um século, entre o fim do século XVI, quando nasceu a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos, que viria a ser a Holanda atual, e o fim do século XVII. Foi nesse período que avanços utilizados até hoje foram introduzidos — a bolsa de valores e o mercado de ações, vamos lembrar, nasceram em Amsterdã em 1602, quando a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, até hoje a maior empresa da história do capitalismo, abriu seu capital na Amsterdam Stock Exchange. Não foi só pela grana: alguns dos artistas holandeses mais populares da história apareceram na época, como Rembrandt, do Aula de anatomia do Dr. Tulp, e Johannes Vermeer, do Moça com o brinco de pérola.

Enquanto seus vizinhos estavam enredados em guerras que não pareciam ter fim, a Holanda colhia os frutos do investimento na exploração marítima. A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais valia tanto devido ao monopólio que tinha nas rotas comerciais (majoritariamente marítimas) com a Ásia. Depois que Portugal, o antigo único dono das rotas, se negou a vender temperos, a Holanda ficou tão fula que resolveu, ela mesma, construir uma esquadra e ir buscar sozinha. O plano deu bom demais. O comércio de temperos enriqueceu o país até que a empresa descobriu um outro tipo de importação marítima lucrativa: a de seres humanos. Com Espanha e Portugal em busca de mão de obra barata para colonizar a América, a Holanda passou a sequestrar milhares de africanos — com o apoio do governo, deixemos claro — para levá-los contra sua vontade à América em troca de dinheiro. Pois é.

A pujança e a cobiça por mais levam a comportamentos que variam do criminoso (como a escravidão) ao patético. A abundância financeira sempre facilita a irracionalidade. Aconteceu na Era de Ouro da Holanda também. Em 1554, um botânico e diplomata nascido em Flanders, atual Bélgica, chamado Ogier Ghiselin de Busbecq, enviou da Turquia, onde servia como embaixador, sementes de uma flor para um amigo na Europa. As sementes se adaptaram bem às condições dos Países Baixos. Foi a primeira vez que a tulipa, cujo cultivo começou na Pérsia, era plantada em solo europeu.

Nas décadas seguintes, a flor começou a se popularizar na Holanda e, em alguma medida, no restante da Europa. Essa onda de popularidade casou com a pujança financeira da economia local e a sucessão de mercadores ricos com o comércio de temperos asiáticos. Em vez de ser uma simples forma de decoração, a tulipa começou a se transformar em artigo de luxo. A partir de 1634, o crescimento na demanda, inclusive de países vizinhos, chamou a atenção de especuladores, que entraram no mercado comprando tulipas mais raras para revender com um lucro múltiplo. Foi o que a história conhece como “Tulipomania”, ou Mania das tulipas, um período de poucos anos em que as tulipas viraram um artigo tão luxuoso que provocaram a primeira bolha econômica global.

Pintura de uma tulipa Semper Augustus.
Pintura anônima do século XVII de uma tulipa Semper Augustus. Imagem: Wikipedia Commons.
Àquela altura, o mercado já tinha se organizado para ter bulbos comuns, médios e raros, dos que exigiriam que um carpinteiro trabalhasse uma década sem gastar um centavo de florim (a moeda da época) para comprar. O maior exemplo do luxo entre as tulipas era a Semper Augustus, tulipa que, por ter sido infectada por um vírus, exibia uma mistura de traços em branco no fundo vermelho das pétalas. No disputado mercado das tulipas, criou-se um sistema marqueteiro para classificar os melhores bulbos e flores com títulos como “general” ou “admiral”, uma coisa que até hoje usamos na publicidade (com outros nomes, lógico). Dado que a tulipa demora um certo tempo para crescer, investidores e especuladores começaram a cogitar alternativas para comprar sem precisar esperar a flor desabrochar. Um deles achou uma alternativa: em vez de comprar a flor pronta, compra-se quando ela foi plantada por meio de um contrato. É o que o mercado hoje chama de contrato futuro: em vez de comprar o produto ou serviço pronto, as duas partes, vendedor e comprador, fazem um contrato para garantir a compra antes do produto estar disponível. O comprador paga mais barato e o vendedor divide o risco. Hoje o mercado futuro é algo essencial na compra de petróleo e energia elétrica, por exemplo, e tudo porque uns holandeses ricos queriam especular com tulipa.

No ápice do interesse nas tulipas, os bulbos mais raros supostamente custavam o mesmo que uma casa grande em Amsterdam, algo na faixa dos € 500 mil atuais. Muitas das histórias da Tulipomania são baseadas em um livro chamado Extraordinary popular delusions and the madness of crowds, publicado em 1841 por um jornalista escocês chamado Charles Mackay. Nas últimas décadas, o livro foi alvo de estudos que contradiziam muitos dos aspectos descritos por Mackay. É exatamente por isso que os professores da Universidade de Cambridge William Quinn e John Turner excluíram a Tulipomania do livro que escreveram em 2020 sobre bolhas econômicas, Boom and bust: A global history of financial bubbles (sem edição no Brasil).

A onda só quebrou em fevereiro de 1637, da mesma forma como subiu: de repente e sem muita explicação lógica. A principal teoria para o estouro da bolha das tulipas é simples: o mercado se tornou tão atrativo que muita gente sem qualquer conhecimento sobre tulipas tentou surfar a onda para ganhar um dinheiro. A partir de um certo momento, o equilíbrio se perdeu: havia muita flor e bulbo para pouco comprador. Em quatro dias, estima-se que os valores despencaram 90%.

A mesma dinâmica que a gente viu na subida do setor se repetiu na descida. Conforme mais gente tentava surfar a onda, mais o preço crescia, o que animava ainda mais gente a entrar, o que fez o preço continuar a subir e por aí vai. Em 1637, a quebra foi igual, só que em sentido contrário: caiu um pouco, aí quem tinha contrato de futuro baixou o preço para tentar vender agora que o preço original não tinha comprador, os outros vendedores baixaram um pouco mais para disputar com aquele vendedor e a partir do momento a gente tinha algo que Luciana Gimenez orgulhosamente chama de “race to the bottom”, todo mundo tentando se livrar de flores, bulbos e contratos futuro por valores cada vez menores.

Bolhas não são eventos raros na economia global. Desde o frenesi pelas tulipas na Holanda do século XVII, vários outros fenômenos muito parecidos aconteceram. O produto ou serviço no centro da bolha varia, mas vários aspectos semelhantes, como a irracionalidade desengatilhada pela crença de que algo grande vai acontecer, a corrida para comprar e depois se livrar e, principalmente, as consequências nefastas, são, mais ou menos, as mesmas. Alguns dos fenômenos econômicos de maior impacto das últimas décadas no mundo foram bolhas. E não basta falar que você não entra nessas modas — bolhas acabam arrastando a todos, com maior ou menor ferocidade. O escândalo do subprime nos Estados Unidos em 2008, por exemplo, arrastou não apenas os investidores norte-americanos — muito dinheiro estrangeiro investido no Brasil acabou retirado para cobrir rombos nos EUA e na Europa, o que impactou diretamente a nossa economia. Claro que isso aconteceu em um momento que a economia brasileira estava excelente, capa da Economist, commodities bombando, tínhamos até o nosso próprio Elon Musk (no caso, Eike Batista), mas isso é assunto para outro episódio.

A gente acha que aprendeu depois de analisar um fenômeno, só para topar com o dedinho do pé na mesma quina do móvel algumas décadas depois. O episódio dessa quinzena do Tecnocracia inaugura uma nova sessão que vai se tornar frequente no podcast, uma tentativa de preencher lacunas históricas, de fases, movimentos ou episódios que marcaram profundamente o mercado de tecnologia e que repercutem até hoje. O primeiro tema da série “O que foi” vai falar sobre como uma bolha em 2000 moldou o mercado de internet que vivemos hoje. Quinzenalmente, o Tecnocracia faz uma contextualização histórica com dados e livros para mostrar que aquela novidade tecnológica que vemos adiante de nós terá várias consequências previsíveis, muitas delas negativas. Eu sou o Guilherme Felitti e quero aproveitar para avisar que o Tecnocracia chegou à campanha de financiamento coletivo do Manual do Usuário. Uma vez por mês eu vou apresentar um programa ao vivo com algum assunto quente sobre tecnologia — eu apelidei de Tecnocracia Balcão, já que vai ter participação de ouvintes. Quem assinar o pacote II ou maior da campanha do Manual (que custa a partir de R$ 16) ganha o direito de participar das sessões e ainda recebe em casa um adesivo do Tecnocracia.

As origens da bolha

Toda bolha tem sempre duas ações: o inflar e o estourar, o subir e o descer, o crescer e o cair. As primeiras empresas de internet da história só valeram muito dinheiro durante um curto período de tempo, ali no começo dos anos 2000, por razões que nada têm a ver com tecnologia. Para entendê-las, voltemos a 2 de setembro de 1945, quando um humilhado ministro de relações exteriores, Mamoru Shigemitsu, assinou formalmente a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial. O imperador Hirohito já tinha anunciado a rendição quinze dias antes.

Mamoru Shigemitsu, chanceler japonês, assina a rendição do Japão a bordo do d USS Missouri, em 2/9/1945. Foto: Wikimedia Commons

A partir dali, caiu no colo dos Estados Unidos a tarefa de ajudar a reconstruir o Japão. Parecia um senhor desafio, mas a escolha foi óbvia: “em circunstâncias normais, a tarefa seria, no melhor dos casos, de baixa prioridade. Mas o Japão saiu da guerra em uma posição surpreendentemente vantajosa: sob o controle do maior poder capitalista do mundo, mas situado ao lado dos maiores poderes comunistas. Como a política externa dos EUA no pós-guerra era fazer qualquer coisa que ilustrasse a superioridade do capitalismo, a prosperidade japonesa se tornou um interesse estratégico. Logo, os EUA fizeram um sério esforço para encorajar o desenvolvimento econômico do Japão”, segundo o livro de Quinn e Turner .

O plano deu tão certo que, a partir da década de 1960, o Japão já estava concorrendo com os EUA em setores como eletroeletrônicos e automóveis. Criou-se uma tensão entre os dois países: para os EUA, a recuperação fantástica era boa em termos geopolíticos, mas ruim em termos econômicos. A tensão foi resolvida no Acordo Plaza, assinado em 1985. Nele, o Japão concordava com medidas para aumentar o valor do iene na comparação com o dólar. Foram três as principais: desregulamentação para incentivar o setor privado, afrouxar a política monetária e reduzir o déficit do governo como forma de reduzir o tamanho econômico do estado. Em suma: menos regras. Essas benesses deram impulso a uma onda cujos resultados o Japão só veria cinco anos depois: criou-se uma bolha imobiliária e de investimentos que, ao estourar em 1992, colocou a economia local em estagnação. A gente pode estar acostumado com economia em estagnação, mas o Japão não sabia o que era isso depois de décadas de alto crescimento desde o início do seu processo de reconstrução ao fim da Segunda Guerra Mundial. O importante para lembrar agora é isso: a redução nas regulamentações do Acordo Plaza desaguou na crise.

Esse desmonte regulatório também estava acontecendo em outros países, como os EUA. “As décadas de 1970 e 1980 viram um declínio global no uso de controles de capital e taxas de câmbio fixas, tornando mais fácil do que nunca para o dinheiro cruzar as fronteiras. As restrições bancárias foram gradualmente removidas, dando aos bancos, muitos com operações globais, controle sem precedentes sobre o nível de crédito”. No que resultou todo esse blablabla financeiro? “Dinheiro era relativamente abundante nos anos 1990, dando liquidez suficiente para que a bolha se desenvolvesse. A decisão de Alan Greenspan (presidente do Federal Reserve, o Banco Central dos EUA) de intervir após o crash do mercado de ações em 1987 (conhecido como Black Monday), levou muita gente a acreditar que o Federal Reserve iria responder à queda de preços cortando a taxa de juros, o que limitaria as potenciais perdas dos investidores. Isso ficou conhecido como a ‘opção de venda do Greenspan’ [tradução livre para ‘Greenspan put’] e serviu como um incentivo a assumir riscos ainda maiores. Em 1998, com a bolha em formação, o Federal Reserve cortou taxas de juros em antecipação à desaceleração econômica, encorajando ainda mais investidores a buscar rendimentos. Os anos 1990 também foram uma época de crédito crescente, com o débito doméstico como proporção do PIB subindo de 60% em 1990 para 70% em 2000. Assim como nos anos 1920, o número de investidores levantando capital para comprar ações subiu vertiginosamente. Entre janeiro de 1997 e março de 2000, a margem de empréstimo subiu 144%”.

O cenário estava posto: as desregulamentações para acelerar a economia resultaram em baixíssimas taxas de empréstimo nos Estados Unidos, o que facilitava você levantar capital para tentar montar um negócio. Como resumem Quinn e Turner, “a economia global se tornou efetivamente um paiol à espera de uma faísca”.

A tal faísca veio em 9 de agosto de 1995. uma quarta-feira. Foi o dia em que o Jerry Garcia, um dos membros do Grateful Dead, morreu de ataque cardíaco. Mas o dia não ficou marcado por isso. Às 10h30, horário de Brasília, a bolsa norte-americana começou suas operações do dia. Era a primeira vez que a ação da Netscape, um navegador web gráfico que fazia muito sucesso, estava disponível para venda. Nas horas anteriores ao início do pregão, o Netscape e os bancos por trás do IPO dobraram o valor do preço inicial da ação, dado o tamanho da demanda — foi de US$ 14 para US$ 28. Ainda assim, quando o pregão começou, a demanda era tanta que os bancos não conseguiam acompanhá-la. Quando o gargalo se resolveu, ao meio-dia (horário de Brasília), a primeira compra de ação da Netscape foi fechada por US$ 711, cinco vezes que o preço original estipulado. Ao fim do pregão, o papel valia US$ 58,25. O cenário de liquidez do mercado era tanto que uma faísca do nível biribinha já explodia o paiol. Mais que uma faísca, o IPO do Netscape foi um raio.

A oferta de ações do Netscape mostrou ao mercado que havia muito dinheiro a ser feito na internet. Mas vamos dar um passo para trás antes de continuar.

Até a metade da década de 1990, a internet era basicamente uma rede acadêmica acessada por terminal. Em 1993, pesquisadores do National Center for Supercomputing Applications (NCSA), dentro da Universidade de Illinois, criaram o primeiro navegador web que mostrava vídeos e imagens. Era o NCSA Mosaic. O software fez um sucesso tremendo na comunidade entusiasta e um dos seus criadores, um estudante chamado Marc Andreessen, resolveu montar sua própria empresa para explorar a ideia. Marc se aliou a um empreendedor chamado Jim Clark, que já tinha criado a Silicon Graphics, uma empresa de PCs de alto processamento, e fundou a Mosaic Communications Corporation. Em outubro de 1994, a startup lançou a primeira versão do Mosaic Netscape, o primeiro navegador de apelo popular. O Netscape atraiu um público não acostumado à internet.

De um lado, a gente tinha a liquidez abundante da economia norte-americana. Do outro, um IPO bilionário mostrando ao mercado que havia dinheiro a ser feito com esse novo setor não desbravado. Juntou a fome com a vontade de comer.

A partir do IPO do Netscape, tudo parecia apontar para o futuro. Mergulhado em dinheiro, o mercado apostou na digitalização total das nossas vidas em uma janela de cinco anos. Não à toa, a empresa mais valiosa do mundo na época era quem? Errou. Tenta de novo. Errou de novo. Última vez. Errou. Era a Cisco, uma empresa de San Francisco (por isso o nome) que fazia hardware de conectividade para grandes operadoras. Em 27 de março de 2000, a Cisco se tornou a companhia mais valiosa do mundo com um valor de mercado de US$ 569 bilhões. Atualizado para inflação, daria US$ 868,8 bilhões. As valuations atuais são bem maiores — a Apple vale US$ 2 trilhões. Ainda assim, para 2000 era muito dinheiro.

Aí começou a corrida. Centenas de startups aproveitaram o capital barato e começaram a explorar todas as ideias possíveis na internet — sites que ocupavam todas as verticais de ecommerce, por exemplo. O padrão era abrir capital o mais rápido possível para ter ainda mais capital disponível: não raro, empresas sem um plano de negócio muito sólido ou resultados financeiros saudáveis terminavam o primeiro dia de trading com valorização de 3x ou 4x no preço de cada ação. No Brasil aconteceu a mesma coisa, numa escala um pouco menor. Era famoso um evento em São Paulo chamado First Tuesday, em que centenas de empreendedores e interessados em internet se reuniam para tomar uísque na primeira terça-feira do mês. A liquidez era tanta que, no evento, achava-se investidor disposto a pagar 10 mil reais mais 5% de participação para qualquer um com uma boa ideia de negócios online.

Foto da foto. Três homens aparece, o do meio com uma placa no peito escrito: "Ideia para internet: R$ 10 mil + 5%", seguido de um endereço de e-mail. Ele segura um copo de uísque e um canapé.
Tempos de bonança na internet brasileira. Foto: Índio Brasileiro Guerra Neto/Arquivo pessoal, do livro Os bastidores da internet, de Eduardo Vieira.

São inúmeros os exemplos do comportamento do tipo. A eToys.com, uma loja de brinquedos online, é uma delas — no seu IPO em 1999, o preço abriu o primeiro pregão em US$ 20 e fechou em US$ 77. A startup tinha recebido capital da Sequoia, um dos fundos mais tradicionais do Vale do Silício — o primeiro cheque que a Apple ganhou da vida foi da Sequoia. Após o IPO, a eToys valia US$ 8,5 bilhões, ainda que, desde sua fundação 2 anos antes, tivesse um prejuízo acumulado de US$ 31 milhões. Dois anos depois do IPO, a empresa já tinha quebrado.

O “poster child” da bolha de internet foi a Pets.com, uma loja online de artigos para animais de estimação cujo mascote era um fantoche de mão de um cachorro. A Pets.com (não confundir com a varejista brasileira — a brasileira é com Z, a norte-americano é com S) abriu capital em fevereiro de 2000 em um IPO disputadíssimo — até a Amazon entrou no negócio. Os US$ 82,5 milhões arrecadados na bolsa foram insuficientes para levantar o negócio e a empresa quebrou 9 meses depois. Não precisa nem entrar na faculdade de ciências contábeis para entender o problema: a Pets.com tinha uma receita anual de menos de US$ 700 mil, mas gastou, no total, mais de 100 milhões na operação — só de marketing foram quase US$ 12 milhões. No Super Bowl de 2000, um dos anúncios era seu, mostrando o tal fantoche de mão.

Existem explicações óbvias para o fracasso da Pets.com. Para começo de conversa, a margem era negativa. Cada produto era vendido por menos do que custava para ser fabricado e a Pets.com entubava o prejuízo. Agora, como algo tão incensado quebra tão rápido? O caso da Pets.com fez o mercado se perguntar qual era a culpa que todo o entourage ao redor da startup tinha. Os bancos responsáveis pelo IPO foram duramente criticados por estruturarem o processo ainda que o plano de negócios fosse totalmente furado. Os bancos que faziam os relatórios recomendando ações também foram alvos de críticas justas por manterem as indicações de compra mesmo com os evidentes pés de barro. O site da CNBC tem outros exemplos de empresas que caíram tão rápido como subiram. Bom lembrar, todos os gráficos e links estão na íntegra do roteiro publicado no Manual do Usuário.

Existe um último exemplo que ilustra bem a “exuberância irracional” da época, segundo uma definição precisa do Greenspan. A maior ponto-com da época se chamava America Online. Era uma mistura de portal de internet com provedor de acesso. Saibam, mais jovens, que no começo da internet comercial não bastava você pagar por uma conexão — você precisava também de um pacote de acesso. Em 1998, a britânica Freeserve aboliu o pacote e foi copiada no mundo todo, a começar pelo iG no Brasil, mas essa história é para outro dia. A American Online (ou Aol) oferecia esse pacote e acesso a conteúdo exclusivo. Tal qual o Facebook faz hoje, a aposta da Aol era numa abordagem “walled garden”, ou seja, você conecta e dificilmente sai daquele ambiente. Tanto que a Aol inundou o mercado com CDs gratuitos para instalar seu discador. Instalado no seu computador, ele mudava configurações para tornar mais difícil você se conectar com rivais da Aol2. Uma das primeiras raivas que passei com a internet foi com essa merda de CD — as raivas da internet de antigamente eram mais puras, quantas saudades de ficar puto com um CD e não com plataformas hospedando nazistas. Suspiro.

A Aol fazia um enorme sucesso nos EUA e acabou copiada no mundo todo. No Brasil, um grupo foi destacado no jornal Folha de S.Paulo para estudar o modelo e replicá-lo no Brasil. Como América era pouco, o nome do novo empreendimento foi definido em Universo Online (Uol). Na Editora Abril (quando a Abril existia e tinha importância fora dos tribunais trabalhistas), como não tinha mais universo para botar no nome, restou um Brasil Online, o Bol3. No Brasil, a Aol chegou em 1997 de salto alto e pagando muito para roubar profissionais de outras empresas. Nunca engatou e fechou sete anos depois, com a bolha já estourada.

Meu ponto sobre a Aol é que a liderança da internet parecia fato consumado. Em 1998, a Aol comprou a Netscape por US$ 4,2 bilhões. O navegador vinha sofrendo com a concorrência da Microsoft. Esse é o momento em que a história da bolha se conecta ao processo antitruste que a Microsoft sofreu no fim dos anos 1990. O Netscape só perdeu participação de mercado porque a Microsoft incluiu o Internet Explorer no Windows e usou seu domínio no setor de sistemas operacionais para esmagar um rival menor de outro setor.

Com a Netscape, a liderança era tão folgada, o cofre estava tão recheado e o futuro parecia tão brilhante que os executivos resolveram, simplesmente, comprar a Time Warner, na época o maior conglomerado de mídia do mundo. No dia do anúncio da fusão, a nova empresa valia quase US$ 250 bilhões. Sem qualquer sinergia (esse termo que o mercado adora), a fusão se tornou uma das piores da história. Dois anos depois, o valor de mercado de ambas já tinha caído pela metade. Claro, a história tem incompetência em volumes atacadistas, mas há um inegável timing errado que também ajuda a explicar. Dois meses depois da fusão, a bolha estourou.

A bem da verdade, não foi um estouro da bolha. Ela foi desinflando em alguns estágios. A primeira estocada foi em março de 2000. O Federal Reserve anunciou que aumentaria as taxas de juros ao mesmo tempo em que o Japão anunciou que estava entrando em recessão. As duas notícias começaram a secar a fonte de investimento e colocaram um pouco de medo nos investidores. Sem aquele rio de dinheiro, foi possível ver que a maioria dos negócios não pararia de pé.

Pets.com, eToys, Webvan, Kozmo, The Globe, LastMinute e America Online (ainda que menos) foram expostos pelo o que eram: negócios delirantes baseados em uma premissa completamente falsa. Não havia ainda aquela demanda gigantesca esperada — a digitalização da vida foi pensada só pelo lado da oferta, não da demanda. A internet estava ficando mais popular, mas não o suficiente para sustentar todos aqueles negócios. Os céus estavam começando a ficar carregados desde o início de 2000.

A segunda estocada veio na segunda semana de abril, quando a Nasdaq caiu 25%, enquanto o S&P 500 caiu 10%. Como o doente que dá uma leve melhorada antes de empacotar, o mercado reagiu até setembro. Dali em diante, a bolha desinflou. Frustrados, muitos investidores tiraram seus investimentos e ajudaram a acabar com o martírio de algumas empresas. Em novembro veio a terceira porrada — a Pets.com anunciou que tinha quebrado e, no mês, a Nasdaq acumulou perdas de 23%. “No fim de 2000, a bolsa já tinha perdido mais de metade do seu valor em um espaço de oito meses”, diz o livro de Quinn e Turner. Em 2001, o cenário continuou e foi agravado pelos ataques de 11 de setembro. “Quando o mercado finalmente chegou ao fundo do poço em outubro de 2002, a Nasdaq tinha perdido 77% do seu valor em dois anos e meio, enquanto o S&P 500 caiu um total de 48%. Para empresas de internet, o cenário era ainda mais assustador: o setor experimentou retornos de mil por cento nos dois anos anteriores a fevereiro de 2000, e perdeu todos seus ganhos no fim de 2000”.

Quem valia bilhões meses antes agora não valia nada ou carregava uma dívida impagável — caso da AOL, que inverteu o vetor da compra e arrastou os resultados da Time Warner.

Tivemos, claro, exceções. Uma das empresas fundadas e que abriu capital naquela época também sofreu o baque: no ápice, as ações da Amazon valiam US$ 106. Com o estouro da bolha e os ataques do 11 de setembro, o papel chegou a valer US$ 6. Aí entra o long game: desde a primeira carta para acionistas da história da Amazon, Jeff Bezos repetia que ia reinvestir todo o lucro na operação para construir um negócio sustentável em longo prazo. Alguns investidores compraram a ideia. Hoje, cada ação da Amazon vale US$ 3 mil.

No geral, a bolha mergulhou a internet em uma espécie de “inverno nuclear” em que era bem difícil arrumar dinheiro para novos empreendimentos. O mercado ficou, digamos, desconfiado, com toda razão. Essa desconfiança só se debelou quando um buscador abriu capital na bolsa e provou, 4 anos depois, que já existia demanda suficiente por parte dos consumidores para sustentar esses valores enormes. O IPO do Google, em 2004, abriu caminho para o do Facebook, oito anos depois, e, consequentemente, para dezenas de outras pontocom.

Essa dificuldade de arrumar dinheiro foi maior em alguns países. No Brasil, o “inverno nuclear” foi severo — nos EUA ainda existiam fundos dispostos a investir em negócios online; vide a Sequoia no Google e no PayPal ou a Kleiner Perkins, também no Google, por exemplo. No Brasil não tinha ninguém. Quem sobreviveu foram pouquíssimas startups e os portais, que, após copiarem a AOL, tinham tamanho e receita publicitária suficientes para se manter no ar. O cenário só começa a mudar quando o Google chega ao Brasil em 2008.

A partir de 2010, com a melhoria da economia brasileira em contraste com as economias empacadas na Europa e nos EUA, começou a vir muito capital para o mercado de tecnologia no Brasil. Começa aí a onda que estamos vivendo hoje de investimentos em startups e aceleradoras. Durante quase uma década o mercado de tech no Brasil ficou meio à própria sorte, o que resultou em alguns bons negócios — poucos, é verdade. Os dois grandes exemplos aí são o brasileiro Buscapé, que já esteve em momentos melhores, e o argentino Mercado Livre, hoje a maior empresa da América Latina. Há alguns anos eu ouvi de um empreendedor dessa fase que a internet entrou na lógica do padeiro: se não tem farinha, não tem pão. Faz muito sentido.

Para finalizar, duas dúvidas. A primeira: o que o mercado aprendeu para evitar uma onda semelhante? Essa é fácil: quase nada. Houve uma ou outra investigações sobre como os bancos lidaram com o dinheiro, mas os mesmos pilares que levaram à bolha da internet se mantiveram no mercado: “o dinheiro permaneceu abundante, o crédito estava se tornando mais e mais fácil e o crescimento do mercado de derivativos aumentou substancialmente a compra e venda de assets financeiros”. Não à toa, menos de uma década depois a gente teve a bolha do subprime que estoura em 2008. Se você quer entender facilmente o que foi a bolha do subprime, duas indicações de filme: o documentário Trabalho interno, do Charles Ferguson, e a ficção A grande aposta, do Adam McKay. Nos anos anteriores à bolha do subprime, o governo George W. Bush promoveu enormes desregulamentações.

O que a história nos ensina (de novo, o livro do Quinn e Turner é excelente para dar esse panorama): é inevitável que alguma outra bolha aconteça. O governo Donald Trump promoveu também enormes desregulamentações e desmontou formas de controle do mercado financeiro. No Brasil, Jair Bolsonaro talvez até se preocupasse com isso se não gastasse tanto tempo prejudicando o combate à pandemia e planejando golpe de estado. O que ainda não está claro é ao redor do que essa bolha vai se formar. Já foi tulipa, já foi imóveis japoneses, já foi ações de empresas de internet.

A segunda dúvida: existe alguma chance de estarmos entrando ou já em uma nova bolha de internet? Por enquanto, a resposta mais simples é não. Em 2007 fez sucesso uma paródia (acima) alegando que a próxima bolha da internet estava vindo. Os fatos que a música-chiclete previam, porém, não se concretizaram. Google, Facebook, Amazon, Apple, Microsoft, Netflix, Alibaba, Tencent e Tesla4 revelaram negócios parrudos financeiramente. Existe não apenas receita e lucro suficientes para justificar o valor de mercado, mas também espaço para que esses dois critérios continuem subindo pelos próximos anos. A nuvem do antitruste que paira cada vez maior sobre a Big Tech (o governo Biden indicou Tim Wu e Lina Khan para lidar com monopólios de base tecnológica) pode significar um pequeno soluço nesse crescimento, mas é improvável que essas empresas deixem de faturar uma caixa forte do Tio Patinhas todo trimestre.

Há, no entanto, algumas rachaduras que exigem o mínimo de cuidado. A Uber é uma delas. A Uber é uma empresa com uma marca valiosíssima, que inventou um novo mercado e, ainda assim, nunca foi capaz de cuspir um dólar de lucro. Conforme o tempo vai passando, o buraco financeiro vai se aprofundando. A ideia de pivotar para carros autônomos (e, por consequência, não depender mais de motoristas humanos e seus 70% do valor das corridas) já foi descartada. Ao não atingir o break even, a Uber só se mantém pela montanha de capital de risco que levantou nos últimos anos. Não existe mágica. Onde tem valor no negócio? Em branding, é inegável. Você chega em quase toda cidade do mundo e pode usar um serviço que você já conhece. Em delivery, eles estão tentando tornar a divisão mais interessante.

Mas o caso da Uber todo mundo conhece. Há, no entanto, outra rachadura menos visível. Facebook e Google construíram impérios baseados em, majoritariamente, um modelo de negócios: publicidade5. Há uma crescente onda de investigações sobre os resultados alegados por Facebook e Google a clientes que tenham comprado campanhas publicitárias. Já existem investigações no Reino Unido e na Austrália sobre o assunto. Em fevereiro, documentos internos do Facebook relevados pela Justiça mostraram como executivos da rede social sabiam que estavam aumentando de propósito o número de usuários para cobrar mais de anunciantes. Se o movimento ganhar corpo em outros países, as rachaduras no principal pilar que sustenta ambas as empresas podem significar um risco.

Há outro ponto na questão a se considerar: Facebook e Google formam um duopólio. Se não for anunciar neles, vai anunciar em quem? Essa rachadura ganha profundidade com o processo antitruste — novos players terão incentivos para estabelecer operações maiores. Por enquanto, perdura a máxima do Vampeta. Quando o Flamengo atrasava salários por meses em 2001, o jogador melhor definiu uma máxima que não se limita ao futebol no Brasil: “eles fingem que pagam, a gente finge que joga”. Velho Vamp pode não ter percebido, mas definiu com precisão como bolhas funcionam.

Montagem do topo: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

  1. Existe um podcast chamado Internet History Podcast que conta muito bem a preparação toda e o dia do IPO. Vale a pena..
  2. A Kara Swisher, uma das minhas inspirações quando jornalista, escreveu um livro sobre a ascensão da Aol. O livro é bom, mas tenha em mente que ele só registra a subida, não a queda.
  3. História aleatória: o Bol resolveu fazer um show no Parque do Ibirapuera para marcar seu lançamento e convidou Elba Ramalho, Zé Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo, que estavam bombando o disco O grande encontro. A certa altura, a Elba vai agradecer o patrocinador e manda um “obrigada à America Online”. Boa, Elba! Eu estava lá.
  4. Ainda que exista um inegável componente de especulação na Tesla, mas falamos sobre isso depois.
  5. A Amazon ganha cada vez mais dinheiro com publicidade, mas não é sua base de sustentação.

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8 comentários

  1. Recém consegui ouvir o podcast. Alguns momentos ficaram meio confusos entre uma ligada de serra e outra, mas no geral deu para pegar (mais tarde eu leio com calma).
    Eu nunca, mas nem que passasse 3 dias chutando acertaria que a Cisco chegou a valer tanto assim.
    Esse mercado de ações é, ao meu ver, muito estranho. Eu já tentei comprar ações de algumas empresas mas não é uma coisa que eu me sinta à vontade. Parece que tem algo de errado com isso, me sinto como se estivesse fazendo uma coisa errada. E além do mais, sempre olho com desconfiança para coisas revolucionárias, então, para mim, comprar ações de uma AOL da vida em 1990 seria uma coisa fora de cogitação.

    Enfim, como sempre, ótima matéria. Já estou esperando a próxima. =D

    1. Fala, Diego, que trechos você acha que ficaram confusos?

      De vez em quando eu acho que encadeio assunto demais um no outro e o primeiro assunto fica muito distante para retomar.

      Abs,

      1. Opa, e aí, Guilherme!

        Não te preocupa que não foi culpa tua, teu texto e narração estão excelentes! Desculpa se não ficou claro no que escrevi, mas o “confuso” que quis dizer se referia ao fato de eu estar trabalhando enquanto ouvia, e o trabalho com serra exige muita concentração. Às vezes tinha que desviar a atenção da narrativa para o que estava fazendo, e isso fazia eu “perder” algumas partes, afinal não quero errar cortes nem perder dedos. =P

      2. Ah, e antes que eu esqueça. Eu adoro quando as pessoas começam a abrir parênteses e vão indo, indo, indo… Acho que enriquece bastante uma narrativa. Eu também faço muito disso.

  2. Qual a bolha recente que temos? Das compras coletivas? Eu tive colega de faculdade fundando empresa desse ramo e obviamente não deu certo.

    1. A internet brasileira tem alguns ciclos em que todo mundo investe numa ideia, 95% das empresas quebram e 2 ou 3 prosperam. Foi isso com provedores gratuitos, compras coletivas, apps de táxi e agora um pouco com fintech.

      Mas é difícil chamar de bolha. O mercado continua lá, é uma onda de disputa por um nicho.

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