Dia desses, numa conversa sobre o tema, manifestei minhas objeções às apostas esportivas.
A pessoa com quem conversava questionou: você já apostou? (Não.) Conhece alguém que aposta? (Também não.)
Fiquei intrigado.
Entendo o lado perverso das apostas. A compulsão, o vício, os problemas financeiros. Eles afetam todo mundo que aposta? Não sei, mas arrisco dizer que não.
Para quem está nesse grupo de apostadores que não perderam o controle: qual é o barato? O que te motiva a apostar?
(Como é um assunto polêmico, relembro a todos que o Órbita aceita comentários anônimos. Fique à vontade para responder com um pseudônimo.)
Vou compartilhar com vocês um relato inusitado sobre como eu faço apostas esportivas. Não é um texto moralista e, embora eu seja contra a liberação total das Bets e faça campanha contra elas, não vai ser meu foco aqui.
Resumidamente, eu gosto de fazer “hedge emocional”. Pra quem não sabe hedge é uma estratégia de mercados financeiros que busca proteger posições apostando em movimentos contrários a ela. Por exemplo: se eu sou um gestor de fundos de investimento e decido colocar grana em uma posição que ganha se houver valorização da moeda chinesa, também posso investir um tanto em outro ativo que historicamente se valoriza quando a moeda chinesa perde. Isso é gestão profissional, não serve pra meros mortais como nós, mas é o que Hedge significa.
Eu gosto de pensar que faço isso usando futebol e apostas esportivas. É tudo de brincadeira, nunca perco muito nem ganho muito, não me vicio e acho divertido.
Basicamente o que eu faço é apostar CONTRA o meu time do coração.
Como sou frequentador assíduo de estádios desde a adolescência e acompanho de perto o clube que torço é natural imaginar que o envolvimento emocional é alto. Não faço maluquices pelo clube mas estou sempre no estádio, não perco um jogo, as vezes viajo para acompanhar jogos, fico triste nas derrotas importantes e muito feliz nas conquistas. Tudo certo… mas e o Hedge?
Bom, no contexto que expliquei, trata-se de encontrar um valor “justo” em que faz sentido eu apostar CONTRA o resultado favorável ao meu time. Esse valor precisa ser um equilíbrio entre não perder muito caso ele vença, porque afinal meu desejo sempre foi e sempre será o de ele vencer, mas receber um grana interessante caso ele perca. São sentimentos de campos diferentes, emoções totalmente distintas, mas eu já me senti “menos mal” com uma derrota importante em um clássico por saber que ganhei dinheiro. E também não liguei a mínimia de perder dinheiro enquanto comemorava uma vitória no campo esportivo.
Mas o segredo é achar o valor certo. Se a aposta for alta demias você fica triste em qualquer cenário (rs). Se ela for baixa demais nao faz diferença.
E é apenas isso… rs
Uma bobagem, mas que me diverte além do jogo em si. :)
Gostei demais do depoimento do Rafael, da sinceridade em relação a um tema tão delicado, que é a aposta em si. Já joguei na loteria, já comprei Telesena, mas, sinceramente, mais para ajudar a moça da lotérica, que a esperança de ganhar. A questão em qualquer vício (até em café) está em três pontos: a vulnerabilidade, a submissão e o preenchimento de um vazio. Quem nunca, para ser “aceito” em um grupo, já tomou umas a mais? Quem nunca foi às compras quando estava triste? Quem aceitou pouco em uma oferta de emprego, só para “não ficar parado” ou no desespero? São essas iscas que inúmeras indústrias, negócios e a economia em si se baseiam. É perverso? É, mas é assim que funciona. Até máfia da vaquinha para ajudar crianças com câncer tem, ou seja, gente que aproveita de situações reais criando falsas, por exemplo. Não sou contra as bets, mas a favor de uma regulamentação eficaz mesmo, que saia do discurso e, principalmente, que auxilia quem está se prejudicando. Quem vai parar no SUS por causa disso, aliás houve um aumento de 140% em cinco anos, pode até encontrar acolhimento, mas fico me perguntando se haverá tempo hábil de ajuda. Eu só sei de uma coisa, esse tipo de atividade eu não acho nenhum pouco legal, prefiro um cafezinho (com moderação).
já fui de apostar com alguma frequência, mas não aposto mais já tem alguns anos. nenhuma decisão dramática, apenas não tenho interesse mais, talvez pela minha falta de interesse em competição, elaboro na sequência: eu fui jogador profissional de poker por uns dois anos. eu gostava muito de estudar o jogo, mas me faltava o interesse competitivo pra ser um profissional dedicado, é a mesma coisa com qualquer jogo competitivo que eu já tentei (inclusive CS e Lol por exemplo): se eu perco eu fico chateado, mas quando ganho não fico feliz. os meus colegas quando perdiam ficavam furiosos, queriam estudar estudar se dedicar pra se superar e quando ganhavam ficavam EXULTANTES, nunca fui assim, virei programador mesmo haha
as pessoas apostam, basicamente, porque é divertido. e é divertido de um jeito que todo mundo vai entender: é gostoso demais estar certo. ganhar uma aposta é uma recompensa monteraria para “EU NÃO DISSE?!?! EU AVISEI!!” que é um sentimento que todo mundo tem (mesmo a Ursula Le Guin nos avisando “A pessoa que diz ‘eu avisei’ nunca foi nem será um herói”).
essa é uma das coisas que mais me incomoda nessa escandalização com as apostas, a maior parte das pessoas de esquerda não se interessam por esse tema e estão combatendo espantalhos bizarros: ninguem começa a apostar por investimento, achando que vai ficar rico, que vai tirar a sorte grande. ninguém continua apostando achando que está engañando a casa, que está sendo gênio. em algum momento alguém pode fazer isso e inclusive existem apostadores profissionais (ainda que eles estejam minguando a cada dia com maior investimento das casas de apostas em profissionais de estatística e ciências de dados), mas a maior parte das pessoas começa a apostar simplesmente porque é divertido.
quando os influencers de esquerda que agora estão tirando as calças pela cabeça por causa de apostas começam a falar essas coisas (“não é investimento”, “você está sendo enganado”) eles soam para pessoas que apostam como IDIOTAS. tipo aquele filme que a mãe chega levar os filhos numa festa e antes de sair com o carro ela não se aguenta e grita “Don’t do drugs!” ao qual as crianças repetem debochadamente rindo “dOn’T dO DrUgS!”. as pessoas que apostam sabem que a casa sempre vence no longo prazo. é muito mais fácil um motoboy que aposta saber explicar pra algum sociólogo “não sei sou de humanas” sobre Valor Esperado do que esses caras explicarem algo pra ele que ele não saiba sobre apostar. As origens do risco de alguém se viciar e se enfiar em problemas com apostas é muito parecido com o de álcool e de qualquer coisa que vicia: desespero, falta de agregação social, instabilidade, neurodivergencias, vulnerabilidade social.
o que me leva ao segundo incomodo desse momento: eu não aceito papo moralizador sobre apostas de quem não fala a mesma coisa sobre álcool. na copa do mundo tem propaganda de álcool e apostas uma seguida da outra, mas como esses caras todos bebem, não falam nada sobre. uma influencer que eu sigo postou um story denunciando apostas e o seguinte era acendendo um Beck gigante “pra torcer para a seleção do jeito certo” eu tive que dar risada. a indústria do álcool que é regulada fatura mais que as apostas (38 bi anuais contra 30) e causa mais prejuízo (estimativa de 20 bi anuais de perda de capacidade produtiva e custos médicos por causa de álcool) que as apostas que não são reguladas e eu não vi ninguém falando sobre isso.
no final parece só que as pessoas estão assim “isso aqui vicia, destrói vidas, mas faz parte do meu círculo social, eu entendo e eu gosto, então tá tudo bem” e pra apostas elas não conhecem e não entendem então tá tudo errado e horrível. nesse meio, as pessoas que apostam e as que bebem continuam vulneráveis e quem podia ser fonte de informação tá metendo um discurso moralizador bizarro pra aumentar engajamento com a própria fan base. a gente precisa de regulamentação pra casas de aposta e duas propagandas, patrocínios, etc, é evidente, mas também me é evidente que se a estratégia for a mesma que a gente tem com bebida, talvez não seja a melhor e pra isso a gente tem que falar sobre como é um problema a gente beber como bebe no Brasil, sobre como a gente tem formas de pensar bizarras sobre álcool, porque se não é aquilo de escolher vicio favorito. mais do que tudo, a gente precisa de estratégias para evitar que pessoas se viciam em apostar (já que simplesmente proibir diretamente tende a so levar a consumos mais bizarros como briga de galo, lutas clandestinas, etc que existem tanto no Brasil quanto outros países que proibiram apostas nisso tipo Russia, China, Tailândia, Vietnam) e isso passa por uma agência nacional para lidar com isso, uma BETBRÁS da vida, uma discussão séria de como líder com isso e principalmente, como fazer esses 30 bi anuais que são movidos por apostas ficarem no Brasil e serem reinvestidos aqui ao invés de ir pra casa de aposta lavar dinheiro de mafia la fora. foi mal o desabafo, mas eu tô bastante chateado com o nível pueril que tem existido no debate desse tema, principalmente de gente que só tá farmando audiência com pânico moral. já começaram os vídeos de teoría de conspiração do Brasil ter perdido a copa pra Bet Nacional lucrar mais, com como a Elite Russa cria farms de apostas (o vídeo mais famoso que tem circulando por aí é de um site claramente sinofobico e anti-rússia dos EUA, aquele bellingancat), daqui a pouco já tão dizendo que a culpa é dos judeus, do protocolo de Sião, etc.
Parabéns pela honestidade, lucidez e disposição para tratar do assunto indo além do moralismo raso.
Vou tentar responder em tópicos para tentar arrumar bem a lógica aqui.
1)”as pessoas apostam, basicamente, porque é divertido. e é divertido de um jeito que todo mundo vai entender: é gostoso demais estar certo. ”
Engraçado este seu argumento, porque tipo, tem horas que “não é gostoso demais estar certo”. Por exemplo, quando falamos para outra pessoa que a escolha política que ela fez gerou um problema para ela e outras pessoas. Nós que falamos para muitos “olha, não vota neste cara porque ele vai fazer merda” estavamos certo este tempo todo. Não é gostoso. E a propósito, acho que tem um termo que uso para quem gosta estar certo toda hora e se julga o tal – “virtuosismo”
1a) “essa é uma das coisas que mais me incomoda nessa escandalização com as apostas, a maior parte das pessoas de esquerda não se interessam por esse tema e estão combatendo espantalhos bizarros: ninguem começa a apostar por investimento (…)”
Não é que a pessoa é de esquerda que gosta ou não de apostas. Mas sim que geralmente progressistas entendem que DINHEIRO É TROCA. Se você faz A, te pago o equivalente a este A. Simples. Em algum momento se criou conceito de juros, em outro se criou as formas do dinheiro, e a bancarização e tudo mais. E com isso também o poder oculto, o uso de formas de enriquecimento sem ser justo – e apostas / cassino é uma delas. Dinheiro perder valor com o tempo é a forma mais injusta existente que acaba gerando justamente as diferenças sociais. Só pensar que uma casa hoje vale mais do que 10 anos atrás. Pode parecer bacana para investidores e quem ganha com juros (o que não é diferente de apostadores). Mas é um horror para definições de políticas de ocupação de áreas e correção de deficit habitacional.
“Ah, mas tem o bingo da igreja / escola” – se pessoas votassem certo, escolas teriam valorização, dinheiro em caixa, fiscalização e com isso tudo não precisariam apelar para isso. No caso de igrejas, é para os trabalhos sociais (teoricamente). Na prática, depende muito das igrejas e de suas lideranças.
* PS: a questão do “Valor Esperado” na verdade é um resultado quase aleatório. Você meio que tá dando exemplo de uma Telesena, que é um sistema que se diz “titulo de captalização que dá metade do que foi pago mais um lucro”. Ou seja, a própria divulgação do esquema induz a um erro, pois a pessoa pensa que não perdeu dinheiro mesmo perdendo 5 reais de 10.
2) “o que me leva ao segundo incomodo desse momento: eu não aceito papo moralizador sobre apostas de quem não fala a mesma coisa sobre álcool. na copa do mundo tem propaganda de álcool e apostas uma seguida da outra, mas como esses caras todos bebem, não falam nada sobre. (…)”
Progressistas buscam o combate a propaganda contra o álcool. Quem mais liberou propaganas assim foram os lobbys a favor das empresas relacionadas, e claro, o apoio do temer e do bolsonaro. Em uma condição ideal, teríamos leis mais severas para propagandas abusivas.
3) “no final parece só que as pessoas estão assim “isso aqui vicia, destrói vidas, mas faz parte do meu círculo social, eu entendo e eu gosto, então tá tudo bem” e pra apostas elas não conhecem e não entendem então tá tudo errado e horrível.(…) mais do que tudo, a gente precisa de estratégias para evitar que pessoas se viciam em apostar (já que simplesmente proibir diretamente tende a so levar a consumos mais bizarros como briga de galo, lutas clandestinas, etc que existem tanto no Brasil quanto outros países que proibiram apostas nisso tipo Russia, China, Tailândia, Vietnam) e isso passa por uma agência nacional para lidar com isso, uma BETBRÁS da vida (…)
Procure saber sobre ludopatia (meu pai tinha, diga-se), e entenda que não é porque você gosta ou tolera que significa que outras pessoas são obrigadas a tolerar algo que pode ser prejudicial a elas ou a família, seja álcool, entorpecentes ou jogos que induzem a continuar (é provado que jogos criam mecanismos para manter seus apostadores dentro do mesmo).
E tipo, há uma diferença entre você fazer uma aposta entre amigos, um pequeno bingo de bairro; e esquemas de jogos ilegais. De fato, digo diferença de escala e confiança. Uma aposta entre amigos pode soar lúdico, mas é esperado que ambos se confiem para tal. Um bingo depende da confiança da ocmunidade.
Esquemas de jogos ilegais se mantém por ludopatia – há sempre os apostadores que tem a vã esperança de ganhar uma grande soma (tal como esperam a vinda de um deus à terra).
PS desta parte: o Betbrás existe, se chama “Loterias Caixa” e é quem teoricamente regula quase tudo sobre apostas no país, inclusive rifas e a própria Telesena já mencionada. Infelizmente a Caixa tá tomada pelo centrão, que pelo que sabemos, é de direita.
É, também me incomoda esse paternalismo dos formadores de opinião. O que me motivou a fazer esse questionamento foi a ocultação da fatia de jogadores que não se viciam e/ou não têm suas finanças afetadas pelas apostas. Foca-se apenas no ferrado que aposta o dinheiro do Bolsa Família (e perde). E as outras pessoas? Onde vivem? Do que se alimentam? O que pensam?
O paralelo com o álcool é bastante oportuno, Rafael. A minha impressão é de que o estado tem um aparato e planejamento muito melhor (mesmo que nem sempre eficiente) para lidar com os excessos do álcool, talvez por ser algo transversal nas classes sociais e, por óbvio, ser muito mais antigo que as bets, mas acovarda-se diante de medidas mais duras, como proibir a publicidade (algo que aconteceu no Brasil com o tabaco, sabe-se lá por qual milagre).
Faz falta uma conversa menos rasa e menos moralista em torno das apostas, até porque também acho difícil ignorar a realidade material e voltar a proibi-las.
Obrigado pelo seu comentário. Muito esclarecedor.
A indústria do álcool e das bets tem em comum o vício (e seus efeitos, sejam de saúde ou econômicos), lobby e o futebol.
O cigarro, outra indústria comparável, “perdeu” parte da batalha quando a propaganda foi proibida (é, minha geração torceu para o carro Marlboro do Airton Senna). A do álcool venceu. Durante um tempo, certos tipos de bebidas só podiam ter anúncio após um certo horário (quase de madrugada na TV, as campari da vida). Depois, conseguiram uma definição muito conveniente do teor alcólico que deixou de fora da proibição… cervejas.
E as cervejas tomaram conta dos anúncios de futebol. A Fifa mudou a legislação local para permitir a venda de cerveja em estádios durante a Copa (caso aqui do Brasil, não tenho informação de outros países). É óbvio que relacionar o álcool à prática esportiva é absurdo (o prejuízo é evidente), mas se olharmos para o lado da socialização do esporte (em especial de quem só assiste ou é praticante eventual) o apelo é evidente e muitíssimo explorável.
Dia desses uma amiga, psicóloga jovem no início da carreira profissional, comentou que passou um mês sem beber e refletiu o quanto ela na verdade nunca gostou de beber, dos efeitos, das consequências no corpo, mas a pressão social e propaganda a carregaram para isso. Veja, estou falando de uma pessoa com formação em psicologia! Bem digo: eu bloquei todo tipo de anúncio não apenas porque é um saco, mas porque sim, sou vulnerável, basta acertar meu calo.
Em relação ao paternalismo (da esquerda, ou de influenciadores): um ponto é que existe um abismo entre o discurso acadêmico/político e as pessoas do mundo real, isto é um dilema para o qual esquerda não achou resposta – como se reconectar com as pessoas. O tempo dos panfletos com manifestos passou, mas as demandas por mudança continuam existindo.
Ao mesmo tempo, é preciso evitar alguns espantalhos. Há inúmeras frentes de batalha, e se nesse momento estamos discutindo uma, não é porque outras são ignoradas ou menos importantes. Ao falarmos de vício e adição, poderíamos envolver drogas ilícitas e toda política pública envolvida, e drogas que tem uso medicinal, e por aí vai. Isso apenas obscurece a discussão. Precisamos pensar de forma ampla, sim, mas diminuir a discussão porque não fala do tema tal ou tal, não leva a nada.
A realidade material que vivemos é sempre complexa, e os fatores envolvidos se interconectam sem obrigatoriamente se excluírem:
– pessoas apostam por brincadeira e se divertem;
– pessoas apostam porque acreditam que vão aumentar a renda;
– pessoas apostam pelo frisson do ganho;
– pessoas apostam porque apareceu um anúncio no meio do jogo;
– pessoas apostam na esperança de sair de um aperto ou mudar de vida;
– pessoas apostam e não perdem controle;
– pessoas apostam e perdem o controle;
– pessoas apostam em jogos legais;
– pessoas apostam mesmo se o jogo for ilegal;
– pessoas procuram jogos ilegais para apostar;
– pessoas nunca apostaram por razões morais;
– pessoas nunca apostam por medo em função de ser ilegal;
– pessoas apostam por ser ilegal e gostam da sensação do proibido;
Todas estas afirmações são válidas, e ainda dá para preencher uma página com afirmações válidas. E em cima de tudo isso, com certeza:
– Alguém com grande poder econômico ganha dinheiro e poder político em cima das pessoas que apostam, e SEMPRE ganha.
Olha, todos esses exemplos e fatores que não se excluem cabem no álcool. Acho o paralelo legal pelas similaridades que você mesmo apontou no início do comentário, até mesmo a relação estreita com o futebol. Concordo que se deve tratar de cada problema, um de cada vez, mas a relação apostas/álcool pode ser valiosa para o pessoal que demoniza as bets fazer uma autorreflexão (como a que estou fazendo aqui), sabe?
Eu discordo um pouco da comparação de bet com álcool.
Um sujeito viciado em álcool vai ter muitos problemas, mas ele não está pegando todo o seu dinheiro e gastando em álcool achando que vai lucrar com isso.
Mas gastar todo o dinheiro em bet achando que vai terminar com mais dinheiro do que tinha no início é um erro possível.
Um sujeito que abusa do álcool todo santo dia dificilmente consegue esconder isso da família.
Mas torrando o orçamento familiar em bet diariamente é perfeitamente possível que só seja percebido quando faltar comida na mesa.
Não consigo ver uma pessoa pedindo empréstimo pra um agiota pra ir pro bar.
Mas pegar um dinheiro crendo que vai se dar bem nas apostas…
É por essa linha.
E mais, eu vejo o alcoolismo, geralmente, como resultado de problemas. As bets são a fonte de problemas.
Mas essa é a minha percepção. Felizmente nunca presenciei problemas com bet, só com alcoolismo.
Mas Ghedin, a autoreflexão já foi feita: tolerar vícios é um problema também. E não exatamente demonizando os “sociáveis”, mas sim fazendo eles entenderem que uma porta entreaberta é uma porta entreaberta e alguém passa pela frestra e vira problema.
A “demonização” de apostas/bets exisite porque é sabido que todo o mecanismo de ganhos dele é um dos piores – a casa sempre ganha querendo ou não. E se regulação resolvesse por si só, todo país com cassino seria um país com excelente distribuição de renda.
O ponto do vício também é o fator psicológico – o próprio termo é um substantivo e uma das definições é “Dependência física ou psicológica que faz alguém buscar o consumo excessivo de algo (…)” No caso de entorpecentes como alcóol e drogas, aí indo um pouco no comentário do Cristiano, apesar de o vício ser ponderado pelo valor no bolso, só lembrar que há alguns tipos de entorpecente que pessoas literalmente vendem a casa para continuar usando (crack e cocaína tem muito disso). Alcóol de certa forma hoje é bem mais tratável, mas ainda difícil (as vezes teorizo se o vício não vem em partes aliado a alguma questão mental, mas isso deixo para estudiosos).
No caso das bets, há como mencionado o “fator ilusório”. A pessoa “pensa” que pode ganhar com aquilo, mas não significa que realmente vai ganhar. É um paradoxo: apostar te dá mais chances de perder do que ganhar. E não apostar não te dá nenhuma chance nem de perder e nem de ganhar.
Hoje mesmo estava lendo uma coisa que me fez pensar como este negócio de aposta “a casa ganha”: Uma matéria disse que alguém estava fazendo apostas no Polymarket para ganhar em cima de frases possíveis de Trump falar na televisão. E detalhe, esta pessoa que estava apostando era nada mais que o responsável pelo teleprompter.
O Polymarket mesmo é a face mais perversa deste sistema de apostas: pois “tudo” é apostável, até a vida alheia.
@ Cristiano
As diferenças que você aponta, acho eu, são consequências, não o vício em si. Da mesma forma que muita gente consome álcool com controle, um monte de gente aposta sem se perder em dívidas nem ficar viciado.
Eu não estou defendendo bets; acho algo ruim no geral e estaríamos melhor sem. Entendo a comparação com o álcool como um apontamento da hipocrisia que diminui o debate: ambas viciam, mas a uma é dado um tratamento totalizante (“todo mundo que aposta é viciado e vai perder tudo”) e ao álcool, um passe livre que à luz da lógica não deveria existir — até porque quando vira um vício, tem consequências pessoais e coletivas tão ou mais danosas que as apostas.
@ não tão relevante
É justamente essa abordagem condescendente que estou reconsiderando. Tratar todos que apostam como idiotas que não sabem das chances de ganhar, dos problemas do vício e tudo mais, é… bem, chamá-los de idiotas. O que só atrapalha quando o que se tenta é um debate honesto entre iguais.
o único aplicativo de apostas que tenho no celular é o da loteria federal — então também estou entre aqueles que gostariam de ver respostas à questão do ghedin e não tenho muito o que colaborar aqui :)
gostaria muito de ver uma etnografia de apostadores, inclusive (no google scholar uma busca rápida aponta trabalhos feitos com apostadores de corridas de cavalo e de jogo do bicho, mas ainda nada sobre aplicativos)
mas deixando isso de lado e especulando um pouco (ou seja: chutando): suspeito que as bets possuem um duplo atrativo. De um lado, elas são um pouco como a promessa de um futuro melhor similar ao trabalho como influenciador digital — “basta”, afinal, com muitas aspas, apenas começar a gravar vídeos mostrando o seu cotidiano que logo você vai ficar rico estabelecendo contratos com grandes marcas (com o diferencial que, no caso da bet, você precisa sequer começar a performar essas coisas, “basta” aplicar seus supostos conhecimentos esportivos pra acertar jogos e ganhar muito dinheiro). De outro, tem a facilidade de “investimento” (na ponta dos dedos) e a sensação de controle (“eu SEI que aquele time vai ganhar esse jogo então obviamente eu vou ganhar essa aposta”). Quem não quer, afinal, ficar rico de um dia pro outro supostamente em função do seu “esforço” pessoal (ter apostado na chance certa)? No final, fica até parecendo algo supostamente muito meritocrático, como se a banca fosse justa e nunca mudasse o jogo pra ela ganhar.
(sim, eu sei, existem muitas modalidades além das apostas esportivas, mas mesmo em outras eu acho que essa falsa sensação de conquista pessoal ainda faz parte da retórica dos aplicativos)
É o barato de qualquer jogo, a diferença é que tem a emoção de ganhar um dinheiro e acho que uma pessoa “normal” joga pelo desafio, não pela grana, e não me atrevo a entender a psicologia de um jogador compulsivo.
Não faço aposta esportiva porque manjo nada do assunto, mas já joguei no tigre, é um pouco divertido, mas não é minha praia, mas reconheço que é fácil se perder.
Sou contra proibição, quem defende é sempre um classe média cag… regra para quem é pobre e isso me deixa cabrero. Além disso existe o fato hipocrisia, loteria da Caixa pode, raspadinha pode, mas aposta esportiva não pode?
Acho que precisa de regulação, acho principalmente que o código fonte desses jogos devia ser aberto, a casa sempre ganha, mas que seja honestamente.
Respeitosamente discordo de:
> Sou contra proibição, quem defende é sempre um classe média cag… regra para quem é pobre e isso me deixa cabrero.
As loterias federais tem um risco de vício baixo (tem periodicidade fixa, etc), apostar toda semana pode até pesar para quem recebe salário mínimo mas o risco é muítissimo menor, e o que não é revertido em prêmio financia esportes e outras coisas (não me recordo a destinação).
A questão das bets é mais problemática porque incentivam vício, realmente levam pessoas à falência, e o dinheiro sai da circulação local para se concentrar no lucro das empresas, patrocínios de futebol e anúncios. Entendo que não tem nenhuma função social justificável.
Em relação à apostas, jogo na megasena online, alguma vezes faço a “teimosinha” (vários concursos consecutivos), ou em alguma acumulada. É só aquele sonho vão de fugir da roda capitalista e ter independência financeira / aposentadoria (que tento ir construindo da forma “normal” mesmo, renda e economia). Entendo o atrativo das “bets”, mas não me atraem, não tenho pessoas do meu círculo próximo envolvidas (que eu saiba); dia desses nossa diarista comentou que o marido dela joga “no tigrinho”, ganhou uns 200 reais e foram numa churrascaria (um escape justificável, ao meu ver).
> dia desses nossa diarista comentou que o marido dela joga “no tigrinho”, ganhou uns 200 reais e foram numa churrascaria (um escape justificável, ao meu ver).
Fico imaginando a quantia que ele deve ter perdido até ganhar 200 reais. E vai perder mais, agora que sentiu que o “gostinho” da vitória.
Vire e mexe falamos aqui sobre as “dark patterns” das big techs. Pra mim, apostas online são apenas isso, um dark pattern ambulante para transferir dinheiro para o dono da plataforma.
Não sei o quanto perdeu, ou seu perdeu. O meu “justificável” é em relação ao escape, fuga de alguém que rala pra caramba (o casal, no caso) e quer ter um momento de desfrute quando aparece uma grana extra.
Concordo contigo que é um dark pattern, este ganho pode motivar mais perdas. E, para mim, não deveria existir em uma sociedade saudável.
Problema algum discordar, gosto quando me refutam e concordo com você, mas existe um moralismo ingênuo em torno do assunto, tratar a população como criança não resolve.
Jogo e probabilidades fazem parte da vida, não tem como erradicar, tem gente que joga, se diverte e toca a vida e tem gente que não. É impossível livrar a sociedade de todos os riscos que os indivíduos correm, o melhor a fazer, na minha modesta e inculta opinião, é minimizar os danos, mas não só isso.
Essas casas de aposta nadam de braçada sem uma auditoria pública, sem prestação de contas. Ao invés do governo fiscalizar, ele quer arrecadar, é cúmplice da desgraça das pessoas. De todos os jeitos que o estado poderia lidar com a situação, escolheram o pior.
Quando começa se tratar como problema de saúde pública, vai ser necessário cuidar como uma criança.
Infelizmente, vivemos em uma sociedade que é moldada a enriquecimento. Viver com grana para ñ precisar se preocupar é o que vejo como principal fator da popularidade das bets. Conheço pessoas de baixa renda que joga em bets, ganha alguns jogos e perde tantos outros e acredita que é investimento, imagine.
Não pretendo defender o atual governo, mas acredito que pegaram uma bomba armada e que, se houvessem meios políticos, proibiriam com uma canetada. É como comentei acima: loterias tem uma função social, bets não tem. É pura transferência de renda pra cima. Novamente: na minha opinião numa sociedade saudável, não tem lugar pra isso.
> Ao invés do governo fiscalizar, ele quer arrecadar
Aqui divergimos. Até para conseguir regulamentar e definir uma tributação em cima foi difícil com o congresso. Isso começou com o Temer, que deixou uma abertura aguardando uma lei complementar para regulação que durante o governo Bolsonaro não foi feita. Isso permitiu o poder econômico tomar conta do futebol e estabelecer um lobby pesado. As bets vieram de todos os lugares, sem controle algum. A regulamentação trouxe um pouco de ordem, mas combater um bingo ilegal num porão de uma casa é diferente de combater milhares de aplicativos online. As plataformas se beneficiam e fazem vista grossa (ganhando com anúncios).
Para mim a estratégia de patrocinar quase todos times de futebol da série A e B é uma amarra dificílima. Vem a pressão dos dirigentes, afastou outros patrocinadores, dominou o ecossistema. O governo pode duplicar ou triplicar os impostos em cima das bets e não vai fazer diferença. Normas ou leis vão tangenciar o problema real de que simplesmente não tem justificativa social para o negócio que é fazer as pessoas perderem dinheiro na ilusão de que alguma vez podem ganhar.
> Jogo e probabilidades fazem parte da vida, não tem como erradicar, tem gente que joga, se diverte e toca a vida e tem gente que não.
O jogo pode fazer parte da vida – a aposta não precisa. A banca sempre ganha.
Depois de toda esta discussão, vem a pergunta: se o jogo do bicho, que é ilegal, nunca foi erradicado, as bets, que agora são legalizadas, vão ser quando? (As duas existem pelo poder econômico controlando o poder político).
Eu não aposto também, mas não seria muito diferente de loteria? É até menos aleatório, o apostador se sente mais no controle porque mostra que manja do esporte ou algo assim
Fiz essa associação também. Acho que a diferença é a frequência e a (ilusão?) de achar que se conhece tanto do jogo a ponto de fazer apostas com mais chances de acertar (“odds”?). Talvez eu tenha dito a mesma coisa que você escreveu, hahaha!
Rapaz, não vejo semelhança entre loteria e bet.
Loto/loteria você aposta e espera. Quando sai o resultado, ganhando ou perdendo, não vai mudar muito a sua predisposição de apostar no próximo ciclo.
Bet é um negócio bem diferente. Você faz uma aposta e perde mas quase ganha. Ou pior, ganha. Então, logo em seguida joga de novo… “puts, dessa vez errei… mas agora já sei” vai lá e aposta de novo. “Opa, me falaram uma barbada aqui… essa não tem como perder” vai lá e aposta com um dinheiro que não tem (dinheiro do aluguel, empréstimo, adiantamento do salário).
Fora que, na loteria, você não pode dizer “tenho certeza que esses números aqui vão ser sorteados na semana que vem, vou vender a casa pra pagar uma aposta”, na bet pode….
Não tem comparação.
Essa é a “dark pattern” mencionada.
Bets aproveitam do fato que geralmente uma aposta é em algo que soa como real e “imprevisível” – no sentido que o resultado pode ser a qualquer momento – para poder com isso ganhar mais no “psicológico”. Se aposta naquele que soa que vai ganhar – seja um jogador de futebol, uma corrida de carro, um lance no poker.
Eu sinceramente odeio competir até por causa disso – competição honesta parte do fato que ambos os competidores tem suas diferenças, mas isso era um ideal antigo antes do capitalismo transformar tudo.