Eu tenho uma opinião bem formada sobre o que está acontecendo com essa “geração Z”, mas gostaria de ler as percepções de outras pessoas, talvez eu seja crítico demais com o tema.
Bluesky, Mastodon, Telegram e RSS
Bluesky, Mastodon, Telegram e RSS
Eu tenho uma opinião bem formada sobre o que está acontecendo com essa “geração Z”, mas gostaria de ler as percepções de outras pessoas, talvez eu seja crítico demais com o tema.
Acredito que há um outro aspecto ainda não abordado nos comentários:
O quanto o conhecimento de uma profissão também não vale muita coisa hoje. Não é uberização ou precarização, isso é outro papo…
Há poucos anos, tinha-se a figura do chefe que sabia mais que você. Hoje, essa pessoa exerce o papel de facilitador de discussões. As soluções em um ambiente mais complexo, chegam através da colaboração e não mais de um conhecimento atrelado a uma pessoa.
Isso também reflete na desvalorização do profissional por si; ele só é mais um que ajuda na solução.
Não há planos de carreira mais em empresa alguma, muito menos você escuta sobre gente que recebeu pacote de realocação ou a empresa paga parte do aluguel ou dá um carro (se não for estritamente necessário).
Os poucos valorizados, muitas vezes estavam no “lugar certo, hora certa”, conquistaram uma certificação “da moda” ou criaram ótimos relacionamentos em uma empresa multinacional… e todos estes foram expatriados por escassez de uma necessidade bem específica a ser preenchida lá fora, muitas vezes com benefícios fiscais atrelados e prazo definido (e nem ele sabe disso).
Acho muito triste tudo isso, mas acho que vale uma reflexão: quem desdenhou primeiro da educação, os jovens ou os governantes, formuladores de políticas públicas e empresários, por meio de organizações sociais, inclusive do próprio grupo Globo? O que é o Novo Ensino Médio, senão um projeto de produção em massa de profissionais aptos a trabalhar de forma precária? Diminuição de carga horária de matérias fundamentais, corte de disciplinas que promovem o senso crítico, como sociologia e filosofia e no lugar disciplinas vagas como “projeto de vida”, “o que tá rolando por aí” e algumas mais direto ao ponto, como bolo de pote. Pra aprender a ser precarizado não precisa de escola, e nesse contexto não fica difícil entender por que o sonho de ganhar dinheiro na Internet atrai tanto. Irônico o mesmo grupo que promove o desmonte da educação depois vir posar de Pikachu impressionado.
Dando meus dois palitos aqui na ótima discussão que ta rolando.
O problema é mesmo o de esforço x renda esperada com o estudo.
Uma corrente de economistas diz que basta investir em educação que a renda aumenta. O que estamos vendo é que isso não é verdade. Se a economia não demanda trabalhadores qualificados, essas pessoas que se esforçaram serão subutilizadas.
Como dizia um professor meu uns 20 anos atrás, ironizando a teoria do capital humano: só pego taxi se o taxista tiver doutorado, chega mais rápido.
Se fosse um episódio do tecnocracia, o Guilherme invocaria a Lu para chamar esse fenômeno de “labour misallocation”.
Se a economia não demanda estudo, por que vou estudar?
O estudo não precisa estar atrelado a ganhos materiais apenas. Kant e Adorno acreditavam que apenas o indivíduo esclarecido seria livre (com pensamento crítico e autônomo) e que as sociedades democráticas conseguiriam superar os mecanismos de dominação e alienação social por meio de indivíduos emancipados por meio do conhecimento. É algo a considerar.
Essa matéria é igual Datena no Brasil urgente, se vc assistir essa merda parece que o país tá em colapso quando na verdade a maioria dos municípios nem chega perto de ter um grande índice de criminalidade, a maioria das crianças nem tem acesso assim a tecnologia ou essa visão psicopata sobre dinheiro tá tudo mundo querendo jogar free fire, e esses números aí são todos inflados por fazendas de seguidores, pouquíssimas, quase nada, são crianças periféricas que é a maioria da população
O título é clickbait puro e ajuda a engajar nesses tempos em que as redes sociais “mainstream” estão em guerra aberta e declarada contra o link.
Mas do resto aí é o zeitgeist do que está acontecendo quando se vai no Instagram, no Kwai, no Tiktok, nos grupos de Whatsapp e talvez quase todos os espaços de socialização online e offline: menor de idade fazendo propaganda do tigrinho, títulos de capitalização repaginados como quase-loterias, coach vendendo curso de como ganhar dinheiro, pastor se jogando na Teologia da Prosperidade, é a busca da fórmula mágica de sair da pobreza e do endividamento em uma situação econômica que anda cada vez mais impossível ascender de outra forma.
O título da matéria é um tremendo clickbait, dá a entender que é uma geração inteira, ou boa parte, não quer estudar. Quando na realidade é só mais um caso de estelionato digital.
Na boa, nem eu gosto de estudar. Gosto de aprender, mas estudar é chato, monótono, tedioso e etc.
Em todas gerações alguém não quer estudar. E em todas as gerações quem estuda, na média, tem uma vida mais confortável.
Oi, Rick, oi gente! Concordo com os comentários do pessoal, especialmente em relação às garantias que o estudo nos dá atualmente, ou seja, muito poucas. Bom, estou fazendo pós em História e, quando a gente dá um passo para trás, é percebido que temos um apagamento histórico em relação ao acesso e promoção de estudo no Brasil.
Estudar (do mesmo modo que o hábito de leitura), infelizmente, é ainda visto como algo maçante, cansativo, chato e que no final das contas é para apenas “passar de ano”. Quem é de escola pública tem inúmeras desvantagens em relação a quem sempre estudou no setor privado, por exemplo. E não estou falando de “qualidade de ensino”, mas de business mesmo.
Quem vai a uma entrevista de emprego, mesmo com todos os avanços, e falar que é da periferia, que estudou em escola pública ou mesmo não conseguiu estudar “o suficiente”, vai sair em desvantagem em relação a quem teve mais possibilidades.
Mesmo com as cotas e grandes avanços na Educação brasileira, quem chega a um doutorado vai penar para conseguir um trabalho por aqui e quem conseguir ficar área acadêmica acaba por sair do país por conta do valor risível que recebe.
E para piorar a contradição, as empresas exigem um monte de qualificação para trabalhar ganhando cada vez menos: já vi vaga para educador em museu com salário de R$ 3 mil e exigindo doutorado, diga-se.
Já a carreira de influenciador veio no pacote com essa ilusão de que “tudo é lindo, perfeito, fácil” e tem muito cara que mora na periferia e que vê seus ídolos no carrão, na ostentação, e querem isso para vida. Só dar uma passada nas lojinhas de bairro e conferir nas vitrines os chinelos e camisetas de “grife”.
Só agora que as desvantagens sobre esse assunto começam a surgir.
Não condeno quem deseja ser influenciador, mas critico quem acha isso a “salvação de todos os problemas” e ainda vendendo curso.
Temas como educação, saúde mental e promoção da leitura não rendem voto, mas likes.
Obrigada pelo tema, Rick!
Opa! Ghedin, não sei se mudou algo ou estou por fora de algum problema, mas não estou mais recebendo as respostas por e-mail, agora que vi a quantidade de comentários nesse post.
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Saudações,
não acho que os “buracos” para a pessoa se perder sejam muito diferentes da minha infância e adolescência nos anos 80 e 90.
Lembro de colegas que não estudavam porque achavam que seriam ricos e famosos ao se tornarem jogadores de futebol ou outro esporte, modelos, astros do rock, atores, etc. Havia muitas agências de talento, cursos de esportes, música e atuação vendendo sonhos impossíveis para jovens sem talento nem dedicação e seus tolos pais.
Também já existiam as empresas de marketing multinível, como Amway, Avon e tantas outras, e muita gente com pouco estudo imaginava que ficaria rica vendendo e distribuindo produtos. Não era assim tão diferente desses influencers da matéria indicada.
Até o Olavo já realizava seus seminários!
E, é claro, havia mega sena, loto, tele sena, raspadinha, jogo do bicho e títulos de capitalização para rapar o dinheiro que sobrasse na carteira dos sonhadores.
O que piorou nesses 40 anos foi o achatamento da classe média, acho que devido à desindustrialização do país, por conta da abertura econômica apressada e mal-feita da era Collor, agravada por uma política cambial populista do FHC. A classe média operária urbana era justamente a faixa que prosperava por meio do estudo. Para mim, isso reduziu as perspectivas econômicas de quem pretende cursar o ensino superior.
Só para encerrar, lembrei de uma matéria da semana passada:
“Coreia do Sul diz que estrelas do K-pop não são classificadas como trabalhadores e não têm direitos trabalhistas.”
O título não comunica bem o conteúdo da matéria, lembrando aquelas manchetes do Sensacionalista, do tipo:
“Juízes sul coreanos concordam com pais de que ser artista não é profissão.” (rsrs)
Eu gosto muito desse texto que fala, entre outras coisas, dessa questão da desilusão com o estudo como estratégia para a mobilidade social
https://masdivago.cc/2024/08/25/pensamento-magico-bet/
Perfeito, o texto toca no centro da questão. Não é que os jovens não querem mais estudar, é simplesmente que estudar não garante nada mais, então eles não estão vendo vantagem alguma em passar 4 anos enfurnados em salas de aula, estudando de madrugada, já que isso não vai trazer uma certeza mínima de empregabilidade e estabilidade. Eu tenho muita pena de quem está com 18 anos agora, porque as perspectivas de ter sucesso no trabalho são baixíssimas, mas ao mesmo tempo a pressão de se ter uma imagem de sucesso nas redes é fortíssima, massacrante.
O mercado pode estar mais difícil hoje, realmente. Mas me pergunto: se estudar não garante nada mais, o que garantiria?
Acho que pelo estudo pode representar um caminho mais complexo e trabalhoso (a depender muito da carreira, opções etc.), sim, mas não vejo opções mais promissoras.
Ah, sim, racionalmente é isso. Mas a galera é bombardeada de propagandas de bet, coach, igreja (parte legalizada), do ladrão da esquina andando de iPhone, do traficante da funkeiro com colar de ouro e aí vc vai pensar o que? A propaganda do outro lado é estudar pra cacete, aí trabalhar pra cacete e viver uma vida média.
Outra coisa: pobres tem mais problema de trocar presente por futuro, isso é medido por estudos. Ter uma proposta inicial ruim acompanhada de uma tendência social ruim dá nisso aí.
Cara, acho que é foda mas rima com a falta de perspectiva do jovem em buscar ensino. Eu tinha ouvido de um professor meu que a demanda por cursos na federal em que estudei tinham caído muito. Até fui buscar os dados e em 2013 em média tinham 35 pessoas/vaga e hoje em dia tem 16. A quantidade de vagas pouco mudou mas a demanda vem caindo ano a ano.
Tem isso também. É uma consequencia e sintoma.
As pessoas falam “vamos educar para ter um futuro”. Primeira etapa é concorrer no Enem e/ou Vestibular. Se perdeu a vaga de estudos neste período, se pergunta o porquê e vai para o subemprego. Se passa, aí a pessoa gasta em média 3 anos em um curso seja técnico ou superior. Concorre com outros, perde a vaga ou consegue uma vaga em um cargo menor mas que aproveita do conhecimento e se desilude.
A pessoa que provavelmente é genitora e hoje está na faixa dos 35/40, chuto que tem um filho na faixa dos 18. Teria que observar justamente esta dinâmica. Se a pessoa que gera renda para a família não teve condições boas de estudo quando jovem e até hoje pena para trabalhar, o filho vai ver isso como exemplo e se perguntar o porquê de fazer faculdade, sendo que há métodos mais práticos para ganhar dinheiro, mesmo se for para o crime. Não é que nem os anos 80/90 que meio que ou era estudar ou trabalhar.
Detalhe que aparentemente hoje até é mais fácil conseguir um estudo melhor mais jovem – há estados onde o ensino médio já está associado ao ensino técnico, o que não é lá o ideal mas bem, o ponto é ver se tá tendo resultado. E aparentemente não tá.
A julgar pela matéria, o problema não é bem da “geração Z”, mas dos pais dessas crianças. (“Geração Z” é a das crianças/adolescentes de hoje, né?)
Se há um problema no capitalismo é que tudo é vendivel. Até a própria moral.
Mas sobre essas coisas, tava pensando aqui: foram anos do mantra “estude para ser algo melhor”, e aí estuda, faz faculdade e os salários são ruins e/ou a qualidade do trabalho é ruim, acabando com a saúde mental. O jovem vê o adulto se frustrando e acaba indo no canto de sereia dos (cof-cof) empresários… E bem, como de 100 influencers uns 7 viram exemplo positivo… pessoal foca mais nos 7 do que nos outros 93 fracassados (pq não querem ser o 94)….
Os genitores que fizeram a faculdade, casaram, tiveram um filho e para manter a vida deixaram a criança ou com uma babá ou com a televisão ligada no YouTube (ou a criança usando pc sem controle) acabou gerando isso. E sim, admito que é uma generalização burra da minha parte. O exposto dos influencers é parte do problema, mas pensamos também em famílias que põe o (pré-)adolescente para cuidar da loja virtual também, por exemplo.
Programas como o “pé de meia” do governo chegam tarde demais, depois de uma ou duas gerações de jovens influenciados e com a ideia que “se é do governo, é esmola”.
Pessoas querem dinheiro fácil, vamos ser francos. Tem pessoas que querem viver de luxo sem muito esforço ou com algum esforço que valha para o resto. Se não educamos no passado para entender que não é assim que as coisas funcionam, vai demorar para fazer uma geração que corrija esta geração atual.
PS: sou a favor de programas de estágio na adolescência. Infelizmente o estágio que fiz foi tarde, mas me ajudou um pouco
Se há um problema no capitalismo é que tudo é vendivel. Até a própria moral.
late-stage capitalismo
já estamos vivendo essa distopia