Bluesky, Mastodon, Telegram e RSS

A era de ouro dos blogs: Nostalgia de uma internet mais criativa e livre

Eu não sou um cara nostálgico, longe disso, mas ultimamente tenho sentido uma estranha saudade. Esse sentimento incomum para mim está ligado a uma época da minha vida que, embora pessoalmente difícil, foi também a mais criativa, divertida e interessante — a era de ouro dos blogs.

Só de mencionar o assunto, me vejo revisitando essa época. Como eu adorava a blogosfera! Uma infinidade de blogs com nomes malucos, muitas vezes incompreensíveis para quem estava fora desse universo. Era divertido explicar o conceito desses nomes para os recém-chegados a esses sites pessoais que enchiam a internet de conteúdo. Eu mesmo fui um feliz dono de blog — dois deles ficaram tão conhecidos que chegaram a ser mencionados na grande mídia. Que alegria era aquela, mesmo sem ganhar um centavo! Quando comecei, a ideia de “viver de blog” mal existia. Só mais tarde isso se tornou um negócio consolidado na internet, e muita gente ganhou dinheiro com suas páginas. Eu não fui um desses, rs.

Essa saudade, acredito, tem relação com o que a internet se tornou após as redes sociais. Os “muros virtuais” criados ao redor dos conteúdos, a criatividade das páginas personalizadas suprimida por perfis e grupos com limitações técnicas, a facilidade de “quibar” (nosso termo para copiar conteúdos de outros blogs) que atingiu níveis industriais com as timelines infinitas — tudo isso contribuiu para a sensação de que os conteúdos se empobreceram.

Hoje, me peguei revisitando alguns blogs que adorava. Alguns se tornaram “blogs zumbis”, nunca mais atualizados, verdadeiras máquinas do tempo. É estranho pensar nisso: alguém fez sua última postagem e nunca mais voltou. Na maioria dos casos, nem sabemos quem está por trás deles ou se ainda estão entre nós.

Sinto muita falta daquela internet criativa, maluca e livre, sem a toxicidade atual. Era uma época em que pessoas comuns compartilhavam suas histórias diariamente, “quibavam” conteúdos e vasculhavam a rede em busca de novidades para seus blogs. Que felicidade era saber que algumas dezenas de pessoas acessavam fielmente sua página para ler, comentar e assinar sua newsletter!

A internet tem se tornado monótona. Estou cada vez mais cansado de rolar feeds e assistir a vídeos de poucos segundos, a maioria sem o “espírito da criatividade” — apenas cópias atrás de cópias, likes por likes, números de seguidores ditando quem deve ou não ser levado a sério. Idiotas com um canhão comunicacional capaz de destruir vidas em um clique, seja por mentiras ou golpes… É louco pensar que somos de uma geração que acreditava que o futuro da internet seria melhor do que aquele caos que vivíamos. Na verdade, piorou drasticamente.

Hoje, me peguei acessando um blog que ainda adoro e que continua sendo atualizado: o Mundo Gump. Nossa, como já ri dos causos contados pelo Philipe Kling, criador do blog.

Bem, é isso. Só queria compartilhar esse sentimento e a falta que faz um conteúdo autoral. Por isso, o Manual do Usuário é um desses oásis nessa “internet morta” que temos hoje.

24 comentários

24 comentários

  1. Muita saudade. Ontem mesmo eu tava num show, devo escrever o meu relato do show e foi impossível não lembrar de um personagem da época de ouro da blogosfera - o Cruzmaltino Bandeco, o crítico de shows que não ia nos shows. Aqui um post que eu achei - https://simaopessoa.blogspot.com/2009/03/os-shows-que-eu-nao-assisti-iron-maiden.html

    Sou fã dos caras do Bola Presa, de basquete, mas eu era muito, mas muito mais fã deles na época que eles escreviam os textos gigantescos que eram umas obras de arte e ainda comenta sobre a NBA.

  2. Vocês acham que as newsletters, atualmente, meio que tomaram esse espaço que antes era dos blogs?

    1. Oi Nicola! Bom, penso eu que do mesmo modo que os blogs tiveram o seu boom, eis que as newsletters estão tendo no momento, e vai chegar uma hora que também cairão em declínio. O que não muda é essa busca por alternativas que possam alcançar os públicos indo além da avalanche de informações recebidas a todo o instante pelas redes sociais, por exemplo. A provocação que deixo pra todo mundo é essa: em quais meios você quer consumir tanto conteúdo? Em sua caixa de e-mails, no feed das redes sociais, ressuscitando os blogs? Fica a reflexão!

  3. Ah eu curto blog, até porque não tenho muitas redes sociais assim e adoro escrever despretensiosamente. Blog pode ser também um portifólio. O meu é bem simples, no Tumblr e posto os eventos que vou, os bordados que faço, os desenhos que rabisco e, principalmente, os textos que produzo. O link tá lá no Lerama, que o Rodrigo Ghedin toma conta! Bora blogar, galera!

  4. Fiquei com vontade de reler meus 2 blogs. Geralmente eu evito, porque me dá desconforto me encontrar com aquela pessoa que eu já fui. Por outro lado, acabei de abrir um cafofo no Bearblog!

  5. Acho que os blogs viraram uma espécie de "estágio" para quem depois ganhou relevância na comunicação. Blogueiros bons com talento para trabalhar ou viraram profissionais em comunicação de forma plena, viraram influênciadores ou ao menos viraram algo mais profissional na área da qual comunicavam originalmente (cientistas, especialistas, etc...).

    Só que se pararmos para pensar um pouco, foi a época também que não existia muita "papa na língua", ainda estava começando as ações de combate a preconceitos online. Lembremos infelizmente também que no meio dos blogs, um tipo padrão prevaleceu e ganhou audiência: blogs criados para "falar mal" de algo, com sarcasmo e preconceito demais no pacote. Não vou citar nomes, mas quem for das antigas vai lembrar.

    Talvez um pouco da tal "nostalgia" seja justamente pois foi uma época que não existia tanta patrulha também. Pessoas escreviam e debatiam, mas ao mesmo tempo alimentavam preconceitos existentes e comportamentos nocivos.

    Creio que quando saiu as redes sociais concorrentes do X, seja Mastodon ou Blusky, as pessoas se perguntaram se iriam conseguir replicar a experiência da época. Não são blogs, mas tinham um quê de "senso comunitário" por trás.

    Só lembrando que Substack e Medium seriam redes sociais de texto, não? E ganham com esta ideia discutida no post.

  6. Tive um blog quando essa onda já estava abaixando lá por meados de 2014 que fui aos poucos abandonando com a conveniência das redes sociais. Mas de uns tempos passei a sentir esta mesma saudade, não só dos blogs mas desse espírito tínhamos na internet, e também uma fadiga das redes. Para ser um pouco otimista: não é primeira vez que vejo alguém escrever sobre isso. Sinto que tem sido um sentimento generalizado entre uma parcela dos usuários, o quão significativa não sei, mas há uma tendência. Talvez possa mudar esse cenário, com certeza não voltará a ser que nem naquela época de ouro, mas ainda é possível achar blogs recentes e atualizados por aí, o mais complicado acaba sendo encontrá-los de fato. Mas compensa não ser alimentado pelo algoritmo.

    1. "Mas compensa não ser alimentado pelo algoritmo."

      E digo mais: compensa muito mais não ser controlado por um algoritmo que quer controlar quais conteúdos você produz e consome.

      E também sinto essa fadiga. Por mais que tenha algumas coisas interessantes nas redes sociais, tudo parece ser tão igual.

  7. Aqui nos comentários do Manual tem um monte de gente que escreve bem e tem coisas interessantes a dizer. Vamos criar blogs, gente! Tem o Lerama para ajudar na divulgação e, se tiverem uma newsletter atrelada, o diretório.

    1. Acho que o ponto sobre criar blogs é um dilema também: há coisas que escrever em um blog não dará retorno, então compensa em redes sociais jogar tais escritas - coisas pequenas e imediatas. E há coisas que realmente compensaria um blog para escrever pois existe mais "conteúdo" que em uma rede social cansaria fácil. Só que em ambos os casos a pessoa teria que sentir que há algum retorno de atenção, diga-se.

      Mas como diria André Dahmer, é mais algo para alimentar, cuidar e limpar.

        1. Sim, acho que tanto retorno de audiência/atenção (pois pessoas escrevem para discutir, ratificar e validar as ideias, né?) quanto de chances para ter algum ganho de dinheiro (pensam em ganhar com o que escrevem ou indicação de trabalhos). Sei que a ideia do texto é mais para o primeiro ponto - debater e validar as ideias ou contar causos e com isso ter uma atenção como alguém bom para construir uma história, apenas pela satisfação em ver pessoas ou conversando sobre.

          Redes sociais acabaram tomando este lugar.

          1. E ainda mais que Blog é uma coisa que funciona melhor no longo prazo.

            E as pessoas estão muito imediatistas, querem todo agora e não querem esperar o trabalho delas darem frutos.

          2. Quando escrevi o comentário creio que inconscientemente estava pensando nesta linha também, @Guilherme Oliveira.

            A internet "antiga", dos poucos kbps e hora de uso cara, até incentivava o uso limitado da rede, pensando em que a resposta ou audiência viria de forma futura.

            A internet atual, "na velocidade da luz", fez nossa ansiedade ficar altíssima. Escrevemos algo com espera de retorno imediato.

            Mas talvez isso em partes ocorra também porque quem viveu àquela época (em blogs, redes sociais ou até sites jornaísticos e espaços de colunistas), também relatou as suas histórias, e quem é mais jovem e leu sobre, prefere que as coisas se resolvam o quanto antes, pois o que foi prometido - ter mais conforto no futuro - não foi concretizado... só que aí a conversa vai para outro caminho.

  8. Também sou um pouco nostálgico dessa era dos Blogs. Cheguei na Internet em 2010, e uma das primeiras coisas que fiz, foi criar um Blog para compartilhar as minhas aventuras com Linux.

    E tive vários projetos de Blogs que não duraram muito, a acabei deixando essa mídia de lado.

    Anos depois, eu estava um tanto cansado das Redes Sociais. Eu publicava os meus desenhos por lá, mas eu queria mais liberdade. Até que em 2020, voltei aos Blogs e continuo firme e forte, postando mais do que apenas o desenho que fiz, mas a inspiração e o processo de chegar lá.

    Mas é inegável que as Redes Sociais são mais cômodas, pois tem um terceiro cuidando de tudo. Mas aquilo não é seu. Se alguém mudar as regras, só resta reclamar ou mudar para uma outra Rede Social, com outro dono e que vai prometer mundos e fundos.

    Um Blog não é tão fácil assim, mas é libertador.

  9. Tu sabes que, por mais que eu também sinta muita falta, o que eu mais sinto falta é de conhecer blogs de brasileiros, de pessoas que eu conheço "na vida real". Para mim, os blogs nunca acabaram. Talvez essa não seja mais a era de ouro, mas meu feedreader está lotado com mais blogs do que dou conta de ler. Participo de algumas pequenas comunidades onde praticamente todo mundo tem blog.

    Honestamente, não creio que toda a galera que eu tenho no Instagram teria um site/blog se ele não existisse; tendo a pensar que a tendência seria de que não tivessem. Mesmo lá pelos meados de 2000, todo mundo que eu conhecia que tinha site/blog era entusiasta, de certa forma.

  10. Sim, foram tempos de ingenuidade e espontaneidade e o espaço virtual era bem mais saudável. Era bacana acompanhar os feeds, descobrir novos blogs, e aprender tanta coisa. Mas acho que ali nos idos de 2009, 2010 a festa já estava no fim, pois aí não era mais tão divertido fazer um blog despretensioso. Claramente se sentia nesse momento uma pressão pra ganhar dinheiro com os blogs, na onda dos probloggers. E daí veio o uso das redes sociais pra alavancar a audiência, o que na verdade acabou sendo a pá de cal dos blogs mais interessantes, porque tiveram que disputar com o conteúdo massivo de clickbaits a lá Buzzfeed invadindo as timelines. Parece que tivemos nosso momento "verão do amor" e nem percebemos.

  11. Agradeça ao Google, à Meta, a Amazon e a Microsoft por terem acabado com essa Internet.

  12. Meu primeiro blog foi no finado Weblogger do Terra em 2004. Aprendi o básico de edição de HTML e Design Gráfico pra fazer meus próprios layouts, mas sempre mirando o auge da criatividade dos chamados "Templates Shop": Templates by Brumaximus, Thomoeda... estacionei no Blogger Brasil que era da Globo na época, foi onde fiquei mais tempo. Bons tempos, fiz amigos que mantenho até hoje e minha paixão por design surgiu nessa época. Daquele tempo a única que ainda vejo nesse meio é a Lia do JustLia. O blog dela é lendário, tem mais de 20 anos no ar.

    1. Rapaz, esse seria um ótimo nome de blog "Viúvas da Blogosfera" rsrsrs

  13. Sinto que este texto poderia ter sido escrito por mim, expressando meus pensamentos sobre a internet e os blogs. Eu também mantive um blog, modesto, que era lido por alguns amigos da vizinhança e da faculdade. Mas, para mim, os números não importavam. Na verdade, na maioria das vezes, eu escrevia para mim mesmo. O blog era como um caderno de anotações. Toda semana, juntava alguns trocados e ia a uma Lan House para publicar meus poemas.

    Sinto falta não daquela época, pois eram tempos difíceis em diversos aspectos, mas de coisas específicas, como os blogs bem feitos que você citou. Era muito prazeroso experimentar aquele ambiente. A qualidade da publicação era humana; permitia que você acompanhasse, degustasse, debatesses e trocasse ideias nas caixas de comentários antes de um novo conteúdo ser publicado. Era, de fato, uma época de muita criatividade, de prazer pelo que se fazia. A qualidade era incomparável. Era algo descompromissado, mas no sentido de que alcance, métricas e lucros não eram o objetivo.

    Lembro de um blog onde o autor escrevia coisas do tipo "hoje fui ao supermercado comprar ovos e escorreguei", acompanhado de uma foto de um joelho todo rasgado. Era esquisito, sem noção, mas, de alguma forma, parecia mais interessante do que a maioria do que vemos hoje. Um dos blogs que eu adorava era "A Espada Rubra", onde o autor transformava as sessões de sua mesa de RPG em contos. Virou uma cápsula do tempo, como bem postulou.

    E os designs? Era sensacional! A diversidade de formatos, cores e disposições era incrível. Algumas eram super criativas, divertidas e inovadoras, enquanto outras eram bem ruins. (risos) A galera criava grupos em fóruns só para compartilhar dicas de HTML e CSS para criar temas.

    Dito isso, vou fazer meu jabá. Ainda tento manter um blog desses pessoais, sem interesse em ser reconhecido, com atualizações quase que anuais. (risos). É o issoeaquilo.xyz