Time warp.

O que esperar da tecnologia (e do Manual do Usuário) em 2014


30/12/13 às 13h45

Embora não tenha colocado nenhum rótulo ou outro indicador aqui, o Manual do Usuário ainda está se encontrando. Achar esse norte não é fácil, acredite. O ano prestes a acabar poderá ser visto, no futuro, como o ponto de transição na forma com que encaramos a Internet e o oceano de informação que despejamos nela diariamente. O Manual é um pequeno exercício nesse sentido.

O stream de informações atingiu seu ápice em 2013. O agora, o eternamente em construção, o falar de tudo e o não querer perder nada. Na bela coluna em que observa e discute esse fenômeno, Alexis Madrigal diz acreditar que em breve as pessoas cairão na real e pedirão a volta de conteúdo estruturado, atemporal, duradouro.

Será? As manchetes forçadas do Upworthy e as infinitas listas de temas óbvios do Buzzfeed lotando linhas do tempo e feeds de notícias permeadas por reclamações e reclamações de reclamações colocam essa esperança contra a parede. O que a salva é que a Internet é um lugar bem grande. Da mesma forma que o conteúdo apagável começa a ser seriamente considerado, o duradouro também pode fazer seu retorno triunfal. Já vem fazendo, na realidade, com features, longform e o Slow Web em alta. Em 2014 haverá mais diversidade no que passa pelo stream — e mais vida fora dele.

Previsões, ou desejos para 2014

Em seu livro A Estrada do Futuro, Bill Gates resume a sinuca de bico que é fazer previsões:

“(…) Este livro pretende ser um livro sério, embora daqui a dez anos possa não parecê-lo. Tudo aquilo que eu tiver dito de certo será considerado óbvio. O que estiver errado será considerado cômico.”

Encare o que vem a seguir mais como desejos do que previsões — assim ganho o direito de errar sem ter dedos apontados lá na frente :-)

Nunca me agradou esse clima de torcida na tecnologia, ver o “seu” sistema ganhar dos outros, dar risada e se sentir genuinamente feliz com o tropeço de uma empresa. Menos disso ano que vem, por favor. Não dou bola para picuinhas do tipo aqui e fico feliz em ver que vocês, leitores, também não entram nessa pilha.

A passos incrementais, mas evoluindo sempre, a tecnologia segue firme como ditadora e distração da vida moderna. Se até ontem queríamos smartphones mais potentes e telas mais densas, o próximo passo é a computação contextual: sistemas que se antecipem às nossas vontades usando sinais secundários. Coisas que eram de ficção científica alguns anos atrás já fazem manchetes surpreendentes, como a do drone da Amazon, e o que era excitante até então se transforma em commodity. Nada de errado, porém, em ver o iPhone e o Galaxy S virarem lugar comum; os preços caem, o smartphone se populariza e mais gente ganha acesso a essas telinhas legais.

O afogamento na tecnologia me parece um caminho sem volta. A computação vestível e a Internet das coisas conectará tudo e todos. Não sei quando, mas acredito que em breve. Na mesma proporção virão as críticas sobre o excesso de tecnologia e sobre o excesso de produção de conteúdo. Encontrar o meio termo disso tudo será um dos grandes desafios nessa segunda metade da década.

Talvez um bom parâmetro para o momento seja o garotinho do comercial da Apple. Registrar bons momentos é legal, vê-los todos através de um celular, privando-se deles com a justificativa do relato, não. Já disse aqui que bom senso é relativo. Com as mudanças comportamentais que a tecnologia estimula, saber quando deixar o celular de lado será, mais do que um traço de bom senso (seja lá qual for a sua medida disso), uma habilidade valiosa e apreciável.

E quando estivermos com o celular na mão, vamos… pensar melhor no que publicar, no que opinar. Embora o Facebook nos pergunte incessantemente o que estamos pensando, não é preciso dizê-lo a todo momento, sobre todo e qualquer assunto. Lá, no Twitter, em qualquer lugar que nos incite a opinar usando um gadget, que pensemos (mesmo!) duas, três, várias vezes antes. Se vale a pena mesmo discutir e se a discussão é, no fim das contas, salutar.

Michel Laub clama por um guia que nos ensine como não falar sobre as amenidades da vida e as notícias do cotidiano:

“Algumas coisas são inegociáveis, claro, mas nem toda ponderação é sinônimo de relativismo covarde. Assim como nem toda omissão. Pierre Bayard escreveu um ensaio divertido chamado ‘Como Falar dos Livros que Não Lemos’ (Objetiva).

Gostaria que alguém escrevesse um com a tese oposta: como resistir em falar dos livros que lemos, dos filmes que vimos, do que aparece na TV ou do que comemos no almoço, e do trânsito e da poluição e da péssima qualidade dos serviços na cidade e assim por diante.”

Parece brincadeira. Se for, é uma amargamente verdadeira. Faz falta um guia desses.

Planos para o futuro

A premissa do Manual do Usuário, este pequeno espaço na Internet que gerencio, é abordar tecnologia e comportamento derivado dela com os dois pés no chão e uma boa dose de crítica. Não falar de tudo é parte do serviço que presto: a privação do ruído faz um bem enorme, permite que você se alimente mais com o que importa e deixe o banal de lado.

Essa curadoria às avessas será cada vez mais importante. Se antes o trabalho era garimpar conteúdo nas escassas pedreiras da Internet, hoje ele abunda de todos os lados e a maior dificuldade é peneirá-lo em busca do que faz a diferença. Daí a excepcional resposta de quem se aventura com newsletters: conteúdo com começo, meio e fim, ponto. As pessoas sentem falta disso e quando encontram essas pequenas pepitas de ouro em meio a tanto pedregulho, apreciam-nas.

Ainda estou em busca do ponto de equilíbrio para o Manual do Usuário. Fazendo uma análise de fim de ano, acho que nesses dois meses de vida do blog fui bastante rígido com a linha editorial do blog. Em 2014 devo publicar mais posts. Nem todos serão enormes como os que já foram ao ar, mas cada um deles será importante. Considere isso uma resolução de ano novo.

Encerro hoje os trabalhos no Manual do Usuário em 2013. Para o ano que vem, além desse refinamento na linha editorial o blog ganhará um novo layout (está ficando lindão!) e tentarei torná-lo sustentável de maneiras não muito… convencionais. Vocês participarão mais também, e acho que essa será a parte mais bacana.

Boas festas e nos vemos em 2014!

Imagem do topo: SpectralDesign/Flickr.

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17 comentários

  1. Boa noite.
    Comprei uns produtos no ebay e estou levando via aerea para o Brasil. Voce sabe me informar se os emails de pedido e aviso de entrega do ebay tem valor como comprovante fiscal perante a receita federal?

  2. O “atemporal” me fez lembrar como odeio ler textos que são temporais, mas não colocam a informação da data. Independente do contexto, saber quando um post foi escrito é de extrema relevância.

    Parabéns pelo seu trabalho e escolhas acertadas, Ghedin.

    1. É verdade, Adriano. Mesmo em posts atemporais a data é válida. Circunstâncias mudam, novos fatos surgem, a percepção sobre um dado tema pode se alterar — e não tenho vergonha alguma de mudar de opinião quando a outra se torna melhor ou mais crível.

      Obrigado pela força!

  3. Rodrigo,

    Te conheci acho que foi em 2007/2008, quando acessei pela primeira vez o saudoso WinAjuda. ;-) Foi ali que comecei a entender um pouco melhor sobre Windows e Internet. Desde então, sempre consegui, seja por outros sites ou pelas redes sociais, acompanhar o teu trabalho, que é sempre muito bem feito. Dá gosto de ler o que tu escreve, sobretudo pela sinceridade com que aborda os assuntos. Quero dizer, tu demonstra credibilidade e isso é maravilhoso. Meus parabéns, de novo, pela iniciativa do Manual do Usuário, que tem tudo para dar certo e deslanchar ainda mais. Vou aguardar ansioso pelo primeiro post de 2014. Um grande abraço Ghedin! Tudo de bom.

  4. Saudações Ghedin!

    Não tenho competência e/ou conhecimento o suficiente para fazer uma crítica construtiva do Manual do Usuário, mas posso afirmar que gosto muito do seu trabalho e sempre recomendo o seu blog para os amigos.

    Então o que tenho a dizer até o momento é muito obrigado pelo conteúdo fornecido e muito sucesso em 2014.

  5. Ghedin seu trabalho é admirável. Acompanho tem algum tempo e acho seu esforço filosófico contagiante. Tanto que neste 2014 melhor para todos nós, vou fazer um esforço para buscar o aprofundamento, a melhor produção possível. Desde já um 2014 satisfatório, deixo, para ajudar, alguns pensamentos.

    # crítica

    A informação profunda é mais unitária. É, provavelmente, destinada a um menor número de pessoas, por ter mais características de seleção e, simplesmente por ser maior, assustando. Você está buscando uma informação de manual, praticamente, ancorada em necessidades também lentas e sem imediatismo. Mas parece tratar como uma informação de fluxo*, vai jogando e não estrutura o sistema para deixar essa informação mais aparente e selecionavel.

    Devido a abrangência que busca, mostrar etiquetas pode ser melhor que categorias.

    Agora, há o sistema que fornece na bandeja a produção de terceiros. Aqui reside um problema maior que informação rasa, sem durabilidade: informação SEO. Uma estrutura de conhecimentos e contatos para iludir o Google e seus robores, bem como todos os outros. O pulo do gato é fazer esse filtro, até pelos usuário, de uma informação provavelmente útil. Esperemos a evolução da semântica capaz de fazer o conteúdo ser correto, independente da data de publicação e, olha só, considerando mais preciso um conteúdo produzido antigamente, pois ele estará mais perto do fato.

    Valerá a diferença de seu conteúdo trabalhado.

    # cobrança, ideias

    Você usa doação e mensalidade (veja o Gumroad, ele oferece mensalidade também). Doação é confiança em você e mensalidade é o consumo do trabalho. Mas, se a informação é “manualesca” seria interessante cobrar por ela também. Já pensou em produzir especies de manuais alternativos? Pode ser interessante.

    Você poderia, até cobrar um pouco para consumidores iniciantes e ficaria disponível para ajudar na resolução de problemas. Por R$100,00 você responde perguntas e ajuda em configurações por 2 meses.

    * O Pedro Burgos falou, em “Previsão para o jornalismo: tempestades de neve ocasionais”, sobre produzir bem mas ocultar rapidamente. A matéria fala da estrutura de toda uma equipe multidisciplinar num gigante nacional. Pensei como você o Oene poderiam tentar coisas semelhantes. Parcerias. Uma construção conjunta que seja oferecida de forma destacada e paga nas plataformas que for disponibilizada.

    Bom, seus contatos estão aí, boa sorte.

    A Pública fez um financiamento coletivo para bolsas de reportagem. Novamente na parceria com terceiros. Poderia ser algo para auxiliar no financiamento:

    – infográfico diminuindo a vigilância da NSA.
    – entrevista com algum presidenciável, sobre tecnologia :) (com o aprofundamento prévio dos leitores)

    Ah, e quando se fala de algo brasileiro, é por este ter pago. Informações sobre produções nacionais seria interessante.

    Ghedin e leitores do Manual do Usuário, 2014 realizador para nós.

    1. Obrigado, Eduardo!

      Sobre as suas considerações:

      # crítica

      Sim, estruturar o conteúdo sempre foi um desafio por todos os blogs em que passei. No Manual, tomo o cuidado de manter a estrutura enxuta sem com isso limitar a “descobertabilidade”.

      No novo layout as tags/etiquetas terão mais destaque e os reviews serão melhor organizados. Espero, com isso, ajudar o leitor mais interessado a desbravar o arquivo do blog — que, como você observa, em grande parte resiste bem à ação do tempo.

      Sobre o Google, apesar do foco no conteúdo em tempo real (notícias), ainda há demanda para conteúdo mais profundo. Tomo muito cuidado para adaptar o que publico aqui às convenções do buscador, mas se essas técnicas e a legibilidade entram em conflito, pendo para a segunda. Interessa-me mais agradar o leitor do que um robô do Google.

      # cobrança, ideias

      Continuo firme na decisão de não implementar publicidade contextual aqui. Já rolou um publieditorial e em 2014 deverão pintar mais posts patrocinados — meu ideal é algo similar ao que o PapodeHomem faz.

      Nesse recesso de fim de ano pensei em algumas fontes de renda alternativas. Uma delas, foco maior em doações. Logo mais revelarei tudo isso junto com o novo layout, mas posso adiantar que, sim, cobrar do leitor está nos planos. O conteúdo é e continuará gratuito, serão os “extras” que compensarão os assinantes — além da satisfação de financiar meu projeto, claro.

      Obrigado pelas sugestões. São ambiciosas, mas possíveis. Considerarei elas no decorrer de 2014.

      Feliz ano novo para todos nós! :-)

  6. Novamente, gostaria de parabeniza-lo pela iniciativa. :)

    Eu também sou a favor de menos opiniões, menos julgamentos e mais discussões aprofundadas. Aliás, é um alívio dizer não sei/não tenho opinião no meio de tanta discussão superficial hahaha

    1. É um alívio mesmo, Gabriel! Melhor que isso, só o tempo que a abordagem do Manual me dá para ler bastante, ponderar e só então me manifestar sobre algum assunto — quando muito. Slow Web FTW!

  7. Ghedin, continue o excelente trabalho e tenha um próspero 2014!

    P.S.: o movimento slow web lentamente (não sei se foi proposital) está mudando meu Feedly e meu próprio comportamento on e offline.

    1. Pisar no freio tira um peso enorme dos ombros, né? Para mim foi bem essa a sensação quando descadastrei um punhado de feeds no então Google Reader e deixe de tentar ler tudo o que aparecia no Twitter, Facebook e sites que gosto.

      Obrigado pela força, Maranhão!

  8. Rodrigo,

    mais uma vez parabéns pelo site, que foi uma das melhores iniciativas da internet em 2013, sobretudo por você ter deixado um portal de tecnologia já conhecido na internet brasileira e arriscar em um novo tipo de conteúdo.
    Desejo um ótimo 2014 para você e que o Manual do usuário venha “chutando bundas” dos conteúdos genéricos sem começo, meio e fim que muitos sites produzem por aí e que inspire mais pessoas a produzir conteúdo de qualidade na internet.

    Feliz 2014 e obrigado!