Foto: Shutterstock

O Chrome venceu


31/5/17 às 9h15

Por Andreas Gal

Aviso: trabalhei por 7 anos na Mozilla e era o CTO da Mozilla antes de sair de lá, há dois anos, para fundar uma startup de IA embarcada.

A Mozilla publicou um post há dois dias [foi no dia 23 de maio] destacando seus esforços para tornar o navegador Firefox para Desktop competitivo de novo. Eu costumava seguir de perto o mercado de browsers, mas deixei de acompanhar por alguns anos, e pensei que era hora de ver os números.

O gráfico acima mostra a porcentagem de market share dos quatro maiores navegadores nos últimos seis anos, em todos os dispositivos. Os dados são da StatCounter e dá para argumentar que os dados são enviesados de muitas formas, mas num nível macro é seguro dizer que o Chrome está devorando o mercado de navegadores, e todo mundo exceto o Safari está sendo obliterado. [Ou seja, estão desaparecendo pouco a pouco].

Tendências

Eu tentei algumas formas diferentes de traçar uma linha que mostrasse a atual tendência, mas um ajuste exponencial parece ser o que melhor funciona. Porém, ela não se alinha muito bem com as teorias sobre a difusão explosiva de inovação e o lento declínio das tecnologias legadas. Se a tendência de seis anos se mantiver, o IE estará praticamente morto em dois ou três anos. O Firefox não está se saindo muito melhor, infelizmente, e está se encaminhando para um market share de 2-3%. Tanto para o IE quanto para o Firefox, esses números baixos de market share aceleram ainda mais seus respectivos declínios porque criadores da Web não testam navegadores com uma pequena participação de mercado. Conteúdo quebrado faz os usuários mudarem de navegadores, o que faz com que mais usuários partam para outros. Um ciclo vicioso.

O Chrome e o Safari não se encaixam tão bem quanto o IE e o Firefox [nessa explicação]. A provável explicação para o Chrome é que o market share é tão grande que logo ele não terá usuários para conquistar. Algumas pessoas estão presas em sistemas operacionais antigos que não suportam o Chrome. O crescimento recente do Safari teve um desempenho inferior a essa tendência muito provavelmente porque o crescimento de dispositivos com o iOS perdeu velocidade.

Market share no desktop

Olhar para todos os dispositivos mistura os mercados móvel e desktop, o que pode ser enganoso. O Safari/iOS é dominante em áreas móveis enquanto o Safari para desktop tem uma parcela bem pequena do mercado. O Firefox, por sua vez, está essencialmente ausente no mobile. Então vamos olhar apenas para os números no desktop.

O gráfico restrito a desktops infelizmente não mostra um destino diferente para o IE e para o Firefox, tampouco. O mercado de desktop PCs em geral está crescendo ligeiramente (a maioria das vendas são PCs de substituição, mas novos usuários também são adicionados). Apesar do mercado em expansão, tanto o IE quanto o Firefox estão caindo de forma insustentável.

Aumentando usuários?

Eric [Eric Petitt, diretor de marketing de produto da Mozilla] mencionou no post que o Firefox aumentou o número de usuários no ano passado. O market share relativo do Firefox declinou de 16% para 14,85% no período. A título de comparação, o Safari Desktop permaneceu relativamente estável, o que provavelmente significa que o market share do Safari está acompanhando o (lento) crescimento do mercado de PCs e laptops. Duas teorias possíveis mencionadas por Eric em seu post são: [1] que o número de instalações de navegadores aumentou. As pessoas frequentemente reinstalam o navegador numa nova máquina, o que poderia ser visto como um “novo usuário”, mas geralmente isso vem junto ao custo de uma máquina anterior deixar de ser usada. [2] Também é possível que a contagem de usuários ativos diários tenha de fato aumentado devido ao crescimento do mercado de PC/laptop, apesar do acelerado declínio no market share relativo. Os números de usuários ativos diários do Firefox não são públicos, então é difícil de saber.

A partir desses gráficos, fica claro que o Firefox não está indo a lugar algum. Isso significa que a estimada raposa vai estar conosco por muitos anos, embora com um market share constantemente em queda. Isso também significa, infelizmente, que uma volta por cima é praticamente impossível.

Com a transição de CEO ocorrida há três anos, houve uma grande mudança estratégica na Mozilla de retomar seus esforços com o Firefox e, por consequência, ao Desktop. Antes de 2014 a Mozilla investiu pesadamente em construir um sistema operacional móvel para competir com o Android: o Firefox OS. Eu comecei o projeto do Firefox OS e o fiz ganhar escala. Ainda que tenhamos conseguido atrair bastante atenção do público e vendido alguns milhões de aparelhos, no final estávamos um pouco atrasados demais e não conseguimos alcançar o crescimento explosivo do Android. A lógica estratégica da Mozilla em construir o Firefox OS era muitas vezes mal interpretada. A missão fundadora da Mozilla era construir a web a partir de um navegador. O mobile desestabilizou por completo essa missão. No mobile, os navegadores são muito menos relevantes – ainda menos do que navegadores móveis de terceiros. No mobile, os navegadores são uma função dos apps do Facebook e do Twitter, não um produto. Para influenciar a web no mundo mobile, a Mozilla teve que construir toda uma stack com a Web em seu centro. Criar navegadores móveis (o Firefox para Android) ou apps parecidos com navegadores (Firefox Focus) pouco provavelmente iria atrair casos de uso relevantes. Tanto o Firefox para Android quanto o Firefox Focus tem um market share próximo a 0%.

Aquela mudança estratégica de 2014, de volta ao Firefox, e o retorno ao Desktop, foi significativa para a Mozilla. Como Eric descreve em seu artigo, muito trabalho técnico incrível foi dedicado ao Firefox para Desktop nos últimos anos. As equipes dedicadas ao desktop foram expandidas, e os esforços focados no mobile foram reduzidos. O Firefox Desktop é hoje tecnicamente competitivo com o Chrome Desktop em muitas áreas, e ainda melhor que o Chrome em algumas. Infelizmente, ao olhar para os gráficos, nada disso tem surtido efeito algum nas tendências de mercado. Os navegadores são um produto comum. Eles são bem similares na aparência e nas funcionalidades. Todos os navegadores funcionam muito bem, e ser um pouquinho mais rápido ou usar um pouquinho menos de memória dificilmente vai atrair novos usuários. Se mesmo Eric – que lidera a equipe de marketing da Mozilla – usa o Chrome todos os dias, como mencionou na sua primeira frase, não é nenhuma surpresa que quase 65% dos usuários de desktop estejam fazendo o mesmo.

O que isso significa para a Web?

Eu comecei o Firefox OS em 2011 porque já lá atrás eu estava convencido de que desktops e navegadores estavam mortos. Não imediatamente – cá estamos seis anos depois e ambos ainda estão aqui -, mas ambos são tecnologias legadas que não são e nem serão particularmente influentes daqui pra frente. Não acho que haverá uma nova guerra dos navegadores na qual o Firefox ou algum outro competidor vai recuperar o market share do Chrome. É como lançar um novo e melhorado cavalo no ano de 2017. Todos dirigimos carros hoje em dia. Algumas pessoas ainda usam cavalos, e eles tem seu valor, mas a tecnologia já avançou no que diz respeito aos transportes.

Isso significa que o Google é dono da Web se ele é dono do Chrome? Não. Absolutamente não. Navegadores foram e ainda são a cara da Web na primeira década da Internet. O mobile desestabilizou a Web, mas a Web abraçou o Mobile e no coração da maioria dos apps bate um tanto de JavaScript e HTTPS e REST nos nossos dias. A Web do futuro vai ter uma cara ainda mais diferente. Muito vai sobreviver, mas algumas partes dela serão abaladas. Eu deixei a Mozilla porque fiquei curioso com o que a Web se tornaria uma vez que ela fosse formada predominantemente de dispositivos ao invés de desktops e smartphones. Na Silk criamos uma plataforma de IoT construída ao redor de tecnologias Web abertas como o JavaScript, e trabalhamos muito pela democratização da posse dos dados pela incorporação de dispositivos de IA, em vez de mandar tudo para a nuvem.

Então enquanto o Google pode dizer que ganhou a guerra dos navegadores, eles não conquistaram a Web. Para nos mantermos na metáfora dos transportes: o Google faz os melhores cavalos no mundo e eles claramente ganharam a corrida de cavalos. Só não acho que essa corrida importa tanto, olhando para o futuro.

Atualização: muitos bons comentários num tópico do HackerNews aqui. O meu favorito foi esse: “A Mozilla ganhou a guerra dos navegadores. O Firefox perdeu a guerra dos navegadores. Mas ainda teremos muitas guerras para lutar, e eu espero que a Mozilla mergulhe nelas.” Não poderia concordar mais.


Publicado originalmente no blog do Andreas Gal em 25 de maio de 2017.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha. Obrigada pela dica de leitura, Henrique Martin.

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19 comentários

  1. Olá Emily, gostaria de pedir uma análise do macbook 12 que você usa, que falasse se sofre queda de desempenho por aquecimento, se ele aquece muito, qual o seu uso e um review geral do aparelho. Obrigado

  2. Triste… E voltamos ao ponto de partida… Um browser dominante, que implementa os padrões quando quer, da forma que quer, sem ligar pra nada nem ninguém… Chrome é o novo IE… :'(

        1. Não justificando o excessivo consumo, mas há muitos anos eu vejo uma interpretação meio dúbia disso: Se ter mais RAM consumida significa que tenho mais conteúdo “pré-carregado” disponível para então ter uma resposta mais rápida quando necessário, então o Chrome (ou o Firefox, ou o Edge, ou o próprio SO, etc) podem alocar memória a vontade, pois será revertido em benefício para mim, sacou?

          Antigamente, havia essa discussão entre usuários de Linux e usuários do Windows (se não me engano XP), pois o Windows só alocava a RAM no momento de processar um dado enquanto o Linux já pre-carregava uma série de coisas que ele previa serem necessárias para os ciclos seguintes de processamento, e isso aumentava MUITO a velocidade

          Mesmo entre os usuários Linux havia essa dúvida do consumo, ao ponto de os comandos que mostram o uso da RAM diferenciar o que estava de fato sendo consumido do que estava lá só pre carregado

          1. Não, por muito consumo eu quero dizer que no Firefox com 1Gb de RAM consumida, eu tenho cerca de 30 abas abertas, enquanto que no Chrome se der 10 é muito…

  3. Gosto muito do Chrome mas já tentei usar como padrão no Mac e simplesmente não dá. O SpeedDial do Safari, ao clicar na barra de endereço e ver as “pastinhas” de favoritos todas organizadas no estilo da springboard do iOS ?… Sem contar que você quase não percebe o Safari em si quando tá navegando. Ele cobre o máximo possível da tela com o que é importante: o conteúdo da página. No iOS trocar o Safari pelo Chrome então nem se fala ?. Mas como tenho o Chrome pra usar sites do governo que por questão de trabalho mal feito só funcionam nele, vejo que a compatibilidade é mesmo renderização só Chrome é bem melhor que o Safari.

    1. No caso do iOS, “só existe” o Safari… Mesmo os outros navegadores são obrigados a usar a engine de renderização do Safari. O que muda é apenas a “capa” dele.

      1. Isso não é tão simples. O Chrome, por exemplo, é muito mais completo e possui uma quantidade significativa de complementos (o que no Safari dá uma surra).

    2. O Safari é mesmo ótimo. Tanto na organização como sincronização de favoritos. O único navegador no nível do Safari no quesito organização é o Opera.

  4. Eu uso o Firefox desde a internet discada. Já desisti dele várias vezes, partindo para o Opera e Chrome, mas sempre acabava voltando a Raposa.

    Será uma pena se ela partir..

  5. Acho que vale complementar com a informação de que a Mozilla pretende lançar um motor novo para seu navegador no segundo semestre desse ano: https://wiki.mozilla.org/Quantum

    Não acho que dê para reverter esse cenário, mas acredito que o Gecko ficou para trás em termos de experiência e foi perdendo até usuários fiéis. Vejamos se um motor desenhando para um mundo onde o navegador é o centro pode ser o que o Chrome foi em 2008.

  6. A função que melhor ajusta os dados do Chrome pode ser uma tanh(x) para x>0, especialmente no desktop, onde se nota claramente o surgimento de um plateau. Hoje fui ver meu google analytics, os resultados sao parecidos: chrome: 84.8%, safari: 11.6% , firefox: 3.04%. Parabéns pelo artigo.