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Cautela com o r/WallStreetBets e as ações da GameStop

Enche o coração ver rico se dar mal, mas a história do r/WallStreetBets manipulando o valor de mercado da GameStop para lucrar em cima das vendas a descoberto (um “short squeeze”) de fundos hedge é mais complexa que isso. A história em si já é complexa; refiro-me ao contexto do evento.

As pessoas do r/WallStreetBets que organizaram o “hack” são niilistas com tendências antissistêmicas. Lembram sabe quem? Trumpistas/golpistas do Capitólio. Proto-terroristas do #Gamersgate. Jornadas de Junho/bolsonaristas ferrenhos. Tudo parece muito bonito, inspirador, até que a essência da coisa é subvertida (ou revelada) e nos deparamos com algo grotesco.

Não me entenda mal: o mercado de capitais é grotesco. Da ideia original de popularizar riscos e lucros, hoje ele é um fim em si mesmo. E é disso que decorre muitas das suas irracionalidades e injustiças, que o transforma em um cassino. (Não há maneira melhor de explicar a venda a descoberto do que sendo uma grande aposta.) O que o r/WallStreetBets fez foi instrumentalizar, na força bruta, algumas dessas irracionalidades para prejudicar os donos da banca e (importante dizer) enriquecer no processo. Há muito mais ressentimento e oportunismo do que senso de justiça norteando as ações deles.

Estamos (ou deveríamos estar) vacinados com o papo de “pior que tá, não fica”, e… bem, não precisa ir muito longe para sacar o ethos dos caras: a descrição do r/WallStreetBets é “Like 4chan found a bloomberg terminal illness.”

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33 comentários

    1. Não sei se é tão grave depois da entrevista que ele deu para o Wall Street Journal, que contém todos esses detalhes, e até mais.

  1. Mas aí é que tá, pelo que entendi é justamente isso que os fundos fazem com a gente (pessoas normais com suas economias aplicadas) pelo meio de força bruta de seu capital gigantesco. Achei nada mais justo a turma se mobilizar e devolver na mesma moeda. Foi lindo.

    No fim serviu para abrir os olhos de quem não acompanha esse meio em como ele é louco e sem sentido e tomara que role algum tipo de regulamentação necessária, resta saber se a gente vai sair machucado dessa com o sentimento de que leis existem para defender os ricos ou se eles também serão afetados por tal regulamentação.

    Pelo que tô entendendo a turma conseguiu quebrar o brinquedo dos ricos a ponto de que tão sendo mantidos de fora da parada pelos intermediários (coisa que até uniu pela mesma causa AOC e Ted Cruz!).

    Ansioso pelos próximos capítulos dessa história toda.

    1. É legal ver os bullies de sempre se dando mal, concordo plenamente! Minha questão é mais de fundo. É o que motiva a galera do r/WallStreetBets e, a exemplo de você, me preocupa o que pode sair disso. (Daí as comparações com eventos recentes históricos que começaram inspiradores e viraram o caos; saímos às ruas para protestar contra um aumento de R$ 0,20 no preço da passagem de ônibus, terminaram derrubando a Dilma.)

  2. Mercado de ações pode ser usado como Cassino, mas ele não é só apostas. Muitos fazem análises e estudam sobre cada ativo, não entendo todo esse preconceito…

  3. Gostaria de fazer coro que discordo com a frase “Jornadas de Junho/bolsonaristas ferrenhos.”. Também dá pra colocar o Occupy 2011 aí, que era indignado com Wall Street, e é como o que o pessoal que fez o short squeeze se sente no wallstreetbets. Ambos são manifestações e eventos únicos na história tanto do Brasil quanto nos Estados Unidos, que tinham vários propósitos, mas nada centralizado, que acabaram sendo cooptados pela direita / extrema direita por se sentirem negligenciados. Acho que essa discussão vai longe, mas quatro parágrafos para isso é fazer pouco caso com a situação que está rolando com a ‘stock’ da GameStop e outras empresas.

    1. Antes de fechar o grupo no Telegram, eu mandei esse fio do Twitter: https://twitter.com/MattCrespi/status/1354844183874441216

      O cara menciona como muitas pessoas vão, com os lucros desse short, pagar contas da faculdade, pagar a hipoteca, doar dinheiro para várias ONGs e pesquisas, etc. Mas fu rebatido com um simples “isso é anedótico”. Achei rude, pois por um lado a matéria diz que TODO usuário do r/walstreetbets é “niilistas com tendências antissistêmicas. Trumpistas/golpistas do Capitólio, Proto-terroristas do #Gamersgate, Jornadas de Junho/bolsonaristas ferrenhos” esse último já tendo comentado por aqui como uma visão míope. Bem, não seria isso também anedótico? Ou para falar melhor e resolver logo, não é melhor evitar os extremos ou os absolutos, como os próprios Jedi dizem, para não cair em uma matéria rasa? O Piauí foi pior, chamando o Reddit inteiro de ‘fórum de extrema direita’.

      Enfim, fiquei decepcionado com a matéria e como fui respondido no grupo, apesar de não ter tomado ofensa. Mas acho que a cobertura do que tá rolando poderia ter sido melhor.

      1. Tet, em qualquer grupo grande, por mais focados que seus membros sejam, haverá dissensos e histórias distintas por trás da performance pública. Creio que (espero que) fique subentendido que as afirmações que faço no texto não são totalizantes, mas sim uma tentativa de retratar o grosso, ou o que norteia as pessoas que participam do r/WallStreetBets.

        Na descrição do subreddit, o próprio r/WallStreetBets se equipara ao 4chan. O comportamento dos participantes nesses subs é niilista, por vezes ofensivo, como a piada recorrente (e de extremo mau-gosto) com autistas que rola no r/FariaLimaBets. O Discord baniu o servidor do r/WallStreetBets por discurso de ódio. Novamente: todo mundo que está no sub é extremista de direita? Não, mas é a tônica do grupo, a mesma na raiz desses outros eventos que citei no post. Talvez nem seja o perfil dos moderadores, mas o discurso que permeia essa ação é muito atraente para perfis com tendências antissistema, o que comumente descamba para atos e discursos perigosos.

        1. >Creio que (espero que) fique subentendido que as afirmações que faço no texto não são totalizantes, mas sim uma tentativa de retratar o grosso, ou o que norteia as pessoas que participam do r/WallStreetBets.

          Na minha opinião, não pareceu isso, por causa da generalização com os protestos de 2013. Mas acho que você clarificando aqui, fica melhor. :)

          >Na descrição do subreddit, o próprio r/WallStreetBets se equipara ao 4chan. O comportamento dos participantes nesses subs é niilista, por vezes ofensivo, como a piada recorrente (e de extremo mau-gosto) com autistas que rola no r/FariaLimaBets.

          Pelo que entendi, o subreddit deles foi banido por alguém começar a falar insultos na língua da Islândia. Não tinha nada relacionado aos insultos de mau gosto como “autista” que eles usam bastante.

          Ah, e o r/farialimabets usa “autista” e “retardado” ao mesmo tempo. De qualquer forma, é um subreddit pequeno, comparado ao maior r/investimentos.

  4. Essa Jornadas de Junho são as de 2013? Se sim, foi muita bola fora colocar ela no mesmo hall de “Trumpistas/golpistas do Capitólio, proto-terroristas do #Gamersgate, bolsonaristas ferrenhos”. O movimento é muito mais complexo que isso, por isso entendo muitas críticas e opiniões divergentes sobre o assunto, mas colocá-los no mesmo lugar de movimentos essencialmente de extrema-direita é um pecado sem base histórica. Importante lembrar que começou com o Movimento Passe-Livre, até hoje organizando movimentações contra o aumento das passagens, definitivamente não é um movimento reacionário. Além disso, todo o movimento, do início ao fim, teve participação ativa de anarquistas e até partidários de grupos do PSOL, por exemplo. Embora não concorde, entendo as críticas ao movimento, que nunca foi uno e, sobretudo, nunca foi essencialmente de extrema-direita.

    1. Também achei meio míope. Mesmo depois que o Movimento Passe-Livre se desvinculou, ainda parecia um movimento relativamente diverso.

    2. Eu concordo que não dá para colocar o MPL no mesmo balaio dos trumpistas. Referi-me sim às Jornadas de Junho de 2013 no texto porque, de alguma forma, aquela demanda (justa e legítima) rapidamente ficou em segundo plano, e o que tomou conta da ação popular e de toda a bagunça que se sucedeu foi um sentimento muito parecido ao dos trumpistas — não por acaso, foi bem ali que começou a movimentação para o golpe de 2016, ou para a ascensão das forças que dariam cabo ao golpe.

    3. Vou aproveitar a deixa pois sempre quis colocar em algum lugar meus pontos sobre a tal “Jornada de Junho”.

      Quando o Movimento Passe Livre começou a se articular, apesar de eu achar interessante, via que no fundo não tinha muito respaldo.

      A coisa “degringolou” quando jornalistas foram atingidos pela polícia, um deles perdendo o olho e infelizmente sem direito a indenização, e em alguns casos revistados de forma humilhante.

      Tenho a sensação que o gatilho da dita “Jornadas de Junho” partiu destas situações que ocorreram com jornalistas, dado que apesar da violência policial, não houve tantas reações online quando manifestantes eram presos ou atigindos

      Desde então, houve outras tentativas de criar situações similares, como o “ocupa escola” (que parou por uns 6 meses aprox. as escolas, até criando um atraso no calendário).

      Tudo isso gerou 2016 (“golpe”/impeachment) e a situação que vivemos hoje. Como não sou um cientista social, não consigo traduzir profundamente a situação.

      (sempre coloco “golpe” no aspas pois tipo, sinto que se fosse para não deixar o poder, o PT teria feito bem muito mais para se esforçar. Só ficou gritando golpe para lá e para cá e até hoje é um partido que aparentemente não educa as bases para ter um senso político melhor. Pagou o preço de seus erros políticos e no final acabou fazendo o Brasil ir junto pro buraco.

  5. Que bom vc ter entrado nesse assunto! A melhor “reportagem” que vi foi essa:
    https://twitter.com/CaioAlmendra/status/1354466189611847686?s=08
    (Fio no twitter). Mas tb vi no twitter vários questionamentos sobre se eles serem de direita ou não. E a minha ignorância ficou ainda maior por não saber o que é Reddit. Seria possível você ou o Guilherme Felitti lançarem mais luz sobre o episódio? Que tal uma edição de podcast?
    Obrigada!

      1. Desnecessário, pra dizer o mínimo, esse comentário “enche o coração ver rico se dar mal”.
        Acho que já foi o tempo do “se tem dinheiro, é malvado”. Ainda mais com o exemplo vindo de uma manipulação (como é o nome disso mesmo? Fraude?).

        1. Você tem mais de um milhão e ganha dinheiro fazendo mal ao outro?

          Se respondeu sim a pelo menos um destes dois, então que bom que se doeu.

          1. Não, Sherlock, não me encaixo e não acho que TODOS que tenham mais de um milhão tampouco se encaixem.

        2. Pelo contrário, essa discussão nunca foi tão atual e importante quanto agora, Boris. A desigualdade é crescente e está na base dos maiores problemas que enfrentamos. Por definição, a existência da desigualdade está condicionada à de ricos, logo, quanto menos ricos, menos desigualdade.

          Suspeito que a aversão à minha fala decorre de interpretações distintas do que é ser rico, por isso propus um debate no post livre. Seria legal se você participasse lá também.

          1. Exato, é a generalização que eu acho que contamina muitos debates. O lance do nós-contra-eles é um divisor da sociedade, que na minha opinião é o objetivo de fato de quem controla o mundo (os tais ricos malvados).
            Agora, o pensamento de “quanto menos ricos, menos pobres” também pode ser escrito como “quanto menos pobres, mais ricos”.
            Não entendo porque a mudança não pode ser para cima.
            Só contrário do sujeito que comentou meu comentário (!) acima, não estou julgando você, apenas comparando os argumentos.
            Obrigado pelo link do posto livre.

          2. @ Boris

            Não consigo não ver essa questão como um lance de nós-contra-eles (ou luta de classes, como queira). Não fosse assim, acho que o problema já teria se resolvido, não? Quem é muito rico não vai largar o osso. Basta ver as dinâmicas na pandemia: enquanto milhões perderam seus empregos, voltaram à miséria e passam perrengue, quem já era rico (rico mesmo, bilionário) ficou ainda mais rico. Essas duas coisas, na minha humilde visão, estão diretamente relacionadas.

            Fique tranquilo, não achei que me atacou nem nada do tipo. Estamos debatendo ideias, como deve ser :)

    1. reddit é um site relativamente anônimo, relativamente simples, que agrega diversos fóruns de discursão. os usuários podem votar nos posts de seus fóruns (subreddits). os mais votados aparecem na capa do sub. os mais votados da plataforma aparecem na capa do próprio reddit.

      cada post pode ser de texto (self.post) ou um link. ambos permitem comentários, que também podem ser votados.

      no fim, os subs terminam sendo camaras de eco, mas são o mais proximo das comunidades do orkut. tem muita coisa ruim, como o neofascista r/The_Donald, mas também tem muita coisa boa.

      tem algumas comunidades em portugues. a principal é o reddit.com/r/brasil

      1. Se o reddit brasileiro fosse bom, permitiria comentários sobre receitas com lula em dias de eleição.

  6. Rodrigo,
    Vc sabe-o quanto eu gosto de você e de seus textos.
    Mas…
    Que horrível essa frase de “enche o coração ver rico se dar mal”.
    Você já muda totalmente o viés do leitor com ela.

    “Rico” não define corretamente o grupo que se dá mal com o short squeeze que está ocorrendo. Eu repensaria os termos usados, pq eu acho que sei o que você tentou (e não conseguiu) dizer. Daria para colocar Davi e Golias.

    Em tempo: o mercado de capitais NÃO é grotesco.

    Abraço

    Eu ia até compartilhar o texto no grupo de investimentos que participo, mas ele iria ofender tanta gente que prefiro não te submeter a isso.

    1. Eloy, quis dizer exatamente o que a frase diz. “Rico” é um grupo que tem como característica comum quantidades nababescas de dinheiro e poder. É, por definição, um grupo pequeno, e não creio que haja um entre nós aqui. Já disse em outras oportunidades que a existência de grandes fortunas está na raiz da maioria dos problemas que enfrentamos hoje, logo, nessa lógica, rico se dando mal é um passo na direção de um mundo com menos grandes fortunas.

      Sobre o mercado de capitais ser grotesco ou não, isso é subjetivo. A mim, parece, e as vendas a descoberto são um grande exemplo desse grotesco.

      Compartilha lá no grupo! Tenho essas ideias — que, reconheço, às vezes exponho de maneira provocativa —, mas estou aberto a revê-las diante de bons argumentos.

      1. Ok, admito que foi arrogância minha achar que sabia o que você estava querendo dizer. De qualquer forma, discordo da sua definição de rico. E continua me incomodando (de forma não provocativa) a frase inicial do seu texto.

        Sobre o texto em si, que eu não havia comentado, eu concordo. Não há nada de nobre nas pessoas que estão fazendo isso, até pq agora a coisa descambou pra outras ações e até no Brasil “investidores” estão se organizando para tentar repetir o ato em terras tupiniquins.

        1. A gente (todo mundo) tinha que sentar uma hora e definir o que é rico. Não é fácil, vira e mexe esse assunto domina minha timeline no Twitter, mas um consenso aqui economizaria muito tempo e mal entendidos 😄

          1. “Rico” é um grupo que tem como característica comum quantidades nababescas de dinheiro e poder.

            Não creio que tenha outra definição – ao menos para quem tem alguma noção de relações sociais como nós que de alguma forma aqui no “Post Livre” temos a “riqueza” de saber conversar.

            Se analisar uma pessoa que é pobre e luta para ser rica, muitas vezes no fundo ela quer ser realmente igual ao rico que vê na tv, no púlpito da igreja, na internet ou o chefe dela. Ela quer tanto o dinheiro (conforto) quanto o poder para poder fazer o que quiser – de pagar um suborno a policial quanto a ter decisões favoráveis na justiça.

      2. Mas Ghedin, então a raíz do problema não estaria no mercado de capitais como um todo, mas no mercado de derivativos, não? Este sim concordo mais parece um casino, pois se caracteriza como um “jogo de soma zero”: para alguém ganhar é necessário outro perder. Por sua vez o mercado acionário, além de toda sua importância econômica inegável, não é um jogo de soma zero. Este sempre se valoriza em longo períodos de tempo, mesmo depois de grandes crises.

    2. 1. sabe o que o rico tem mais que a gente? tem mais é que se ferrar
      2. o mercado financeiro é sim nojento e escroto e deveria ser extinto, assim como o capitalismo
      3. sou pacifista, antipunitivista e não acredito em revolução por meios violentos, mas quando vejo a atitude de certos ricos por aí eu fico bem tentado a concordar que Fidel estava certo em mandar a burguesia para o paredão

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