Mulher Maçã no lançamento do iPhone 6.

Um papo com Gracy Kelly, a Mulher Maçã, maior fã de Steve Jobs


16/7/15 às 9h16

Em outubro de 2011, em meio à comoção que a morte de Steve Jobs causou, uma cantora brasileira chamou a atenção. Era Gracy Kelly, mais conhecida como Mulher Maçã, que num comunicado à imprensa (onde errou a grafia do ídolo, “Esteve”), manifestou seu luto pela partida do co-fundador da Apple.

Desde então, Gracy passou a ser uma espécie de referência popular para assuntos relacionados à Apple, além de lembrar, recorrentemente, a memória de Jobs — o BuzzFeed fez um belo apanhado desses quase quatro anos de devoção póstuma. Não sei se por descuido dos colegas ou desgaste da relação, ainda não tinha lido a opinião dela sobre o primeiro trailer de Steve Jobs, novo filme de Danny Boyle que estreia em outubro. Era a minha deixa.

Em entrevista ao Manual do Usuário, a Mulher Maçã revelou mais detalhes da sua relação com a maior empresa de tecnologia do mundo, seus tratamentos de beleza pouco ortodoxos, criticou a política de preços da Apple do Brasil e revelou, (acho que) com exclusividade, que uma nova música, em homenagem à Apple e gravada em inglês, já está pronta, e aguarda o melhor momento para ser lançada.

“Eu levo as coisas muito no bom humor”

Semana passada fiz algumas perguntas à Gracy, por telefone, que gentilmente as respondeu mesmo tarde e tendo acabado de sair de um trabalho. O trailer do filme era uma desculpa, na verdade, para tentar fazer uma entrevista direito. Ao longo dos anos li e assisti a algumas delas enviesadas, quase maldosas, e isso me incomodava um pouco.

Talvez não fosse a intenção dos jornalistas, mas sempre fiquei com a sensação de que se aproveitam do inusitado da coisa para fazer uma piada forçada e repetitiva. Como na vez que um grande portal brasileiro a colocou num game, com perguntas do nível “o que Jobs comeu no café da manhã do dia da keynote do MacBook Air Plus mid-2009 Pro?”, ou seja, detalhes que FÃS têm na ponta da língua e acham o cúmulo que alguém que se diga um igual não saiba.

No caso da Gracy, esse tom de escárnio parece potencializado: uma celebridade, funkeira, que comete alguns deslizes no que diz respeito à Apple e, ainda assim, se diz a maior fã. É muito fácil migrar do inusitado e do nonsense da situação (que, sejamos francos, existem) para a crueldade pura e simples.

Gracy sente, claro. Logo no começo do nosso papo, ela disse ter achado que “houve até um bullying, a pessoa que está no funk não pode gostar de Steve Jobs, que é um cara super inteligente, e tal…” Fiquei sensibilizado e, mais à frente, impressionado com a postura dela frente a comentários do tipo:

“Eu levo as coisas muito no bom humor. Muitos que até vieram às vezes me xingando de ‘burra’, começaram a me seguir. Essa pessoa que me xingou, eu mandei uma flor e aí já quebrou [a agressão]. Ela começou a me seguir, já virou fã, falou ‘você é maneira!’, sabe… assim? Tudo é a forma com que você transforma as coisas que vêm para você, entendeu? Eu sou formada em administração e contabilidade, e muitas vezes as pessoas não sabem disso, acham que eu trabalho só com funk… e não é por aí.”

Gosto dessa maneira de desarmar alguém que se apresenta como um oponente. A psicologia talvez explique a eficácia desse tipo paradoxal de confronto pela tangente, mas é incrível como funciona, comigo e, pelo visto, com a Mulher Maçã.

Tapa na cara para aumentar os seios

Foto de divulgação da Mulher Maçã.

Gracy admira a Apple há muito tempo, mas o apelido deriva de seus atributos naturais. No caso, o formato do bumbum, que segundo os amigos dela, parece uma… maçã. Mais uma dessas felizes coincidências da vida.

Antes de entrarmos no assunto Apple, rolou um papo sobre saúde e as manias estranhas da funkeira. Na pesquisa que fiz em preparação para a entrevista, li algumas manchetes meio malucas, como a da água vitaminada e o sensacional tratamento tailandês de aumento dos seios baseado em tapas na cara. Sim, bofetadas mesmo. Ao citá-lo, ela garantiu: “Deu [certo], claro que deu. É só você olhar minhas fotos para ver se deu ou não.” Aliás, ela só divulga o que dá certo:

“Olha, sou adepta de todos os procedimentos naturais. Nunca fiz cirurgia plástica, tenho alergia a anestesia, então eu procuro métodos naturais e pode ser de qualquer estilo; se der certo, eu tô fazendo. Só exponho isso na mídia quando realmente vejo que dá resultado.”

Porque… responsabilidades, né?

“Geralmente não gosto de falar do que não funciona. Se não funcionou, por que vou divulgar? Vai que tem algum maluco que pega e fala ‘com ela não funcionou, mas comigo vai funcionar’, então… sabe?”

Outra notícia que parou num desses sites foi a de uma queda de energia recente em sua residência (o mundo do Ego é fascinante num sentido bem torto). Perguntei se alguma coisa da Apple tinha queimado; felizmente, nada: “Da Apple, graças a Deus não queimou! Inclusive, deixei de ir no show da Maria Bethânia por causa disso.” Poxa :/

A Mulher Maçã, a Apple e o vaso sanitário

Gracy Kelly na Apple Store.

E o que ela usa da Apple? Tudo, do celular ao computador, incluindo um iPad. Mas não é tudo atualizado. Brasileira, gente como a gente, Gracy também tem achado meio salgados os preços praticados no Brasil:

“O iPhone 6, sinceramente? Ah não, não dou R$ 3 mil, quase R$ 4 mil num telefone. Aí não.”

Decisões estratégicas à parte, a implicância com valores não muda o que ela sente pela empresa. Porque, além de gostar, há uma espécie de compromisso com os fãs, que sempre aguardam seu parecer:

“Eu peço para mexer nos [iPhones 6] dos meus amigos, para ver o que tem de novo, o que não tem… Porque toda vez que sai alguma coisa da Apple, a imprensa liga para saber o que eu acho, minha opinião. Então estou sempre ligada, antenada, entendeu? Se você ver o meu Twitter… E agora tem uma privada que saiu, que eu quero esse privada. O vaso sanitário é no formato da Apple, da maçã da Apple! É uma privada inteligente. Eu coloquei isso no meu Twitter, nossa… virou um alvoroço.”

Intrigado, fui pesquisar no Twitter dela que raio de privada era essa. É um render de um vaso sanitário que tem, de fato, o formato do logo da Apple, mas sem a mordidinha. E o mais bizarro é que o assento não parece tão desconfortável (o formato do bumbum dela é uma maçã, afinal!), mas aquela caixa ali em formato de folha deve ser bem complicada:

Steve Jobs, o filme

O trailer de Steve Jobs ela ainda não viu (buu!), mas se diz ansiosa pela estreia do novo filme e espera que a história do seu ídolo seja retratada com fidelidade, que o diretor não “enfeite um pouco o pavão”, não tenha muitas liberdades criativas.

E como era esse ídolo, na visão da Mulher Maçã?

“Eu acho que Steve era uma pessoa doce. Não acho que ele era esse carrasco todo que as pessoas às vezes falam. Se eu pudesse ter o poder de trazer alguém de volta, traria ele. ‘Vem cá, meu querido, vamos conversar’.”

Parece algo que ela realmente faria. Dia desses, antes da nossa entrevista, Gracy expôs esse desejo no Twitter:

Petição pela Mulher Maçã no Apple Music

Antes de tudo, Gracy Kelly é cantora. Ela tem algumas músicas lançadas, como Dança dos Thundercats e a quase meta-linguística Chá de Maçã, e começou a divulgar uma nova, intitulada Foda-se, feita em parceria com Mc Moisés — que, acredito, se apega pra valer ao nome e coloca uns figurantes trajados de profeta Moisés, aquele que abriu o Mar Vermelho e tal, em seus clipes. (Gracy avisa que haverá uma versão light para tocar nas rádios, “Dane-se”.)

A letra é totalmente NSFW, ou seja, não ouça perto do seu chefe. E de crianças. E de pessoas que se ofendam com palavrões do tipo “foda-se”, porque o refrão é basicamente isso falado freneticamente um zilhão de vezes:

Nesse momento, enquanto falava sobre trabalho, Gracy deixou escapar uma surpresa ainda sem data prevista para aparecer:

“Junto com meu primo, a gente vem montando algumas ideias — porque ele fala inglês, eu arranho um pouco. Eu fiz uma música para a Apple, que vou lançar em inglês, mas por enquanto ela está guardada, esperando o momento certo (risos) para poder lançar, entendeu?”

Perguntei, então, se ela já tinha usado o Apple Music. Disse-me que não. E ficou chocada ao saber que seu trabalho não está disponível no serviço de streaming de músicas da Apple: “Não tem as minhas músicas! Ah, você tem que começar a reivindicar isso. Vou começar a pedir para o pessoal mandar alguma coisa pra minha música tocar na Apple Music. Porque nada mais justo, né?”

A estreia da Mulher Maçã no Apple Music pode ser aquele momento certo, citado ali em cima, para lançar a música em homenagem à Apple. Tem tudo a ver! E, pelo menos da parte dela, podemos ter esperança:

“Quem sabe a minha nova música, da Apple, não apareça lá?”

Quem sabe? Seria o máximo, Gracy!

Foto do topo: Ego.

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