Um papo com Gracy Kelly, a Mulher Maçã, maior fã de Steve Jobs

Mulher Maçã no lançamento do iPhone 6.

Em outubro de 2011, em meio à comoção que a morte de Steve Jobs causou, uma cantora brasileira chamou a atenção. Era Gracy Kelly, mais conhecida como Mulher Maçã, que num comunicado à imprensa (onde errou a grafia do ídolo, “Esteve”), manifestou seu luto pela partida do co-fundador da Apple.

Desde então, Gracy passou a ser uma espécie de referência popular para assuntos relacionados à Apple, além de lembrar, recorrentemente, a memória de Jobs — o BuzzFeed fez um belo apanhado desses quase quatro anos de devoção póstuma. Não sei se por descuido dos colegas ou desgaste da relação, ainda não tinha lido a opinião dela sobre o primeiro trailer de Steve Jobs, novo filme de Danny Boyle que estreia em outubro. Era a minha deixa.

Em entrevista ao Manual do Usuário, a Mulher Maçã revelou mais detalhes da sua relação com a maior empresa de tecnologia do mundo, seus tratamentos de beleza pouco ortodoxos, criticou a política de preços da Apple do Brasil e revelou, (acho que) com exclusividade, que uma nova música, em homenagem à Apple e gravada em inglês, já está pronta, e aguarda o melhor momento para ser lançada.

“Eu levo as coisas muito no bom humor”

Semana passada fiz algumas perguntas à Gracy, por telefone, que gentilmente as respondeu mesmo tarde e tendo acabado de sair de um trabalho. O trailer do filme era uma desculpa, na verdade, para tentar fazer uma entrevista direito. Ao longo dos anos li e assisti a algumas delas enviesadas, quase maldosas, e isso me incomodava um pouco.

Talvez não fosse a intenção dos jornalistas, mas sempre fiquei com a sensação de que se aproveitam do inusitado da coisa para fazer uma piada forçada e repetitiva. Como na vez que um grande portal brasileiro a colocou num game, com perguntas do nível “o que Jobs comeu no café da manhã do dia da keynote do MacBook Air Plus mid-2009 Pro?”, ou seja, detalhes que FÃS têm na ponta da língua e acham o cúmulo que alguém que se diga um igual não saiba.

No caso da Gracy, esse tom de escárnio parece potencializado: uma celebridade, funkeira, que comete alguns deslizes no que diz respeito à Apple e, ainda assim, se diz a maior fã. É muito fácil migrar do inusitado e do nonsense da situação (que, sejamos francos, existem) para a crueldade pura e simples.

Gracy sente, claro. Logo no começo do nosso papo, ela disse ter achado que “houve até um bullying, a pessoa que está no funk não pode gostar de Steve Jobs, que é um cara super inteligente, e tal…” Fiquei sensibilizado e, mais à frente, impressionado com a postura dela frente a comentários do tipo:

“Eu levo as coisas muito no bom humor. Muitos que até vieram às vezes me xingando de ‘burra’, começaram a me seguir. Essa pessoa que me xingou, eu mandei uma flor e aí já quebrou [a agressão]. Ela começou a me seguir, já virou fã, falou ‘você é maneira!’, sabe… assim? Tudo é a forma com que você transforma as coisas que vêm para você, entendeu? Eu sou formada em administração e contabilidade, e muitas vezes as pessoas não sabem disso, acham que eu trabalho só com funk… e não é por aí.”

Gosto dessa maneira de desarmar alguém que se apresenta como um oponente. A psicologia talvez explique a eficácia desse tipo paradoxal de confronto pela tangente, mas é incrível como funciona, comigo e, pelo visto, com a Mulher Maçã.

Tapa na cara para aumentar os seios

Foto de divulgação da Mulher Maçã.

Gracy admira a Apple há muito tempo, mas o apelido deriva de seus atributos naturais. No caso, o formato do bumbum, que segundo os amigos dela, parece uma… maçã. Mais uma dessas felizes coincidências da vida.

Antes de entrarmos no assunto Apple, rolou um papo sobre saúde e as manias estranhas da funkeira. Na pesquisa que fiz em preparação para a entrevista, li algumas manchetes meio malucas, como a da água vitaminada e o sensacional tratamento tailandês de aumento dos seios baseado em tapas na cara. Sim, bofetadas mesmo. Ao citá-lo, ela garantiu: “Deu [certo], claro que deu. É só você olhar minhas fotos para ver se deu ou não.” Aliás, ela só divulga o que dá certo:

“Olha, sou adepta de todos os procedimentos naturais. Nunca fiz cirurgia plástica, tenho alergia a anestesia, então eu procuro métodos naturais e pode ser de qualquer estilo; se der certo, eu tô fazendo. Só exponho isso na mídia quando realmente vejo que dá resultado.”

Porque… responsabilidades, né?

“Geralmente não gosto de falar do que não funciona. Se não funcionou, por que vou divulgar? Vai que tem algum maluco que pega e fala ‘com ela não funcionou, mas comigo vai funcionar’, então… sabe?”

Outra notícia que parou num desses sites foi a de uma queda de energia recente em sua residência (o mundo do Ego é fascinante num sentido bem torto). Perguntei se alguma coisa da Apple tinha queimado; felizmente, nada: “Da Apple, graças a Deus não queimou! Inclusive, deixei de ir no show da Maria Bethânia por causa disso.” Poxa :/

A Mulher Maçã, a Apple e o vaso sanitário

Gracy Kelly na Apple Store.

E o que ela usa da Apple? Tudo, do celular ao computador, incluindo um iPad. Mas não é tudo atualizado. Brasileira, gente como a gente, Gracy também tem achado meio salgados os preços praticados no Brasil:

“O iPhone 6, sinceramente? Ah não, não dou R$ 3 mil, quase R$ 4 mil num telefone. Aí não.”

Decisões estratégicas à parte, a implicância com valores não muda o que ela sente pela empresa. Porque, além de gostar, há uma espécie de compromisso com os fãs, que sempre aguardam seu parecer:

“Eu peço para mexer nos [iPhones 6] dos meus amigos, para ver o que tem de novo, o que não tem… Porque toda vez que sai alguma coisa da Apple, a imprensa liga para saber o que eu acho, minha opinião. Então estou sempre ligada, antenada, entendeu? Se você ver o meu Twitter… E agora tem uma privada que saiu, que eu quero esse privada. O vaso sanitário é no formato da Apple, da maçã da Apple! É uma privada inteligente. Eu coloquei isso no meu Twitter, nossa… virou um alvoroço.”

Intrigado, fui pesquisar no Twitter dela que raio de privada era essa. É um render de um vaso sanitário que tem, de fato, o formato do logo da Apple, mas sem a mordidinha. E o mais bizarro é que o assento não parece tão desconfortável (o formato do bumbum dela é uma maçã, afinal!), mas aquela caixa ali em formato de folha deve ser bem complicada:

Steve Jobs, o filme

O trailer de Steve Jobs ela ainda não viu (buu!), mas se diz ansiosa pela estreia do novo filme e espera que a história do seu ídolo seja retratada com fidelidade, que o diretor não “enfeite um pouco o pavão”, não tenha muitas liberdades criativas.

E como era esse ídolo, na visão da Mulher Maçã?

“Eu acho que Steve era uma pessoa doce. Não acho que ele era esse carrasco todo que as pessoas às vezes falam. Se eu pudesse ter o poder de trazer alguém de volta, traria ele. ‘Vem cá, meu querido, vamos conversar’.”

Parece algo que ela realmente faria. Dia desses, antes da nossa entrevista, Gracy expôs esse desejo no Twitter:

Petição pela Mulher Maçã no Apple Music

Antes de tudo, Gracy Kelly é cantora. Ela tem algumas músicas lançadas, como Dança dos Thundercats e a quase meta-linguística Chá de Maçã, e começou a divulgar uma nova, intitulada Foda-se, feita em parceria com Mc Moisés — que, acredito, se apega pra valer ao nome e coloca uns figurantes trajados de profeta Moisés, aquele que abriu o Mar Vermelho e tal, em seus clipes. (Gracy avisa que haverá uma versão light para tocar nas rádios, “Dane-se”.)

A letra é totalmente NSFW, ou seja, não ouça perto do seu chefe. E de crianças. E de pessoas que se ofendam com palavrões do tipo “foda-se”, porque o refrão é basicamente isso falado freneticamente um zilhão de vezes:

Nesse momento, enquanto falava sobre trabalho, Gracy deixou escapar uma surpresa ainda sem data prevista para aparecer:

“Junto com meu primo, a gente vem montando algumas ideias — porque ele fala inglês, eu arranho um pouco. Eu fiz uma música para a Apple, que vou lançar em inglês, mas por enquanto ela está guardada, esperando o momento certo (risos) para poder lançar, entendeu?”

Perguntei, então, se ela já tinha usado o Apple Music. Disse-me que não. E ficou chocada ao saber que seu trabalho não está disponível no serviço de streaming de músicas da Apple: “Não tem as minhas músicas! Ah, você tem que começar a reivindicar isso. Vou começar a pedir para o pessoal mandar alguma coisa pra minha música tocar na Apple Music. Porque nada mais justo, né?”

A estreia da Mulher Maçã no Apple Music pode ser aquele momento certo, citado ali em cima, para lançar a música em homenagem à Apple. Tem tudo a ver! E, pelo menos da parte dela, podemos ter esperança:

“Quem sabe a minha nova música, da Apple, não apareça lá?”

Quem sabe? Seria o máximo, Gracy!

Foto do topo: Ego.

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36 comentários

  1. Meu caro, parabéns por essa iniciativa. Isso quebrou alguns preconceitos meus, confesso.
    Agora com meu note novo, seu site estará devidamente colocado na barra de favoritos :)
    Estou pensando seriamente em assinar o Patreon.

  2. Eu nunca me imaginei ouvindo Mc Moisés, e digo mais, ainda mais como recomendação do Manual do Usuário. Pois é, não duvido de mais nada.

    Excelente texto Ghedin, sempre numa linguagem simples e objetiva, além do conteúdo diversificado.

  3. Uma vez por mês o Ghedin vem com um texto totalmente inesperado pra chacoalhar as coisas aqui no site. Incrível.

  4. MC Moisés. Melhor. Nome. Evar. E esse cosplay e essa dancinha aaaaaahhhhhh!!!

    foda-se foda-se foda-se foda-se HAHAHAH por que tu me bota esse vídeo, cara??

    apesar disso, tu é ó, um divo <3 dá muito gosto de te ler.

  5. Esse texto me lembrou, um pouco, o tipo de jornalismo feito pelo VICE (jovial e avesso a velharia viciada q se lê todos os dias na grande mídia preguiçosa), com aquelas pautas nada usuais, mas com o estilo do Ghedin e do site “Manual”. Achei, como os demais, que a entrevistada foi tratada de maneira respeitosa como mulher (tanto que nenhuma piadinhas ou insinuação foi feita) e como uma usuária popular, por assim dizer, da Apple. Eis um bom exemplo de como se materializa, no cotidiano, aqueles conceitos sobre dignidade humana da nossa tão mal tratada Constituição. Parabéns, Ghedin!

  6. É a “maior fã” da Apple mas não possui o último smartphone e não conhece o último serviço lançado pela empresa.
    Faltou perguntar se ela conhece o Apple Watch Ghedin! haha

  7. Desculpa, mas não consegui ler essa matéria a sério. kkkk
    É cada absurdo que duvido que Ghedin não precisou prender umas gargalhadas durante a entrevista.

    1. Esse é o ponto, não tem que rir, é apenas o pensamento dela, se eu sair na rua falando que sou ótimo escritor de C++, a maioria das pessoas vai rir da minha cara, se você for falar com certas pessoas que viveram na época da ditadura militar, e falar que não queriam dar um golpe comunista você ia preso. O que as pessoas tem que ter é bom senso e respeito, hoje em dia não posso falar para qual partido tenho mais afinidade pois vão me xingar e crucificar independente do partido, pois ninguém aceita coisas contrárias as delas.

  8. Vou imprimir e emoldurar esse post para mostrar aos meus netos o significado de respeito e bom humor.

  9. “Em entrevista ao Manual do Usuário”???
    Que isso Ghedin?! nem é primeiro de abril nem nada…

    Eiiiiita!

  10. O interessante nos textos (e até atitudes) do Ghedin é que raramente se vê uma forma desqualificar as pessoas ou as coisas (só no caso de produtos no que o Ghedin considera ruim). Se o Ghedin não fosse um comunicador na área de tecnologia, provavelmente também estaria na área de relações humanas, de social, sempre devido ao tom conciliador.

      1. Inusitado devido ao entrevistado, incomum para techies. Se fosse alguém do mundo tech, o pessoal não ia estranhar :p

        Lembremos também da reportagem sobre os fãs de caminhões e o flogão, ótima matéria também.

  11. “Porque toda vez que sai alguma coisa da Apple, a imprensa liga para saber o que eu acho, minha opinião.”

  12. Li com gosto. Sua escrita está otima Ghedin! Teu servidor aguenta se ela der um RT apontando pro site? Se pá Gracy é um John Grubber às avessas,

  13. Sabe o que eu acho dessa matéria? Foda-se, foda-se, foda-se foda-se foda-se

    hahaha, brincadeira, primeira entrevista respeitosa com uma funkeira, parabéns! (e pena que pelo visto a entrevista não foi presencial né Ghedin?)

    1. Eu ia comentar do presencial, mas ai sei lá né…..
      Seria complicado, muitas maçãs juntas ao mesmo tempo, falando de maça….o cara ia ficar um pouco tenso

  14. Li, e vc tava certo @ghedin:disqus ta no padrão manual do usuário, muito bom!! bem como você disse ali na entrevista, diferente daquelas que parecem destratar a Gracy

  15. Li, e vc tava certo @ghedin:disqus ta no padrão manual do usuário, muito bom!! bem como você disse ali na entrevista, diferente daquelas que parecem destratar a Gracy

  16. “O iPhone 6, sinceramente? Ah não, não dou R$ 3 mil, quase R$ 4 mil num telefone. Aí não.”

    Boa!!

  17. hahaha boa Rodrigo! O legal é que vc conseguiu uma faceta bem criativa da moça… e até tira esse rotulo de futilidade que algumas moças bonitas (fora da Globo) que estão na mídia tem. Ela pegou um filão da época das mulheres-frutas e apareceu em cima disso de forma diferente. Admiro a criatividade dela.

    (ok, pode fazer piada com admiro a ___________ [insira outros atributos] dela). ops

    Mas fico decepcionado com uma pergunta que vc não fez, que poderia incluir maçã + mordida + tipo preferido de conexão no USB, no DOCK + Tapinha no e insira o …

    ERROR

    1. Não me leve a mal, mas vou discordar de vc. Pq se ele tivesse feito piadas nesse sentido o texto não seria a mesma coisa já q, aí sim, ele teria desrespeitado a entrevistada. Vc deve se lembrar, dependendo da sua idade, mas vc pode ver no YouTube, daquela piada do Bussunda com o Ayrton Senna, qdo ele perguntava “as mulheres falam pra vc, ‘acelera Ayrton'”? A piada ali era cabível e tal, mesmo pq o Casseta tinha essa de sempre fazer piadinhas dúbias e tal… Não parece o estilo do Ghedin. A graça da entrevista está bem distribuída no texto e isso foi o complicado. Se ele tivesse feito piadas com conotações sexuais ele teria ido pelo caminho fácil e, dada a onipresença desse tipo de piada, preguiçoso… O fato dele tê-la respeitado como mulher, como pessoa e como fã da Apple é algo raro, cara, ainda mais numa mulher que se expõe bastante em suas performances e deve ouvir todo tipo de merda machista por aí…

      1. Fábio, é bobeira minha, ele fez muito bem em não perguntar nada. Vc tem toda razão. Na verdade eu estou só aqui fazendo papo de boteco, quando vc chega no amigo master profissional e já pelo quarto copo diz “cara, sensacional, mas me conte… como foi falar com aquele mulherão?” E ai estou fazendo piadas que só falamos entre homens;

        Por isso a tiração de sarro é pra ele, o Rodrigo, mesmo. Fora que entrevistar um mulherão cuja a maçã do nome artistico se refere a anatomia protuberante é tenso…….e não estou falando no sentido machista. No sentido intimidador mesmo…. e sobre a Moçca-Maçanzinha em si, acho que piada besta machista diretamente pra ela (Aqui estamos entre nós) é inválido. Mas um flertezinho bem colocado e classudo, porque não?

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