Foto de um panda vermelho na natureza.

Apple e Mozilla mostram caminhos diferentes para a privacidade online


7/6/19 às 15h08

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A pressão nas grandes empresas de tecnologia está aumentando, em grande parte devido aos abusos com a privacidade dos usuários. Das cinco, a Apple é a que desfruta da melhor posição — há acusações e ameaças de investigações antitruste contra ela, mas nada relacionado à privacidade.

Na segunda (3), na abertura do seu evento anual para desenvolvedores, a WWDC, mais uma vez a Apple anunciou novidades e soluções elegantes e que reforçam a postura pró-privacidade. Algumas, como o “login com Apple”, são quase declarações de guerra contra as outras gigantes do setor que faturam em cima de dados pessoais, como Facebook e Google, além de dar munição àqueles que a acusam de práticas monopolistas.

Isso só é possível porque a Apple pode. Mérito dela, que desenvolveu um modelo de negócio extremamente lucrativo à margem dos dados dos seus clientes. Nenhuma solução é perfeita, porém, e a da Apple tem os seus próprios problemas. O mais flagrante é que jamais é uma boa depender da boa vontade de uma empresa de capital aberto. Se os ventos mudam e a necessidade de apresentar bons números ao mercado no fim do trimestre se torna urgente, o que garante que um compromisso com o consumidor será honrado? A Apple vem dobrando a aposta em privacidade, o que torna improvável e potencialmente mais danoso à sua imagem uma virada de mesa, mas não impossível.

No mesmo dia da abertura da WWDC, sem evento e com menos pompa, a Mozilla, uma fundação sem fins lucrativos, anunciou algumas novidades também. Entre elas, destaque para o Firefox, que agora sai de fábrica configurado para limitar a utilização cruzada de cookies em sites (veja todas no final da matéria). É um passo importante por uma web mais segura e privada e que se alinha à mensagem que a Mozilla sempre passou — também pró-privacidade — e que tem reforçado nos últimos dois anos, desde que abandonou aventuras como um sistema operacional para celulares e voltou a focar em fazer um navegador decente.

O Firefox é gratuito, o que significa que é acessível, inclusivo, e tem o código aberto, o que lhe confere pontos extras em transparência e confiança. O iPhone mais barato custa mais de R$ 4 mil no Brasil, uma faixa de preço rarefeita de pessoas com renda para despender tal valor em um celular. Já bati na tecla de que a privacidade online não deveria ser um item de luxo, coisa que a atuação da Apple, intencionalmente ou não, reforça. Ainda assim, não tê-la fazendo esse papel seria pior. Uma empresa desse tamanho impor-se a favor da causa ajuda que outras menores enveredem pelo caminho da privacidade e equilibra a narrativa das demais gigantescas. No mínimo, ajuda a evidenciar a fragilidade dos discursos de um Google da vida, quando se diz defensora da privacidade em anúncios de novos produtos apenas para, dias depois, ser pega no pulo salvando em local obscuro e sem avisar a ninguém todas as compras online dos usuários do seu e-mail — caso use Gmail, veja o seu histórico aqui.

Seria ótimo termos mais alternativas como a Mozilla: com produtos honestos, de boa qualidade, gratuitos, de código aberto, fáceis de usar e feitos com a privacidade em mente. Apesar dos seus problemas (a dependência de receita dos anúncios do Google, por exemplo), o Firefox nos lembra que a tecnologia, embora esteja cada vez mais voltada ao lucro, também pode — deve — existir para fins mais nobres.

As novidades da Mozilla

Tela de configurações de privacidade do Firefox.
Imagem: Mozilla/Reprodução.

Agora o Firefox (download) bloqueia, por padrão, cookies de terceiros que rastreiam o usuário em sites cruzados. O novo padrão, por ora, vale apenas para novas instalações do navegador. Se você já usa o Firefox, aguarde alguns meses para virarem esta chave na base instalada ou altere a configuração manualmente agora: acesse Preferências, depois Privacidade e Segurança, marque a opção Personalizado e em Cookies, selecione Rastreadores de terceiros.

Dica: na mesma tela, você pode ativar o bloqueio de rastreadores gerais (não só cookies). Em Rastreadores, mude o seletor de Só em janelas privativas para Em todas as janelas e marque a opção Fingerprinters. Atente que, em alguns casos, sites podem não funcionar ou apresentar erros.

Outros anúncios da Mozilla do último dia 3:

  • O Facebook Container, extensão para Firefox que abre o site do Facebook em uma aba isolada no navegador para dificultar o monitoramento das atividades do usuário na web pela rede social, agora bloqueia botões e outros elementos do Firefox em sites de terceiros.
  • O gerenciador de senhas Lockwise (antigo Lockbox) ganhou uma extensão para Firefox. Ele também está disponível na forma de apps para Android e iOS.
  • O Firefox Monitor, um serviço que informa o usuário de vazamentos públicos que contêm seu endereço de e-mail e avisa caso futuros vazamentos o incluam, ganhou um monitor na web para o gerenciamento de múltiplos endereços de e-mail.

Foto do topo: Mathias Appel/Flickr.

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