Moto G na mão.

[Review] Moto G (2015): ainda competente, só que mais caro


23/10/15 às 9h53

Quem compra um iPhone raramente quer saber a velocidade do processador, quanto de RAM ele tem ou qualquer outra especificação. As pessoas, a maioria, compram porque é um iPhone e fazem isso porque sabem que ele é bom. É difícil encontrar um paralelo desse status no universo Android. Para mim, o mais próximo dele é o Moto G da Motorola.

O Moto G surgiu em 2013 como um projeto intermediário de qualidade. Na época, os concorrentes diretos ainda não entregavam tela de alta definição, economizavam em memória e traziam outros comprometimentos bobos, injustificáveis. A Motorola elevou o nível da categoria e desde então colhe os frutos da sua ousadia — o Moto G é o smartphone mais vendido da história da fabricante e líder de vendas no Brasil.

O mercado de smartphones meio que pede por atualizações anuais e, sendo assim, vimos há pouco o lançamento da terceira geração do Moto G. O que mudou em relação ao ano passado? Mais importante que isso: o que não mudou? Como melhorar algo tão bem aceito e já difundido no país?

As poucas mudanças do novo Moto G

Moto G com a tampa de trás aberta.
4G para todos.

Olhando de longe, é difícil detectar as novidades do Moto G de terceira geração. O tamanho da tela foi mantido e o visual, embora traga mudanças em diversos detalhes, mantém o design que vem sendo marca registrada da Motorola desde o Moto X original: frente limpa, costas e ângulos arredondados, o “M” do logo da Motorola numa depressão bem no meio do aparelho, abaixo da câmera, para apoiar o dedo indicador — ainda que, agora, a profundidade tenha diminuído e o posicionamento não privilegie mais tanto a ergonomia desse curioso, mas útil detalhe.

De perto, porém, as novidades começam a ser vistas. E sentidas. O novo Moto G é ligeiramente mais pesado e 0,6 mm mais grosso. São pontos imperceptíveis isoladamente, que só se notam se ele estiver lado a lado com um Moto G antigo. Nesse sentido, pois, o salto geracional não trouxe mudanças tão significativas quanto as ocorridas entre a primeira e segunda versões.

Moto G lado a lado.
À esquerda, o Moto G de 2ª geração.
Duas gerações de Moto G, de perfil.
O novo Moto G (à direita) é ligeiramente mais grosso e pesado.

O que mais se sente pelo tato é a nova textura nas tampas originais. Há uma ranhura diagonal que ajuda na empunhadura, dificultando aquelas escorregadas que alguns modelos, especialmente os com acabamento em vidro, propiciam. Esteticamente é uma faca de dois gumes: de um lado, perdeu a tendência a ficar engordurada, do Moto G antigo; por outro, é fácil acumular sujeira nos vãos. Nada que um mergulho não resolva — e, felizmente, este Moto G tem proteção IPX7, ou seja, pode ficar a até um metro embaixo d’água durante 30 minutos sem sofrer danos.

A menos que algo muito específico ou impossível de detectar tenha sido alterado, a tela parece rigorosamente a mesma da versão anterior do Moto G. Ela tem 5 polegadas, resolução HD e é feita com a tecnologia IPS — na prática, espere pretos meio acinzentados, mas tonalidades mais naturais, sem serem super saturadas. Ela é boa, mas é questão de tempo até intermediários começarem a apresentar resolução Full HD — que considero ideal para telas grandes (+5″). Seria bacana se o Moto G fosse, mais uma vez, pioneiro em elevar esse aspecto da categoria. Pode acontecer eventualmente, mas não foi em 2015.

Tela HD do Moto G: a mesma do ano passado.

Em termos de desempenho, o Moto G de terceira geração ganhou um SoC novo, o Snapdragon 410 com processador Cortex-A53 quad-core, rodando a 1,4 GHz. É uma evolução natural em relação ao Snapdragon 400 das gerações passadas, ou seja, não espere um ganho dramático em desempenho. Ele continua funcionando bem, mas sem surpreender por velocidade ou agilidade.

A RAM melhorou, mas apenas para quem pode pagar mais. E, para mim, essa foi a pior decisão que poderia ser tomada pela Motorola. O Moto G de entrada vem com 1 GB, mas é possível dobrar esse número pagando a mais. É um diferenciador ruim, porque afeta diretamente a experiência de uso. Hoje, com o Android 5.0 e superiores, 1 GB é pouco.

Moto G na mesa.

Quem compra o Moto G mais simples tem uma experiência decididamente pior. Há uma ruptura na consistência da marca “Moto G” que joga contra aquela ideia da compra pela reputação comentada no início deste texto. Até o ano passado, bastava dizer “Moto G” a quem pedia uma indicação de smartphone mid-range. Hoje, é preciso fazer toda uma ressalva: “Moto G, mas preste atenção para pegar o modelo de 2 GB. Só que ele custa mais caro, mas a diferença compensa…” enfim, você entendeu onde quero chegar.

A mesma ressalva vale para o espaço interno. Smartphone com 8 GB, dos quais uns 3 GB se perdem de cara para o sistema e apps pré-instalados, é pouco. Outras fabricantes já se comprometeram a não lançar smartphones com menos de 16 GB. É algo importante e uma prática que a Motorola deveria adotar.

Se perdeu nesses dois pontos, em outro o Moto G sai na frente da concorrência: 4G para todos. Todas as versões são dual SIM e compatíveis com as rápidas redes 4G LTE, cada vez mais populares e acessíveis. É uma boa desde já; e, mesmo para quem ainda tem um chip ou plano restrito ao 3G, é uma garantia para o futuro na qual vale a pena investir. Uma coisa é querer vídeos 4K para, um dia, quem sabe, vê-los na TV da sala; outra é ter 4G, tecnologia mais palpável, acessível e que impacta diretamente a experiência de uso.

Os péssimos fones de ouvido do Moto G.

De resto, a bateria cresceu um pouco (2470 mAh contra 2070 da versão anterior), mas nada capaz de fazer diferença naquele mítico “um dia longe da tomada”. Outra novidade é que, nas versões compatíveis, a TV digital agora é em alta definição em vez daquele padrão 1Seg. E, de verdade, Motorola: troque esses fones de ouvido. São absurdamente horríveis e desconfortáveis, e, com concorrentes diretos entregando fones bons com smartphones mais baratos que o Moto G, vergonhosos.

Câmera (mais ou menos) do Nexus 6

Detalhe da câmera do Moto G.

Se você acompanha os reviews do Manual do Usuário, deve saber que o quesito câmera é sempre complicado de se analisar em smartphones intermediários. O Moto G promete bastante aqui: dentro dele a Motorola incluiu o mesmo sensor usado no Nexus 6 (não lançado no Brasil), um smartphone de US$ 650. (Nos EUA o Moto G custa menos de US$ 200.) Trata-se do IMX214, da Sony, com resolução máxima de 13 megapixels. Embora a câmera do Nexus 6 não se equipare às dos demais topos de linha, ela está claramente acima das de quaisquer aparelhos mid-range.

O problema é que uma câmera resulta do conjunto de alguns fatores, e, no Moto G de terceira geração, falta alguma coisa. As fotos noturnas são visíveis e aproveitáveis, o que já pode ser considerado um feito nessa faixa de preço, porém ainda há bastante ruído. Ela é boa, mais do que se esperaria de um smartphone abaixo de R$ 1.000, só não é nada de outro mundo.

Em condições ideais, “boa” vira “fotos muito bonitas”. Alguns resultados são, de fato, impressionantes. E além do trabalho feito na câmera principal, a Motorola também aumentou a resolução (agora 5 megapixels) e fez alguns ajustes na frontal, que melhorou perceptivelmente.

Veja algumas fotos que fiz por esses dias:

À luz do dia, a câmera faz bonito. f/2; 1/60s; ISO 80. Redimensionada para 742x417.
À luz do dia, a câmera faz bonito. f/2; 1/60s; ISO 80. Redimensionada para 742×417.
Foto bem complexa, com pouquíssima luz. f/2; 0.06668s; ISO 1250. Redimensionada para 742x417.
Foto bem complexa, com pouquíssima luz. f/2; 0.06668s; ISO 1250. Redimensionada para 742×417.
Outra boa foto à luz do dia. f/2; 1/232s; ISO 50. Crop de 100%.
Outra boa foto à luz do dia. f/2; 1/232s; ISO 50. Crop de 100%.
Vez ou outra a tonalidade/temperatura fica esquisita. f/2; 1/30s; ISO 64. Redimensionada para 742x417.
Vez ou outra a tonalidade/temperatura fica esquisita. f/2; 1/30s; ISO 64. Redimensionada para 742×417.
Foto noturna que, apesar do ruído, saiu bem visível. f/2; 0,06668s; ISO 1250. Crop de 100%.
Foto noturna que, apesar do ruído, saiu bem visível. f/2; 0,06668s; ISO 1250. Crop de 100%.
Selfie com a câmera frontal do Moto G.
Câmera frontal. f/2,2; 1/30s; ISO 400. Redimensionada para 742×1319.

Para ver todas em tamanho natural, acesse este álbum no Flickr.

Android puro, como sempre

O Moto G sai de fábrica com o Android 5.1.1 sem muitas modificações. Softwares básicos da Motorola, como o Assist e o Migração, seguem ali (até o Android 6.0, pelo menos) e, além deles, a fabricante trouxe recursos antes presentes apenas na linha Moto X e no Moto E deste ano.

Com gestos, por exemplo, é possível ligar a câmera (girar o pulso duas vezes) ou acender a lanterna (“martelar” o ar duas vezes). Parece bobagem, mas são coisas úteis no dia a dia, mesmo com a câmera relativamente lenta para abrir do aparelho. A outra novidade importada dos irmãos da casa é a Moto Tela, que exibe esporadicamente um atalho de desbloqueio e notificações na tela sem que seja preciso apertar qualquer botão. Como o Moto G carece dos sensores extras e super precisos do Moto X, aqui ele responde a gestos mais bruscos. E como a tela usa um painel IPS, e não AMOLED, a economia de energia é bem menor. De qualquer forma, ele continua útil e é difícil voltar a usar smartphones sem esse mecanismo depois de se habituar a ele.

O Moto G ainda vale a pena?

Botões laterais do novo Moto G.

A versão do Moto G que a Motorola cedeu ao Manual do Usuário contava com 1 GB de RAM (boo!), 16 GB de espaço interno, TV digital e duas capas extras. É uma das que estão à venda no varejo, ou seja, sem personalizações mais profundas. No momento, o preço mais em conta é de R$ 967, na Ricardo Eletro. No Moto Maker, a configuração similar sai por R$ 1.053 à vista.

É um valor salgado para o que o Moto G oferece e, mais ainda, para um smartphone com apenas 1 GB de RAM. Ele é usável, bastante até, mas é inegável que algumas trocas entre apps e ações se beneficiariam muito do dobro disso. E considerando que concorrentes mais em conta oferecem essa memória extra custando menos (Redmi 2 Pro e Zenfone Go por R$ 799 cada, ou Quantum Go por R$ 699), tendo-os em perspectiva tal limitação vira uma grande bola fora. E nem entramos no mérito dos high-end do ano passado, como Moto X e G3, que ainda batem um bolão e frequentemente aparecem por menos de R$ 1.000…

O Moto G, porém, segue como uma compra certa, sem muito risco. Tudo funciona bem na medida do valor pago. Nesse sentido a Motorola faz um bom trabalho, não deixando margem para decepções. Você sabe de antemão o que está comprando e, pela fama (justificada) da linha, o que esperar dele. É o que um hipotético iPhone popular/mais barato seria.

Com tantas opções competentes e mais baratas no mercado, o Moto G deixou de ser a escolha óbvia entre os mid-range. Mas continua a ser uma, porque não há nada nele capaz de me fazer desaconselhá-lo. Ele não ganha mais de ninguém em custo-benefício, mas continua sendo um ótimo smartphone.

Revisão por Guilherme Teixeira.

Assine o Manual do Usuário

Ao acessar este blog, você não é rastreado ou monitorado por empresas como Google, Facebook e outras de publicidade digital. A sua privacidade é preservada. O Manual do Usuário tenta viabilizar-se por métodos alternativos e éticos. O principal é o financiamento coletivo. Colabore — custa a partir de R$ 9 por mês:

Assine no Catarse