Linha do tempo revela falhas na narrativa que atribui vazamentos da Lava Jato a hackers paulistas

Sergio Moro deitado sobre uma mesa.

Nunca houve tamanha preocupação com segurança digital no Brasil como agora, resultado dos respingos flamejantes da divulgação de conversas comprometedoras via Telegram entre membros da força-tarefa da Lava Jato e o ex-juiz federal Sergio Moro pelo The Intercept Brasil (TIB) desde o início de junho.

Em sua atabalhoada estratégia de defesa, Moro, hoje ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Jair Bolsonaro, apressou-se em atribuir a supostos hackers, presos pela Polícia Federal nesta terça-feira (23), a origem do vazamento obtido pelo TIB. Editores da publicação relembraram, via redes sociais, que nunca disseram que a fonte era um hacker. Esta não é a única incongruência na narrativa de Moro.

Uma linha do tempo expõe muitas falhas na argumentação do ministro.

No dia 4 de junho, Moro teve sua linha telefônica hackeada. De acordo com a Folha, o invasor teve acesso ao número por seis horas, período no qual trocou mensagens com outras pessoas se passando por Moro. Este soube que tinha sido vítima de “clonagem” ao ser avisado por um repórter da revista Época e quando recebeu uma ligação dele mesmo (!), o que fez com que ele solicitasse o cancelamento da linha.

Em nota divulgada na época, a assessoria de Moro disse que ele deixara de usar o Telegram havia dois anos, ou seja, em 2017. Isso é importante porque o Telegram exclui totalmente contas inativas há seis meses, com a opção de estender esse prazo a no máximo um ano. O invasor da ocasião não teria como recuperar as conversas pois elas já teriam sido excluídas pela plataforma há pelo menos um ano.

Telas do Telegram com opções para a exclusão automática da conta.
Imagens: Telegram/Reprodução.

No dia 7 de junho, durante um evento em Chapecó (SC), o próprio Moro confirmou o cancelamento da linha invadida e disse que o invasor não havia capturado dados seus. A fala na íntegra:

“Houve uma clonagem do meu celular, é o que nós levantamos, e que qualquer um pode ter o celular clonado. Não houve uma captação do conteúdo do dispositivo. Apenas eu tive que me desfazer da linha porque alguém acabou utilizando a mesma linha.”

No domingo seguinte, 9 de junho, o TIB soltou as primeiras reportagens da Vaza Jato. Diálogos envolvendo Moro e o procurador e coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, colocaram em dúvida a imparcialidade do então juiz Moro, uma prerrogativa constitucional de todo acusado, e que fora determinante na corrida presidencial de 2018 por tirar da disputa o então líder das pesquisas, o petista Lula. Moro beneficiou-se diretamente do resultado, ganhando uma vaga de ministro no governo de Bolsonaro, eleito presidente do Brasil.

No mesmo dia, notei que os diálogos tinham um personagem comum, Dallagnol, o que dava subsídio para sustentar a tese de que ele fora o vetor do vazamento, e não Moro. Dias depois, em 13 de junho, a Polícia Federal anunciou ter chegado à mesma conclusão.

Moro enrolou-se em sua defesa. Na mesma noite em que o TIB divulgou as primeiras reportagens, o ministro soltou uma nota dizendo que as mensagens não continham ilegalidades ou erros — confirmando, ainda que tacitamente, a autenticidade delas:

“Quanto ao conteúdo das mensagens que me citam, não se vislumbra qualquer anormalidade ou direcionamento da atuação enquanto magistrado, apesar de terem sido retiradas de contexto e do sensacionalismo das matérias, que ignoram o gigantesco esquema de corrupção revelado pela Operação Lava Jato.”

Depois, a estratégia mudou para descreditar a autenticidade das mensagens. No dia 2 de julho, na sabatina a que se submeteu na Câmara dos Deputados, Moro cometeu esta atrocidade contra a lógica:

“Eu não reconheço a autenticidade dessas mensagens. (…) Podem até algumas serem.”

O último desdobramento da defesa do ministro foi desviar o foco do conteúdo das mensagens para a maneira como elas foram obtidas, segundo ele, ilegalmente — ainda que a Constituição garanta o sigilo de fonte a publicações jornalísticas.

Neste ponto, a confusão aumentou ainda mais com a entrada de um perfil apócrifo com temática galinácea no Twitter que prometia revelar um suposto esquema envolvendo editores do TIB e hackers, reforçado por uma das reportagens mais vexatórias da história do jornalismo brasileiro, obra da revista Isto É, que ligava o vazamento dos diálogos a hackers na Rússia e em Dubai (?):

Capa da revista Isto É com o suposto hacker russo de Moro.
Imagem: Isto É/Reprodução.

Os hackers russos calharam de ser, na realidade, quatro estelionatários que vivem no interior de São Paulo, em cidades como Araraquara. Um dia após a prisão dos supostos hackers paulistas, 24 de julho, Moro foi ao Twitter e, talvez fazendo uso de dom premonitório que ainda desconhecemos, condenou os suspeitos e afirmou serem eles a fonte do TIB:

“Parabenizo a Polícia Federal pela investigação do grupo de hackers, assim como o MPF e a Justiça Federal. Pessoas com antecedentes criminais, envolvidas em várias espécies de crimes. Elas, a fonte de confiança daqueles que divulgaram as supostas mensagens obtidas por crime.”

O que não faz nenhum sentido a menos que ele tenha mentindo muito quando da invasão do seu celular.


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Além disso, é preciso atentar à distância temporal entre a invasão e a publicação da primeira reportagem da Vaza Jato: apenas cinco dias. Glenn Greenwald, cofundador e editor do TIB, disse que o arquivo de conversas que eles têm “é maior que o arquivo que recebemos do Snowden”, em referência ao escândalo de espionagem da NSA nos Estados Unidos, em 2013.

Não diria que é impossível, mas seria no mínimo irresponsável a qualquer publicação apurar e colocar no ar uma reportagem de tamanha relevância com base em um arquivo tão extenso. Se alguém conseguir fazer isso em cinco dias, ainda mais em uma equipe pequena como a do TIB e com um resultado tão apresentável e detalhado (sem nem entrar no mérito do conteúdo), é um feito e tanto, digno de ser analisado e aprendido em todas as redações e faculdades de jornalismo mundo afora.

De qualquer forma, no texto em que explicam a metodologia das reportagens, publicado também em 9 de junho, os jornalistas do TIB disseram que a fonte havia entrado em contato “há diversas semanas” e que ela não teria relação com a notícia da invasão ao celular do Moro.

Todos têm direito à defesa, mas é preciso coerência no discurso. Não há base factual, pelo menos do que se sabe publicamente — conforme demonstrado acima —, que sustente a história de que os supostos hackers paulistas tenham vazado as conversas ao TIB. E, convenhamos: hackers que não se dão ao trabalho de esconder o próprio endereço IP e que usam Windows 10 minam ainda mais a credibilidade dessa narrativa.

Atualização (15h30h): Correção da data da prisão dos quatro hackers paulistas. O texto original dizia que elas haviam ocorrido na quarta (24), mas foram na terça (23).

Atualização (14h): para incluir a informação de que os jornalistas do TIB informaram que a fonte havia entrado em contato há “diversas semanas” e que ela não teria ligação com a invasão ao celular de Moro no dia 4 de junho.

Foto do topo: PT/Flickr.

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34 comentários

  1. Só acho que o lance da Manuela estar envolvida neste caso manchou e muito sua reputação. Que tipo de aspirante a vice presidente tem contatos com hackers que possuem informações privadas de autoridades e ao invés de informar as autoridades lhes fornece o contato de um militante travestido de jornalista?
    Isso não existe! E até agora não vi nada que incriminasse diretamente o Moro. Se querem proibir que juízes tenham contatos com procuradores e advogados deveriam começar pelo próprio STF. No mais, concordo com o Rodrigo aí de cima: o Brasil tá chato. Amizades e laços familiares sendo desfeitos por causa de políticos corruptos. Esperava um ambiente mais isolado dessa dicotomia esquerda/direita no MdU.

    1. Ela foi rackeada também. Foi assim que o cara ligou para ela. Ela nunca o tinha visto nem sabia quem era. Na hora, indicou o Gleen, que retornou para o tal hacker apenas 10 minutos após o contato dele com Manuela. Liso. Transparente. Ela ofereceu o celular para perícia.

  2. Parece que a invasão ocorreu mesmo, e de forma simples, quase banal. Simplesmente foi solicitando o envio do código de autenticação do Telegram por voz. A ligação de voz era feita e caía na caixa postal. Depois tão somente se acessava a caixa postal, que estava sem senha, remotamente. Com isso se abria o acesso ao Telegram Web.

    Se foi assim, grosso modo, o que ocorreu, não houve, a rigor, uma invasão do celular, e sim do Telegram.

  3. A história de que o suposto hacker teria contatado Manuela D’Ávila em 12/5, e daí iniciado os contatos com o TIB, só me faz acreditar que esse cara não é a única pessoa na face da Terra que conseguiu acessar contas/criar contas no Telegram nos números das pessoas mencionadas.

  4. Acho que se deveria apurar se a pequena diferença temporal entre a notícia da invasão ao celular de Moro e a publicação da primeira reportagem do The Intercept (cinco dias, como este texto ressalta) não se deve ao fato de o site ter a prática de comunicar previamente aos envolvidos sobre as matérias para que se manifestem sobre os fatos constantes nas reportagens antes mesmo da publicização do texto final da matéria. Talvez a notícia da invasão tenha sido inventada justamente pra se ter um terreno mais ou menos preparado pra tratar de saídas de interesse de Moro e sua corja.

    1. O TIB informou, quando da primeira publicação, que não entrou em contato previamente com os citados para evitar que, de alguma forma, a publicação da reportagem fosse impedida.

  5. Véi na moral, um cara que se diz hacker devia ter cuidado de pelo menos mascarar o IP. No mundo de criptomoeda os caras receberem dinheiro em conta corrente é botar um alvo na bunda

  6. E esse detalhe do twitter?! Agora acho que somente o twitter pode confirmar ne

    “A PF investiga a razão de os tuítes de Walter Delgatti Netto, o ‘Vermelho”, apesar de aparecerem como sendo feitos em Araraquara (SP), na verdade, o sistema interno do Twitter registraram como sendo postados de Brasília desde o dia 15 deste mês.”

    https://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/estranhezas-das-postagens-do-vermelho-o-hacker-preso-pela-pf.html

  7. Está claro que essa história é pra tentar desacreditar a reportagem do TIB. Não existe possibilidade dessas pessoas estarem envolvidas no vazamento de dados da Lava Jato.

  8. Acho desnecessário um site de tecnologia entrar em quizumbas políticas. Antes tivesse sido atento apenas à possível técnica de invasão ou às falhas de segurança no uso dos aplicativos, mas quando propõe um rascunho teórico sobre as falas dos envolvidos no caso, ou juízo de valor sobre uma matéria investigativa de uma matéria plenamente política, de uma revista de política…Esse mundo já está chato demais. E antes que digam: eu odeio o Bolsonaro, mas bom senso é um caminho sem volta quando você o assume.

        1. Ele é dono do blog e não precisa de visualizações / assinantes. Assim ele se dá ao luxo de ser arrogante com quem discorda dele. Entendeu?

          1. O detalhe é que eu sou assinante, and trabalho com jornalismo tb. Nada pessoal, admiro o trabalho do Ghedin, mas estava procurando uma leitura mais leve e sem o peso do discurso político.

        2. Pode. Desculpe pela minha resposta, foi — ela sim — desnecessária, agressiva.

          Antes da publicação, avaliei a pertinência do assunto neste espaço. Julguei válida porque é um grande exemplo de como a tecnologia pode servir de bode expiatório para interesses escusos. O Manual defende mais atenção à segurança e à privacidade nas relações mediadas pela tecnologia; concluí, pois, que não deveria me omitir em um caso flagrante e relevante de mau uso desse posicionamento a fim de bagunçar o debate público.

          Não encarei o artigo acima como rascunho teórico. É apenas um relato, uma reconstituição da linha do tempo a fim de apontar incongruências óbvias no caso.

          O Manual está mais “pesado” desde o começo do ano, é notório e sou o primeiro a admitir, mas acho que não poderia ser diferente a menos que me alienasse de tudo o que está acontecendo. É um caminho, mas um que não me interessa muito.

          Se quiser trocar uma ideia, reservadamente, sobre linha editorial, incidência da política nas matérias do site ou qualquer assunto relacionado, me manda um e-mail: ghedin@manualdousuario.net.

          1. Legal Ghedin, entendo e defendo sua liberdade de abordar qualquer assunto que achar pertinente — isso, aliás, é a base da liberdade de imprensa —, só achei que existiam formas menos “polêmicas” para entrar no assunto, do ponto de vista do mundo da tecnologia. Não acho que não podemos entrar em polêmicas, mas acho que dá para equilibrar isso quando não temos um site de política nas mãos. Está tão chato ver a política (na verdade essa polarização que parece infantil e irreversível) permeada em todos os lados, que às vezes só queremos “respirar o ar puro” e observar alguns assuntos por outros ângulos.

            Um abraço, e continue com o ótimo trabalho.

          2. Acho bom VOCÊ escrever sobre isso porque tenho visto certos sites de tecnologia brasileiros apenas reproduzindo “versão oficial” do governo sem nenhum senso crítico e deixando a farra rolar solta nos comentários.

    1. Tecnologia sem senso crítico é exatamente o grande problema da tecnologia e dos blogs que cobrem tecnologia no Brasil (e muitas vezes no mundo).

      E, sendo ainda mais chato, o grande problema que me salta aos olhos quando o Ghedin publica matérias que os outros veículos usualmente não fazem não é, essencialmente, o teor da matéria em si (política + tecnologia) e sim o posicionamento dele perante o assunto. Se ele tivesse um posicionamento “liberal” como o visto no Meio Bit ou Tecnoblog provavelmente a maioria dos leitores que reclamam desse viés não viria a reclamar.

      Ou seja, seu comentário reclamando da política na matéria é, essencialmente, político.

        1. Não acho que seja necessariamente desnecessário porque é uma visão de dentro da tecnologia sobre um assunto. Como eu disse, majoritariamente temos veículos de TI sempre pendendo pro lado liberal, isso é notório, e muitas vezes tomando lado e falando de política de forma sutil dentro de textos que tangenciam o assunto TI ou que se fazem na interdisciplinaridade entre TI/Jornalismo/Sociologia. Dentro deste contexto (e na verdade, em qualquer outro) a ideia de ter uma opinião contra a corrente é bem vinda. E mais do que isso, uma opinião que se mostre sempre como opinião e não disfarçada de artigo técnico.

      1. Senso crítico ? O que o Ghedin faz no MdU a tempos não é jornalismo, o mesmo já disse que não existe imparcialidade no meio. Enfim, só cheguei até aqui por que me enviaram a matéria, e continua a mesma coisa. Jornalismo Tech-Político. Passo.

        1. Felipe, não existe imparcialidade no jornalismo. Se alguém lhe disser que sim, ou está mal informado ou mal intencionado.

          O mero ato de escolher cobrir um assunto ou não é determinado pela parcialidade do editor. A maneira de contar a história, a abordagem, as fontes ouvidas… um bom jornalista deve estar aberto a caminhos diferentes daquele traçado na construção da pauta, mas ele tem um norte e, se o caminho que se revela for muito diferente desse norte, a pauta cai.

          Veja este exemplo do Estadão. Cravaram na terça: “PF prende 4 hackers que invadiram celular de Moro”. Qualquer manual de redação (provavelmente o do próprio Estadão também; nunca li) reza que suspeitos devam ser tratados como tal. Que base o jornal tinha para afirmar que os quatro presos são os hackers que invadiram o celular do Moro? E por que neste outro caso, por exemplo, o suspeito do crime, reconhecido por 14 vítimas, foi tratado como “suspeito”?

          A parcialidade, obviamente, não é explícita. Está nas entrelinhas.

        2. Porque não seria jornalismo? No que difere o texto dele de, por exemplo, qualquer um do Tecnoblog falando sobre privatizações e deixando subentendido, por exemplo, que deveríamos privatizar os Correios? É o mesmo teoria tech-político mas se forma “velada” e escondida na leitura mais rápida.

          Jornalismo não é apenas o que você gosta. Felizmente.

    2. poxa, rodrigo…
      este é um dos poucos sites brasileiros q trata a tecnologia do ponto de vista crítico (e isso envolve política, inevitavelmente). entendo q seja mais confortável ler ou ver vídeos sobre produtos (eu mesmo faço isso às vezes pra dar uma relaxada), mas a parte problemática da tecnologia é, sem dúvida, a mais interessante – apesar de poder ser a mais rejeitada a depender da abordagem.
      o mdu é uma proposta diferente e autoral q, a meu ver, é sólida e agrada as pessoas com esse interesse não contemplado na maioria dos sites. mudar isso seria ter só mais do mesmo e seria uma grande perda…
      a lavajato se gabava da habilidade tecnológica em desbaratar bandidos e agora vemos como essa tecnologia (mesmo sem habilidades) pode revelar lados obscuros dessa narrativa. esse tipo de conteúdo teria valor em qualquer lugar do mundo, pq não aqui?

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