Não basta pensar, é preciso ser como os bilionários

Sean Parker, um dos bilionários do livro.

Existem inúmeras medidas de sucesso, embora sejamos bombardeados por algumas poucas: emagrecer, ser popular e, disparada a maior delas, ter dinheiro. Não há fórmulas para conquistar esses sucessos ou seríamos todos magros, requisitados e ricos, mas vender a ideia de que eles estão ao alcance de qualquer um é, em si mesmo, um negócio rentável. Pode ser um esquema suspeito que privilegia uns poucos em detrimento de muitos, como os de pirâmide, ou, de uma forma menos danosa e mais opaca, um discurso que normaliza situações especiais.

A Forbes é uma revista que publica artigos originais sobre finanças, indústria, investimentos e marketing. É direcionada a executivos e tomadores de decisões, e ao grande público talvez seja mais conhecida pelas suas listas como a de bilionários. Também constam nas páginas da revista perfis de executivos de sucesso. O livro Pense Como os Novos Bilionários, organizado por Randall Lane, editor da Forbes, é uma coletânea de alguns desses perfis tendo como ponto comum a área de atuação dos entrevistados: a tecnologia de consumo.

São onze capítulos, ou perfis, de gente como Sean Parker (Napster, Facebook, Airtime), Elon Musk (Tesla, SpaceX) e Evan Spiegel (Snapchat). Os perfis foram publicados no início da década e atualizados para a publicação do livro, em 2016. Pela celeridade desse mercado, com mudanças profundas ocorrendo em intervalos curtos, algumas coisas já estão desatualizadas (no capítulo sobre Jan Koum, do WhatsApp, fala-se em meio bilhão de usuários do app; esse número já dobrou). Tais alterações não invalidam a mensagem que se pretende passar com o livro.

Essa mensagem, desenhada pelo leitor ao se deparar reiteradamente com os traços comuns a todos os empreendedores entrevistados, pode ser resumida no comprometimento, na frieza ao correr riscos e tomar decisões difíceis, no tino para oportunidades e, em muitos casos, no conhecimento técnico para desenvolver o produto ou serviço que estão propondo.

Nesse percurso, características que em outro contexto seriam no mínimo dúbias passam a ser encaradas de um ponto de vista mais condescendente: chegar atrasado a absolutamente todos os compromissos como faz Sean Parker, negligenciar a criação dos filhos como faz o casal Adi Tatarko e Alon Cohen (do Houzz) ou, no que provavelmente é a passagem mais perturbadora do livro, “alimentar-se via intravenosa e urinar pela janela para não perder tempo indo à cozinha e ao banheiro”, tática declarada por Nick Woodman (GoPro). Elas soam admiráveis pelo tom com que são tratadas.

O maior problema de Pense Como os Novos Bilionários, problema esse que chega a incomodar, é que ele carrega um discurso meritocrático de que basta querer e se esforçar para alcançar o sucesso — nesse contexto, ser um bilionário. É uma lógica tão simples que parece até viável, mas uma que ignora completamente as circunstâncias em que essas empresas foram criadas e daqueles que as criaram.

A introdução, escrita por Lane, aponta o estranho fato de que todos os personagens do livro, com uma exceção, são homens, mas se limita a isso. Ele não discute o porquê e ignora outras similaridades entre eles: são brancos, de famílias abastadas e moradores ou imigrantes nos Estados Unidos, especialmente em Nova York ou no estado da Califórnia. Isso não é coincidência. O lugar, o tempo, quem se tem à volta e a segurança financeira para o pior cenário são fatores relevantes na vida das pessoas — na carreira, inclusive. Mesmo alguns desses já fazem a diferença, caso exemplificado por Jan Koum (ucraniano pobre que teve a sorte de imigrar para Mountain View, na Califórnia).

Ao ignorar esses fatores e atribuir o sucesso dos bilionários apenas à genialidade e ao próprio esforço, o livro joga toda a responsabilidade a quem o lê e pode incutir um sentimento artificial e irreal de impotência, tornando-se mais prejudicial do que benéfico.

Fred Wilson, um investidor de empresas de tecnologia de (adivinhe) Nova York, recentemente fez o discurso de graduação da primeira turma da Academia de Engenharia de Software de Nova York. Trata-se da versão estendida de uma frase célebre dele:

Para ser bem sucedido você precisa fazer três coisas: correr riscos, trabalhar duro e ter sorte.

A única coisa mais ou menos democraticamente distribuída é o trabalho duro e, como sabe a maior parte da população, muitas vezes isso é insuficiente até para garantir uma vida digna.

A forma como os bilionários pensam, ou como a Forbes diz que eles pensam, contém insights aplicáveis no dia a dia de qualquer profissional, mas exige adaptações e doses enormes de ceticismo e boa vontade para funcionar. Os bilionários pensam como muitos pensariam se tivessem a criação, a formação e o ambiente seguro em que eles estão inseridos, ou seja, circunstâncias propícias para se correr riscos, fazer grandes apostas e, eventualmente, colher os frutos provenientes disso.


Capa do livro Pense Como os Novos Bilionários.

Autor: Randall Lane (org.)
Editora: HSM
Ano de lançamento: 2016
192 páginas

Compre: Amazon, Livraria CulturaPonto Frio ou Saraiva.

Foto do topo: Sean Parker, um dos personagens do livro, por JD Lasica/Flickr.

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64 comentários

  1. Adoro resenhas arriscadas. Simplesmente adorei o ultimo parágrafo, em especial isto:

    “Os bilionários pensam como muitos pensariam se tivessem a criação, a formação e o ambiente seguro em que eles estão inseridos, ou seja, circunstâncias propícias para se correr riscos, fazer grandes apostas e, eventualmente, colher os frutos provenientes disso.”

    Sempre há nesses livros uma carga sentimental motivacional intangível a maioria das pessoas, mas que desperta uma injeção de animo nelas e que passa rápido.

    PS: Suprimi o geralmente do parágrafo, pois só neste seriam 3 ocorrências, mas vale frisar: Não é possível generalizar.

    Compartilho muito do pensamento do Paulo Pilotti Duarde, expresso no primeiro comentário. Espalha-se a ideia meritocrática como algo racional, quase matemático, mas ela está mais para um xamã – com todo respeito aos ritos mágicos-religiosos e que é algo que acredito. Porém, não dá para leva-lo a ferro e fogo para um parâmetro como este.

    Aliás, é perigosa está ação, pois nela se incutem discursos em propagandas que reforçam relações perniciosas, algumas expostas nesse bom texto do manual do usuário.

    Problematizo sem divagar ou discorrer eu mesmo nessa questão:

    O Mérito é um bem? Em sendo, é material ou imaterial? Sendo um bem, é impessoal e intransferível ou não?

    Tão xamânico é um livro como este, que me permito refletir os resultados que ele prega:

    1- Queria imaginar como seria o planeta terra se 7 bilhões de pessoas, milagrosamente, seguissem a risca os preceitos do livro, e ainda mais, milagrosamente conseguissem os feitos preconizados por ele;
    2- Qual o tamanho da demanda por recursos naturais que 7 bilhões de pessoas bilionárias demandariam?
    3- Percebendo o tamanho dessa demanda, a população global resolveriam – simultaneamente – adotar outro padrão de vida, de menor consumo creio;
    4- Perceberiam elas que nunca se precisou ser bilionário nesta vida?

    Não quero, de modo algum, justificar nesse discurso meu a existência da pobreza e da riqueza. Quero, sim, endossar que precisamos repensar valores de vida mais humanitários, novos padrões de consumo, mais condizentes ao nosso biotipo homos sapiens até.

    Já temos condições de erradicar a fome, minimizar as desigualdades sociais pela distribuição das riquezas através da revisão do acúmulo de riquezas, seus reais valores e importâncias nessa sociedade. Não precisamos de pessoas bilionárias.

  2. Artigo fantástico, Rodrigo. Muito obrigado por ele.

    Já essas pessoas que insistem numa falsa meritocracia, cuja falsidade foi plenamente demonstrada no artigo, só posso imaginar que postam isso olhando da sua vidinha de classe média privilegiada que não consegue enxergar os próprios privilégios.

    O comentário do Paulo Pilotti Duarte foi um complemento perfeito ao texto.

  3. O maior o problema da meritocracia é q pra mim ela soa abjeta do ponto de vista ético já q apregoa, pelo stay positive e pelo batido selfmade man, q tudo é possível com trabalho duro, mas apenas no âmbito individual. Ao eliminar a solidariedade desse progresso pessoal, onde o espaço exíguo da ascensão social é reservado de modo ilusório aos q se esforçaram (de qualquer origem social), qdo na verdade a reserva é feita (já está feita às vezes desde o nascimento) àqueles q se enquadram em termos de aptidão e adequamento às regras e códigos sociais dentro de um sistema de privilégios q não aceita nada q seja visto como um corpo estranho (a inadequação q um indivíduo ou grupo pode ser rotulado vira estigma frente aos q não podem suplantar por exemplo um vício ou uma debilidade de aprendizado). Fica vedado a todos os outros, então, o acesso aos recursos q lhe permitiriam um progresso social (junto com a sociedade) e não apenas individual como é o caso das sociedades q valorizam esse método de apropriação de recursos e vagas de prestígio social.

    Aos q creem estarem lutando e vencendo… Mergulham numa doce ilusão e apenas em caráter de exceção e auto-proteção desse sistema q tem q disfarçar sua perversidade, q aquele guri pobre do rincão consegue alguma migalha…

  4. Ghedin é puro <3! adorei sua crítica e o que você escreveu nos comentários depois – sempre bem sensato e com ótimos argumentos. obrigada.

    1. Neste site sempre vale ler os comentários (os meus vc pode pular q são pura divagação e digressão)!

  5. @ghedin:disqus , deixa eu te dar mais umas sugestões que podem ser blowing mind pra vc:

    este artigo pode ser útil como complemento a esta discussão sobre excessos e exageros da meritocracia (lembrando que a diferença entre remédio e veneno é a dosagem): http://goodthinkinc.com/harvard-business-review-resilience-is-about-how-you-recharge-not-how-you-endure/

    e, não menos importante, recomendo o livro que acabei de ler chamado O Jeito Harvard de Ser Feliz (li no kindle que, aliás, comprei graças a uma indicação sua =), mas pesquisas já apontam que a leitura em livro de papel possui uma experiência sensorial superior, como seria de se esperar. em inglês seu título é: The Happiness Advantage ( https://www.amazon.com.br/Happiness-Advantage-Principles-Psychology-Performance/dp/0307591549 ).

    tenho lido vários e ótimos livros este ano, e tenho certeza que este é um desses, inclusive vc pode conferir a palestra TED que o autor fez, que dá uma palhinha do que ele trata no livro: https://www.ted.com/talks/shawn_achor_the_happy_secret_to_better_work?language=pt-br

    abs!

    1. Vi o vídeo q vc recomenda e o achei bastante problemático. Mas o principal é q já achava q o pensamento positivo era infantil e, não à toa, o cara começa contando uma história da infância de um incidente com a irmã. Foi o suficiente pra seduzir uma plateia infantilizada…

      1. seu comentário, Fabio, revela um certo pré-conceito antes de assistir a palestra e, depois, uma certa má vontade com a ideia divergente da sua.

        mas, a palestra é um pálido chamariz para o seu livro que, ele sim, de fato é bom e embasado em vasta e contundente pesquisa científica.

        abs,

        1. Parece Daniel Goleman com botox. Esse tipo de engodo convence mais qdo é revestido de trabalho científico. Pior: isso não é novidade.

          1. vc desmerece o trabalho do cara baseado apenas no vídeo dele, sem levar em conta o livro com dezenas de citações de trabalhos e pesquisas científicas…

            e, apesar de eu ser reticente com psicologia, li o livro e este é condizente com o que se descobriu até agora.

            mas, enfim, não faz sentido continuar essa discussão entre nós. não está sendo produtiva pra ninguém.

          2. não estou desmerecendo o esforço dele (e nem o fato de vc ter colocado o texto dele aqui), só estou contemplado algo q me parece mais do mesmo ou um tipo de proposta recauchutada pra ficar mais de acordo com os novos tempos… nada impede de vc ler e de vc acreditar, mas, a mim, vendo a apresentação (q, cara, querendo ou não diz bastante sobre o autor, pq ele está lá se apresentado e VENDENDO as ideias dele), a impressão q tenho é essa. não creio q seja preconceito, mas pode ser, afinal, não sou imune. e posso estar errado? claro… não vejo através das paredes e nem leio pensamentos, mas, em nenhum momento te passa q essa junção de descobertas (as quais teríamos q verificar melhor, pq, vc sabe, muitos desses dados são manipulados, há fraudes e há interpretações enviesadas) pode ser só uma junção pra te convencer? fico cabreiro e acho q desconfiar das coisas não é um problema. ao contrário, é bem saudável e recomendo.

            ele tem um texto numa revista q lia muito e achava muito boa. vou ler depois, mas mesmo uma publicação q respeito, pode dar uma bola fora e comprar a ideia do cara. isso se eu ainda achar q é um engodo, pq, tb posso mudar de opinião e pra isso q servem as discussões, pra se ver a partir de outras perspectivas, não?

            o texto q achei: http://hbrbr.com.br/inteligencia-positiva/
            e a conversa q estou ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=Muce2TxDlMw

          3. tranquilo, vou considerar assim então.

            aqui o site dele pra vc ter mais elementos pra avaliar.

            http://goodthinkinc.com/

            ;)

            abs,

            ps. e leia o livro, vale a pena, até pq ele começou a trabalhar isso bem no centro do furacão da crise de 2008…

          4. ah sim, esqueci de dizer um detalhe: ele é professor de Harvard, do curso mais concorrido de lá.

            BTW, boa indicação do artigo, já salvei. é um bom – embora pequeno – resumo do que ele relata no livro.

            abs,

  6. Brilhante texto. Ao contrário do que muitos pensam, não vale a pena fazer certos sacrifícios para se obter sucesso material. Por mais clichê que possa soar, a felicidade não se vem das coisas que o indivíduo possui, mas justamente de valores universais, como a família e fazer o bem.

  7. Mais um livro sobre a teologia empreendedora. Tá ficando mais comum do que os livros que relacionavam física quântica com teorias new age lá pelos idos de 2004.

    Sobre o texto, o ponto crucial é sempre tentar fazer as pessoas entenderem que existe uma diferença grande entre um homem branco, de classe média com uma família estruturada que teve durante a vida toda incentivo dos pais e viveu numa zona livre conflitos sociais e uma mulher negra no centro de uma favela numa família completamente desestruturada e tendo que trabalhar desde os 8 anos numa “casa de família” para comer. A primeira pessoa tem, virtualmente, infinitas chances de ter uma vida estável – tendo a própria empresa, fazendo um concurso público ou mesmo tendo uma carreira na iniciativa privada – ou seja, dependendo, basicamente, da escolha dela, e principalmente, ela sabe que ela pode fazer escolhas (estudar X ou Y, por exemplo); já a segunda não teve escolha, trabalha desde os 8 anos pra se sustentar – o intervalo de escolhas dela é muito pequeno e ela sequer pensa fora desse intervalo porque todo o dia ela precisa trabalhar pra comer.

    Pessoal que defende cegamente a meritocracia é, sendo bondoso, ingênuo ao acreditar que o esforço pode, sozinho, levar a algum lugar. O esforço é um dos componentes da escolha de uma pessoa. Os privilégios, estrutura social e educação são outros (e tem alguns mais, ainda).

    Creditar apenas ao esforço o sucesso – seja em qual medida for – de uma pessoa é ser desonesto intelectualmente e busca, por vias muito tortas, provar um ponto de vista simplório que serve muito bem ao discurso da classe média (o professor Clóvis de Barros já disse, no programa Provocações com o Abujanra que “as elites são patrimonialistas e conservadores, a classe média é meritocrática e o povo não é nada”).

    Privilégio é que enquanto uns lutam pra comer outros podem se dar ao luxo de responder comentário em blogs de TI.

    1. Extremamente leviano esse discurso seu assim como o texto do Rodrigo. Vocês só estão incutindo e fomentando uma barreira que, ao contrário do que vocês estão pregando, é totalmente transponível.

      1. Existem diversos exemplos baseados em estudos demonstrando que não é totalmente transponível – ainda que seja em partes (e eu jamais aleguei isso, apenas apontei o quão desonesto é crer que isso não seja determinante para o sucesso financeiro da pessoa) – ao passo que no outro extremos temos apenas exemplos pontuais sem correlação forte com o fenômeno completo (dizer que conhece um gari que chegou a diretor de hospital não serve como exemplo de que “tudo se pode, basta se esforçar”, pelo contrário, apenas reforça que é algo que ocorre raramente e isoladamente, senão não seria citado como exemplo pontual).

        A questão é se você quer crer em dados e estudos ou quer crer em exemplos dados por pessoas que querem exatamente vender o discurso de “você pode tudo o que quer”?

    2. Outro aspecto q me ocorreu é q há muitos mitos de formação de certas carreiras e empresas, daí q muita gente diz q enfrentou vários percalços qdo na verdade está omitindo algumas facilidades. Não creio q todos adotem esse tipo de logro pra se fazerem, sei lá, especiais, mas há e reforça q apenas o esforço próprio as levou a determinado ponto.

      O Jesse de Souza, na parte que lhe corresponde do “A ralé brasileira”, esmiúça essa questão muito bem a meu ver.

      1. De fato, existem carreiras que são muito mais fáceis de se inserir no mercado de trabalho, principalmente um mercado de trabalho de terceiro mundo como o brasileiro, por conta da formação do estado e da sociedade. Carreiras focadas em resultados, pragmatismo e dinheiro, onde se tem metas definidas e se usa uma massa de mão-de-obra grande e que, via de regra, tem no seu papel principal não questionar e/ou baixar a cabeça pra tudo e trabalhar, serão mais vem vistas em meios conservadores – via de regra, onde temos os empresários – e acabarão por gerar mais MdO e mais dinheiro, ao passo que, carreiras mais artísticas e mais criativas se perdem na necessidade de retorno financeiro a qualquer custo – e assim, cada vez menos gente quer seguir uma carreira desse tipo, seja pela incerteza financeira seja pela pressão familiar de “não ser um vagabundo”.

  8. Eu já refleti bastante sobre esse tema e tenho algumas opiniões e a parte interessante é que boa parte dessas conclusões vem do heterogêneo mundo da tecnologia que tem várias facetas desse problema, tanto corroborando quanto negando o fenômeno.

    Os seus “privilégios” não tiram seus méritos

    Acho que o maior problema da discussão da meritocracia é a forma binária que as pessoas tratam, ou acham que é mérito puro ou privilégio puro. É estatisticamente óbvio que suas condições mudam as probabilidades de você se destacar, não sei nem como isso é discutido no final das contas. mas isso é apenas o mínimo necessário e não o que faz a diferença.

    Quando se questiona que são todos brancos, americanos e vindos da classe média não se está questionando a capacidade das pessoas bem sucedidas, até porque apenas uma fração ínfima desses privilegiados se destacam, várias outras pessoas com condições iguais ou melhores não viram nada Se questiona que milhões de pessoas excepcionais em outros lugares precisaram priorizar ouras coisas, com dificuldades ou impossibilidades de largar o emprego para inovar ou se qualificar bem.

    Inclusive, as pessoas pensam até o contrário, que a dificuldade faz as pessoas irem longe e pegam exemplos tipo Joaquim Barbosa que superou tudo. E até vejo alguns absurdos, como pessoas dizendo que os países nórdicos que cobram impostos altíssimos (desmotivando o mérito) e dá vários benefícios aos seus cidadãos acabam deixando o povo acomodado.

    O norte da Europa é uma das regiões mais empreendedoras do mundo e o mercado de tecnologia teve MUITA coisa vindo de lá: Kazaa e Skype desenvolvidos na Estônia foram alavancados pelo sueco Niklas Zennström, o Opera e a Rovio são norueguesas, a Nokia é finlandesa, Ericssonn e Spotify são empresas suecas. Aliás, estou escrevendo isso no Opera rodando no Linux. :p

    Mérito não é dinheiro

    Acho que a famosa lógica de mercado só reflete mérito quando você restringe, ou seja, compara bem pessoas com propostas similares. Esportistas ganham valores absurdamente altos, não dá para comparar a receita de um esportista com um engenheiro em termos de mérito, mas dentro das profissões até que funciona. Assim como o fato dos empreendedores de startup serem riquíssimos não significa que eles sejam as pessoas mais admiráveis do mundo como parece quando você lê todos as reportagens sobre como eles são e o que fazem.

    Dentro da própria tecnologia você enxerga cenários diametralmente opostos em relação a isso: enquanto o produto final das startups gera rios de dinheiro (ou de investimentos, pelo menos) pelo seu sucesso, as tecnologias de base sobre o qual essa riqueza é construída é quase um orgasmo comunista: linguagens, frameworks, SOs, banco de dados, etc é quase tudo Open Source no mundo das startups.

    Só o Linus Torvalds, por exemplo, gerou imensa riqueza (para os outros) ao construir o Linux e o Git e reduzir a barreira de entrada para novos empreendedores. Se ainda precisássemos desenvolver usando tecnologias IBM, Oracle, Microsoft…nunca teríamos tantos produtos sendo criados já que o licenciamento do Facebook e do Google custaria milhões. Apesar de empresas e pessoas ganharem dinheiro indiretamente sobre as plataformas open-source, esse pessoal ganha nada perto da riqueza que ele gera.

    1. “É estatisticamente óbvio que suas condições mudam as probabilidades de você se destacar, não sei nem como isso é discutido no final das contas. mas isso é apenas o mínimo necessário e não o que faz a diferença.”

      Pelo contrário, isso é exatamente o que faz a diferença. Dinheiro e condições de se “lançar” empreendedor é o que faz toda a diferença porque impacta nas tuas oportunidades, experiências, educação etc.

      REF: http://www.nytimes.com/interactive/2016/04/29/upshot/money-race-and-success-how-your-school-district-compares.html

      1. não li direito o texto devido ao inglês enferrujado, mas acho que peguei onde quer chegar e vou tentar contribuir com esta lógica.

        A questão de mérito pode ser subjetiva dependendo da comunidade onde está, mas a partir do momento que “objetifica” sucesso e mérito de forma a estes serem padrões a serem alcançados baseados nos primeiros a quem alcançou tal nível, cria-se e mantém diferenças sociais.

        Quando falamos de mérito, há o fator de “merecimento” pelo que fez, e também há o contexto social no entorno deste merecimento.

        Para uma pessoa que nasceu em um lugarejo rural de uma família simples de ocupantes ou para a pessoa que nasceu em um bairro pobre ou favela, na consciência dela, tudo que ela conquistar fora dos padrões sociais que ela vivia antes baseado em seu trabalho já será um mérito e tanto. Soma-se ao fato quando a pessoa também tiver algum item que dificulte sua convivência social – etnia diferente, cor de pele, padrão de beleza.

        Uma pessoa que já vem de uma classe média ou de mais riquezas, o mérito dela vem a partir das conquistas econômicas ou sociais (reconhecimentos, diplomas, medalhas, etc…).

        1. Acho que a medida do sucesso – ou do que nos vendem como sendo sucesso – dá outra discussão muito boa, mas, eu falei mais no sentido do que o texto e alguns comentários pregam aqui – de que o esforço é necessário e determinante na hora de se empreender e virar um bilionário – e que a experiência mostra o oposto – que o determinante é ter dinheiro, oportunidades (proporcionadas pelo dinheiro) e estrutura – do que é pregado nesses livros e por algumas pessoas, principalmente nesse Brasil polarizado de hoje.

          Mas, via de regra, eu concordo com você sobre o que cada classe social vai enxergar como sucesso e como realização e de modo algum concordo com a ideia central de que sucesso é apenas dinheiro e/ou reconhecimento.

      2. Mas por isso que eu comentei ser pré-requisito: você “precisa” no minimo ser classe média alta com oportunidade de estudar e ser sustentado pelos país. Para ser empreendedor, quanto mais rico mais fácil por vários motivos…principalmente possibilidade de bancar as aventuras.

        Tenho plena consciência de que meus “méritos” só foram possíveis por várias vantagens competitivas que tenho em relação ao resto da população, assim como também sei que se tivesse mais condições muita coisa teria sido melhor e mais fácil. A questão é que, dentro do grupo de pessoas que tiveram as mesmas oportunidades, há pessoas que simplesmente ignoram suas oportunidades. Ou seja, entendo a resposta violenta dessas pessoas bem sucedidas já que elas fizeram seus sacrifícios: nem que o sacrifício seja não ir para Paris com os pais por motivos profissionais.

        Mas de qualquer forma, o cerne da questão não muda: bem menos de 1% da população tem a possibilidade de se destacar como empreendedor. Além disso, tem toda essa questão subjetiva de mérito/sorte/dinheiro, acho desnecessário como ficam babando ovo para pessoas com tino comercial como se tivessem o conhecimento mais valioso do mundo.

        1. O problema não é nem babar ovo e nem creditar ao mérito pessoal o que foi alcançado, e sim fazer pessoas acreditarem que a renda prévia e condições financeiras dos pais não são condições quase que necessárias para se empreender, fazendo com que muita gente recaia no discurso fácil de meritocracia per se – eu consigo tudo o que quero desde que eu trabalhe pra isso – quando essa realidade não é verdadeira nem pra 1% da população brasileira.

          Óbvio que a pessoa com condições financeiras tem a escolha de fazer certos sacrificios em prol do “sonho do primeiro milhão”, mas, o que esse pessoal realmente não consegue entender é que só por eles terem ESCOLHAS isso já faz deles privilegiados.

    2. Neste caso se convence que mérito acaba sendo subjetivo também. Pode ser algo a ser alcançado mas depende da convicção social que importa àqueles que estão atrás deste mérito.

      O que há a de se pensar também é que existe a questão de talento, de diferenças de convivência social, de particularidades de cada ser humano.

      Se vamos buscar um mérito só por buscar, viraremos medíocres por justamente estarmos sempre atrás de méritos. Talvez não é a toda que a juventude atual (e alguns que vivem no mundo virtual) está atrás de joinhas:

      o maior valor de mérito hoje é o “quantos likes tu conseguiu” ou algo parecido.

      Novamente: acho que a crítica do Ghedin é justamente para não ir ao pensamento “simplista” do “é fácil conseguir, basta lutar”.

  9. bom texto pra peneirar a qualidade dos leitores, parabéns Ghedin

    e arriscado, provavelmente vão levar pra política e vai incomodar quem ainda defende a utópica meritocracia

  10. Ghedin, já q vc mexeu nessa caixa de marimbondos, pq não fazer resenha/análise semelhante do livro Unfair Advantage: The Power of Financial Education ( https://www.amazon.com/Unfair-Advantage-Power-Financial-Education/dp/1612680100 ) ?

    o problema, ao meu ver, não é que eles têm o que nós não temos, mas que nós não temos pq há interesses escusos por trás desse nosso estado de trevas em termos de educação financeira.

    considere a dica.

    abs,

  11. fala, Ghedin.

    bom, não vou ser tão duro quanto o colega penoso aí, mas eu tb tenho críticas ao texto, basicamente essa parte que critica a meritocracia com um viés meio vitimista.

    mas, seu texto tem virtudes tb, pq se for levar ao extremo, certas ideias podem sim ser prejudiciais, e o tom (em parte) vitimista do texto (brancos, americanos, etc) é exagerado por segmentos tanto nacionais como americanos e isso causa muito, mas muito mesmo, mal. principalmente àqueles que seus expoentes dizem defender.

    não quero criar polêmica, esclareço, Ghedin, nem estar com isso fazendo qq tipo de patrulhamento ideológico, que fique bem claro. e nem estou insinuando que quero pautar sua escrita ou linha de defesa ideológica.

    acompanho vc desde seu primeiro post no 1/2b e, naquela época, já vislumbrava seu potencial. depois veio o Gemind, Gizmodo e, agora, o MdU.

    ironicamente, Ghedin, vc é branco, está numa região privilegiada no Brasil e, de certo modo, possui uma razoável similaridade com aquilo que vc criticou lá.

    mas, vc e eu, e praticamente todos os leitores aqui tb sabem, que vc chegou onde chegou não é pq é branco, ou pq nasceu na região Sul, etc. que isso é a razão do seu sucesso, não é verdade?

    faço um questionamento sincero, Ghedin, que é vc olhar o seguinte: será que esse tipo de pensamento que vc advoga não pode, paradoxalmente, causar tb males? perceba: talvez sem querer e sem intenção, esse tipo de posicionamento acaba por rotular, p.ex., os negros (nos EUA) são menos “capazes”, “conquistam menos” que seus pares brancos.

    é justo pensar assim? mas, esse tipo de pensamento, de forma quase inevitável, pode surgir desse tipo de defesa. e, óbvio, tb faz com que pessoas que naturalmente não são e nem querem se esforçar acabem por apontar bodes expiatórios de sua própria inépcia e falta de assertividade.

    torno a repetir, Ghedin, não estou censurando seu modo de pensar, embora seja uma crítica clara a ele. minha crítica é à ideia, não a vc como defensor dela, por isso não é censura, pois não estou nem quero cercear seu direito e liberdade de expressão.

    o coment ficou maior do que eu pretendia, mas enfim… é o que é. e, por fim, não estou pedindo que mude de lado, mas q considere o q escrevi e tente perceber as nuances do que apontei.

    no mais, em q pese esta crítica seja direta, ela não é sintoma de menor admiração pelo trabalho que vc desenvolve, como já afirmei antes.

    abs,

    Wallace.

    1. Não se preocupe, Wallace, não fiquei chateado nem nada com seu comentário :)

      Eu acho que sou privilegiado. Talvez não estivéssemos conversando aqui, no Manual do Usuário, em 2016, se não fosse. Como já comentei em outras ocasiões, o Manual foi um salto no escuro que só pude dar porque tinha uma rede de segurança embaixo — reservas e a quem recorrer se fosse um fiasco. Sem isso e outras garantias, algumas que você mesmo levantou no comentário, seria muito mais arriscado tentar algo assim. Num certo ponto, arriscado demais para ser tentado.

      Talvez o meu exemplo nos ajude a focar a crítica. Ela não é direcionada a quem tem o privilégio, desde que isso seja reconhecido e, a partir desse momento, não se tome vantagem dela, mas à narrativa do livro que ignora completamente esse aspecto, um importantíssimo na conjuntura do tema de que ele trata. Sugerir que “o pensamento dos bilionários” é diferente, mais elevado ou o caminho do sucesso é uma simplificação perigosa, até destrutiva de um sistema que tem muitas sutilezas entre o fracasso e o sucesso.

    2. Acho que a crítica do Ghedin é justamente para não ir ao pensamento “simplista” do “é fácil conseguir, basta lutar”. Se fosse assim tão fácil, teria justamente um “manual padrão” que todos seguiriam e seria meio que um “vestibular” para o sucesso.

      Há um pensamento que a “fórmula do sucesso” é algo padronizado. Mas isso é que gera os problemas.

      Justamente os pontos que você colocou – a diferença social, étnica e preconceitos – acabam sendo alguns pontos que são ignorados quando se fala em “sucesso pelo mérito”. Muitas vezes uma pessoa que tem uma ideia brilhante é barrada por não atender a um requisito colocado na “fórmula do sucesso”. Seja a pessoa ser andar como um mendigo, ter uma pele diferente do outro, um pensamento diferente do outro.

  12. Puxa, desculpa, mas que texto péssimo! Primeira vez que me decepciono com um texto do Manual do Usuário e foi uma decepção enorme. Apesar de praticamente não comentar mais aqui, sempre entro e leio o que o Rodrigo posta e sempre gostei, mas esse, puta que pariu, muito ruim.

    Medida de sucesso, para mim, é ter senso de significado, satisfação pessoal e fazer aquilo que a gente sente como sendo nosso propósito de vida nesse mundo. Desde que a gente tenha o mínimo de conforto como uma casa decente para morar, uma cama e chuveiro quente, o que vier depois disso está ótimo.

    Eu não tenho o menor interesse em ficar rico ou mesmo em construir grandes projetos, mas dizer que isso não depende exclusivamente da pessoa é errado. Afinal, há pessoas fracassando nos Estados Unidos e pessoas criando impérios aqui no Brasil… Assim como há pessoas de classe média e alta que não conseguem sucesso extraordinário e inúmeros ex-favelados, pessoas pobres que ascenderam socialmente com seu esforço pessoal. É uma questão de protagonismo e menos vitimismo.

    Algo que você esqueceu de comentar, essas pessoas não têm como objetivo principal ficarem ricas, eles pensam em projetos grandiosos para impactarem muitas pessoas, mas o dinheiro é não é o foco. Não basta trabalhar duro, é preciso pensar e agir diferente que a maioria.

  13. A meritocracia é tão ruim quanto a democracia. Ambos são péssimos sob certos aspectos, mas absolutamente imprescindíveis.

    Histórias de sucesso como a dos novos bilionários devem servir de prova de conceito, mas a consciência coletiva sempre arruma meios de fazer as circunstâncias se sobreporem às conquistas individuais. O consciente coletivo renega a meritocracia – afinal, qual o percentual de vencedores? O topo da pirâmide é muito estreito.

    1. Afinal, é sempre mais fácil falar que fulano teve sorte e ficar com inveja do que fazer igual ou melhor que ele.

      1. Chegou rápido o argumento “inveja”! Ele sempre aparece quando se fala em meritocracia, só não esperava que fosse tão rápido. Enfim.

        Eu não quis desmerecer esses empreendedores. Longe disso. Eles tiveram a oportunidade, agarraram-na e fizeram valer. Em menor medida, eu também tenho privilégios — estudo à tarde, em pleno horário comercial, com quase 30 anos; quem se pode dar esse luxo?

        A crítica não está no que eles fazem (embora talvez haja o que ser criticado, mas caberia uma pesquisa que eu não fiz), o problema está em normalizar esses casos excepcionais, como se os frutos dependessem única e diretamente de trabalho duro. Não é. O que você chama de “sorte” é privilégio, circunstâncias, ambiente. Eu, você, a maioria não podemos “fazer igual ou melhor que ele” porque não temos as mesmas condições. É meio como uma corrida em que esses caras largam (muito) na frente. Dá para alcançá-los? Sim, aí temos um caso ou outro, como você citou, de pessoas que nascem pobres ou em lugares inóspitos e ficam bilionárias. Mas, será que é coincidência, ou é a água da Califórnia que faz brotar mais empreendedores bilionários no setor da tecnologia lá do que em qualquer outro lugar do mundo? Hm…

        Tem uma tirinha muito didática sobre privilégios e meritocracia, recomendo uma olhada: http://www.catavento.me/de-bandeja-voce-pode-ser-mais-privilegiado-que-imagina/

        E, aqui, alguns estudos que relacionam privilégio com empreendedorismo: http://qz.com/455109/entrepreneurs-dont-have-a-special-gene-for-risk-they-come-from-families-with-money/

        1. OK. Discordo de você. Para mim, os frutos dependem, sim, única e exclusivamente de “trabalho duro” (que como eu disse, não basta, é preciso pensar e agir diferente). É uma questão de trazer a responsabilidade pra nós. Em vez de pensarmos que fulano tem privilégios, precisamos pensar no que nós estamos fazendo e podemos fazer para alcançar nosso objetivo.

          Já havia visto essa tirinha e achei simplesmente ridícula. Muito vitimismo, muitas desculpas em vez da pessoa fazer o que precisa ser feito.

          Como eu disse no outro comentário, não vejo dinheiro como uma medida de sucesso. Sucesso para mim é cada pessoa ser feliz fazendo aquilo que acredita que nasceu para fazer.

          Meu exemplo, desde adolescente eu sonho em ser policial. Ser policial no Brasil é loucura, país cheio de bandido e policiais são alvos sempre, salário baixo, nenhuma estrutura. Mas é o que eu acredito que seja a missão da minha vida e estou embarcando nessa aventura. Estudei, me preparei e fui aprovado no concurso. Fui competente para conseguir o que queria.

          Se a pessoa tem o sonho de criar um aplicativo, um serviço online que impacte milhões de pessoas no mundo, é o desejo dela e ela deve seguir o caminho para isso. E se ela não obtiver sucesso, a responsabilidade é toda dela. Do mesmo jeito que eu fui incompetente e fui reprovado no meu primeiro concurso público para a Polícia. Mas não desisti, estudei mais e fui aprovado na segunda tentativa.

          1. Seu exemplo é só isso, um exemplo num mar de gente que não conhecemos e não sabemos que fim teve. Imagine, no caso, quantos milhares, talvez milhões que compartilham da missão de vida, mas que não têm condições de estudar, seja por falta de grana mesmo ou porque passam o dia num trabalho excruciante, sem espaço para qualquer outra coisa.

            Esse é um dos exemplos mais fáceis para situar o privilégio. Tem outros, maiores e mais complexos, talvez mais difíceis de enxergar. Estou tentando, com este texto, jogar uma luz sobre alguns deles que, no nosso contexto (sites de tecnologia) muitas vezes é negligenciado ou até ignorado.

          2. O ponto sobre sucesso, desejo e realização é que muitas vezes isso tudo é feito de forma distorcida. Como o Ghedin colocou, isso é bem complexo, não é simplista como “ir atrás de um emprego dos sonhos” – não desmerecendo, mas sim separando os níveis.

            Ter o sonho de ser um policial é uma coisa. É um nível podemos dizer até “fácil” para ser atingido, pois é um trabalho que tem alta demanda de profissionais, requer pessoas dedicadas a serem o profissional necessário ao serviço requerido e o valor desta profissão é mais de mérito social e autoridade do que valor financeiro em si (lembrando que dentro da polícia há hierarquias que acabam criando uma pirâmide interna também, o que também resulta em uma cultura interna piramidal que distorce a visão de quem está dentro sobre a realidade social).

            Ser um profissional de sucesso que ganham bilhões é outra. O nível é variável e depende de como ocorre esse “sucesso”. Se é um “golpe de sorte” (a pessoa consegue achar algo que é procurado por milhares de pessoas, o que resulta em compras com lucros), se é o “1% inspiração e 99% transpiração” (a pessoa busca inventar / criar coisas para lucrar – é a base do empreendedorismo) ou se a pessoa já lida com a forma que a economia financeira trabalha (geralmente banqueiros, operadores de bolsa, investidores, herdeiros, etc…).

            Não é todo mundo que consegue ser um Zuckberg, um Silvio Santos, uma Luiza Helena (a dona do Magazine Luiza), um Rockfeller ou Odebrecht. É possível tentar emular a rota que eles conseguiram para obter um ganho financeiro alto, ou reconhecimento pelos seus trabalhos. Mas o ganho similar é quase impossível, até porque foram eles (em boa parte) que criaram os padrões a serem alcançados.

            Esse é o ponto: há “níveis” que não é qualquer um que alcança. Mas ao mesmo tempo, fica a questão: para quê alcançar tal nível? No que isso auxilia, senão mais na própria pessoa que chegou àquele nível? Realmente as pessoas que chegaram naquele nível econômico auxiliou socialmente nos arredores?

          3. Complemento e pegando o comentário do Ghedin: muitos dos bilionários atuais são frutos de “privilégios”. A tirinha exposta mostra isso: há uma diferença clara entre quem vive já em padrões sociais bem estabelecidos e quem está em situação de risco social.

            É muito mais fácil a pessoa que está em situação bem estabelecida ir para um nível bem maior de estabilidade social, do que uma pessoa que viveu em risco social ter um “golpe de sorte / ideia brilhante / etc…” para se tornar a nova bilionária.

            Geralmente a pessoa que viveu em risco social e se tornou um empresário de sucesso foi trilhar este caminho por ou ter visto algo que poderia lucrar economicamente e assim conseguiu fazer “as devidas apostas” para conseguir chegar naquele nível social (Silvio Santos e a Luiza Trajano são os devidos exemplos); ou porque teve um belo golpe de sorte (loteria por exemplo).

        2. Rapaz, na atual conjuntura politico econômica do Brasil a galera esta muito polarizada Ghedin. Fica difícil até raciocinar que um cara que nasceu na califórnia, classe media e foi para uma universidade de lá tem milhões de vezes mais chance de prosperar (meritocraticamente).

      2. Ah, um adendo ao meu último comentário.
        Eu sempre sonhei em ser policial, mas sempre detestei a ideia de ser servidor público.
        Critico a ideia de estabilidade que muita gente busca. Afinal, todos nós podemos morrer a qualquer momento. Como é evidente, não fiz o concurso para a Polícia pelo salário, pela tranquilidade, é tudo, na verdade, ao contrário. Salário ruim, muita dor de cabeça. Mas no fim acredito que será gratificante. Estou ouvindo meu coração, fazendo o que me faz vibrar.

        1. Poderia ser um detetive particular, um mercenário, um miliciano, um profissional de segurança particular :p

      1. prov, questão de geometria.

        pode-se questionar se está disforme, mas economicamente falando, é questão de acomodação e gravidade.

        a questão pode ser, então, assim formulada: não é que as pessoas não são bem-sucedidas, elas têm acesso ao sucesso, se assim quiserem empreender?

      2. Muito simples: nem todos estão dispostos a trabalhar para alcançar.

        A maioria prefere ter o salário garantido todo mês em vez de correr riscos. A maioria prefere ir à praia no fim de semana em vez de trabalhar. Poucos vão chegar lá porque, simplesmente, porque poucos querem pagar o preço.

        1. Mas a pergunta seguinte a essa é: vale realmente o preço a ser pago este tipo de trabalho?

          1. Acredito que se é o que a pessoa realmente deseja, vale a pena, sim.

            Como eu disse em um comentário anterior, analisando bem essas histórias de sucesso, esses empreendedores não colocam dinheiro em primeiro lugar. Só as pessoas de fora que olham somente a conta bancária do cara. Dinheiro é consequência de um projeto grandioso e impactante, mas não é o alvo.

            Logo, o cara não trabalha para ter dinheiro, ele trabalha com a intenção de transformar o mundo.

            Eu conheço pessoalmente um cara rico (não bilionário, mas que saiu do nada e tem na garagem alguns veículos como: Porsche, Land Rover, BMW e Harley Davidson), é um viciado em trabalho e extremamente feliz. Ele é super humilde, simples e adora o que faz, tem o trabalho como a missão de vida dele. Nunca pensou em ficar rico, mas aconteceu.

          2. O ponto discutido no comentário do Ghedin é:

            – O esforço dispendiado para ser uma pessoa “de sucesso” baseado nos padrões “de sucesso” requerido é válido a ponto de chegar próximo a se autodestruir?

            – O “mudar o mundo” aqui não custaria no final a mudança de padrões que impedem outros de terem um mínimo de conforto e sucesso pessoal (ou seja, alcançar algo que lhe possa fazer viver sem preocupações plenas e incômodos com o alheio)?

          3. Complemento: lembrando que geralmente o lucro bilionário de “grandes pessoas de sucesso” vem de trabalhos quase indignos de pessoas que algumas estão em busca de “um sucesso”, outras apenas “de sobrevivencia”.

            Quantas pessoas trabalham no Facebook lá na Índia atendendo americanos com dúvidas sobre o sistema? (Dizem – talvez seja lenda e preciso pesquisar sobre isso – que boa parte do telemarketing para pessoas de lingua inglesa vem de lá).

            Quantas pessoas que trabalham para a Dell ou Lenovo e botam trabalhadores dia e noite para montar suas máquinas na China, Tailândia ou Hong Kong? (Se bem que há estudos que dizem que hoje até que a situação está melhor em relação a antes para os chineses, já que mudou os padrões econômicos e sociais por lá)?

            Quantas pessoas que cortam cana dão lucros para a Petrobras? Quantas pessoas que pescam peixes dão lucros aos restaurantes de sushi de São Paulo? Quantas pessoas que colhem laranjas dão lucros para a Coca-Cola, hoje dona da Del Valle?

            Quantos policiais protegem hoje um político acusado de corrupção? :p

            Espero que tenha entendido agora onde a discussão quer chegar. ;)

          4. Aí é que entra a questão de pensar e agir diferente.

            Se você for um mero funcionário e não tiver um pensamento disruptivo e coragem para pôr esse pensamento em prática, será um eterno mero funcionário.

            A pessoa pode nascer pobre, na favela e precisar de um subemprego para sobreviver, mas isso não define o seu futuro. Ela só vai depender desse subemprego para sempre se assim ela decidir.

            Muita gente gostaria ser rica, mas pensa como todo mundo, faz o que todo mundo faz, não consegue pensar além daquele empreguinho, prefere ter a segurança de um chefe dizendo o que deve ser feito.

            Sobre a brincadeira de proteger político, realmente, uma das atribuições do policial é fazer a proteção pessoal de autoridade quando solicitado.

            Mas policial não é funcionário de político, policial trabalha para a sociedade.

            Policiais podem estar vulneráveis a desmandos de políticos, infelizmente. Mas a missão geral é nobre e, claro, a rotina para quem vibra com o risco é incrível. Andar armado, sempre atento, sabendo que pode ser vítima de um atentado a qualquer momento, correr atrás de alguém perigoso, a fardo de atirar e acabar matando alguém etc etc…

            Há o juramento de valorizar sempre a vida. Eu posso odiar bandido, mas tenho consciência de que numa situação de vida ou morte, eu providenciaria a proteção e cuidados médicos de um criminoso. Sou racional, não sou um bárbaro. Fui aprovado na prova psicológica… rsrs

          5. “A pessoa pode nascer pobre, na favela e precisar de um subemprego para sobreviver, mas isso não define o seu futuro. ” não define, mas tem um impacto MUITO GRANDE. Tem estudos mostrando que o simples fato de morar num lugar onde você não pula cadaver pra ir pro trabalho de manhã já pode te levar a ter uma renda maior.

        2. Acontece que “a maioria” que age assim, não tem a mentalidade de que ela também pode chegar lá, isso se deve ao meio em que ela cresceu, que é bem diferendo do que o dos novos bilionário.

          1. Mas a “mentalidade de bilionário” muitas vezes é “gerada”, não é algo que vem do nada, e também não é algo que pode ser colocada dependendo das condições impostas ao meio.

            Uma pessoa que vive em um lugarejo rural e trabalha com agricultura de subsistência, só vai conseguir ser bilionário se mudar seu jeito de trabalhar e se sustentar. No entanto, fica novamente a questão: o custo disto vale a pena para a pessoa? Ajuda de alguma forma na sociedade?

            Outra: a partir do momento que se cria uma forma de mérito por conquista, há algo que não vi discutido por aqui: a questão da competitividade e conquistas negativas.

            Um madeireiro quer ser bilionário. Corta árvores sem critério e tira indígenas das terras dele. Isso é mente de bilionário?

          2. “Um madeireiro quer ser bilionário. Corta árvores sem critério e tira indígenas das terras dele.”

            ocorreu muitra treta aqui no interior quando o governo começou a impor leis ambientais mais severas.
            tem um pessoal que ainda planta em cima de córregos! e isso aqui no interior do Rio Grande do Sul, um estado que muito defendem ser “desenvolvido”.

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