Imagens, Snapchat e mobile

Homem segurando dois iPhones nos olhos com a tela ligada exibindo olhos enormes.

Pela primeira vez na história, basicamente todas as pessoas do mundo terão uma câmera. Mais de cinco bilhões de pessoas terão um celular, quase todos serão smartphones e quase todos terão câmeras. Muito mais pessoas vão tirar mais fotos do que nunca — mesmo hoje, talvez entre 50 e 100 vezes mais fotos são tiradas por ano do que foram capturadas em rolos de filme até então.

Falar de “câmeras” tirando “fotos”, todavia, é uma maneira bem limitada de pensar sobre isso — tanto quanto chamar esses supercomputadores de bolso conectados à Internet de “telefones”. Sim, o sensor pode capturar algo que se parece com as impressões que se consegue com uma câmera de 35mm ou com os vídeos que uma câmera de vídeo poderia capturar. E, sim, é mais fácil mostrar essas imagens aos seus amigos via Internet do que enviando-as pelo correio e mais fácil editá-las, recortá-las e ajustar suas cores, então é uma câmera melhor. Mas o que mais? Palavras como câmera, foto ou telefone, são inerentemente limitadoras — elas especificam um uso particular para uma tecnologia fundamental capaz de fazer muito mais. Usar a câmera de um smartphone apenas para tirar e enviar fotos é como usar o Word para memorandos que você costumava redigir em uma máquina de escrever — você está usando uma nova ferramenta para encaixar as velhas formas de uso. Muito em breve você descobre que novas formas são possíveis.

Assim, você esquece as suposições dos modelos que tem que seguir. Você não precisa salvar as fotos — elas podem desaparecer. Você não está mais pagando para revelar um rolo de 28 negativos. Você pode fotografar o tempo todo, não apenas o momento que você aperta o “obturador” (isso, por exemplo, nos dá as Live Photos da Apple). O vídeo não precisa ser linear — você não precisa gravar apenas os momentos certos, como se estivesse fazendo uma mix tape ou gravando músicas da rádio. Você pode colocar texto, ou imagens, em cima daquele vídeo e isso não é parte da área de legendas do software de edição de vídeos — é uma parte básica de como você o usa. Imagens são apenas software — elas podem ser qualquer coisa. Assim como o app de telefone é só um aplicativo no seu smartphone, o app de câmera é só um aplicativo para o sensor de imagens, e nem é necessariamente o mais importante. Existem outras formas de falar com as pessoas além de ligar e enviar mensagens de texto e existem outras formas de usar imagens.

Essa mudança nas suposições se aplica ao próprio sensor da mesma forma que à imagem: em vez de pensar em uma “câmera digital”, eu sugeriria encarar o sensor de imagens como um método de entrada, tal qual a tela multi-touch. Isso não aponta apenas para novos tipos de conteúdo, mas também para novos modelos de interação. Você começa com uma tela de toques e pode usá-la para um teclado virtual e com modelos de integração que replicam o modelo do mouse, tocando em vez de clicar. Mas, em seguida, você pode tornar o teclado mais inteligente, ou ter GIFs em vez de letras, e você pode deslizar o dedo para formar palavras e ter o gesto de pinça para outras funções. Você vai além de virtualizar os métodos de entrada de um equipamento mais antigo no novo sensor e muda para novos métodos de entrada. O mesmo pode ser dito para o sensor de imagens. Começamos com uma câmera que tira fotos e criamos, por exemplo, filtros ou uma simples rede social em cima disso, o que pode ser poderoso. Podemos até gravar vídeos também. Mas e se você usar a própria tela como câmera — não um viewfinder, mas a própria câmera? A entrada pode ser qualquer coisa que os sensores consigam capturar e pode ser processada de qualquer forma que você consiga criar o software.

Diante disso, brinquedos simples como as lentes ou as histórias do Snapchat não são só pequenos produtos divertidos para se copiar, são também experimentos básicos do uso do sensor e da tela como um mecanismo de entrada unificado. É lugar-comum dizer que o smartphone é um pedaço de vidro que se transforma no app que você estiver usando, mas não há um jeito melhor de ver isso do que com uma lente do Snapchat, ou talvez com Pokémon Go — o dispositivo se torna o sensor e o sensor se torna o app. Uma transformação fundamental em sair do mouse para uma interface sensível a toques é a remoção da abstração — você não move a sua mão ali e vê o ponteiro se mover para cá e clica naquilo com o botão. Você simplesmente toca a coisa que você quer, diretamente. Não é mais indireto e mediado pelo hardware e pelas abstrações da interface. Com esses tipos de apps você olha através do telefone — ele se torna transparente (ou tenta ser), e aí está outro passo a menos na abstração.

À medida que se constrói em cima disso, em um determinado momento você descobre que não está mais fazendo coisas que poderiam ter sido feitas para um computador desktop e, em vez disso, você está fazendo coisas que só poderiam funcionar ou fazer sentido na nova plataforma. Mas, dentro disso, existem coisas que funcionam melhor no mobile e coisas que só funcionam no mobile. De fato, não há um motivo pelo qual você não poderia fazer um pedido no iFood ou postar uma foto no Instagram de um PC — o mobile remove o atrito, mas não é essencial para o conceito como um todo. Você poderia portá-los de volta ao desktop, mas você os faz mobile-first ou mobile-only. E é claro que o feed de notícias do Facebook é um produto totalmente de desktop, portado para o mobile com um modelo de faturamento melhor. Mas nós também temos produtos que são apenas mobile. Eles não são mobile-first, eles são nativamente mobile.

A evolução óbvia para isso é a realidade aumentada, não no sentido de um pokémon na tela de um celular, mas uma lente que você veste: algo como o HoloLens, o Magic Leap (um investimento da a16z) ou ainda outros que estão por vir. Quando esses estiverem maduros, um objeto virtual irá parecer muito como se estivesse realmente ali, de certo permitindo uma ligeira suspensão do ceticismo. Nesse ponto, você muda vira a discussão do avesso: em vez de colocar um filtro no rosto do seu amigo enquanto você olha para ele através do seu celular, você vai colocar filtros nele na vida real (e talvez nem o avise). Após uma década ou mais em que os smartphones engoliram objetos físicos (rádios, relógios, mp3 players, e, é claro, câmeras fotográficas), a realidade aumentada significa colocar objetos de volta no mundo real. Enquanto um smartphone se torna cada app que você usa, a realidade aumentada pode colocar cada um desses apps na mesa que está na sua frente.

Entretanto, enquanto nós mudamos o que uma câmera ou uma foto significam, a atual explosão na visão computacional significa que estamos também alterando a forma como os computadores pensam sobre elas. O Facebook ou o seu smartphone conseguem encontrar fotos de seu amigo ou seu cachorro na praia, mas essa é provavelmente uma das aplicações mais óbvias — cada vez mais um computador pode saber o que tem em uma imagem e o que isso pode representar. Isso transformará o Instagram, o Pinterest ou, é claro, o Tinder. Mas isso também terá todos os tipos de aplicações que não parecem óbvias agora, tal qual a localização permitiu diversos usos inesperados. Realmente, essa é outra encarnação do sensor de imagens como uma entrada para além de uma simples câmera — você não digita ou diz “cadeira” ou tira uma foto da cadeira, você mostra a cadeira ao computador. Então, novamente, você remove camadas de abstração e muda o que é preciso dizer ao computador — assim como não é mais preciso dizer onde você está. Eric Raymond propôs que um computador não deveria jamais “pedir ao usuário qualquer informação que ele consiga detectar, copiar ou deduzir por si só”; a visão computacional muda o que o computador precisa perguntar. Então não é, na verdade, uma câmera tirando fotos — está mais para um olho, capaz de enxergar.


Publicado originalmente no blog do Benedict Evans em 15 de agosto de 2016.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.
Foto do topo: Markus Spiering/Flickr.

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