Do que o Google precisa no mobile?

Google no Nexus 5.

Eu costumo ver o Google como um grande motor de aprendizado de máquina que vem acumulando dados há quinze anos. Tudo que o Google faz está relacionado ao alcance desse motor — alcance para coletar ainda mais dados e alcance para levá-los à superfície. A busca na web é só uma expressão disso, assim como os anúncios, o Gmail e o Maps — eles estão todos construídos sobre aquele motor fundamental.

Dessa forma, a maioria dos experimentos lançados pelo Google ao longo dos anos podem ser melhor entendidos como testes para ver se eles se encaixavam nesse modelo. É possível aplicar uma vasta expertise na compreensão de dados, em muitos cientistas da computação e de dados, em uma infraestrutura enorme e em um modelo de automação total a fim de conseguir algo interessante e útil? É possível coletar quantidades massivas de novos dados, fazer algo único com elas e devolvê-las à superfície? E com tudo isso resolvem-se grandes problemas em escala global?

Em outras palavras, o Google testa novas oportunidades para ver se elas se encaixam em seu modelo, da mesma forma que um tubarão morde um surfista para ver se ele é uma foca. Se não for, o Google não se adapta para dar espaço à novidade — em vez disso, o Google cospe o surfista (ou o que restou dele).

Naturalmente, às vezes acontece de você precisar de outros recursos, como, por exemplo, anúncios no rádio. Às vezes a oportunidade é realmente boa, mas os obstáculos para liberar os dados são grandes demais — como no Google Health, que envolvia muitas partes diferentes e relutantes. Às vezes os recursos dos quais o Google dispõe são apenas uma condição de entrada numa área, ao passo que outros são mais importantes (Google+ em redes sociais) e às vezes a oportunidade é apenas muito pequena — o Google Reader é um exemplo.

Da mesma forma, há projetos para os quais as melhores habilidades e as maiores necessidades do Google se encaixam perfeitamente. Mapas tinham pouca coisa a ver com pesquisas na web e nada com PageRank, mas esse era um grande problema ao qual os recursos do Google se aplicavam (e, é claro, dez anos mais tarde o Google Maps provou ter uma importância estratégica enorme em dispositivos móveis). O mesmo pode ser dito dos carros autônomos — não é uma questão envolvendo buscadores, é um problema de dados e inteligência de máquina para o qual o Google está em uma posição única de executar (ou, no mínimo, é nisso que o Google acredita).

O Android incorpora tudo isso. Originalmente, ele era focado em alcance, no sentido de permitir às pessoas usarem os serviços do Google. Ele existia para impedir a dominação do mercado móvel por qualquer outra empresa que pudesse destruir o Google (primeiro a Microsoft, depois a Apple) e permitir a expansão da Internet de 1,5 bilhão de PCs de pessoas relativamente ricas para, nos próximos anos, 4 a 5 bilhões de smartphones de cada adulto do planeta.

Em ambos os objetivos ele tem sido um tremendo sucesso, muito maior que qualquer outro projeto paralelo do Google. A Apple pode ter uma grande fatia dos 15-20% do mercado de dispositivos premium, mas o Android terá praticamente todo o resto do mercado e serve como um lembrete à Apple para que se mantenha atenta até mesmo com o iOS.

Com o tempo, o Android também evoluiu para ampliar o alcance da coleta de dados — você está sempre online para o Google com seu smartphone Android, ele sabe exatamente onde você está quando faz aquela pesquisa, ou quando abre aquele app, e onde estavam todas as outras pessoas quando fizeram aquela mesma pesquisa, e o que elas fizeram em seguida — essa é uma razão pela qual manter o controle sobre a interface de usuário do Android e afastar os forks do sistema importa tanto para o Google. Existe um velho ditado na ciência da computação que diz que um computador nunca deve fazer uma pergunta que ele seja capaz de descobrir a resposta por conta própria. Os sensores e outras funções dos smartphones em geral, no Android em particular, expandem absurdamente o alcance de dados que o Google pode descobrir. Assim, o Android impulsiona a capacidade do Google em coletar e devolver dados.

A parte interessante, todavia, é que agora há muitos tipos diferentes de alcance.

Em primeiro lugar, como tem se falado por anos, o jeito que o mobile nos leva para longe das velhas páginas web como principal forma de interação com a Internet desafia a habilidade central do Google de entender a estrutura da informação online e linká-la (e vender links a ela). Os apps limitam o alcance do Google, tanto o de coletar dados para seu sistema, uma vez que os apps são opacos, quanto o de devolver dados aos usuários da Internet, já que qualquer pesquisa no app dedicado do Yelp é uma pesquisa que não aconteceu no Google. Apps do tipo são muito mais fortes no mobile do que no desktop.

Os apps reduzem o alcance do Google nos dois sentidos. Esse é o motivo óbvio (e vale para o Facebook também) pelo qual o Google vem perseguindo deep links e, provavelmente, por que o Chrome OS é mantido aquecido como uma plataforma móvel em standby. Mas isso também significa que o Google tem incentivos conflitantes — como provedor de serviços, ele deveria sempre tentar fazer as coisas como parte da web ou abraçar as novas experiências que apps e tudo o mais que acontece nos smartphones pode oferecer? O que a equipe do buscador web diria se o Hangouts virasse uma plataforma de desenvolvimento, por exemplo?

Além disso, o Google ser proprietário de uma plataforma móvel cria mais conflitos basilares. É melhor fazer um novo app primeiro para o iOS, já que nele é onde está a maioria dos usuários mais engajados? Deveria oferecê-lo para dispositivos com sabores diferentes do Android, como o Kindle Fire, se eles obtiverem muitos usuários, embora isso corroa o ponto de vantagem estratégica de controle do Android? Por esse tipo de pergunta é fácil ver como gerentes de produtos individuais podem ter objetivos incompatíveis — o gerente de produto do Maps provavelmente quer um Maps excelente no iOS e gostaria de vê-lo no Kindle, mas as pessoas que trabalham para manter o controle do Google sobre o Android, claramente não.

Assim, quantas coisas o Google precisaria empurrar à web ou, alternativamente, ao Android, e até que ponto ele deveria deixar prevalecer a lógica dos produtos individuais? E onde houver conflito, quem ganha?

São questões clássicas de “imposto estratégico”. Se uma função de um produto conflita com a estratégia geral de uma empresa, você deixa a função de fora (e paga o imposto estratégico) ou compromete toda a estratégia? Como exemplo de outras eras da indústria da tecnologia, tanto o Microsoft Office para Mac quanto o iTunes para Windows, em tese, enfraqueceram os principais produtos das duas empresas, mas foram as melhores escolhas, visando uma estratégia mais ampla. Para o Google, a questão está em decidir o que é tática e o que é estratégia. Qual o alcance pretendido e quais sacrifícios você está disposto a fazer?

Esse problema me lembra um livro, publicado alguns anos atrás por Pierre Bayard, um escritor francês, intitulado Como falar dos livros que não lemos. A observação dele é que a pergunta “você leu este livro?” é muito menos binária do que se parece: se você compara um livro que leu há 20 anos, quando estava na adolescência e que entendeu apenas parcialmente, com um livro que acabou de sair e do qual você leu três resenhas mas não o leu de fato, você certamente saberá mais deste último do que do outro. Há livros que você leu e entendeu, livros que leu e se lembra mais ou menos, livros que nem se lembra de ter lido, e há livros que leu pela metade ou sabe do que se trata ou já ouviu falar, ou que sabe que eles são exatamente a mesma coisa dos outros três livros do mesmo autor que você de fato leu. Ler e saber sobre um livro não são informações binárias.

No mesmo sentido, o Google precisa de alcance, mas o mobile implica haver diferentes tipos de alcance. Considere alguém que usa um Android “oficial”, talvez até um Nexus, e está logado em todos os serviços — o Google tem alcance “perfeito” a esse alguém como um usuário final. Mas, como escrevi aqui, imagine que ele viva num bairro calmo e afastado, dirija apenas para o trabalho e a umas poucas lojas, nunca use a Agenda, abra o Maps uma vez por mês e receba alguns poucos e-mails pessoais por semana. Agora compare-o com alguém de uns vinte anos em uma cidade grande que ama seu iPhone e não está logado em nenhum serviço do Google, mas usa seu smartphone por várias horas todos os dias, usa o Google Maps (ou talvez apenas apps que usem o Maps embutido) e faz pesquisas na web o tempo todo. Que tipo de alcance o Google tem para essas duas pessoas? Então, considere um fazendeiro em Mianmar que acaba de comprar seu primeiro celular, um Android de US$ 30, com poder aquisitivo suficiente para gastar em torno de 50 megabytes de dados móveis por mês, se muito.

Qual o valor destes alcances? O que eles buscam? Para que a informação que eles fornecem ao Google pode ser usada? E, para levantar a pergunta chata e pedante, quanto cada um vale para a indústria da publicidade? Essas pessoas têm prioridade mais alta do que estender o suporte do Google Now ao Apple Watch?

A principal mudança, acho, é que o Google foi de um mundo de clareza quase perfeita — uma caixa de busca textual, um índice de links, a casa de uma família de classe média — para um mundo de perfeita complexidade; todos os tipos possíveis de usuários, dispositivos, acesso e tipos de dados. Foi de uma torneira para uma tempestade. Mas, por outro lado, ninguém conhece água como o Google. Ninguém mais tem a mesma capacidade de construir um conhecimento sobre como lidar com isso. Assim, vejo eu, deve-se pensar em cada app, serviço e plataforma do Google não muito como canais potencialmente conflitantes, mas múltiplas saídas de uma estratégia fundamental unificada, a qual podemos talvez caracterizar como “saiba muito sobre como saber muito”.

Outra forma de pensar sobre isso é, talvez, a comparação com o Internet Explorer. A Microsoft teve sucesso em garantir que seu navegador dominasse a Internet por mais ou menos uma década. Mas, na verdade, qualquer navegador que as pessoas usassem seria em um PC com Windows, afinal, qual outra plataforma global para o mercado de massa existia? O mesmo vale para o Google: o que importa é vencer na “busca”, seja lá o que isso signifique, não importando quanto ou como isso se distancie do PageRank. Acerte na busca e o alcance virá; erre, ou se veja irrelevante no que quer que seja o novo “novo” (como eventualmente aconteceu com a Microsoft), e nada mais importará.


Publicado originalmente no blog do Benedict Evans.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.
Revisão por Guilherme Teixeira.

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13 comentários

  1. Uma grande ausência do google é nos windows phone. Mesmo que o share desses dispositivos seja pequeno, há potencial para crescimento.
    Quem sabe se aumentar a base de usuários o google não repensa.

  2. O Google teria vantagem financeira em se espalhar em todas as direções possíveis, atingir o maior número de pessoas. Venderiam muito mais anúncios assim.
    Mas isso trás o velho problema da fragmentação, e não me refiro só ao Android, todos os produtos da Google sofrem com problemas pois não são focados em uma plataforma ou um público-alvo, tornando extremamente difícil o desenvolvimento de qualquer coisa.

  3. Um oceano de informação esse cara. Escreve bem pra caramba. É uma pena vê-lo desperdiçar tanta inteligência com bobagens.

      1. Rodrigo, não encontrei bobagens no argumento. Muito pelo contrário. Acho que o Evans tem o dom da escrita e consegue sempre bons argumentos para os seus ensaios pessoais.

        1. A última frase do seu comentário anterior (“É uma pena vê-lo desperdiçar tanta inteligência com bobagens”) me deu a impressão de que estava se referindo ao texto.

          1. Não não… Desculpe. Na verdade eu considero bobagens o Google e os seus grandes serviços.

          2. acho que é a empresa que mais “errou” e eu gosto disso neles, não tem medo de arriscar e se der errado eles descontinuam e partem pra outra, lógico que é motivo de piada para alguns, mas imagina se todas as empresas tivessem esse mesmo engajamento, se eles tem grana pra testar as ideias que surgem, manda ver!

          3. acho que é a empresa que mais “errou” e eu gosto disso neles, não tem medo de arriscar e se der errado eles descontinuam e partem pra outra, lógico que é motivo de piada para alguns, mas imagina se todas as empresas tivessem esse mesmo engajamento, se eles tem grana pra testar as ideias que surgem, manda ver!

          4. O ruim é que muita gente não gosta de ver empresas errando toda hora, torcendo o nariz. Você tem razão: quanto mais transparente as empresas são em suas atitudes, inclusive mostrando erros, é bacana e mostra o quanto a empresa é capaz de fazer.

            Mas as pessoas não gostam de ver toda hora uma empresa errando, ou se frustrando. Nisso encerrando com projetos que não deram certo no início. É uma coisa muito volátil…

          5. Verdade, todo serviço novo é meio que uma aposta. E por mais que eles ganham muita grana, gosto dessa pegada e atenção que eles começaram a dar ênfase. No setor educativo (cardboard, chomebooks), países emergentes (android one) e um dia oferecer internet em locais mais remotos (project loon). O google pra mim passa um cuidado muito maior com as pessoas do que Apple e Microsoft, que pensam mais em mostrar poder de fogo.
            Óbvio que para o Google, pessoas fazem grana, por isso a ênfase, quanto mais gente, mais eles podem vender publicidade, mas que os projetos são ótimos.

            E sobre as pessoas não gostam, acho que quem mais reclama disso somos nós que curtimos tecnologia e testamos tudo de início, nós sabemos os produtos do google que eles abandonaram, mas os usuários mais leigos nem chegaram a testar. Chromecast ja existe desde 2013, amigo meu descobriu essa semana quando foi lá em casa. Acho que ele nunca ouviu falar em hangouts mesmo tendo android.

  4. Sem nem ler, digo que o Google está ficando para trás (de Apple e Microsoft) a olhos vistos e arregalados.
    Todo dia, todo dia reclamo do Google. Nada deles tem consistência, vive mudando e raramente muda para a melhor, é um vai e volta de layouts e vai e vem de recursos de deixar louco. Esse último lançamento do Android 6 é uma piada. Cheio de recursos para te fornecer atalhos para serviços, e só. A experiência de usuário pouco evoluiu. Como explicar decisões como remover o tema escuro? O multitarefa com telas divididas que até agora não chegou? Caramba, Apple entregou antes? A APPLE! Android no tablet é uma nulidade, como se explica a existência do Pixel C? Tendo o Chorome OS eles me vem com um Android comum híbrido? Sem nenhum diferencial? É sério mesmo?

    Android pode ser, oh, poderoso, mas todo esse poder está sendo muito mal usado.
    Sempre promessas e mais promessas, e só.
    Não existe clareza de aonde o Google quer chegar, vai empurrando produtos um atrás do outro eles vão se atropelando de qualquer jeito.

  5. Ótimo texto. Obrigatório para ir além do arroz feijão de discussões acerca do Google. Tbm contribui na discussão sobre privacidade (ou a falta dela). Ratifica também minha opinião de que quem perde tempo brigando pelo melhor SO ou se a empresa A ou B é “do bem” ou “do mal” está só avaliando a pontinha do Iceberg.

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