O Google Imagens é a verdadeira busca

Uma meta pesquisa para este post bem meta.

Isto é o que acontece quando você busca por “frases inspiradoras”1 no Google:

Pesquisa por Inspirational Quotes no Google.

Ok, isso me dá um monte de links de sites com frases inspiradoras, onde presumivelmente minha necessidade de frases inspiradoras seria completamente atendida. Mas e quando você procura apenas por imagens? Fica assim:

Pesquisa por Inspirational Quotes no Google Imagens.

É tão mais bonito! Claro, as frases em si são uma porcaria, mas o conteúdo está bem ali. Não preciso ir a nenhum outro lugar e procurar por uma frase. Elas estão encaixadas na página da forma mais organizada possível. Não há anúncios para distrair. Tem ferramentas de busca que te permitem filtrar o conteúdo não apenas por data ou intenções pornográficas como as opções mais comuns do Google, mas por tamanho, cor, formato, tempo e informações de reutilização e direitos autorais — para que eu possa copiar aquela frase no PowerPoint ou no Facebook e estar certo de que ela é licenciada sob a Creative Commons. E tem os filtros automáticos que te permitem filtrar os resultados — e também te ajudam a entender a semântica do espaço dos temas. Para frases que sejam sobre “mulher”, “estudante”, “vida tumblr” em um verde azulado, e “amizade”, “fitness”, etc. em um azul claro. Por que algumas palavras estão em uma cor e algumas em outra cor é deixado como um exercício para o leitor.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Oh, ok, mas essas são frases inspiradoras, os odiados retângulos que arruinaram a Internet. Como a busca se sai com assuntos reais, abstratos? Bem, vamos tentar com uma palavra como “ontologia”, que é muito abstrata e significa coisas diferentes em áreas diferentes.

Pesquisa por Ontology no Google.

Começar com a pronúncia é realmente útil, especialmente por haver um componente auditivo. Ele também me dá uma definição e um link para a página da Wikipédia — que é basicamente aonde eu vou para qualquer nova busca baseada em substantivos. Bom. Mas vamos nos aprofundar ainda mais nesse termo com uma busca por imagens:

Pesquisa por Ontology no Google Imagens.

Imediatamente eu sei que ontologias estão de alguma forma conectadas a esse estranho e específico formato de linhas e nós, talvez? Vale a pena guardar isso. Eu sei também que a palavra se relaciona com “epistemologia”, “filosofia”, “ciência da computação” e “arte”. Isso é na verdade mais informações úteis nas quais posso me basear do que a definição oferecida e eu consegui tudo isso em poucos segundos sem recorrer à Wikipedia. Vamos então nos aprofundar na “filosofia”.

Pesquisa por Ontology no Google Imagens com o filtro Philosophy.

E aqui você pode ver que esse é um assunto com muita história e que aqueles gráficos esquisitos de linhas e nós ainda são relevantes. E então você pode comparar esse filtro com outros e começar a enxergar, visualmente, o quão abstrato o conceito é e o que ele significa através das diferentes áreas. Em tese a página da Wikpédia vai te dar tudo isso, mas a página da Wikipédia diz:

A ontologia frequentemente lida com questões envolvendo quais entidades existem ou que se acredita que existam e como essas entidades podem ser agrupadas, relacionadas dentro de uma hierarquia e subdivididas de acordo com suas similaridades e diferenças.2

Isto é, um pouco bruto a menos que você esteja extremamente sóbrio e tenha acabado de tomar uma ducha gelada. Em paralelo, olhar para imagens e ignorar aquelas que não fazem sentido é muito fácil. Consigo internalizar informações suficientes sobre ontologias que passarem pelos meus olhos. E mais: eu posso reutilizar as imagens, porque elas são objetos de mídia, quando faço uma apresentação de slides sobre ontologia. Isto é epistemologicamente falando bem de boa.

Dia desses falamos sobre o brutalismo na web e a ambiguidade sobre o termo “brutalista”. Um ex-arquiteto nos escreveu e disse que se você é um arquiteto, o termo não parece assim tão ambíguo. Então achei que devesse fazer uma busca por brutalismo:

Pesquisa por Brutalism no Google Imagens.

E sim, essa é uma definição de brutalismo melhor do que palavras podem dar (obviamente! é um movimento de arquitetura). Você realmente não poderia fazer nada melhor do que isso com algumas palavras.

Isso não quer dizer que as palavras não tenham utilidade. Isso apenas quer dizer que agora nós temos essa riquíssima Internet visual que está exatamente a uma aba de distância na interface do Google de mudar completamente a forma que exploramos o mundo de nossos poleiros de Internet. O que aconteceria ao mundo se a busca padrão fosse alterada para “imagens”?

Minha interface de busca ideal que apenas usa as ferramentas do Google iria:

  1. Apresentar uma definição do termo buscado, quando possível;
  2. Indicar o link da Wikipédia para o termo, quando disponível;
  3. Listar termos associados que podem ser utilizados como filtros; e
  4. Apenas mostrar um tanto de imagens.
  5. Então, abaixo de tudo isso você teria os velhos resultados da busca.

Publicado originalmente em 20 de abril de 2016 no Track Changes, blog do Postlight, um estúdio de desenvolvimento de sites e apps de Nova York.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.

  1. “Inspirational quotes” no original. Todas as imagens fazem referências aos termos em inglês.

  2. Tradução direta da Wikipedia inglesa. A portuguesa diz: “É a parte da metafísica que trata da natureza, realidade e existência dos entes. A ontologia trata do ser enquanto ser, isto é, do ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres.”

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10 comentários

  1. O que eu sempre procuro na busca por imagens é dados quantitativos de maneira rápida em gráficos e tabelas.
    Faça o experimento.
    1 – porcentagem de negros na população brasileira
    2 – países com maiores idh´s
    3 – divisão dos gastos do orçamento da união.

    Tentem achar respostas para esses assuntos, por texto e por imagens. É muito mais rápido na segunda opção!

  2. Uma imagem diz mais que mil palavras?

    Brincadeiras à parte, eu recorro à busca de imagens, às vezes, quando pego uma receita em inglês, por exemplo, e não sei o que é um determinado ingrediente. Busco Cilantro e logo descubro que é Coentro, sem ter que ler nada.

  3. Sou estudante de técnico em Eletrônica e recentemente também estudante de Engenharia Eletrônica.
    SEMPRE que vou procurar um diagrama elétrico de um circuito ou “manuais” de componentes eletrônicos(os famosos datasheets) eu uso o Google Imagens. É tiro em queda, MUITO mais fácil.

  4. Devo confesar que qdo estou meio exausto de ler ou é algo meio chato o q estou procurando (uma configuração de qualquer coisa por exemplo) pulo direto pra busca por imagem e, a partir disso, tento decifrar o q busco.

    Não entendo nada de semiótica, mas as palavras são imagens já q os alfabetos são feitos com símbolos q qdo organizados de determinadas formas significam algo. De resto, tudo é imagem. O significado vem depois. Não é assim q os poetas inventavam as palavras?

  5. Irei expressar meu incômodo com o texto. Pelo que entendi – caso contrário, corrijam-me – a imagem também seria um importantíssimo elemento de resposta para as pesquisas realizadas – isso a tal ponto de o título desse texto nos levar a sugerir que o autor considera a imagem ontologicamente[1] igual ou superior as respostas do buscador em texto, link e/ou definição. Não vejo, a princípio, discordância da minha parte com relação ao que o autor pessoalmente entende. Todavia, vale a pena apresentar o meu específico ponto de incômodo.

    Se levo em consideração que, no resultado de uma busca, a resposta que idealmente espero tenha uma construção com não somente igual valor entre os elementos da web – texto, imagem, som, vídeo, gif, link etc – como é necessário essa configuração nas respostas – no mínimo com link, texto e imagem -, eu trago de forma intrínseca a isso tudo que para toda pesquisa que eu for realizar eu irei encontrar essa estrutura ideal de resposta com os elementos mínimos considerados. Isso inclui também a imagem.

    Entretanto, ainda vasculhando a essência dessa consideração, percebo que o autor do texto entende – no mínimo – alguma esperança ou até mesmo necessidade de haver uma correta e ideal representação imagética para tudo aquilo que eu for pesquisar. Pretender, esperar ou idealizar tal coisa me parece problemático, pois não somente não existe nenhuma obrigação em haver uma representação imagética para a palavra/conceito/ideia existente como também as vezes isso deve ser, até mesmo, supostamente impossível.

    Quando o autor do texto realiza uma pesquisa por imagens de ontologia, o mesmo encontra como resultado não uma representação imagética fiel da palavra ontologia, mas coisas que dela se falam e com ela são associadas. Pergunto como isso pode ser ainda pior com outros termos de difícil representação imagética, notadamente abstratos. Aproveito o contexto do ser argumento da ontologia para verificar na filosofia outras palavras que são de difícil ou impossível representação imagética clara e distinta de outras representações imagéticas: me vem mente palavras como noumêno, substância – este aqui é um ente extremamente metafísico e ontológico, não aquele que podemos encontrar na biologia, química ou física -, poder, ontoepistemologia, alteridade… Platão, no livro VII da República, fica devendo a Glauco, com precisão, o que é o Bem – que metafisicamente está para além de todo ser e Ele mesmo não sendo um ser, ou seja: não é possível descrevê-lo ontologicamente, mas acessá-lo ontologicamente e ver sua ação criadora em conjunto com o Demiurgo – como não é possível termos uma representação imagética/pictórica dessa além-coisa. Platão, para discorrer sobre o Bem, faz uso de uma analogia que se tornou a memorável Alegoria/Mito da Caverna – o que temos de mais próximo imageticamente/pictoricamente do Bem é o Sol, considerando a sua analogia, mas o Sol NÃO É o Bem, apenas guardando verossimilhança ontológica de alguns aspectos/qualidades/características. Logo, para não dizer que pode ser impossível realizar uma representação ideal[2] de qualquer coisa segundo EU, apresento um exemplo de mais de 2 mil anos de uma das mais importantes figuras da história da humanidade.

    Outros pontos podem ser levantados pra verificar a existência de pontuais dificuldades em se cumprir o que o autor do texto deseja quando conhecemos a forma com o Google indexa e trabalha as imagens que estarão presentes nos resultados de sua busca. Enfim: encerro dizendo que não discordo da intenção ideal do autor – concordo com ela -, mas digo que existem obstáculos – aqui vale verificar o que a filosofia da linguagem tem para nos ajudar – não somente por parte do Google como de nossa parte para que o ideal se torne padrão, cotidiano.

    Notas
    1. O meu uso da ontologia aqui é de um ponto de vista de valor de verdade daquilo que ele compreende e afirma, não da ontologia como seu argumento do texto.
    2. Aqui o ideal não deve ser compreendido como modelo perfeito, mas na sua raiz etimológica grega, ou seja: ideal = imagem.

  6. Que louco, eu havia acabado de ler esse texto no Medium e ia criar um tópico no disqus sobre. Que timing

  7. Isso me lembrou uma dúvida que tinha outro dia:

    Como o Google sabe que a busca que você fez é exatamente o que procura? Por exemplo, eu procuro por “tabela premier league” e ele já me dá de cara a tabela, sem eu precisar entrar em algum site, então o google considera um pesquisa com sucesso ou não? já que logo em seguida eu fecho a aba?

    1. Faz anos que eu estudei o algoritmo de PLN do Google, mas, vou tentar responder de cabeça.

      De forma resumida, ele não sabe exatamente se a sua busca foi bem sucedida (conceito de sucesso obtido na busca por você, i.e., você achou o que você queria). O que o Google sabe é que, baseado nas suas buscas e nas buscas de outras pessoas por termos/estruturas morfossintáticas semelhantes o resultado mais clicado (mais sucesso) foi o apresentado primeiro.

      Existe ainda uma aproximação por n-gramas (“tabela”, no seu contexto, pode ser “tabela brasileirão”, “tabela copa”, “tabela copa do brasil” ou “tabela do estadual” mas, “tabela premier” provavelmente será “tabela premier league”, ou seja, o segundo termo provavelmente, nesse caso, é quem diz qual é a busca com maior grau de probabilidade de sucesso).

      Tendo isso em vista, ele sabe com uma certa certeza (um grau de confiança) que você, ao buscar pela tri-grama “tabela premier league” tem grandes chances de estar procurando por aquele resultado apresentado de forma resumida naquele quadrinho da primeira página.

      Isso é de forma bem bruta, porque para além disso ainda temos as bolhas de conteúdo (essas bolhas se tornam um problema relativamente sério quando buscamos por informações novas ou fora do nosso escopo usual de buscas) e os conteúdos patrocinados – campeonatos que pagam para estar ali podem ter maiores retornos nas buscas ou retornos mais refinados – que, somados, podem determinar o resultado da sua primeira página do Google.

      [Como eu disse, isso pode estar desatualizado e/ou com alguns erros, mas, na época que eu estudei isso era mais ou menos assim que explicavam os conceitos por detrás do Google e dos resultados obtidos na primeira página (que variam de pessoa pra pessoa)]

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