Conversa do livro “Futuro ancestral”, de Ailton Krenak

Meu primeiro contato com os livros de Ailton Krenak foi há menos de dois meses. Fui arrebatado. Ele escreve bonito de temas centrais que, por motivos diversos, não têm o devido destaque. Outras formas de viver, outras cosmovisões.

Futuro ancestral, seu livro mais recente, de 2024, abre com uma bela reflexão sobre os rios, de como eles apontam para o único futuro possível à humanidade, o futuro que dá título ao livro.

Capa do livro “Futuro ancestral”, do Ailton Krekak.São quatro textos elaborados por Rita Carelli a partir de aulas, entrevistas e mesas redondas de que participou Ailton. Os textos, fáceis de digerir, também são curtos, característica que decorre do raciocínio afiado dele e da ótima elaboração da Rita. Futuro ancestral é um livro breve (~120 páginas), mas denso o bastante para longos debates. Espero tê-los aqui.

Ao comentar, aliás, indique a qual dos cinco textos se refere.

Alguns trechos que me chamaram a atenção:

Os humanos estão aceitando a humilhante condição de consumir a Terra.

Em “Cartografias para depois do fim”.

A experiência da pandemia de covid-19 foi arrasadora. Em uma oportunidade que tive de tecer comentários sobre essa travessia, alguém me perguntou: “Ailton, a covid nos ensinou alguma coisa?”, e eu respondi: “Por que que você acha que ela deveria nos ensinar algo? A pandemia não vem para ensinar nada, mas para devastar as nossas vidas. Se você está achando que alguém que vem para te matar vai te ensinar algo, só se for a correr ou a se esconder”. Os brancos que me perdoem, mas eu não sei de onde vem essa mentalidade de que o sofrimento ensina alguma coisa. Se ensinasse, os povos da diáspora, que passaram pela tragédia inenarrável da escravidão, estariam sendo premiados no século XXI. Eu não tenho nenhuma simpatia por essa ideia, não quero aprender nada às custas de sofrimento.

Em “Cidades, pandemias e outras geringonças”.

Esse é um elemento essencial para um pensamento que tem me provocado: “Como a ideia de que a vida é selvagem poderia incidir sobre a produção do pensamento urbanístico hoje?”. É uma convocatória a uma rebelião do ponto de vista epistemológico, de colaborar com a produção da vida. Quando eu falo que a vida é selvagem, quero chamar atenção para uma potência de existir que tem uma poética esquecida, abandonada pelas escolas que formam os profissionais que perpetuam a lógica de que a civilização é urbana, e tudo que está fora das cidades é bárbaro, primitivo — e a gente pode tacar fogo.

Em “Cidades, pandemias e outras geringonças”.

Já o enunciado de florestania nasceu em um contexto regional, em um momento muito ativo da luta social dos povos que vivem na floresta. Quando Chico Mendes, seringueiros e indígenas começaram a se articular, perceberam que o que almejavam não se confundia com cidadania — seria um novo campo de reivindicação de direitos (afinal, estes não são uma coisa preexistente, nascem da disposição de uma comunidade em antecipar o entendimento de que algo deveria ser considerado um direito, mas ainda não é).

Em “Alianças afetivas”.

As crianças indígenas não são educadas, mas orientadas. Não aprendem a ser vencedoras, pois para uns vencerem outros precisam perder. Aprendem a partilhar o lugar onde vivem e o que têm para comer. Têm o exemplo de uma vida em que o indivíduo conta menos que o coletivo. Esse é o mistério indígena, um legado que passa de geração para geração. O que as nossas crianças aprendem desde cedo é a colocar o coração no ritmo da terra.

Em “O coração no ritmo da terra”.

Agora é com a gente ali na área de comentários.

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