Funcionários de escritório também estão gastando demais com IA
A corrida pela IA funciona queimando dinheiro de capital de risco e cobrando dos usuários de chatbot bem menos do que o custo real do serviço
A ideia é que os clientes vão se viciar no valor gerado pela IA. Aí os fornecedores de IA podem sugar tudo deles. E, enquanto isso, tentam não sangrar dinheiro demais.
Por isso Microsoft, Anthropic e OpenAI estão migrando seus clientes corporativos de assinaturas mensais para a cobrança por token. Tokens têm a vantagem adicional, do ponto de vista de precificação empresarial, de tornar o custo de qualquer coisa completamente opaco.
Uma fonte disse ao Axios que um dos seus clientes gastou US$ 500 milhões em um mês no Claude Code. Não se sabe quem foi, mas os maiores candidatos são Amazon e Uber, ambas empresas conhecidas por terem faturas astronômicas.
Entretanto, os clientes não estão tão viciados assim a ponto de engolir uma fatura do GitHub Copilot multiplicada por cem.
E não são só os programadores — são os funcionários comuns de escritório! Estão sendo mandados a “IA-nizar” tudo e dar ao trabalho aquele verniz de gororoba de IA. Isso é sinônimo de profissionalismo agora. Infelizmente, também é caro.
O Walmart disse no início de junho que estava racionando sua ferramenta interna de IA chamada “Code Puppy”, que servia tanto para serviços de escritório quanto para código. O Code Puppy era ilimitado. Agora não é mais.
A Accenture viveu uma montanha-russa. Em fevereiro, a empresa dizia aos funcionários que promoções dependiam de bater metas com de uso de chatbot. Quem não batesse, seria demitido.
Na prática, era só uma desculpa para demissões em massa — o negócio de consultoria da Accenture está mal das pernas e o preço das ações despencou no último ano.
Os funcionários da Accenture responderam ao incentivo — e agora a conta chegou. A 404 Media vazou uma reunião interna da Accenture:
“Vemos pelos dados internos que, na verdade, não são nossos engenheiros que estão consumindo os tokens. São os não-engenheiros que estão fazendo esse tipo de coisa […] que vocês mencionaram.”
[…] Stuart Henderson […] brinca que espera que Kwak não tenha ficado convertendo PDF em imagens e depois em arquivos markdown. “Estou descobrindo que isso é um dos grandes devoradores de tokens”, diz Henderson. “Transformar PDFs em markdown: é isso mesmo?”
Se você manda as pessoas usarem um chatbot que não serve para nada de útil, elas vão apontá-lo para qualquer coisa aleatória. Aí a conta chega.
A reação dos clientes está tão ruim que Sam Altman, da OpenAI, está falando abertamente em cortar preços.
O problema é que a OpenAI não pode se dar ao luxo de cortar preços. Ela precisa de números de receita que façam o IPO planejado parecer plausível. E Altman não tem aquela magia Elon que a SpaceX usou em seu próprio IPO.
Elon Musk também não está convencendo o mercado. O preço das ações da SpaceX disparou e voltou a cair alguns dias depois da abertura de capital. Desde então está estável, um pouco abaixo do preço do IPO.
O golpe da IA não consegue se pagar com vendas. A IA prova não ser essencial para o trabalho corporativo real.
O caso de uso da IA é fazer coisas que não deveriam ser feitas. E mercado para isso tem só até certo ponto.
Publicado originalmente no Pivot to AI em 25/6/2026.
“A ideia é que os clientes vão se viciar no valor gerado pela *insira empresa, produto ou serviço aqui*. Aí os fornecedores de *insira produto ou serviço aqui* podem sugar tudo deles. E, enquanto isso, tentam não sangrar dinheiro demais.”
A mesma coisa foi o Uber, Amazon, e outras empresas. Todo mundo operando alavancado pra conseguir a base fiel de clientes, até chegar o ponto de inflexão e cobrar o que precisa pra atender aos desejos dos investidores. Nada fora do script.
> E não são só os programadores — são os funcionários comuns de escritório!
Ah sim, os funcionários não-comuns chamados programadores!!
venhamos e convenhamos que em um ambiente de escritório, os programadores são os menos comuns haha. quem trabalhou em empresa grande, com vários departamentos, com certeza notou isso.
Estou desanimado com a minha área da programação. A IA tirou todo o prazer de programar, e tirou a alegria de comprar equipamentos novos para tunar meu ambiente de trabalho. Começou com os fabricantes de PC. A Apple com suas margens absurdas virou “competitivo”, mas agora eles aumentaram em 40% seus produtos. Está ficando deprimente, não tenho vontade de trabalhar, dá vontade de demitir de tudo e viver de bolsa do governo, pois estou ficando velho e ficar 4 anos em banco de faculdade para aprender outra profissão está inviável para mim.
Urge a necessidade de uma revolta popular ludista contra a IA, antes que seja a ruína total….
Esse sentimento é comum e frequente. Não se tem uma solução ainda, é similar a Revolução Industrial: vai piorar muito antes de melhorar um pouco.
Ou fique piorado de uma vez por todas. E sem volta.
Pergunta genuína, Luis: qual o rolê/prazer de tunar o ambiente de trabalho?
Não sou o Luis e nem sou programador, mas respondendo com a visão de alguém que também “tunou” o ambiente de trabalho:
Eu nunca tive um espaço que dava pra chamar de “meu” pra trabalhar em casa até sair pra morar sozinho e arrumar um emprego híbrido. É uma baita sensação legal montar com liberdade total um espaço que atende 100% das suas necessidades e que tem sua identidade em cada canto, bate um orgulho de ter conseguido conquistar tudo aquilo quando termina ou quando muda alguma coisa.
No seu caso, pensa no site do Manual em si, Ghedin. Você tem total liberdade pra mexer no layout e no conteúdo o quanto quiser, certo? Mas se o blog fosse uma coluna de um UOL da vida, você poderia deixar algumas coisas com a sua cara, tipo as seções, imagens e o texto, mas no fim do dia o espaço continua sendo do UOL, não seu, e o resto das coisas deve seguir a identidade visual deles.
No ambiente de trabalho convencional, na maioria dos lugares, você no máximo consegue botar um ou dois penduricalhos na mesa e olhe lá. O espaço em que você fica, sua mesa e o ambiente são os padrões da empresa, não tem nada da “sua” identidade e personalidade ali.
Rodrigo, a respeito da sua questão, é que eu não tenho motivo para comprar casa nem carro – tenho medo de fazer carta e bater o carro no primeiro dia após comprar ele. Só resta a alegria de comprar equipamentos novos (não sou consumidor inverterado – sou apenas uma pessoa que planejava por 1 a 2 anos comprar um equipamento novo ou um periférico novo, e conseguia, isso era o sinal que os meus frutos estavam dando certo, e experimentar novas tecnologias – quando novidades eram novidades de verdade – era algo legal para mim. Mas a IA tirou esse prazer. Além dos dois pontos que elenquei, a IA serviu de pretexto para piorar os sistemas novos e brecar otimizações do sistema, deixando gigas de RAM valiosos para serem consumidos em IAs inúteis.
Espero que tenha entendido meu ponto.
Entendi, Luis. Valeu!
Quando não é possível ter filhos ou comprar uma casa boa, fica muito legal ter um cachorro e uma kitnet em pinheiros. Quando nem isso é possível, viajar todo ano é muito legal. Quando nem isso é possível, é muito legal ter um iPhone e airpods do momento. Agora que nem isso é possível, de onde vão medir o progresso na vida?
A minha sensação é parecida, não escrevi uma única linha de código esse ano, estamos 100% no vibe coding, as especificações e os protótipos que recebo são feitos com IA, desleixados, meu trabalho acaba sendo pilotar e corrigir o plano quando a ferramenta não compreende o projeto corretamente. Mas quanto mais o projeto evolui menos tenho contexto pra fazer essas correções, afinal, todos os dias o time adiciona o que antes seria uma semana de trabalho no repositório.
Eu sou do tipo que precisa colocar a mão na massa pra entender, revisão nunca foi meu forte, então, revisar as milhares de linhas de código que “estou criando” diariamente mais as dos colegas, cumprindo as novas expectativas de produtividade, tornou minha vida um inferno. Comecei a trabalhar até 16H por dia, então desisti, criei várias etapas de revisões automatizadas e apenas verifico se tudo funciona como deveria no final, o que já me fez passar alguns vexames em termos de qualidade de código…
Tenho esposa, filhos, e um custo de vida que torna recomeçar uma tarefa que me parece um sonho impossível, a cada dia que passa sinto mais urgência, mas não vejo uma saída.
É estranho me sentir tão perdido, afinal o empregador está contente, o trabalho ficou “mais fácil”, posso até fazer outras coisas enquanto a ferramenta escreve código pra mim. Mas até quando vai durar esse trabalho alienado, sem propósito? Fora que em algum momento nosso salário deve ser pressionado pra baixo ou no mínimo estagnar, afinal não há mais trabalho de engenharia sendo feito.
E o cliente? Realmente está satisfeito com atualizações diárias de perfumaria, bugs frequentes, re-designs, funcionalidades que ninguém pediu e todas as vantagens que essa velocidade extra proporciona? Muitas dúvidas por aqui.
Bem vindo ao meu mundo!
Tenho a sorte de ñ ter custo de vida alto, e por um tempo vou virar dono de casa enquanto acho uma profissão que me traga a sensação de ñ só ter dinheiro.
Compreendo, colega de profissão! Sobre o prazer de programar: ouvi pessoas que estão programando “artesanalmente” por hobby. Talvez esse seja o caminho pra vc.
Sobre a revolta popular: hoje é a IA. Ontem foi o motor a vapor. Amanhã vai ser outra. Sem o fatalismo, a tecnologia não é o problema e também não será a solução.
O motor a vapor foi bom para a humanidade como um todo, mas para os funcionários afetados diretamente foi um desastre de repente perder seu sustento sem um amparo ou recolocação no mercado. Queremos mesmo repetir isso agora?
Outro ponto que me incomoda nessa comparação: o motor a vapor gerou novos empregos, afinal vivia quebrando, precisava de manutenção. Novos motores precisavam ser construídos e motores mais eficientes precisavam ser projetos. Onde estão esses novos trabalhos da IA? “Engenheiro de prompt”? “Construtor de datacenter”?
Acho que vc perdeu o ponto da minha comparação, amigo.
Relendo o contexto todo acho que perdi sim.
Você não consegue implementar IA nos seus processos de trabalho? Ganhar tempo? Diminuir a quantidade de tarefas braçais? Não dá pra tirar algo de bom com isso pra diminuir as consequências negativas?
Olá, eu consigo sim, mas sou aquela pessoa que tenho que digitar o código ou ver todo o código para ter confiança no que eu entrego para a empresa. Isso me bloqueia nisso. Tenho que usar a IA senão fico para trás, mas não tenho mais confiança nenhuma do que sai. Isso me deixa inquieto.
Espero que tenha explicado bem para você.