“Atribuição com respeito à privacidade” do Firefox coloca Mozilla em xeque

A Mozilla é uma espécie de último bastião da web não (tão) comercial, porém está longe de ser uma unanimidade. Entre a dependência umbilical com o Google, a estrutura corporativa complexa e distrações com modinhas (a do momento parece ser a inteligência artificial), vez ou outra atitudes inexplicáveis abalam a confiança de quem usa o Firefox na dona dele.

O Firefox 128, lançado em 9/7, trouxe uma nova opção, ativada por padrão, da API de Atribuição com respeito à privacidade (PPA, na sigla em inglês).

Essa API é desenvolvida com a ajuda da Meta e, segundo a documentação da Mozilla, foi projetada para “ajudar os sites a entender qual o desempenho de seus anúncios sem coletar dados individuais”.

Em termos gerais, a ideia é garantir que anunciantes consigam conectar conversões a partir de anúncios em sites específicos sem revelar a identidade das pessoas que clicaram neles.

A decepção com a Mozilla, acentuada por uma já reconhecida falha de comunicação, é compreensível. Por mais cuidadosos que sejam com a atribuição de anúncios, trata-se — por definição — de solução pior que não atribuir.

Mais do que a implementação em si da PPA, dar tratamento especial à publicidade — uma indústria conhecida por devassar a privacidade alheia — no nível do navegador abre brecha para abusos e passa uma mensagem ruim, a de que não há alternativa para um futuro melhor, um que não dependa da comercialização da atenção na web e da normalização do ambiente digital hostil em que nos metemos.

Aliás, argumenta Jeremy Keith, por que a publicidade merece tratamento especial em navegadores web? No Chrome, produto de uma empresa de publicidade invasiva, eufemismos como “Sandbox de Privacidade” que reinventam a roda para manter ou aprofundar a vigilância do Google, são esperados, zero surpresa. No Firefox, não, ou ao menos não até agora.

A já referida documentação adota um tom determinista que contrasta com todo o posicionamento pró-privacidade da Mozilla:

Atribuição é muito importante para anunciantes. Infelizmente, rastreamento é a única forma de efetuar atribuição sem a ajuda do navegador. Rastreamento é horrível para privacidade, pois entrega às empresas informações detalhadas sobre o que você faz online. Embora o Firefox tenha muitas proteções de privacidade que dificultam para os sites rastrear você online (proteção aprimorada contra rastreamento, proteção total contra cookies, remoção de parâmetros de consultas e muitas outras medidas), existe um enorme incentivo para sites encontrar meios de contornar para conseguir efetuar atribuição.

Nossa esperança é que, se desenvolvermos uma boa solução de atribuição, ela oferecerá uma alternativa real a práticas mais questionáveis, como rastreamento. No momento estamos testando esta abordagem para ver se pode fornecer aos anunciantes as informações que procuram.

Não sei se ato falho ou tradução desleixada, note que o texto diz que a PPA é “uma alternativa real a práticas mais questionáveis”, no que se entende que a PPA é questionável, só menos pior que as demais.

O pior é que há muito é possível fazer a atribuição de modo privado, como explica Jonah Aragon, do Privacy Guides: com parâmetros na URL — a parte que vem depois do ? em um link. É o suficiente para tal finalidade, mas não para coletar dados e “otimizar” anúncios, mesmo que o suposto melhor desempenho da publicidade segmentada esteja, como diz Jon Bradshaw, longe de ser comprovado.

A Mozilla não é cínica como o Google, porém. É possível desativar a API de Atribuição com respeito à privacidade nas configurações do Firefox 128; basta desmarcar a caixa de seleção na área Preferências de publicidade em sites (veja).

O fato de o Firefox ser um navegador de código aberto viabiliza versões derivativas que se encarregam de corrigir os deslizes da Mozilla.

Em computador, o LibreWolf é o meu preferido. Ele pende mais para o lado da privacidade do que da praticidade, o que resulta em alguns comportamentos indesejados no dia a dia. Algum tempo fuçando nas configurações pode ajudar a mitigá-los. (Desativar a proteção contra fingerprinting ajuda muito nesse sentido.)

No Android, Fennec e Mull são as melhores opções. Aproveite para conhecer a F-Droid, loja alternativa por onde os dois apps são distribuídos.

A newsletter do Manual. Gratuita. Cancele quando quiser:

Quais edições extras deseja receber?


Siga no Bluesky, Mastodon e Telegram. Inscreva-se nas notificações push e no Feed RSS.

7 comentários

  1. O Fennec diz que "Este aplicativo rastreia e relata sua atividade"; não seria, então, pior que a API do Firefox?

    1. Esse alerta é por causa de algumas APIs da Mozilla e do Google, referentes a serviços de geolocalização e proteção contra sites de phishing (golpes). A F-Droid é bastante “purista” -- qualquer código que troque dados com servidores externos, mesmo que não pessoais, dispara esse alerta.

      1. Entendi, obrigado pelas explicações. Talvez nesse caso eles poderiam deixar isso mais claro para não acabar espantando potenciais usuários.

  2. O que eu acho mais tragicômico é que a prática anti-competitiva da Apple sobre impedir o uso de motores web alternativos no iOS tem sido mais relevante pra impedir a dominação total da web pelo Chrome do que essas ações de "diminuição de danos" que a Mozilla tem feito pra tentar convencer as pessoas de que o Firefox é melhor pra elas que o Chrome.

    1. É como dizem: “Deus escreve certo por linhas tortas.” Não que a Apple seja deus nem que esteja escrevendo certo, enfim. Talvez -- nesse caso -- os fins justifiquem os meios?

      Ok, chega de velhos ditados 😄

  3. Achei o Librewolf muito exagerado, estou testando o Waterfox

    1. A configuração padrão do LibreWolf é exagerada mesmo, porque ele pende para a privacidade -- mesmo quando isso compromete o uso. Nesse sentido, é o contrário do Firefox, ou seja, tem que desativar algumas proteções padrões, em vez de ativá-las.