Fundo azul, com uma chamada para um PlayStation 5 no centro. À esquerda, a frase “Ofertas de verdade, lojas seguras e os melhores preços da internet.” À direita, “Baixe o app do Promobit”.

Elon Musk no Brasil

Foto lateral, com Elon Musk ao centro, focado, ladeado pelo presidente Jair Bolsonaro falando ao microfone e o ministro Fábio Faria.

No dia 20 de maio, sem alarde, apesar dos rumores e questionamentos feitos ao Ministério das Comunicações, Elon Musk desembarcou no Brasil.

Na agenda estava um acordo com o governo federal para conectar escolas da Amazônia usando a Starlink, rede de satélites de órbita baixa que polui o céu noturno e leva internet a lugares remotos.

Na prática, porém, o evento serviu para o governo bajular o homem mais rico do mundo e alardear sua noção um tanto torta e perigosa de “liberdade de expressão”.

Musk reuniu-se com Jair Bolsonaro (PL), ministros, grandes empresários e estudantes universitários na Fazenda Boa Vista, um condomínio de luxo em Porto Feliz, no interior de São Paulo, a pouco mais de 100 km da capital.

O projeto a que o governo se refere, de conectar 19 mil escolas na região amazônica usando os satélites da Starlink, não teve contrato assinado nem valores mencionados, ou seja, não avançou desde a última conversa do governo com Musk, em novembro de 2021, nos Estados Unidos. O saldo do encontro acabou sendo um post no Twitter do próprio Musk.

Nem poderia ser diferente. Como lembrou Malu Gaspar, n’O Globo, a Lei de Responsabilidade Fiscal impede os presidentes de contraírem dívidas que não possam ser cumpridas durante seus mandatos.

A Starlink é uma rede global de satélites de baixa órbita, a 550 km de altura. Já existem 2,2 mil ao redor do planeta. A intenção é que esse número chegue a 42 mil.

No site da Starlink, notou Ronaldo Lemos, a cobertura da região amazônica está prevista apenas para o final de 2023. O advogado mostrou alguns números: a aquisição do aparato físico da internet da Starlink, a antena e o receptor, sai por R$ 5.138. A mensalidade custa R$ 530.

Piora. Segundo O Globo, o Brasil já oferece acesso à internet via satélite na região desde 2018: “Custou mais de R$ 700 milhões de reais e foi implementado por meio de um acordo da Telebras com o maior concorrente de Musk nos Estados Unidos — a Viasat Telecomunicações, do igualmente bilionário Mark Dankberg.”

O projeto, inicialmente batizado de Governo Eletrônico — Serviço de Atendimento ao Cidadão (Gesac) e rebatizado por Bolsonaro de de Wi-Fi Brasil, atende 10 mil escolas das regiões Norte e Nordeste, sendo 91% delas na zona rural.

Registre-se, ainda, que a pasta de Faria e ele próprio são acusados de ingerência sobre a Anatel a fim de acelerar o processo que autoriza a Starlink a atuar no país, como reportou o Brasil de Fato.

Monitoramento da Amazônia

“Ele não criticou a Amazônia, como muitos fizeram sem conhecer. Em vez de criticar, ele veio aqui para somar”, disse Fabio Faria, segundo a Folha de S.Paulo, confundindo crítica à Amazônia com crítica à devastação da Amazônia perpetrada pelo governo que integra.

Bolsonaro disse que os satélites de Musk ajudarão a mostrar a “realidade” da Amazônia, a floresta que ele devasta desde que assumiu o poder.

É pura falácia. O monitoramento da Amazônia é mais um dos problemas que só existem na cabeça do mandatário. O Brasil já tem um sistema de ponta para fazer esse monitoramento, mantido pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

Em 2019, quando a devastação da Amazônia foi intensificada, o Inpe soou o alarme. Bolsonaro reagiu criticando o instituto, lançando mão de uma desconfiança agressiva e infundada, em vez de fazer alguma coisa para combater o estrago. Depois, enfraqueceu o Inpe e pediu a cabeça de Ricardo Galvão, então presidente do Inpe, que tentou o quanto pode resistir às investidas e mentiras do Planalto.

Além disso, os satélites de Musk não são adequados para o monitoramento de florestas. Não só porque, como dito, eles ainda não passam sobre a Amazônia, mas por algo um tanto óbvio: eles foram feitos para fornecer sinal de internet, não parar tirar fotos. Detalhes.

“Mito da liberdade”

Musk foi chamado por Bolsonaro de “mito da liberdade”. O ministro das Comunicações, Fabio Faria, mandou um “everybody in Brazil loves you”. Cenas constrangedoras.

A visita do bilionário sul-africano, como era de se imaginar, virou palanque eleitoral. Bolsonaro e companhia fizeram fotos e postaram muito no Twitter. Musk saiu com a promessa (e só a promessa) de bons negócios para sua empresa e uma inexplicável condecoração com a Ordem do Mérito da Defesa concedida pelo governo brasileiro.

A aquisição do Twitter, conturbado negócio que Musk tenta levar a cabo (ou fugir, considerando os últimos eventos), esteve na pauta.

“A compra do Twitter para nós aqui foi como um sopro de esperança. Liberdade é a semente do futuro”, disse Bolsonaro, que confunde liberdade de expressão com liberdade de delinquir sem sofrer consequências.

Nas redes de apoio do presidente, Musk foi ovacionado quando anunciou sua intenção de adquirir o Twitter.

Na imprensa estrangeira, o Gizmodo norte-americano foi o que talvez melhor resumiu o tom da ocasião: “Elon Musk completa sua transição para super vilão com encontro com Bolsonaro no Brasil.”

Elon Musk chegou às 9h daquela sexta, 20 de maio, em seu avião particular, e foi embora logo depois do almoço, sem dar entrevistas a jornalistas. Passou cerca de cinco horas no Brasil.

Foto do topo: Clauber Cleber Caetano/Palácio do Planalto/Flickr.

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15 comentários

  1. Engraçado que o cara está fazendo a mesma coisa que fez com o Inpe, na Petrobras. Foi avisado que vai acabar diesel, mas prefere pedir a demissão e continuar fazendo motociata.

    Não tem como levar a sério quem apoia a forma que essa galera está governando o país. O fanatismo dessa galera, está levando o país ainda mais para o fundo de um buraco que não vejo saindo tão cedo.

  2. O trump saiu. Foi babar o ovo do Musk.
    Quando ele babava o ovo do trump não teve bons frutos pro Brasil, dessa vez também não vai ter.

      1. Não tentou. Babou mesmo. E de quebra ainda ajudou Putin a distrair os outros países enquanto começava a mandar as tropas.

  3. Toda essa empreitada já é constrangedora, de certa forma. Mas eu cliquei no link da postagem de Musk no Twitter, e encontrei mais constrangimento. Além dos bolsonaristas tudo babando ovo do Musk com inglês duvidoso, ou fazendo pedidos (?), tinham algumas montagens que, até agora não sei se eram pra ser homenagens ou se são sátiras. Tem desde o Elon Musk comendo lanche com o Mito até os dois vestidos de Power Rangers. Acho que vale a pena ver just for fun!

      1. Perfeito João! Jornalismo de qualidade pode ter lado, só não pode mentir! O Manual do Usuário faz jornalismo se posicionando e só com verdades!

    1. Claramente o Ghedin tem uma visão política bem diferente da minha e esse texto mostrou o quanto ele “gosta” do nosso presidente. Mas sendo sincero eu já nem espero algo diferente.

    2. Talvez o Ghedin puxe minha orelha (dsclp ;) ), mas tenho um questionamento sobre estes comentários como o seu.

      Afinal, se tu acha que é irrelevante o texto, por quê comenta?

      (Aviso de “passou de duas linhas não leio” – faça o que quiser depois daqui)

      Aprendi com muitos (inclusive com gente daqui dos comentários) que muitas vezes o melhor mesmo é não fazer um comentário simplório como este, caso realmente incomode o texto.

      Muitas vezes apenas lê-lo e depois parar para pensar talvez ajude a das duas uma: ou você acha uma resposta que questione e levante um debate adequado, ou no final você ignora e toca tua vida seguindo, talvez você nunca mais mude de posição, talvez assim como até aconteceu comigo, mude muitas de suas convicções.

      Você tem seu viés atual, provavelmente favorável aos personagens descritos na matéria e não ao autor do texto. Normal, ao menos você leu um texto contrário ao seu viés, e isso é bom. É assim que formamos opinião e arrumamos os nossos viés, muitas vezes para nos adaptarmos ao mundo ao redor.

      Dizia Raul “Prefiro ser esta metamorfose ambulante do que ter a velha opinião formada sobre o mundo”.

      1. O problema com a visão deles ao meu ver, é que ao procurar blogs jornalísticos independentes, existe uma certa visão de fuga da “grande mídia influenciadora”, e uma tentativa de procurar meios não parciais de conteúdo, não percebendo que mesmo que alguns meios procurem esse tipo de abordagem, não existe nenhuma obrigação por parte do MdU o fazer(além de que a busca pela parcialidade total não existe), mas isso realmente não impota na visão deles porque o medo de “estar sendo manipulado pela esquerda” bate muito mais forte. Mesmo o site tendo uma página de conduta ou esse artigo esteja na sessão com letras garrafais de ‘ARTIGO DE OPINIÃO’, não existe nenhum tipo de tentativa de entender a proposta, pra eles o blog não deve por tanto refletir a opinião do autor do site, isso é um incomodo, uma ofensa, meio agressivo até pro tipo de proposta SLOW WEB que o site se propõe, o que é triste.

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