E nós chegamos ao fim, de Joshua Ferris

Capa do livro E Nós Chegamos ao Fim, de Joshua Ferris.

Enquanto lia o livro de estreia do escritor americano Joshua Ferris, E Nós Chegamos ao Fim, fiquei com a sensação de que ele é quase uma versão romanceada das tirinhas de Dilbert. A vida corporativa, vivida nas salas e cubículos de um escritório, pode ser amargamente engraçada.

E Nós Chegamos ao Fim narra os últimos eventos de uma agência de publicidade em Chicago prestes a fechar as portas, encurralada pelo estouro da bolha ponto com do final dos anos 1990. Escrito em primeira pessoa, mas sem revelar quem nos conta a história, o livro é praticamente um diário de bordo dos momentos que precedem o naufrágio. Aos poucos, conhecemos os personagens, suas características, anseios e o medo, esse sentimento compartilhado por todos, de ser o próximo na fila de demissões.

“O mundo transbordava de dinheiro da internet e nós recebemos uma fatia considerável. Nossa opinião era a de que o design de logotipos era tão importante quanto a performance do produto e suas estratégias de distribuição. “Muito maneiro” eram as palavras que usávamos para descrever nossos desenhos de logotipos. “Padrão Bush” era como descrevíamos os logotipos de outras agências — a não ser que fosse um logo realmente bem desenhado. Nesse caso, nos curvávamos diante dele como os antigos maias diante de seus deuses pagãos.”

A agência exalava monotonia e, em paralelo às demandas dos clientes e ao esforço que todos faziam para mostrar serviço mesmo quando não havia um a ser feito, o grande desafio dos funcionários era matar o tempo conversando, especulando, fofocando… a rotina de um grande escritório — ou como imaginamos que seja. Eles também pensavam muito no que fariam se não fossem reféns do contracheque e nutriam um fascínio, misturado com temor, da dona da agência, Lynn Mason.

Essa linha narrativa, da auto-depreciação com um fundo de estima, é complicada. Não raro, autores que a adotam caem em clichês e ideias que não funcionam. E Nós Chegamos ao Fim, talvez por não forçar tanto na tentativa de fazer humor, caminha por ela sem grandes problemas. Algumas passagens arrancam risadas, como esta abaixo; em outras, rola uma identificação (mesmo nunca tendo trabalhado num escritório minimamente parecido com o da história). É uma sátira bem consistente — e deve ter facilitado a escolha do tema, a vida corporativa, sempre tão rico em absurdos que beiram o surreal.

Trecho do livro de estreia de Joshua Ferris.

“Carl lhe contara que não queria que Marilynn soubesse de sua depressão porque a mulher lhe afirmara que estava deprimido, e ele não queria lhe dar razão. Tom também havia se casado com uma mulher que tinha razão o tempo todo, podendo entender o desejo de Carl de privar a pessoa que mais o amava de uma confirmação de seu bom senso.”

E Nós Chegamos ao Fim foi eleito um dos dez melhores romances de 2007 pelo New York Times. Com um ritmo ágil e personagens que, embora não sejam tão desenvolvidos, têm a profundidade exata para nos afeiçoarmos e entendermos suas ações e trejeitos, trata-se de um romance tragicômico sobre como trabalhamos nesse início de século XXI e, mais que isso, como o lado profissional reflete em nossas vidas privadas e, às vezes, toma conta dela.

E Nós Chegamos ao Fim
Título original: Then We Came to the End
Autor: Joshua Ferris
Tradução: Myriam Campello
Editora Nova Fronteira
352 páginas
2008

Capa da edição brasileira de E Nós Chegamos ao Fim.

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2 comentários

  1. Digdin, sempre vemos por aqui no kit de sobrevivência das pessoas um e-reader. Sempre carregar um leitor de livros, mas o que leem? Seria bacana ter uma coluna regular por aqui comentando algum livro que leu ou esteja lendo. Nada muito detalhado, apenas contar o que achou de interessante nele.

    E dito isso, como vocês conseguem ler sem se cegar? Esse é um problema sério que estou enfrentando.

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