Campo de busca do DuckDuckGo.

DuckDuckGo como alternativa ao capitalismo de vigilância do Google


27/1/17 às 9h10

Na página inicial do buscador DuckDuckGo, logo abaixo do campo de busca, ou seja, em local de destaque, lê-se a seguinte frase: “A ferramenta de busca que não rastreia você”. É uma cutucada no Google, maior buscador do mundo, uma das maiores empresas de publicidade e das mais lucrativas da história. Quais as chances do pequeno DuckDuckGo frente a esse titã?

O Google se tornou sinônimo de pesquisa na web e, partindo dali, criou um império que serve a indivíduos e empresas com tamanha excelência que raramente encontra rivais à altura.

Na prática, sejamos honestos, o DuckDuckGo é pior que o Google. Ele tem uma ou outra vantagem direta como não “sujar” os links nos resultados, permitindo a cópia da URL, e os !bangs, mas elas são circunstanciais ao que realmente importa, que é a qualidade dos resultados.

É, também, uma empresa muito menor. Gabriel Weinberg, CEO e fundador do DuckDuckGo, dia desses revelou que seu buscador havia batido a marca de 10 bilhões de pesquisas servidas, sendo quatro bilhões delas feitas em 2016. É um número expressivo, mas que empalidece perto do que o Google serve.

Em janeiro de 2015, num raro lapso, o Google revelou ao jornalista Steven Levy que processa três bilhões de consultas por dia. Isso resulta, ao longo de um ano, em mais de um trilhão de pesquisas servidas. No atual ritmo, levaria 250 anos para o DuckDuckGo bater a marca de apenas um ano do rival.

Sendo pior e menor, o apelo do DuckDuckGo recai naquela frase da sua página inicial, citada ali em cima. As pesquisas feitas nele não ficam salvas nem são usadas para personalizar qualquer coisa. Os anúncios exibidos não se baseiam em dados pessoais do usuário, referem-se apenas ao termo pesquisado. E, no geral, apesar dos resultados ligeiramente piores, ele funciona bem. Eu o uso como buscador padrão, no computador e no smartphone, há bastante tempo.

O DuckDuckGo sustenta uma postura ética que compensa em grande parte suas ineficiências técnicas. Não é suficiente para a maioria que confia no Google, mas é um fator que vem ganhando força frente à vigilância desenfreada e descarada de empresas e governos.

Em 2014, o Pew Research Center descobriu que 61% dos norte-americanos “discordava” ou “discordava fortemente” da declaração “gosto que serviços online fiquem mais eficientes com o crescente acesso que eles têm aos meus dados pessoais”. Por aqui, nessa semana a GfK divulgou pesquisa em que 37% dos brasileiros disseram discordar da declaração “estou disposto a compartilhar meus dados pessoais (saúde, finanças, trajetos, uso de energia) para obter vantagens”. Há demanda, pois.

Além (ou apesar) disso, o DuckDuckGo opera no azul. É um negócio autossustentável, tanto que pode fazer doações a organizações que compartilham dos seus valores e que lutam por uma alternativa à Internet dominada por Google e Facebook. Em 2016, segundo o mesmo anúncio de Weinberg, foram US$ 225 mil distribuídos a nove dessas iniciativas.

O DuckDuckGo atua numa posição difícil de estar e assumir. Ela é combativa, resistente. Necessária, diria. O Google, à parte o bom serviço que oferece, é o precursor do que a professora aposentada da escola de administração de Harvard, Shoshanna Zuboff, chama de “capitalismo de vigilância”: consiste em empacotar dados pessoais e informações comportamentais para vendê-los a anunciantes. É preciso um contraponto que nos mostre que alternativas a esse modelo são viáveis.

A Prof. Zuboff faz uma analogia entre o Google e o fordismo, a receita de linha de montagem que Henry Ford criou e que depois se espalhou por toda a indústria manufatureira. O Google, por sua vez, aperfeiçoou a comoditização dos dados dos seus usuários e a utilização deles para combinar usuários a anunciantes dispostos a pagar por esse acesso privilegiado à nossa atenção.

Não foi algo planejando. A professora argumenta que o modelo de negócio do Google é um sistema criado ante a falta de algo que pudesse ser vendido e que, pelo sucesso estrondoso e sem precedentes, tornou-se um fim em si mesmo. Os serviços do Google viraram adereços do seu sistema de publicidade programática.

Isso gera um dano à coletividade, como argumenta:

“É assim que a lógica da acumulação se desenvolve… e, por fim, floresce e se torna institucionalizada. Que isso tem custos, e que esses custos recaem na sociedade, nos indivíduos, nos valores e princípios da ordem liberal pela qual seres humanos têm lutado e se sacrificado ao longo de milênios — isso, fica fora da conta. (…) Princípios de auto-determinação individual são impedimentos a esse colosso econômico; eles precisam ser eliminados. Eles são atrito.”

É nessa lógica que perdemos a nossa privacidade, que segundo ela:

“É ter o direito de decidir como você quer viver, o que gostaria de compartilhar e o que escolhe expor aos riscos da transparência. No capitalismo de vigilância, esses direitos nos são tomados sem o nosso conhecimento, compreensão ou consentimento, e usados para criar produtos que antecipam o nosso comportamento. Perdemos [esses direitos] para alguém. O Google é um exemplo de empresa que acumula ‘direitos decisórios’ que já nos pertenceram. Direitos decisórios são fundamentalmente políticos. Então, trata-se de concentração de poder político em instituições que não autorizamos. Não as elegemos, não votamos nelas, não aprovamos essa transferência de direitos e poder.”

Há mais em jogo do que apenas a qualidade. Do Meitu ao Google, do Facebook ao assalto da nossa privacidade que virou norma na web e em outros segmentos da tecnologia de consumo, é preciso reequilibrar a balança para que o poder — de mercado, político, todos eles — seja melhor distribuído, menos concentrado. Pense nisso na próxima vez em que fizer uma pesquisa na web.

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