Por que computadores modernos parecem mais lentos que os antigos?


27/12/17 às 9h29

Você já teve a sensação de que computadores antigos pareciam mais rápidos que os modernos? Dan Luu, sim. Como ele “não confia nesse tipo de sensação porque já se provou por estudos empíricos que a percepção humana é falível”, ele conduziu uma série de testes ao longo dos últimos meses, com uma câmera lenta, a fim de mensurar a latência entre apertar uma tecla e o caractere ser exibido na tela. O resultado é este longo e detalhado texto.

O dispositivo com menor latência (30 ms) foi o Apple IIe, um computador de 1983. O segundo, com latência de 40 ms, foi um Texas Instruments 99/4a, de 1981. Só na terceira posição aparece um moderno, de 2014, com latência de 50 ms — mas a quarta é do mais antigo dos 21 sistemas testados, um Commodore Pet 4016, de 1977. A exceção entre os modernos são os dispositivos iOS: o iPad Pro de 10,5 polegadas com o Apple Pencil, lançado em 2017, iguala a latência do antigo Apple IIe.

Luu explica os vários aspectos que nos levaram a essa situação e atribui à “complexidade” a maior parcela da culpa:

Muito da complexidade nos concede algo, direta ou indiretamente. Quando olhamos o input de um teclado moderno estiloso e o do teclado do Apple II, vemos que usar um processador de uso geral caro e relativamente poderoso para lidar com os toques em um teclado pode ser mais lento que um lógico dedicado ao teclado, que poderia ser mais simples e mais barato. Porém, usar o processador dá às pessoas a possibilidade de personalizar o teclado e também transfere o problema de “programar” o teclado do hardware para o software, o que reduz os custos de fabricação do teclado. O chip mais caro aumenta o custo de fabricação, mas considerando quanto do custo desses teclados artesanais de pequeno volume é o custo do projeto, parece vantajoso trocar o custo de fabricação pela facilidade de programar.

Quanto à baixa latência dos iPhones e iPads, a explicação é uma antiga: graças à integração, a Apple consegue implementar otimizações que, em outros cenários, com partes genéricas desenvolvidas por fornecedores distintos, são extremamente difíceis. Ou, nas palavras dele, através de um foco na experiência do usuário de ponta a ponta por parte da Apple.

Por que isso é importante? Porque diferenças em latência são perceptíveis, mesmo que, questionados, muitos de nós não consigam apontá-la como a fonte de um desconforto ou problema. Segundo Luu:

Para tarefas muito simples, as pessoas conseguem perceber latências de até 2 ms ou menos. Mais que isso, o aumento da latência não só é perceptível para os usuários; ele faz com que a execução de tarefas simples seja menos precisa.

A leitura (em inglês) é um tanto fascinante e mostra como foi preciso fazer algumas concessões em latência para que alcançássemos outras conquistas, como telas sensíveis a toques e monitores LCD. Pelo menos agora você saberá a quem amaldiçoar quando abrir o Slack e tudo parecer meio… lento.

Cadê os anúncios?

O Manual do Usuário é um projeto independente, que se propõe crítico e que respeita a sua privacidade — não há scripts de monitoramento ou publicidade programática neste site. Tudo isso sem fechar o conteúdo para pagantes. Essas características são vitais para o bom jornalismo que se tenta fazer aqui.

A viabilidade do negócio depende de algumas frentes de receita, todas calcadas na transparência e no respeito absoluto a você, leitor(a). A mais importante é a do financiamento coletivo, em que leitores interessados sustentam diretamente a operação. A assinatura custa a partir de R$ 5 por mês — ou R$ 9/mês para receber recompensas exclusivas:

Assine no Catarse

Newsletter

Toda sexta-feira, um resumo do noticiário de tecnologia, indicações de leitura e curiosidades direto no seu e-mail, grátis:


Nas redes sociais, notícias o dia todo:
Twitter // Telegram

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

14 comentários

  1. Legal o ensaio (não li todo ainda) dele sobre o tema, mas, não ficou claro porque ele usou como métrica essa latência na entrada de dados via teclado, não vi a real justificativa pra usar esse método e muito menos a motivação para isso.

    Minha percepção de lentidão é muito menos de latência de entrada e muito mais de cold boot e inicialização de programas (no Mac Mini + HDD o Trados rodando no Windows 10 levava quase 2 (~1min55s, medi isso) minutos pra inicializar, num PC novo + HDD levava pouco mais de 1 minuto (acho que era 1min10s) e no PC + SSD leva 21s. Essa “lentidão” em relação a máquina velha (Mac), a nova (PC) e a nova com upgrade (PC + SSD) parece ser muito mais a reclamação das pessoas ao meu redor (evidência anedótica) do que o tempo de entrada do teclado.

    Normalmente o que me tirava a paciência era a bolinha de praia girando ou a ampulheta gastando a minha vida.

    1. A segunda citação que puxei do texto original para o post, ali em cima, responde exatamente essa questão. A latência é uma boa escolha por ser sutil ao mesmo tempo em que afeta a experiência de uso. Uma inicialização fria ou apps que demoram a abrir você consegue apontar e resolver de maneira relativamente simples; uma latência alta, não — tanto que ele abre o texto dizendo que sempre teve essa sensação e, por não confiar nas sensações humanas, que são suscetíveis a flutuações e influências de referenciais externos, decidiu conduzir testes objetivos.

      1. Na verdade não responde, ele diz porque ele resolveu usar essa percepção de latência mas não diz porque a entrada de teclado é um ponto de importante (dizer que percebemos mais/menos quando digitamos ou usamos parece ser interessante) quando em relação ao que eu citei. Não quero, obviamente, um artigo sobre o tema, mas não me convenceu em nenhum momento que seja esse o tipo de reclamação quando as pessoas falam “meu PC tá lento”. aliás, a maior parte das pessoas (e repito: evidência anedótica, tanto quanto a dele) reclama de “demora demais pra abrir X no meu PC/Telefone” e eu não vi ainda a relação/correlação entre as duas coisas.

        Claro que um “input lag” é importante e eu estou sendo chato questionando isso, só quis entender como ele chegou nesse ponto de colocar o teclado ao digitar algo como o ponto central da medição dele.

        E, reforçando, pode ser que eu não consiga ver exatamente a relação entre as duas coisas, mas, eu acho mais interessante pensar no tempo de resposta para se abrir/reabrir um aplicativo no Android, iOS, macOS ou Windows do que necessariamente esse atraso na entrada.

  2. Em toda minha história de uso com computadores, tenho a impressão de que, quando chegamos num momento que a lentidão em um computador é visível, é porque uma limitação de hardware foi atingida. Isso aconteceu em vários momentos: o processador era lento, não havia memória suficiente, o HD não era eficiente… cada um desses componentes representava um “gargalo”. O mais recente que eu vivenciei (e até contei aqui) foi a substituição de um HD por um SSD, melhorando bastante essa questão da latência.

    Creio que antigamente essa latência não era tão visível porque as necessidades e aplicações eram diferentes: não se havia muita ideia do que poderia ser feito num PC. A própria limitação de hardware dos PCs antigamente não permitia tanta exigência em um programa (coisa que foi mudando aos poucos, ao longo dos anos).

  3. Quando se lida com um PC velho, como o que uso no trabalho, e um PC novo e moderno, como tenho em casa. A sensação é que o do meu trabalho é uma carroça.

    1. Isso mesmo Marcos.
      Essa é a grande impressão que eu tenho.
      Meu computador ficou mais lento mesmo formatando do zero?? Não!
      Na verdade eu acho que me acostumei com outro que era mais rápido!

      Antigamente até tinha boato que o HD ficava lento com o tempo.

        1. mesmo desfragmentando a impressão era perceptivel.
          (mesmo com a desfragmentação automatica que veio a partir do Vista)

  4. Pois é, esse trade-off de performance e flexibilidade é uma briga eterna em desenvolvimento. Quanto mais específico e menos flexível a aplicação, mais fácil é otimiza-la. Entretanto, as desvantagens são claras: otimizações específicas não podem ser facilmente portadas facilmente e o desenvolvimento se torna mais complexo/demorado.

    A questão é avaliar o custo/benefício e isso depende de inúmeras variáveis. O Android por exemplo precisa uma VM para funcionar, o que é uma desvantagem em comparação ao Windows ou MacOS falando de otimização, mas possibilitou competição e inovação na parte de hardware que nunca existiu com sistemas “compilados”.

    Agora falando dos polêmicos aplicativos Electron (como o Slack), eu ainda não comprei que vale a pena para tudo, como editores de texto completamente em JS tipo o Atom do GitHub. Vi que melhoraram bastante nós últimos tempos e até trocaram algumas partes para C++, mas quando eu testei era sofrível a latência (https://pavelfatin.com/typing-with-pleasure/) e a capacidade de lidar com grandes arquivos (LOGs, XMLs, etc…).

    1. Aproveitando o embalo: existe algum editor nativo para macOS que não seja tão caro como o Sublime Text? Uso pouquíssimo, mas eventualmente uso e, nessa, estou com o Atom mesmo — uma das poucas áreas em que a mudança Windows>macOS foi pior; lá, usava o ótimo Notepad++.

      Não compensa pagar US$ 80 num app que uso muito de vez em quando e nem me é imprescindível, mas não acharia ruim ter algo melhor, mesmo que não tão bom, por um preço mais módico.

      1. Eu acho que a única opção gratuita boa mesmo é o VS Code que o @diogoan:disqus comentou, continua sendo Electron mas dizem ser melhor otimizado que o Atom.

        Aliás, só queria comentar que acho legal o Notepad++ e essa pegada de aplicativos Windows: leves, estáveis e compentes mas com uma estética peculiar como é o caso do Irfanview e 7-zip também por exemplo. No MacOS, há aplicativos ótimos e bonitos, mas caríssimos.