Jair Bolsonaro mexendo no celular deitado.

Não foi (só) por causa de Bolsonaro que o WhatsApp limitou o encaminhamento de mensagens


13/7/19 às 9h06

Nesta sexta-feira (12), o presidente Jair Bolsonaro disse em uma live que a limitação a cinco destinatários do encaminhamento de mensagens do WhatsApp seria uma tentativa de censurá-lo. “Uma maneira de me cercear foi diminuir o alcance do WhatsApp”, alegou, justificando que “há censura em cima disso. Temos que lutar contra isso”. Ele também reclamou da diminuição de seu alcance no Facebook.

É importante retrocedermos um pouco para evitar mal entendidos e acabarmos com o temor de Bolsonaro de que teria sido ele o responsável pela mudança nas regras do WhatsApp. Em parte, talvez sim: suspeita-se que sua campanha tenha usado e/ou se beneficiado de impulsionamentos ilegais de mensagens no WhatsApp, o que teria colaborado para a sua eleição à Presidência. (Pesa sobre o PT a mesma suspeita, obviamente com desfecho diferente.) Só que o mundo é maior que o Brasil e outras situações pretéritas tiveram mais impacto na decisão do Facebook/WhatsApp.

Originalmente, o WhatsApp permitia encaminhar mensagens para até 256 pessoas ou grupos. O Recode fez os cálculos: em um cenário com 256 grupos cheios (eles podem ter até 256 membros cada), o potencial de alcance de uma única mensagem era de 65.536 pessoas.

Infográfico explicando a matemática do encaminhamento de mensagens pelo WhatsApp.
Imagem: Recode/Reprodução.

Em julho de 2018, o WhatsApp baixou o limite de encaminhamentos simultâneos para 20 pessoas/grupos. Na mesma ocasião, definiu uma regra à parte, mais rígida, para a Índia, país que motivou a mudança devido a uma onda de linchamentos potencializados por boatos espalhados pelo aplicativo. Lá, o limite caiu para apenas cinco encaminhamentos simultâneos.

Com os novos limites e considerando aquele mesmo cenário citado acima, o potencial  máximo de alcance de uma mensagem encaminhada no WhatsApp cai para 5.120 pessoas (limite de 20 grupos) e 1.280 (limite de cinco). No último caso, a redução no alcance é de incríveis 98%.


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No dia 17 de outubro, entre os dois turnos das últimas eleições, três pesquisadores brasileiros publicaram um artigo de opinião no New York Times pedindo ao Facebook/WhatsApp para que mudasse as regras do WhatsApp porque o app estaria envenenando o processo eleitoral no país. Um dos três pedidos era por maior restrição ao número de encaminhamentos simultâneos de mensagens. Eles pediam que o limite adotado apenas na Índia, de cinco mensagens, fosse estendido ao mundo todo.

O pedido foi atendido em 21 de janeiro de 2019, bem depois do segundo turno das eleições. O WhatsApp justificou a decisão pelo feedback recebido (“o limite aplicado ao encaminhamento de mensagens reduziu consideravelmente a quantidade de mensagens encaminhadas em todo o mundo”) e afirmou que o novo limite “ajudará o WhatsApp a manter a privacidade da comunicação com contatos próximos”.

As últimas decisões do WhatsApp sinalizam que o Facebook quer acabar com o uso do aplicativo para comunicação em massa, fonte da maioria das dores de cabeça que ele tem causado à própria empresa e mundo afora.

No mês passado (junho), uma atualização na documentação do aplicativo informou que a empresa poderá até acionar a Justiça para “evitar abusos contra nossos Termos de serviço, como o envio de mensagens em massa ou utilização comercial”. A data estipulada para a entrada em vigor dessa nova política é 7 de dezembro de 2019, mas ela poderá ser antecipada “se essas empresas [que abusam do serviço] estiverem ligadas a evidências dentro da plataforma que evidenciem tais práticas”. Além disso, a nova postura beneficia o modelo de negócio do WhatsApp anunciado em agosto de 2018, que consiste em mediar o (e cobrar pelo) disparo de mensagens em volume por grandes empresas.

Foto do topo: Facebook/Reprodução.

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