O greenwashing descarado da Ecosia — agora com IA

por David Gerard

Ecosia é um mecanismo de busca que vive alardeando suas credenciais verdes. Na prática, é o Bing repaginado com anúncios próprios por cima. Todo o dinheiro vem desses anúncios.

O grande argumento de venda da Ecosia é que esses anúncios pagam pelo plantio de árvores. Até aí, tudo bem.

Só que a Ecosia tem um extra. Uma IA. Peraí, como assim?

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Existe IA “verde”?

O Ecosia, um buscador web que direciona seu lucro à ação climática, pergunta se existe alternativa “verde” de inteligência artificial generativa no título desta página e, no título do mesmo post, responde que “a IA mais verde chegou”.

A “IA mais verde”, esse paradoxo, é a que o Ecosia acabou de lançar integrada ao seu buscador. A implementação é idêntica à do Google, com um resumos (“AI Overviews”) antes dos resultados e um chatbot a um clique de distância. A diferença evidente é que existe um botão para desativar os AI Overviews. A menos óbvia, mas crucial neste caso, é a promessa de que:

Como uma empresa sem fins lucrativos, podemos nos dar ao luxo de fazer as coisas de forma diferente. A busca por AI usa modelos menores e mais eficientes, e evitamos completamente recursos de alto consumo de energia, como a geração de vídeo.

Faltam detalhes (quais modelos?) e o exemplo é disparatado (nenhum buscador com IA oferece geração de vídeos).

Eu não sou contra IA generativa. Dizê-lo seria hipócrita, porque faço usos pontuais. (E em outro buscador, a do DuckDuckGo.)

É por isso que fico balançado com notícias como essa e a do Firefox investindo tudo em IA. Por mais que entenda o apelo, parece-me estranho um serviço que tenha a ação climática como razão de existir embarcar numa onda tão voraz por energia que está reativando usinas nucleares e fazendo as big techs abandonarem suas promessas de reduzirem suas pegadas de carbono.

A “IA mais verde”, afinal, é não ter IA. Ignorá-la, ao menos até que a curva de adoção se estabilize e os efeitos ao meio-ambiente sejam melhor compreendidos, seria coerente e até um diferencial nesse mar de empresas, serviços e produtos oferecendo IA só porque sim.

O que posso fazer com meu computador antigo?
Troque-o ou recicle-o com uma empresa local.

Logo da Microsoft.Microsoft

Nada mais sustentável que jogar fora, digo, “reciclar” computadores perfeitamente funcionais por… quem sabe?

A ~recomendação está sendo feita pela Microsoft, por e-mail, àqueles que usam PCs não elegíveis a rodarem o Windows 11. A garantia de atualizações de segurança para o Windows 10 terminam em 14/10/2025.

A incompatibilidade desses computadores “antigos” com o Windows 11 é artificial. Decorre de novos requisitos mínimos arbitrários impostos pela Microsoft.

A Apple tampouco se sai bem nesse quesito.

A única alternativa realmente sustentável você já deve saber qual é. (Se não, falo das distribuições Linux.)

Usar o ChatGPT consome uma garrafa d’água de 500 ml; e daí?

Das óbvias às delirantes, é longa a lista de preocupações com a inteligência artificial surgidas desde o final de 2022, quando o ChatGPT tomou do metaverso ou dos NFTs o título de “tecnologia do futuro”.

Tenho pensado muito a respeito de uma delas: o uso excessivo de energia e água, necessários para dar conta da sede insaciável de big techs e startups por mais dinheiro1.

Qual o custo ambiental de terceirizar tarefas ingratas ao ChatGPT, como escrever relatórios que ninguém lê ou gerar uma imagem de feliz aniversário àquela tia, com quem você não fala há seis anos, no grupo da família no WhatsApp?

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Números enormes

Números que ajudam a colocar em perspectiva o tamanho do setor de tecnologia — em vários sentidos.

A F-Droid fez a limpa em seus repositórios e arquivou 316 aplicativos que se encontram abandonados. Eles continuam disponíveis, mas não por padrão: é preciso ativar a opção de exibir apps arquivados. / f-droid.org (em inglês)

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A Samsung colocou à venda no Brasil o Galaxy Ring, seu “anel inteligente”, pela bagatela de R$ 3.499. Meio caro, né? / g1.globo.com

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Já é lugar comum aquele dado de que gerar lero-lero com o ChatGPT consome uma garrafinha d’água, por isso achei legal o Washington Post juntar uns cientistas, debruçar-se em pesquisas e trazer dados mais concretos. O consumo de água varia de acordo com a região/matriz energética. Nos EUA, o pior lugar analisado foi o estado de Washington, onde gerar um e-mail de 100 palavras com o GPT-4 consome 1.468 ml de água. (O texto é bem legal e cheio de gráficos bacanas.) / washingtonpost.com

A crise climática passa pelas fontes de energia de que a humanidade depende

por Guilherme Felitti

Este episódio é uma continuação do Tecnocracia #78 (“Não há assunto mais urgente que a mudança climática”), da mesma maneira que os episódios do House se sucedem: você pode ouvi-los de forma independente, mas é provável que aproveite melhor este se já tiver ouvido o anterior. Dá para dar risada do doutor Gregory House sem saber nada da história principal, mas você entende melhor algumas cenas que não envolvam o deus ex-machina da resolução de casos médicos extraordinários.

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48%

As emissões de gases do efeito estufa pelo Google aumentaram 48% nos últimos cinco anos. Segundo a própria empresa, por causa da demanda por inteligência artificial. A meta do Google de tornar-se uma empresa neutra em emissões de poluentes até 2030 está posta em xeque. Via Folha de S.Paulo.

Dylan Araps, criador do KISS Linux e do neofetch, trancou todos os seus repositórios no GitHub e avisou que foi viver do que a terra dá.

Gráfico de metas e emissões reais de carbono da Microsoft.
Gráfico: Bloomberg/Reprodução.

Em 2020, a Microsoft prometeu tornar-se “carbono negativa” em uma década. Corta para 2023 e, graças à corrida da inteligência artificial, as emissões da empresa aumentaram 30%. Via Bloomberg (em inglês; sem paywall).