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Fotos geradas por IA podem ser arte?

Na exposição Indomináveis Presenças, em exibição Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, até 30 de junho, são exibidas obras da artista Mayara Ferrão. Feitas com inteligência artificial generativa, elas emulam fotografias antigas a fim de “ressignificar o passado”: mulheres indígenas e escravizadas se beijando (exemplo), cenas que provavelmente ocorriam, mas de que não se tem registros por motivos óbvios.

O perfil do CCBB carioca no Instagram está batendo boca com alguns seguidores indignados com a promoção da arte criada com o auxílio da IA. Até em temas profundos, ainda sem respostas de quem vive de encontrar essas respostas (filósofos, no geral), o @ccbbrj está se posicionando:

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A era do ninguém se importa

Um dos últimos deslizes motivados por IA generativa, a indicação de livros que não existem em um “suplemento especial” dos jornais estadunidenses Chicago Sun-Times e Philadelphia Inquirer, gerou mais uma onda de críticas à tecnologia.

Dan Sinker definiu o momento como a “era do ninguém se importa”:

O autor não estava nem aí. Os editores do suplemento não estavam nem aí. O pessoal de negócios dos dois lados da venda do suplemento não estava nem aí. O pessoal da produção não estava nem aí. E o fato de ter levado *dois dias* para alguém descobrir essa cagada épica no impresso significa que, no fim das contas, o leitor também não estava nem aí.

É tão emblemático do momento em que vivemos, a “era do ninguém se importa”, onde coisas completamente descartáveis são produzidas de qualquer jeito para as pessoas basicamente ignorarem.

Ele foca na IA, mas tenho comigo que o problema é mais profundo e anterior. Suplementos do tipo já existiam antes e, embora deslizes dessa natureza fossem raros, o fato deste ter levado dois dias para ser notado implica que do lado do leitor ninguém se importa, sim, e há muito tempo, muito antes da popularização da IA generativa.

Fico imaginando quanta coisa já não foi impressa para não ser lida ou, no máximo, ser lida e ignorada. Ou, no digital, quanta coisa não é publicada não para ser lida e gerar ações ou fazer pensar, mas para preencher espaço, ganhar a atenção para direcioná-la a anúncios ou coisas do tipo.

A “era do ninguém se importa” pode ser lida como a segunda fase da revolução das máquinas de conteúdo.

Rob Horning levantou esse argumento de modo mais completo e elegante, como lhe é costumeiro:

O fato de que os LLMs conseguem gerar quantidades infinitas de conteúdo explicitamente “falso”, com os vestígios de intenção e presença humanas profundamente diluídos através de inúmeras camadas de processamento e concatenação, poderia, espera-se, desmistificar não apenas aquela posição específica do sujeito que busca refúgio seguro em “textos reais” — ou seja, um álibi num “suplemento real” para os prazeres duvidosos que tais suplementos sempre proporcionaram —, mas também a fantasia de acessar a autenticidade perfeita através da mídia.

Bilhões de usuários de IA

Entre a Meta anunciando que sua IA, Meta AI, atingiu 1 bilhão de usuários e o Google que os AI Overviews são usados por 1,5 bilhão, fico curioso em saber quantas dessas pessoas fazem o uso intencional do recurso, ou que preferem-no àqueles que a IA substitui.

Os AI Overviews aparecem no topo das buscas, sem opção de desligamento. O Meta AI suspeito que muita gente aciona sem querer ao tocar naquele botão horrível no WhatsApp, nos resultados da pesquisa dos três apps ou ao tentar marcar uma pessoa em um grupo digitando uma arroba.

Muito fácil chegar a números enormes quando já se tem uma plataforma gigante. Acho que isso nem entra na discussão. A questão é alardeá-los como tais números fossem conquistados, e não impostos.

Tudo bem se você usa o ChatGPT para escrever

Cabeça robótica, toda branca, sobre um teclado de computador.

Eu não me importo se você usa o ChatGPT ou qualquer outra IA generativa para escrever. Não faz diferença, no fim das contas. O preciosismo com que muitos tratam o assunto (incluindo eu, até pouco tempo atrás), como se houvesse alguma qualidade intrínseca digna de preservação no texto puramente humano, é infundado.

Sei que é uma opinião polêmica. Peço, além da sua paciência, que a encare num sentido estrito, ou seja, que desconsidere outras questões que orbitam o assunto, como a ética e a ambiental. Dito isso, a seguir tentarei justificá-la.

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A tecnologia (não tão) futurista de “Lazarus”

Estou assistindo a um desenho que o streaming Max meio que jogou na minha cara, Lazarus. A animação é lindona e a trilha sonora, sensacional. Lembra muito Cowboy Bebop, e não por acaso: ambas as séries, separadas por quase 30 anos, são dirigidas por Shinichirō Watanabe.

A história de Lazarus se passa em 2052. Há vários detalhes curiosos, como a nacionalidade do protagonista, o nosso brasileiro Axel Gilberto. (Aposta arriscada, a dos roteiristas, de que Axel será o Enzo ou Gael dos anos 2030 por aqui.)

Logo no início do quinto episódio, “Pretty Vacant”, dois detalhes tecnológicos me chamaram a atenção.

O primeiro deles foi a Delta Medical, empresa responsável pela fabricação da droga que norteia a história, ter publicado os resultados de testes do remédio codificados em áudios no SoundCloud. Você se lembrava que o SoundCloud ainda existe? Eu poderia apostar que em 2052 o SoundCloud será apenas uma nota de rodapé em algum verbete da Wikipédia.

(A propósito, alguém notou que, em fevereiro de 2024, o SoundCloud mexeu em seus termos de uso para se dar o direito de usar conteúdo dos usuários para treinar inteligências artificiais. O futuro é agora, e é distópico.)

O outro, essa uma má notícia, é que ainda usaremos celulares e os do futuro também terão telas de vidro suscetíveis a quebras. Logo no início do quinto episódio, o CEO da Delta Medical, Dr. Ahmed Rahman, arremessa o seu contra a parede e *crec*, mais uma tela trincada.

Um futuro nebuloso para a Corning e lindo para o complexo industrial de capinhas e películas que, aparentemente, o Dr. Rahman não usava. (A minha teoria da conspiração de estimação tem a ver com fabricantes de capinhas e películas para celulares, mas essa é outra história.)

Na ação em que a Justiça estadunidense decide qual “remédio” aplicar à Alphabet…

Na ação em que a Justiça estadunidense decide qual “remédio” aplicar à Alphabet pela condenação por monopólio do mercado de buscadores, Eddy Cue, vice-presidente de serviços da Apple, disse que, em abril, o volume de pesquisas feitas via Safari encolheu pela primeira vez em na história, ou seja, em quase duas décadas.

Eddy atribui a queda à ascensão de assistentes de IA generativa que entregam resultados de busca mastigados, como Perplexity (com quem a Apple estaria conversando), ChatGPT e Claude.

As ações da Alphabet (Google) tomaram um tombo de 7,5% após a declaração do executivo da Apple, reportada pela Bloomberg. A empresa soltou uma nota contestando a informação, em que diz que “continuamos a ver o crescimento geral de consultas à Pesquisa [do Google]. Isso inclui um aumento no total de consultas provenientes de dispositivos e plataformas da Apple”.

Em quem acreditar? Não sei, mas se havia dúvidas de que uma mudança sísmica está curso, dados como esse ajudam a dissipá-las.

Eddy Cue disse também que a Apple cogita alterar o Safari para que o navegador receba assistentes de IA e que a perspectiva de perder os US$ 20 bilhões anuais, que o Google paga de “caixinha” para ser o buscador padrão do Safari, está lhe tirando o sono. Que pena.

O criador do cURL, Daniel Stenberg, subiu barreiras contra a avalanche de relatórios…

O criador do cURL, Daniel Stenberg, subiu barreiras contra a avalanche de relatórios de segurança produzidos por ou com a ajuda de inteligência artificial generativa. Além do volume, eles são inúteis: “Ainda não vimos um único relatório de segurança válido feito com a ajuda da IA.”

A maioria dos usos inadequados de IAs já era possível antes. O que muda com a IA é a escala da coisa.

Dark Visitors ganha plano gratuito

O Dark Visitors, serviço de monitoramento e bloqueio de robôs de empresas de inteligência artificial, mencionado neste Manual em agosto de 2024, reformulou seus planos e, agora, oferece um gratuito bastante generoso, com um teto de 1 milhão de “eventos”.

Dá para usar no modo gratuito para sempre ou cadastrar o cartão e usufruir dos recursos pagos, sem pagar, desde que seu site não ultrapasse o teto de 1 milhão de eventos. Após isso, o custo é de US$ 0,00005 por evento.

Havia cancelado o uso do Dark Visitors aqui quando o período de testes expirou. Agora, reativei-o. É quase terapêutico ver o tráfego de não-humanos por aqui.

Zuckerberg dizendo que os estadunidenses têm apenas 1/5 dos amigos que

Zuckerberg dizendo que os estadunidenses têm apenas 1/5 dos amigos que gostariam de ter e que, embora o uso de IA para suprir a lacuna ainda seja tabu, talvez não devesse ser. É uma nova manifestação incipiente da tática de mercado de “criar o problema e vender a solução”. Solução essa que, como sempre acontece, não vai funcionar — digo, para nós. Via @DwarkeshPatel/YouTube.

InfoMoney gera desinformação com “foto” de Lady Gaga gerada por IA

Mulher loira de óculos escuros, segurando duas caixas de pizza, com outras pessoas alucinadas ao fundo. Imagem sintética, gerada por IA.
Imagem: InfoMoney/Reprodução.

O InfoMoney republicou uma nota da agência de notícias do Estadão informando que a cantora Lady Gaga distribuiu pizzas a fãs acampados em frente ao hotel onde ela está hospedada. (Link do Marreta para não dar visualizações.)

Até aí, tudo bem, é a expressão mais pura do jornalismo “Caetano estaciona seu carro no Leblon”.

Como nada é tão ruim que não possa piorar, alguém lá dentro achou que seria boa ideia gerar uma imagem, numa IA, da própria Lady Gaga entregando as pizzas em mãos aos fãs. Colocaram a legenda “Foto feita com IA/ ChatGPT”, quase ilegível no rodapé da “foto”.

A nota foi atualizada, agora sem a “foto”, na manhã desta sexta (2), quase 24h depois de ir ao ar. A Wayback Machine mantém o registro dessa vergonha.

Qual a diferença entre a “foto” que o InfoMoney publicou e oportunistas que geram imagens de Jesus feito de camarões nas redes sociais? Nenhuma. Ambos apostam na desinformação para tentar faturar uns trocados.

O InfoMoney publicou uma errata em que classificou o uso da imagem como “indevida” e que está “adotando medidas internas para evitar que situações como essa se repitam, incluindo treinamentos específicos sobre o uso ético da inteligência artificial e a checagem de imagens geradas por esse tipo de tecnologia em nossos processos editoriais”. No LinkedIn, Matheus Lombardi, CEO do InfoMoney e XP Educação, pediu desculpas pelo ocorrido.

Feliz aniversário!

por Alex Schroeder

Hoje recebi um longo e-mail de um colega de trabalho. Ele foi meu gerente de projeto por duas semanas, alguns anos atrás. É uma pessoa legal. Ele escreveu três parágrafos enormes, desejando saúde, momentos inesquecíveis e encontros enriquecedores, descrevendo a vida como um livro aberto cheio de desafios e momentos maravilhosos… Depois das primeiras frases, comecei a me perguntar: o que está acontecendo? O e-mail terminava com mais votos de feliz aniversário e feliz Páscoa. Mas isso foi na semana passada.

Aí me lembrei que a minha empresa também entrou no hype da inteligência artificial.

Fiquei sem saber o que fazer. Respondo com um e-mail exagerado de agradecimento gerado por IA, só para trollar? Apenas um “Muito obrigado!”… Ou parto para uma conversa séria?

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ChatGPT consegue adivinhar o local de fotos

Não que eu me orgulhe disso, mas a verdade é que perdi o fio da meada dos lançamentos da OpenAI. Na quarta (16), a empresa anunciou dois novos modelos, o3 e o4-mini, com curiosos desdobramentos.

O o3 é definido pela OpenAI como “o nosso mais poderoso modelo de raciocínio”; o o4-mini, um “modelo menor otimizado para raciocínio rápido e eficiente em custo”. Ambos são acessíveis pela interface do ChatGPT e são capazes de lidar com vários ferramentais, como a análise de arquivos enviados.

Um dos exemplos dados pela OpenAI no anúncio oficial, do tipo “pensar com imagens”, parece ter disparado uma nova febre: descobrir a localização de imagens a partir delas próprias, uma espécie de pesquisa reversa ou, como tem se falado nas redes sociais, “o fim do Geoguesser”.

O TechCrunch notou que o o3 não é muita coisa melhor que o GPT-4o, um modelo anterior e mais rápido, e que não é perfeito, errando os locais de várias imagens e, às vezes, sequer conseguindo dar um palpite. De qualquer modo, às vezes essa capacidade do ChatGPT assusta e cria, desde já, um novo vetor de paranoia com privacidade online: não basta mais limpar os metadados de fotos.

Pela própria natureza dos LLMs, é muito difícil distinguir avanços genuínos do entusiasmo da torcida. O Techmeme, um agregador do noticiário e de reações de gente da indústria da tecnologia, pescou este comentário de alguém no X:

Estou obcecada com o3. É muito melhor do que os modelos anteriores. Ele acabou de me ajudar a resolver uma questão psicológica/emocional com a qual tenho lidado há anos em três conversas (uma que não é socialmente aceitável compartilhar, e aqueles com quem eu compartilhei não ajudaram/não poderiam ajudar).

Fico me perguntando que tipo de “questão psicológica/emocional com a qual tenho lidado há anos” uma conversa com uma IA lançada há poucas horas poderia resolver.

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A blitz de lançamentos da OpenAI está surtindo efeito. Em março, puxado por “trends” como a do estúdio Ghibli e a das caixas de bonequinhos, o ChatGPT foi o aplicativo mais baixado do mundo, segundo a consultoria Appfigures, desbancando Instagram e TikTok, líderes habituais nos últimos meses.

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Nesta quinta (17), o Google liberou o Gemini 2.5 Flash, que “oferece uma grande atualização nas capacidades de raciocínio, ao mesmo tempo em que continua a priorizar a velocidade e o custo”. Talvez esse novo modelo consiga adivinhar a cor das nossas roupas íntimas e trazer a paz mundial.

Como desativar a Apple Intelligence

Nesta segunda (31/3), a Apple liberou atualizações para seus sistemas que habilitam a Apple Intelligence (AI; recursos de IA generativa) no Brasil, em português local. No rodapé desta página é possível ver os dispositivos vítimas, digo, compatíveis com a AI.

Dado o estado aquém do ideal (para dizer o mínimo) da Apple Intelligence, e o fato de que ela exige 7 GB (!) de espaço para funcionar, não é absurda a ideia de desativá-la. Para isso, abra os Ajustes, depois entre em Apple Intelligence e Siri e desative o botão referente à AI.

“Aguente firme!”

Neste texto (em inglês), a Rach conta que conversava por mensagem com um amigo a respeito de um tema delicadíssimo (o câncer da mãe dele; ela perdeu a mãe para um câncer há 13 anos), quando, em um momento de hesitação/reflexão, a “IA” do aplicativo de mensagens sugeriu uma resposta para ela enviar:

Aguente firme!

A reação dela:

Meu fluxo de pensamento foi imediatamente interrompido enquanto eu contemplava como aquilo [a sugestão] seria uma coisa absolutamente imprópria de enviar naquele momento.

O exemplo me chamou a atenção para algo que as empresas de IA omitem: quando elas falam que a tecnologia “entende o contexto”, o que querem dizer é, na verdade, que ela entende o contexto que está documentado/codificado. O que, não raro, é insuficiente. Das inevitáveis lacunas brotam sugestões impróprias, como o “aguente firme!” sugerido à Rach.

Será que uma IA, ainda que alimentada por todo o conhecimento codificado que a humanidade já produziu, será um dia capaz de entender a dor de ver um ente querido ser devorado por uma doença agressiva?