O ótimo A rede social (2010), que dramatizou a criação do Facebook, ganhará um filme “complementar” em outubro, The social reckoning (ainda sem título brasileiro).

Desta vez, o filme retratará os eventos da divulgação dos “Facebook Papers”, documentos internos vazados à imprensa em 2021 por Frances Haugen, ex-engenheira da Meta (à época, ainda Facebook).

O primeiro trailer mostra Jeremy Strong no papel de Mark Zuckerberg, o que achei boa escolha: a voz está muito parecida e o ator caracterizado é tão esquisito quanto o original que o inspira. (No primeiro filme, Zuckerberg foi interpretado por Jesse Eisenberg.)

Aaron Sorkin assina o roteiro sozinho e também dirige o novo filme. Uma pena que David Fincher não tenha voltado para dirigir a sequência, digo, o “complemento”. Não senti firmeza no trailer de que teremos um filme à altura do primeiro.

A Big Tech está se lixando para a sociedade — e isso inclui a democracia

por Guilherme Felitti

Este episódio começa com uma história pessoal: há alguns anos eu tive câncer. O tumor que eu descobri por acidente estava no meu testículo direito. Um dia, e não tem jeito bonito de contar isso, eu fui coçar meu saco e percebi que o testículo estava com uma textura lisa. Qualquer um que tenha ou já tenha tocado em um testículo (ou seja: todo mundo) sabe que testículos não são lisos, mas rugosos. Eu cometi o erro de buscar o sintoma no Google e no dia seguinte eu estava sentado na recepção do Pronto Socorro do Hospital do Câncer em São Paulo para fazer os exames de sangue, raios-x e ressonâncias magnéticas que revelariam uma semana depois que, sim, tudo indicava que era um câncer mesmo. O tratamento que eu fiz durou pouco mais de um mês e envolveu, basicamente, uma cirurgia para tirar o testículo.

(mais…)

As coisas novas e as coisas boas do Facebook Papers

Na condição de leitor, fiquei paralisado diante da quantidade de reportagens publicadas desde a última sexta-feira (22) com base nos documentos vazados do Facebook pela ex-funcionária Frances Haugen, um esforço coletivo da imprensa batizado de “Facebook Papers”. É muita coisa.

(mais…)

Os documentos internos do Facebook vazados por Frances Haugen estão nas redações de quase 20 publicações norte-americanas que, desde sexta (22), estão publicando uma avalanche de reportagens virando do avesso o Facebook. As notinhas do Manual são um trabalho de curadoria; dada a quantidade de materiais que já saíram e continuam saindo, esta é diferente, é uma curadoria de curadorias:

Estou me atualizar. Do que você já leu, o que lhe chamou mais a atenção?

No Congresso dos EUA, Frances Haugen bateu forte no Facebook

Durante três horas, Frances Haugen, ex-gerente de produtos da divisão de integridade cívica do Facebook, respondeu perguntas de uma comissão do Congresso dos Estados Unidos nesta terça-feira (5.out) e manifestou sua visão sobre os problemas da empresa e possíveis caminhos para consertá-los. (Vídeo na íntegra, no YouTube.)

Ela repetiu alguns dos argumentos apresentados no 60 Minutes, no domingo (3), quando veio a público, como a alegação de o Facebook priorizar o lucro em detrimento da segurança e bem-estar dos usuários, e de manter informações vitais fora do alcance do público.

Os congressistas norte-americanos deram bastante ênfase à pesquisa interna do Facebook, vazada por Frances, que relaciona problemas psicológicos em meninas adolescentes ao uso do Instagram. Em sua defesa, após a publicação de reportagem do Wall Street Journal baseada nos materiais cedidos por Frances, o Facebook havia dito que a pesquisa indicava que uma minoria desse público era prejudicada pelo Instagram. Em dado momento, Frances contestou essa defesa usando uma analogia popular na sessão — com o tabagismo: “No caso dos cigarros, ‘apenas’ cerca de 10% das pessoas que fumam desenvolvem câncer de pulmão. Então a ideia de que 20% dos seus usuários podem confrontar problemas psicológicos sérios e que isso não seria um problema é chocante.”

Outros tópicos abordados:

  • Frances criticou o poder desmedido de Zuckerberg, CEO e detentor de 58% das ações com direito a voto do Facebook. “Não existem outras empresas tão poderosas que são controladas unilateralmente dessa forma.”
  • Ela criticou a falta de transparência, reforçada nos últimos meses por atitudes hostis do Facebook a pesquisadores externos. “O cerne do problema é que ninguém entende as escolhas destrutivas do Facebook melhor que o próprio Facebook, porque só o Facebook consegue olhar suas entranhas.”
  • A respeito da Seção 230, lei norte-americana que isenta as plataformas virtuais de responsabilidade pelo conteúdo publicado por usuários, Frances acredita que seja possível e necessário responsabilizá-las pelo algoritmo e, no caso dos feeds, revertê-los à distribuição cronológica.

Após a sessão, o Facebook contra-atacou. Mark Zuckerberg e o departamento de relações públicas divulgaram notas criticando a caracterização feita por Frances e desqualificando-a como fonte confiável porque seu cargo no Facebook era de baixo nível, sem poder de tomada de decisão.

O único ponto em que Frances e Facebook convergiram foi na necessidade de regulação. Sobre isso, chamou a atenção a fala da senadora democrata Amy Klobuchar: “Não temos feito nada para modernizar nossas leis de privacidade neste país. Por quê? Porque há lobistas em cada canto deste prédio contratados pela indústria de tecnologia.”

Posteriormente, ao site Politico, ela repetiu a crítica: “É como aquele jogo de whack-a-mole. Toda vez que acho que fiz alguma coisa, outro lobista aparece. [O Facebook] literalmente contratou muita gente nesta cidade.”

“O Facebook quer que acreditemos que os problemas que enfrentamos são impossíveis de serem resolvidos. Que acreditemos em falsas escolhas. Eles querem que você acredite que precisa escolher entre um Facebook cheio de conteúdo extremista e polarizador ou perder os valores mais importantes sobre os quais nosso país foi fundado, a liberdade de expressão.”
— Frances Haugen.

Em paralelo à sessão no Congresso norte-americano e à participação no programa de TV 60 Minutes, Frances enviou à SEC (equivalente à CVM no Brasil) denúncias de que o Facebook enganou investidores em relação aos esforços para conter abusos na plataforma e à publicidade, e afirmou que tem mais documentos internos ainda não divulgados. Via Politico (em inglês), Wall Street Journal (em inglês, com paywall), CNBC (em inglês), @zuck/Facebook (em inglês).

Ex-funcionária do Facebook que vazou dados internos revela sua identidade

No 60 Minutes, programa dominical da rede de TV norte-americana CBS, Frances Haugen revelou-se ao mundo. Ex-funcionária do Facebook, foi ela quem vazou o farto material interno da empresa que serviu de base para a série de reportagens The Facebook Files, do Wall Street Journal, que revelou o descaso da empresa com a saúde mental de meninas adolescentes, falhas sistêmicas no combate a crimes diversos cometidos em suas plataformas e outras barbaridades.

Na entrevista, Frances disse que ingressou no Facebook em 2019 motivada pela perda de um amigo para teorias da conspirações na internet. Ela era gerente de produtos da equipe de integridade cívica da plataforma.

O ponto de virada para ela foi após as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em novembro de 2020, quando a área onde ela estava alocada foi dissolvida, como se o objetivo dele fosse sobreviver ao pleito sem que o Facebook caísse em polêmicas.

“Quando vivemos num ambiente informacional cheio de conteúdo raivoso, odioso e polarizador que desgasta a nossa confiança cívica, desgasta a nossa fé uns nos outros, desgasta a nossa capacidade de querer cuidar uns dos outros. A versão do Facebook que existe hoje está destruindo as nossas sociedades e causando violência étnica em todo o mundo.”

Nesta semana, Frances Haugen prestará depoimento ao Congresso norte-americano. Ela espera que uma forte regulação coloque a empresa nos trilhos. Via CBS News (em inglês).