Um iPad Pro com Smart Keyboard rodeado por outros iPad.

O caso de um tablet/PC híbrido da Apple


19/12/17 às 10h27

Embora o tablet/PC híbrido seja uma ideia irresistível, as implementações sempre ficaram aquém do ideal platônico. Um olhar sobre os esforços passados nos leva a imaginar os próximos passos da Apple: eles copiarão a Microsoft e transformarão o Mac em um tablet, ou continuarão a se concentrar na evolução do iPad?

Os executivos da Apple tiveram que voltar atrás em suas palavras após pronunciamentos firmes, mas imprudentes. Por exemplo, o que disse Steve Jobs em um evento do iOS 4, em agosto de 2010:

“É como dissemos sobre o iPad, se você vir uma caneta, já era. Na multitarefa, se você vir um gerenciador de tarefas… já era. Os usuários nunca devem ter que pensar nisso.”

E a famosa analogia da torradeira/geladeira de Tim Cook, em abril de 2012, zombando da ideia de um híbrido de PC/tablet:

“Você pode convergir uma torradeira e uma geladeira, mas, você sabe, essas coisas provavelmente não serão agradáveis ao usuário.”

Não há escassez de casos: depois de cortar o preço do iPhone original, a Apple pediu desculpas por meio de um crédito de US$ 100 para os primeiros compradores. No final do ano passado, pesadas críticas obrigaram a Apple a reduzir o preço dos cabos e adaptadores Lightning e USB-C, graças à remoção de muitas portas no novo MacBook Pro.

A Apple vive sob um microscópio da mídia — um sinal de seu sucesso — e um executivo ou outro inevitavelmente acabará dizendo ou fazendo algo que precisará ser “ajustado” no caminho. E os executivos da Apple são bons em “ajustes”. Phil Schiller, vice-presidente de marketing mundial da Apple, absorveu a falha do MacBook Pro com serenidade:

“Eu nunca vi um ótimo produto novo da Apple que não teve sua fatia de críticas precoces e debates — e isso é legal. Nós assumimos um grande risco, e é claro que, com cada passo em frente, também há algumas mudanças para lidar. Nossos clientes são tão apaixonados, o que é incrível.”

Quando Jony Ive explica que a Apple não fez uma stylus, mas algo “mais profundo”, um Pencil, recebemos de bom grado a mudança de mentalidade enquanto sorrimos do palavreado que o chefe de design da Apple usa para compartilhar suas ideias sobre instrumentos de escrita e a eliminação de lacunas entre os mundos analógico e digital.

Schiller e Ive soam um pouco falsos? Acho que não. Prefiro ouvir opiniões e atitudes incisivas e honestas do que ser submetido ao blablablá muito prudente e contorcido segregado por assessores: “Por favor, saiba que estamos lendo seus comentários e ouvindo você em alto e bom som. Sua contribuição é incrivelmente valiosa para nos ajudar…”

A guinada na Apple não deveria nos surpreender. Relembrando Steve Jobs em 2012, Tim Cook ficou muito impressionado com a capacidade do cofundador da Apple de mudar de ideia rapidamente [como sempre, edições e ênfase minhas]:

“Ele mudaria algo tão rápido que você se esqueceria que ele era o único a tomar a posição totalmente oposta no dia anterior. Eu vi isso diariamente. É um dom, porque as coisas mudam e é preciso coragem para mudar.”

Considerando aquelas sábias palavras, não posso deixar de me questionar que outras mudanças de ideias da Apple nos aguardam. Nós já vimos indícios de uma guinada radical com os recentes desenvolvimentos do iPad Pro. Com o seu Smart Keyboard e o Pencil, é a renúncia definitiva da analogia torradeira/geladeira, uma alternativa aos notebooks Mac (e outros), uma resposta e um reconhecimento informal à família de dispositivos híbridos Surface, da Microsoft.

Até onde vão as reversões?

Começarei com algo que considero improvável: a introdução de funcionalidades de tablet no Mac. Para seus notebooks, a Apple emitiu um forte edito: a maneira ergonômica correta de usar um notebook é mantendo as mãos na horizontal, sem levantar o braço para tocar a tela, por mais que isso seja tentador. A Touch Bar do MacBook Pro mantém as mãos no lugar a que elas pertencem, sobre a mesa.

A abordagem para notebooks não é apenas uma filosofia ou uma atitude; ela nasce de demandas técnicas. A interface de usuário do macOS é construída em torno de manipulação precisa de objetos, no nível de pixels individuais. Se uma tela de toques fosse introduzida, a plataforma teria que ser refeita, os aplicativos da Apple e de terceiros teriam que ser retrabalhados e uma stylus/Pencil, criada. Além disso, o macOS teria que ser bifurcado, já que o iMac certamente não incorporaria uma tela de toques.

A Microsoft teve dificuldade em combinar uma tela sensível ao toque em sua linha de PCs/tablets Surface e, por mais respeitável que seja esse esforço, ele não freou o declínio das PCs Windows. Para a Apple, o incentivo é ainda menos óbvio.

Ainda assim, o pensamento de que o Mac possa “convergir” com um tablet não está completamente descartado. E foi despertado, recentemente, com o anúncio da Microsoft sobre o que chamarei de WOA II, ou Windows On Arm Parte Dois.

A primeira investida do Windows em processadores ARM ocorreu em 2012. Fui ao Stanford Shopping Center, em Palo Alto, e comprei um tablet Surface com Windows RT, a versão ARM do sistema operacional legado da Microsoft. O produto não parecia correto. Descobri que não estava sozinho em ter uma experiência medíocre e prontamente revendi o tablet para um comprador que estava ansioso para levá-lo à Polônia.

Cerca de cinco anos depois, a Microsoft tomou outro caminho para executar o Windows e seus aplicativos em hardware baseado em ARM oferecido por parceiros OEM de longa data, como HP e ASUS. Uma vida útil da bateria muito melhorada (20 horas ou mais) e conectividade similar à que se tem em smartphones são melhorias marcantes. E você pode executar aplicativos legados dos chips Intel x86 direto — nenhuma recompilação necessária, o sistema operacional baseado em ARM usa técnicas de software sofisticadas para tornar a tradução perfeita!

Ou, pelo menos, é o que nos foi dito. Como Peter Bright explica em um dos seus sempre bem documentados textos no Ars Technica, a expectativa de uma “transição perfeita” pode parecer um pouco otimista, pois o desempenho provavelmente sofrerá com aplicativos intensivos em processamento. Em qualquer caso, não veremos produtos e preços reais até a meados de 2018.

Quando a Microsoft tentou o hardware ARM em 2012, a Apple permaneceu com o x86 para o Mac. E desta vez? A Apple removerá o coração Intel do MacBook e irá substituí-lo pelo processador Ax que equipa o iPhone e o iPad? Afinal, testes sintéticos mostram que o novo A11 Bionic tem poder mais que suficiente para executar o macOS

Para muitos, é uma evolução óbvia e bem-vinda. Mas “fantasia” talvez seja uma palavra melhor. Mesmo que a Apple pudesse executar a mesma magia de emulação que a Microsoft — ou seja, executar aplicativos X86 do macOS em um Mac ARM —, o movimento dividiria a linha Mac em duas partes: um ramo Pro que exige processadores Intel multicore de alta potência, como os usados ​​no iMac Pro e no suposto Mac Pro do ano que vem, e uma linha MacBook alimentada por processadores Ax da Apple, desenvolvidos internamente. A recompensa seria um MacBook ligeiramente menos caro com a autonomia melhorada, mas com as penalidades inevitáveis — os erros e o desempenho degradado — de executar software x86 emulado.

E como isso pesa contra a declaração de Tim Cook de que o iPad Pro é “a expressão mais clara da visão da Apple para o futuro da computação”? Um Mac baseado em ARM seria uma mudança de mentalidade. Mesmo com a frustração que os processadores x86 de entrada são capazes de gerar, não vejo a Apple copiando o movimento da Microsoft.

Para os pitacos de hoje nos extremos das linhas de produtos, terminamos com o iPad. Lá, a Apple parece ter mais liberdade de movimento, conforme provado por suas mudanças de ideia anteriores. Você quer que um notebook funcione (mais ou menos) com um processador ARM que combina uma interface multi-touch com o controle clássico do teclado/trackpad? O iPad Pro está quase lá.

Você pode opor-se e dizer que isso é um exercício forçado em relação a um software complicado e a desafios da interface de usuário. Claro, mas comparado a quê? Emular um sistema operacional antigo e seus aplicativos e criar uma nova plataforma de hardware? Piadas com torradeiras e geladeiras à parte, tornar o iPad um híbrido tablet/notebook não se parece mais com uma guinada de 180º do que com uma evolução natural, algo que os usuários desejam.

Quase desnecessário dizer que não tenho informações privilegiadas, apenas prevejo o passado e estou preparado para passar vergonha. Eu só espero ver um híbrido tablet/notebook forte vindo da Apple em um futuro não muito distante.


Jean-Louis Gassée iniciou sua carreira na HP e, depois, foi executivo da Apple durante nove anos (1981-1990). Posteriormente, foi cofundador da Be, do sistema operacional BeOS. Após a Be ser vendida para a Palm, em 2002, ele serviu como CEO da Computer Access Technology Corporation (CATC), general partner da Allegis Capital (posição que ainda mantém) e, em 2009, passou a colaborar na newsletter semanal Monday Note, que escreve até hoje junto com o jornalista e pesquisador Frederic Filloux.

Publicado originalmente no Monday Note em 18 de dezembro de 2017.

Foto do topo: Apple/Divulgação.

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7 comentários

  1. Existe algo importante nessa discussão que é a capacidade de um iPad executar com perfeição e com todas as ferramentas do pacote Office.

    Para o perfil de uso de um estudante ou um profissional de vendas/finanças, o pacote Office com todas as opções oferecidas por Word e Excel ainda são fundamentais e não vejo as versões iOs prontas para esse uso.

    Ou alguém se imagina utilizando um iPad para elaborar, formatar e entregar uma monografia, dissertação ou tese? Ou utilizar um iPad para elaborar demonstrações financeiras, gráficos e utilizar planilhas com milhares de linhas e centenas de colunas, compilando isso em uma tabela dinâmica e usando PROCVs, SOMASEs e Macros?

    Enquanto essa migração não acontecer, acho que os tablet ainda ficam muito limitados a consumo de conteúdo e outros pequenos usos (coisa que smartphones já fazem), mas dificilmente algo mais profissional ou acadêmico.

  2. Recentemente adquiri um iPad Pro 9.7 e um Smart keyboard para substituir uma MacBook Pro. Apesar do tablet ser um modelo de 2016, o hardware em si permite o seu uso além do consumo de mídia. Acho que o problema ainda está no software. Até em aplicações triviais, como internet banking, as limitações apresentadas pelos apps nas versões para iOS impedem uma migração total. Aquele cenário da garota perguntado “o que é um computador” na propaganda da Apple ainda é muito idealizado.

  3. Há uma questão de paradigma a que esse assunto pertence, e que não foi diretamente abordada pelo autor, que é na minha humilde opinião a última fronteira da convergência no mundo do computador pessoal de dados: o sistema operacional e a própria arquitetura x86.

    Até onde vai a nossa necessidade de poder de fogo, e até onde o sistema mobile já nos atende? Essa linha é móvel e tem avançado muito nos últimos temos. Hoje mesmo eu li a avaliação de dois meses do Samsung Galaxy Tab S3 que a Garota Sem Fio fez (aliás, que encontro felicíssimo na GdP, Ghedin e Bia Kunze!) e ela fala que usa um tablet como máquina principal. Isso já é possível. Não sei se eu conseguiria, por conta do meu uso um pouco pesado do Excel, mas pra muita gente isso já é possível.

    Se o sistema mobile atende cada vez mais, então essa tende a ser uma discussão vazia. Software legado à parte, o que hoje, em nível de computação pessoal, não rodaria plenamente numa plataforma móvel rodando em arquitetura ARM? Eu não sei a resposta para essa pergunta, mas imagino que o número de demandas que dependem da arquitetura x86 venha caindo ano a ano.

    1. Sim, existem duas frentes — interface/experiência de usuário e desempenho bruto. Por isso acho (e, aparentemente, o autor também) que no universo Apple a resposta para essa mudança de paradigma é o iPad Pro, não um MacBook com tela sensível a toques.

      Sobre os domínios onde o x86 ainda reina, acredito que eles se restrinjam aos de alto desempenho. Edição de imagens/vídeo, jogos AAA e aplicações científicas, por exemplo. E, sim, são domínios bem estreitos e a tendência é que eles afunilem ainda mais no futuro.

      1. Aparentemente:

        De um lado, o uso “amador” (com muitas aspas, é claro): ARM, Ax, etc. iOS evoluindo para o híbrido.

        De outro, o uso “profissional” (com menos aspas): x86 legado até quando for necessário. iMac Pro/Mac Pro até onde forem viáveis.

        Mas uma parte considerável do público da Apple ainda não se posiciona justamente no enorme limbo entre esses dois polos?

        1. Talvez? Ou talvez seja apenas resquício da era pré-iPad, ou seja, muitos “amadores” que, possivelmente com algumas adaptações e/ou melhorias no iOS poderiam migrar para o iPad, mas se mantêm no Mac. (Acho que eu me encaixo nisso.)

          1. Talvez seja puro saudosismo da minha parte, mas há algo nesse cenário “prosumer” pré-iOS que não consigo ver se replicar facilmente com o fim dos PCs (a maneira como lidamos com arquivos, a cultura aberta da web, a relação entre amadorismo e criatividade). Mas, enfim, pode ser só mesmo saudosismo.