NovaGo, notebook da Asus com chip Qualcomm, em cima de uma mesa.

Notebooks com chips Qualcomm sinalizam mudança de prioridades do consumidor


7/12/17 às 18h04

Nesta semana, a Qualcomm anunciou uma nova leva de notebooks com Windows 10 que rodará com seu Snapdragon 835 — e, posteriormente, com o recém-anunciado Snapdragon 845. Ambos os chips usam uma arquitetura diferente, até então restrita principalmente a smartphones e tablets. A estratégia é uma aposta, aparentemente segura, de que as prioridades do consumidor mudaram.

Cristiano Amon, vice-presidente executivo da Qualcomm, disse que as vendas de chips para outras indústrias fora a da telefonia móvel representaram US$ 3 bilhões no faturamento da empresa no ano fiscal de 2017, um aumento de mais de 25% em relação ao anterior. A aplicação dessa tecnologia no segmento de notebooks, que até então corria em paralelo e dava a impressão de estar imune à comoditização dos smartphones — especialmente após o fracasso da última tentativa, em 2012 com o Windows RT —, é a maior demonstração da maturidade, flexibilidade e do potencial dessa cadeia de componentes.

Pouco se sabe, até o momento, do desempenho dos PCs Sempre Conectados, nome que a Qualcomm deu a esses notebooks com Snapdragon 835. A empresa não tocou no assunto durante a apresentação e Amon, quando questionado sobre comparações de desempenho com chips Intel, desconversou. Parecem lentos, mas não tão lentos. O foco, de qualquer forma, está em outras áreas e com promessa que enchem os olhos: +20 horas de uso com um ciclo de carga; acesso instantâneo; e conexão via 4G constante.

É seguro esperar, porém, que esses notebooks sejam bons o bastante. E isso costuma ser, de fato, suficiente. Há muito, desempenho bruto deixou de ser um fator decisivo de compra porque a maioria dos notebooks é minimamente boa em rodar os apps mais populares — em muitos casos, um navegador web.

Quando se resolve esse problema, o alto desempenho fica restrito a nichos (games, pesquisa, desenvolvimento) e a diferenciação para o grosso das vendas migra para outras áreas. É nelas que a Qualcomm espera subjugar os chips da rival Intel, com alguma chance de ser bem sucedida. Levou mais de uma década para que os chips da Intel pudessem entregar ~10h de autonomia; da noite para o dia, a Qualcomm promete dobrar essa duração.

A maior virtude dos PCs Sempre Conectados, aliás, é serem visualmente indistinguíveis de um “PC Vez ou Outra Conectado”. Ninguém bate os olhos no NovaGo da Asus ou no Envy x2 da HP, os dois modelos já anunciados, e consegue dizer, de pronto, que ali dentro há chips Qualcomm Snapdragon em vez de um Intel Core. A proposta não é criar uma nova categoria de produto; é oferecer vantagens significativas para quem procura um notebook. Eles rodam o mesmo Windows 10 que seus pares com Intel. Para o usuário, é apenas outro notebook qualquer com boa bateria e 4G.

De certa forma, é possível traçar um paralelo com outras indústrias mais maduras, como a automotiva. Existem as Ferrari e outros carros esportivos super rápidos, mas o consumidor médio, quando vai à concessionária, procura o que oferece mais conforto e o motor mais econômico. Um notebook simples e uma super máquina gamer abrem o Word ou o Chrome mais ou menos ao mesmo tempo. A diferença está no conforto no uso, na duração da bateria e em outros aspectos até pouco tempo tidos como “secundários”.

A partir do ano que vem, características que eram exclusivas (e apreciadas) dos smartphones estarão disponíveis em notebooks. No papel, pelo menos, é a união do melhor de dois mundos: a versatilidade e autonomia dos smartphones aos sistemas complexos e mais adequados a tarefas específicas de computadores tradicionais. Ela confirma a ideia de que, embora vivamos numa Era Pós-PC, haverá espaço para computadores tradicionais. O que não significa que eles não possam ser melhorados.

Rodrigo Ghedin viajou a Maui, no Havaí, a convite da Qualcomm e pode confirmar que o Sol forte e as palmeiras inclinadas pelo vento forte que vemos em filmes fazem jus à realidade.

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9 comentários

  1. Os textos do Ghedin amadureceram bastante. Fiquei um tempo sem aparecer por aqui pois antes parecia que estava lendo o The Verge em português: cada texto (não importa sobre o que tratasse) continha um elogio ou comparação a favor da Apple.

    1. A um intel Atom se compara sim, até um celeron diria. Os Snap 8xx tem uma enfase na parte gráfica muito grande, e não deve em processamento aos não tão queridos Celeron e Atoms da Intel, então ele teria um az na manga que é um video integrado de ótima qualidade (Até pq os jogos pra celular não são mais o clique e arraste de antigamente, e tudo isso rodando em displays 2K!!) e um processamento razoavelmente bom. Não é um investimento ruim, e a transição caso esses produtos se popularizem deve ser muito rápida. Vejo como vantajosa no ramo casual, educacional e quiçá empresarial dependendo do uso que o mesmo pretenda fazer. Um LoLzinho de fim de semana ele deve rodar bem também.

      1. Um ambiente de ‘emulação’ para que o sistema consiga transmitir as instruções x86 de forma que o Snapdragon consiga traduzir e obedecer, pelo que compreendi. A MS vem trabalhando com isso já há um bom tempo, creio que pra facilitar a transição pro que ela pretende ser um ambiente completamente integrado entre todos os seus produtos. Tem um vídeo mostrando o funcionamento aqui e está muito bom: https://www.youtube.com/watch?v=VeOQp5V7EgM

    1. ghedin abordou brevemente issso no último podcast, mas acho que nem eles devem ter muita informação sobre a qualidade dessa emulação.

      1. É, isso ainda é uma incógnita. Todos os notebooks no evento estavam rodando Windows 10 S, ou seja, nada de apps legados. Acho que só descobriremos ano que vem, quando o NovaGo e o Envy x2 chegarem ao mercado.