5 culpados pela primeira geração do Android Wear não empolgar

O belo design do Moto 360.

A primeira safra de relógios inteligentes rodando Android Wear está em pré-venda nos EUA e vários sites já publicaram análises e comentários sobre G Watch, Gear Live e Moto 360, as apostas de LG, Samsung e Motorola. Pelo que se viu até agora, não será dessa vez que relógios que fazem mais do que mostrar as horas se tornarão populares.

Culpado 1: autonomia da bateria

Do PhoneArena:

Embora a capacidade da bateria do Moto 360 não tenha sido anunciada ainda, o G Watch tem uma de 400 mAh. A LG não tem sido muito específica sobre a autonomia do G Watch, mas dizem que ela dura um dia inteiro de uso, 36 horas em stand by com a tela sempre ligada, e ainda mais com a tela desligada. O Gear Live tem que lidar com uma bateria menor — 300 mAh, mas a Samsung promete uma “autonomia para o dia todo” nele.

Outros reviews1 confirmam que ambos duram, em média, um dia inteiro de uso normal.

Um relógio que precisa ser recarregado toda noite? Não, obrigado.

Culpado 2: notificações

Quando escrevi sobre o anúncio do Android Wear, ressaltei um ponto não explorado pelo Google então, mas que me parecia vantajoso: diminuir as interrupções causadas pelo smartphone. Com as notificações no pulso, os desvios de atenção seriam, em tese, menos frequentes e mais curtos.

Em uma das sessões da Google I/O esse aspecto foi trazido à tona:

Interrupções causadas por smartphones, versus interrupções de gadgets vestíveis.
Imagem: Google (via @jayrobinson).

O slide, que deveria pintar um cenário favorável aos gadgets vestíveis, coloca em xeque tal aspecto. Afinal, interrupções mais frequentes, ainda que de duração menor, realmente distraem menos?

Quem está testando os relógios com Android Wear acha que não:

A “visão panorâmica” dada pelo slide acima mexeu um tanto com o que acreditava ser uma vantagem dos relógios espertos e relatos como o do Mat Honan aumentam o ceticismo.

Culpado 3: hardware

Você vai falar do Moto 360 que eu sei. E ele parece, em fotos, bonito: redondo, feito de materiais nobres e com acabamento premium, lembra mais um relógio que alguém normal usaria no dia a dia do que uma invencionice de empresa de tecnologia. E isso é bem importante, como Khoi Vinh sintetizou neste artigo:

Quando as empresas de tecnologia olham para produtos que são feitos fora, elas geralmente enxergam irracionalidade e ineficiência, um mercado quebrado apenas esperando para ser corrigido, “revolucionado”. Elas acreditam que podem projetar tanto valor nesses itens que as pessoas serão seduzidas a comprar produtos feitos por elas, que a promessa que conduz hardware e software (“adote isto e se beneficie da sua utilidade”) convencerá as pessoas a abandonarem seus hábitos.

Essa cegueira das empresas de tecnologia é mais evidente no Glass, mas é sentida também no Android Wear. O Moto 360 pode ser mais bonito, mas só o é comparado aos outros relógios da sua espécie. Perto dos convencionais, ele se destaca de uma maneira não muito positiva. A Motorola mantém as dimensões do Moto 360 em segredo, mas basta ver as muitas fotos e vídeos para concluir que ele não diverge muito, em tamanho, dos seus concorrentes. Comparar com relógios comuns, especialmente femininos, é covardia:

Comparativo.
Comparativo. Foto: @sharatibken/Twitter.

Ainda não estamos lá.

O hardware deles é limitado e depende do smartphone para ter acesso à Internet — e com Google Now e apps, conexão é uma necessidade. Alguns modelos específicos vão além e apresentam falhas inexplicáveis para um relógio, como a tela não ser visível sob a luz solar (o mesmo problema acomete o Gear Live):

Não dá para ver a tela do G Watch no Sol.
Não dá para ver muita coisa. Foto: @backlon/Twitter.

Não me entenda mal: é notável o Google e suas parceiras de hardware conseguirem criar um computador funcional tão pequeno. O problema é que essa capacidade, sozinha, não faz um bom produto.

Culpado 5: software

Focar a experiência no reconhecimento de voz foi um acerto do Google. Fazer concessões e permitir toques em uma tela de 2 polegadas, acho que não. Talvez o Google Now ainda não seja robusto o bastante para servir de única interface… não sei. O que sei, e alguns sites que já testaram G Watch e Gear Live ratificaram, é que o toque não é adequado.

Na demonstração do Android Wear durante a Google I/O apareceu um app de pedir pizza, o Eat24. A pessoa no palco, depois de 27 toques na telinha minúscula, conseguiu fazer o pedido — do mesmo sabor do último feito, o que me leva a pensar que para alterá-lo seriam necessários outros 53 toques. Mais fácil fazê-lo pela tela maior do smartphone ou, ainda, usar aquele ícone com um telefone que serve para falar de forma síncrona com outras pessoas e estabelecimentos, incluindo pizzarias.

Há espaço para aplicações no pulso, mas tudo o que vimos até agora foram ações populares em smartphones replicadas em processos quase sempre mais complexos ou menos completos. Tanto é assim que o próprio sistema, quando entrega os pontos e não consegue satisfazer uma requisição do usuário, indica o smartphone (!) para que a coisa ande.

Quando o Android Wear não dá conta, ele pede ajuda ao smartphone.
Tente novamente no seu smartphone. Foto: @stevekovach/Twitter.

Talvez por simplesmente estarem nas ruas e com muitos desenvolvedores pensando em coisas para esses relógios, aquele recurso matador, que ainda não apareceu e que alavancará as vendas e atenção pública a essa categoria, venha a surgir. É o que espera Dan Frommer:

Essas são, claro, atividades de nicho, mas talvez pequenas aplicações do tipo em número suficiente poderiam criar um mercado grande o bastante para justificar o investimento. Ou talvez haverá um jogo comicamente simples, algo como Flappy Bird, que fará todo mundo comprar um. Ou, melhor ainda, ferramentas comicamente simples para criar seus próprios widgets para relógios inteligentes.

Nesse zero a zero que tem sido criatividade e utilidade, a oportunidade está quicando na área.

Como deve ser o relógio inteligente perfeito?

Se soubesse não estaria aqui batendo nos outros :-) Mas existem alguns indícios e o principal deles é pensar no básico, em ser um bom relógio antes de qualquer outra coisa.

Activité, um relógio inteligente -- e bonito.
Foto: Withings.

O entusiasmo que precede o lançamento do Moto 360 vem da sua suposta beleza, já que por dentro (no software) ele é idêntico a G Watch e Gear Live. Ele é mais joia, menos gadget.

Olhando para fora vemos o menos comentado Activité, da Whithings. Mais parecido com um relógio de luxo do que com um inteligente, ele prioriza beleza e inclui funções no limite dessa prioridade. Não por acaso, o Activité não faz muita coisa; em utilidade, está mais próximo das pulseiras fitness da Fitbit, Nike e Jawbone do que do Android Wear, com o bônus de ser (e se parecer com) um relógio bonito, elegante. Talvez resida aí a sua vantagem. Quando for lançado, custará US$ 390.

Claro que não é só beleza o que salvará o Android Wear — se fosse, a saída seria simples: bastaria que LG, Motorola e Samsung produzissem relógios comuns. O sistema está em sua primeira versão e tem muito espaço para melhorias. Independentemente de quais forem, é bom o Google tomar cuidado para não criar complicações e minimizar ao máximo os possíveis tropeços na experiência de uso. Se preciso ditar três vezes uma mensagem para que o software de reconhecimento de voz a transcreva corretamente, a vantagem do relógio, que é tornar ações do tipo mais rápidas, desaparece.

O G Watch está a caminho do Brasil, deve chegar aqui, segundo a LG, no final de julho. E, claro, quero colocar as mãos em um — ou um no pulso — para ver como ele é na prática. Sobra receio, mesmo sobre a utilidade de um relógio inteligente feito da maneira correta, só que sempre existe aquele risco de morder a língua. Ainda que eu não goste, esse negócio pode ser grande. De qualquer forma, é cedo para quaisquer conclusões. Com o perdão do trocadilho, precisamos dar tempo a esses relógios.

  1. Se estiver sem saco e quiser ler apenas um review desses relógios/Android Wear, leia o do Ars Technica. Bem escrito, completo, só não ganha estrelinha dourada porque está quebrado em quatro páginas.
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10 comentários

  1. Tava vendo sobre esse Pebble aqui e ele tem exatamente as funcionalidades que espero de um smartwatch (acho que não tem leitor de batimentos, mas ok), além de ter uma autonomia incrível e um preço bacana. O maior problema dele é o design, a versão de metal é usável, mas a de plástico é feia com força.

    É interessante uma startup ter conseguido fazer o que nenhuma gigante fez. Se na próxima geração vier com uma tela redonda, traços bonitos e um sensor de batimentos ele tem toda minha atenção.

  2. Acho que os smartwatches têm primeiro que resolver o que eles querem ser: apenas um complemento aos smartphones? Se sim, o público será reduzido a alguns entusiastas. Será um produto “stand-alone”? Nesse caso, as chances de se tornar relevante são maiores, mas ainda falta resolver muita coisa pra começarem a ficar interessantes…

  3. Tenho um Pebble há quase um ano. Estou bem contente. Desativei as notificações do iPhone e só o relógio vibra. O efeito de pegar o celular para ver o motivo da vibração e depois ficar bons minutos olhando outras coisas é real e desapareceu com o smartwatch. 99% do tempo o celular fica guardado no bolso.

    O Pebble tem inúmeras limitações – e nem é tão bonito – mas a bateria dura três dias e sua tela ~tipo e-ink~ é perfeitamente visível sob a luz do sol.

    A pior coisa de ter um smartwatch é mais um dispositivo para ficar gerenciando: o bluetooth está conectado? Estou perdendo notificações? Como está a bateria? Mas o mesmo pode ser dito de fones de ouvido bluetooth – e, preciso dizer, quando você experimenta fones sem fio fica bem difícil voltar a ir à rua com uma corda prendendo sua cabeça ao bolso…

  4. Para mim, nem mesmo o aspecto estético do Moto 360 empolgou. Dá para ver pela foto que ele está longe de ser pequeno, e considerando que meu pulso é mais magro que o do garoto propaganda, imagine só o trambolho que ficaria em mim.

    Sobre replicar as notificações do smartphone, fico com a opinião do Luis Henrique pouco acima: notebook, smartphone e tablet já disputam minha atenção ao fornecerem, os 3, notificações simultâneas para várias coisas. Não quero um 4º dispositivo para complicar ainda mais as coisas. Já até acho que 3 são muito, e vez por outra fico pensando se não deveria abandonar o tablet, ou o smartphone (e ficar com um celular simples, delegando as funções “smart” para o tablet).

    Mas, assim como ele mesmo disse, para monitorar atividades físicas e controlar músicas, pode ser uma boa. Coisas bem simples, e que não compitam (existe esta conjugação? o.O) com outros gadgets. Já tirar fotos, servir de GPS, acessar emails, etc., acho tudo isso dispensável porque… bem, o smartphone já faz isso muito bem, melhor do que o smartwatch poderia fazer, e além de tudo, você que está aqui no Manual do Usuário provavelmente até já tem um. :-)

    1. O que acho mais severo nesses smartwatches é a necessidade constate da conexão com o celular. E se eu não quiser carregar o celular junto? Vou ficar com um trambolho que só exibe as horas (por um período curto que a bateria aguentar).
      Sei lá, ainda não colou.

    1. Esse eu acho complicado mandar assim, na lata. Se analisarmos friamente, tablet é um luxo desnecessário, mas vingou. Video games, idem. Utilidade não é, necessariamente, pré-requisito para o sucesso. Ainda que os relógios não sejam lá a coisa mais útil do universo, se forem legais e tiverem um visual bacana… por que não? :-)

      1. Não consigo ver, nesse primeiro momento, uma utilidade importante desses smartwatches, algo que realmente me faça querer ter um. Pelo contrário, eles são nada mais que uma extensão do smartphone, uma coisa meio redundante. Por que eu teria um relógio inteligente no pulso, se tenho um smartphone na mão que faz tudo que o relógio faz, com mais conforto e privacidade? E ainda tem o fato que o reloginho vai ficar ali no seu pulso chamando sua atenção constantemente para as notificações e distrações, como se o celular já não fosse um vício suficiente.
        Não sei, de verdade. Talvez, como você disse, “aquele recurso matador, que ainda não apareceu e que alavancará as vendas e atenção pública a essa categoria”, surja e mude as coisas, faça com que o povo pense que precise mesmo disso, como acontece com os tablets. Os tabs deram certo por que são alternativas mais intuitivas e principalmente, mais baratas que os PCs. Eles atingem um público bem maior, que não pode pagar um computador (com 250 reais você já compra um tablet ruim e defasado, mas que atende a necessidade da maioria). Mas sou bem cético quanto aos relógios.

  5. Do meu ponto de vista Smartwatches estão fadados ao fracasso, o único jeito de um Smartwatch dar certo é ele sendo um relógio normal, assim como qualquer outro relógio simples e de qualidade, porém, que tenha algumas peculiaridades high tech, como exibir notificações do celular e ajudar com o trajeto do GPS por exemplo, e só, nada de dezenas de aplicativos, câmera e mais centenas de firulas. Esses trambolhos que tem como objetivo serem completos mas no final das contas não conseguem nem atender as necessidades básicas estão vivendo de marketing, e isso tem vida curta, hora que as pessoas gastarem uma grana preta em “relógios inteligentes” e virem o quão desnecessário são, nunca mais vão querer um.

  6. Bons pontos Ghedin, acho que resume bem o panorama atual dos smartwatches.
    As propostas são boas, mas mal executadas. Sinceramente, não vejo nenhum apelo junto ao público “normal” (não-geek entusiasta) para a compra desses relógios.
    E como já comentei no Twitter, não sabemos ainda o que queremos de smatwatches. Mais um dispositivo para ver notificações? Ontem vivi uma situação peculiar e irritante: todos os meus gadgets (smartphone, tablet e notebook) estavam ligados e conectados no wi-fi, com as mesmas contas (Facebook e Twitter) abertas. Em meia hora, devido à discussões no twitter, acabei por receber uma série de notificações. Foi irritante e frustante todos os aparelhinhos vibrando e tocando sincronizados para a mesma notificação. Acho que não quero mais uma coisa no meu pulso que fique vibrando insistentemente.
    Para mim, a melhor proposta de vestível são as smartbands, mas voltados especificamente para o monitoramento em atividades físicas. Talvez no máximo um controle para trocar as músicas de maneira mais rápida.

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