Logo do Gmail contra fundo branco.

Google, pare de tentar arruinar o e-mail


19/2/18 às 11h22

Se você tivesse uma máquina do tempo, voltasse dez anos atrás e acessasse a internet de lá, veria uma rede um tanto diferente. Poucas coisas são resilientes em um meio em que a única constante é que as coisas mudam o tempo todo. O e-mail é uma das poucas exceções que confirmam essa regra.

Desde que foi inventado, entre as décadas de 1960 e 1970, ele mudou de maneira tangencial. Desde que o Google passou a oferecer um serviço de e-mail, menos ainda.

O e-mail continua sendo uma maneira de nos correspondermos, um meio de comunicação simples, aberto, multiplataforma e incontrolável. Ele é de todos e de ninguém, algo que nenhuma empresa que o ofereça é capaz de mudar por conta própria.

O Gmail, serviço de e-mail do Google, tem como mérito ter livrado as caixas de entrada da limitação do armazenamento. Quando apareceu, em 2004, o espaço que oferecia era — pelo menos — 500 vezes maior que o dos principais rivais, como Hotmail e Yahoo Mail. Foi uma mudança dramática e, ao mesmo tempo, uma tranquila. Ela mexeu com a maneira como usamos o e-mail (o mote do Gmail era que o usuário nunca mais precisaria apagar uma mensagem), mas foi uma operação dentro das regras do jogo. Ela não modificou as fundações do e-mail, que seguiu funcionando da mesma maneira para quem não usava o Gmail e queria/precisava de comunicar com usuários do Gmail.

De lá para cá, junto a outras empresas, o Google também conseguiu vencer o spam. Na época, era um problema sério e dificílimo de lidar. Meses antes do Gmail aparecer, Bill Gates disse que o spam seria coisa do passado em questão de uns poucos anos. A declaração foi recebida com ceticismo, mas se provou correta. Ainda recebemos muito lixo por e-mail, mas a maioria é consentida ou fruto de incompetência ou má vontade de uns aí que ainda fazem comunicação de massa por e-mail — quem não oferece ou desrespeita os links de descadastramento, por exemplo. O spam clássico bate e para nos filtros.

Agora, chegamos a um ponto de inflexão. Até hoje, todas as invenções do Google para o Gmail atuaram em uma camada superior, que não pretendia modificar o e-mail em si. Não mais. O Google dá sinais fortes de que o e-mail como ele é e sempre foi não é mais suficiente. O Google sinaliza querer espaço dentro das mensagens de e-mail em vez de apenas entregá-las. O Google quer sitiar o e-mail e subvertê-lo aos seus interesses.

O primeiro sinal dessa nova fase foi a fragmentação da caixa de entrada. De repente, passamos a ter mais de uma e as mensagens, sortidas entre elas de acordo com um algoritmo. A ordem cronológica inversa, que coloca as mensagens mais recentes no topo da lista, foi pulverizada, e, nessa, afetou usuários e profissionais que confiam no e-mail para se comunicarem.

No celular, as caixas de entrada do Gmail são ainda piores, pois, fora a principal, todas as demais ficam longe do olhar do usuário. É preciso expandir um menu de hambúrguer para acessá-las. Ruim, mas o pior ainda estava por vir.

Na semana passada, o Google anunciou o “AMP para E-mail”, um projeto que visa tornar o e-mail dinâmico, com formulários, seletores e informações que se atualizam em tempo real. A base da proposta é um subconjunto do AMP, sigla em inglês de “Páginas Móveis Aceleradas”, que, por sua vez, surgiu para facilitar, a quem desenvolve sites, a criação e distribuição de versões mais leves deles.

O AMP é bom para o Google, mas nocivo à web. O verniz comunitário, que costuma aparecer nessas coisas sob o rótulo de “código aberto”, caso do AMP, faz tanta diferença quanto o fato do Android ter o código aberto — na prática, pouquíssima. O Google enforca quaisquer vantagens desse modelo de desenvolvimento na distribuição e nas camadas proprietárias que coloca antes da distribuição. Basta ver quantos forks comerciais ou mesmo comunitários bem sucedidos — e livres dos serviços do Google — do Android existem. Excluindo a China, apenas um, e de outra empresa quase tão poderosa quanto o Google: a Amazon.

O AMP assalta o navegador e quebra uma série de convenções da web. Ele joga com suas próprias regras em um ambiente que já tem regras definidas democraticamente por um órgão, o W3C, e que funcionam muito bem. A partir do buscador do Google, que serve de gatekeeper da web para muita gente, o AMP coloca todos os sites nos servidores do Google e os apresenta da maneira que convém ao Google. Até pouco tempo atrás, até a URL dos sites era do Google e não havia um jeito simples de acessar a capa do site, de escapar daquele pedaço de conteúdo que o Google queria que o seu usuário acessasse dentro do seu próprio domínio.

Não há absolutamente nada de errado com os padrões web, definidos pelo W3C. Se os sites fossem publicados com as mesmas restrições que o AMP impõe — basicamente, sem todo o lixo em JavaScript que sustenta sistemas monstruosos de publicidade invasiva e vigilância do usuário —, eles seriam tão rápidos quanto a versão AMP.

O único incentivo válido para se adotar o AMP deriva do poder de mercado do Google: o local privilegiado em que páginas no formato aparecem nos resultados do buscador do Google.

Publicações estão comemorando o fato de que o Google está entregando mais visitantes que o Facebook e que boa parte desse aumento se deve ao AMP. Parece um alívio à luz das mudanças no algoritmo do Facebook. Mas é apenas uma troca de seis por meia dúzia. E se daqui a um ano o Google diminuir a relevância do AMP no buscador? Estamos no mesmo ponto de sempre, que é depender de uma empresa enorme e centralizadora. E isso pode ocorrer, porque o AMP atende aos anseios de apenas uma das partes, o Google.

O AMP é um assalto à web para manter o usuário dentro do Google, consumindo o Google. Por esse histórico e pelo que se viu até agora, o AMP para E-mail tem a mesma finalidade, só que dentro do e-mail. Aliás, por que isso está vinculado ao AMP? Que parte do e-mail precisa ser “acelerada”?

No anúncio do AMP para E-mail feito no GitHub, William Chou, engenheiro de software do projeto AMP, escreveu que:

O e-mail é a pedra angular de muitos fluxos de trabalho corporativos e pessoais. Entretanto, o conteúdo enviado em uma mensagem de e-mail ainda é limitado — as mensagens são estáticas, podem se tornar datadas e não são acionáveis sem que se abra um navegador.

São precisamente essas limitações que explicam a resiliência e que são a razão de ser do e-mail, que fazem dele essa “pedra angular de muitos fluxos de trabalho corporativos e pessoais”. O e-mail é comunicação, não é interação. Se uma mensagem ficou datada, envia-se outro e-mail. Se é preciso que o usuário faça alguma ação, pede-se para que ele vá ao local correto — locais de interação, como a web ou aplicativos.

O e-mail tem uma série de chateações, mas ele funciona. Sua natureza imutável, que o Google se apressa em  classificar de “limitada”, é uma das suas grandes virtudes. Por exemplo, para que ele sirva de prova judicial. No momento em que um e-mail pode ser atualizado após o envio, isso acaba. Os verdadeiros problemas do e-mail, como as caixas abarrotadas de mensagens, não são atacadas pelo AMP para E-mail, porque o objetivo dele não é melhorar o e-mail.

Como disse Devin Coldewey em uma bela crítica do AMP para E-mail, o e-mail “pertence a uma classe especial [de produtos] maduros, itens úteis que fazem exatamente o que eles precisam fazer. Que transcenderam o mundo do gostar e odiar”.

Uma olhada na repercussão do anúncio do AMP para E-mail, no Github, evidencia a rejeição que desenvolvedores e outros perfis técnicos têm ao AMP. Isso deveria soar como um alerta a todos que estão mais longe dessa ponta do processo.

Só é possível vislumbrar dois ganhadores para um e-mail interativo ditado pelo Google: o próprio Google e a publicidade. Porque mensagens trocadas entre pessoas, newsletters de publicações e a maioria das demais comunicações feitas por e-mail não precisam de nada que o AMP para E-mail propõe. Preços em um e-mail marketing? Confirmações de compra? Retargeting? Dá para sacar que o AMP — web e o do e-mail — é nada mais que o Google exercendo seu poder descomunal para expandir o controle que tem sobre partes basilares da internet e colocar na agenda funções dúbias que beneficiam seu modelo de negócio, apenas.

E se achar que estou exagerando, basta lembrar o que aconteceu na última vez que o Google tomou para si o controle de uma tecnologia aberta. O fim do Google Reader, até hoje inexplicável, causou tanto dano ao RSS que ele jamais se recuperou junto ao usuário final.

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