Amazon lança seu aparato de vigilância doméstica em massa no Brasil

Echo em cima de uma bancada com outros objetos ao redor.

Se você sempre quis colocar microfones super sensíveis e sempre ativos de uma mega corporação estrangeira dentro da sua casa, tenho uma boa notícia: a Amazon lançou nesta quinta-feira (3) a Alexa em português do Brasil e, junto com ela, colocou em pré-venda no país seus alto-falantes com microfones da linha Echo.

A chegada era questão de tempo. Há meses a Amazon estava testando a Alexa, sua inteligência artificial controlada por voz, com consumidores brasileiros. O trabalho da Amazon, disseram representantes da empresa a alguns veículos de imprensa que tiveram acesso à notícia antecipadamente, foi de localizar muito bem a Alexa: ela conta piadas que só fazem sentido aqui, faz referências a times de futebol e até modula a nossa pronúncia de termos anglicanos que são de uso corrente no Brasil — “smartifôni”, por exemplo.

Para promover a Alexa em solo brasileiro, a Amazon trouxe dois alto-falantes e uma tela inteligente da sua linha Echo. São eles:

  • Echo Dot, um pequeno alto-falante em formato de disco. Custa R$ 349, mas na pré-venda (até dia 7/10) sai por R$ 249. Lançamento em 8 de outubro.
  • Echo (3ª geração), o cilindro com maior qualidade de áudio. Trata-se da versão mais recente do modelo, apresentada há uma semana nos Estados Unidos. Chega em novembro por R$ 699.
  • Echo Show 5, este com tela de 5,5 polegadas e câmera, se expor-se à Amazon apenas por áudio não for o bastante para você. Custa R$ 599, mas durante a pré-venda sai por R$ 449. Datas de pré-venda e lançamento iguais às do Echo Dot.

Além disso, a Alexa impregnará produtos de outras empresas como D-Link, Intelbras, JBL, LG, Positivo e Sony. Um dos usos da Alexa é ser a cola que gruda os componentes da chamada “casa inteligente”, quando objetos mundanos como lâmpadas e fones de ouvido se conectam à internet em troca de comodidades do tipo ligar a luz com a voz.

Mostrando que se empenhou neste lançamento, a Amazon também anunciou compatibilidade da Alexa com diversos serviços locais. Dá para pedir comida no iFood, pegar receitas da Rita Lobo, jogar Show do Milhão e, para momentos de autoflagelação, ouvir esquetes do Porta dos Fundos. São as chamadas “skills” da Alexa, equivalentes a aplicativos de celulares, mas que você provavelmente só usará uma vez porque logo em seguida esquecerá a palavra-chave usada para invocá-las.


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A Amazon criou uma categoria do nada, um feito impressionante, mas ainda não está evidente — nem mesmo para analistas em seu quintal — qual é o valor que ela pode tirar deste enorme ecossistema. Os produtos próprios (Echo) são baratos, o que significa que a Amazon não ganha muito com a venda deles, e pesquisas indicam que esses alto-falantes que serão lançados no Brasil são, no fim das contas, rádio-relógios modernos que as pessoas usam para tocar música, ouvir a previsão do tempo e ativar o timer na hora de assar uma pizza.

É importante ter isso em perspectiva. Se os ganhos são limitados, os riscos parecem muito maiores. Soa engraçado, mas os Echo são, literalmente, microfones super sensíveis conectados aos servidores da Amazon. Que te ouvem e, em alguns casos, repassam conversas a outros seres humanos. E que podem ser ativados acidentalmente e capturarem coisas que não deveriam. Também tenha em vista a razão de existir da Alexa — vender, porque a Amazon é, antes de tudo, uma grande loja. Obviamente, é possível comprar produtos na Amazon apenas batendo um papo com a Alexa.

Uma estimativa do começo do ano apontou que a Alexa estava presente em mais de 100 milhões de produtos vendidos, entre os próprios da Amazon e de terceiros. Apesar dos vários cenários em que interfaces por voz têm muito valor, é surreal que, com o tanto de literatura de ficção nos alertando dos perigos da vigilância em massa, justo a Amazon, com seu histórico monopolista e anti-privacidade, tenha conseguido a dianteira desse mercado e colocado a Alexa em tantos lares. Não que a alternativa (Google Assistente) seja melhor, mas… bem, é o que tem para hoje.

Foto: Amazon/Divulgação.

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27 comentários

  1. Texto ótimo, mas senti um excesso de cautela em relação ao que a tecnologia em questão pode proporcionar.
    Isso não é para quem quer manter sua privacidade o máximo possível, isso é pra quem quer aproveitar da tecnologia, da facilidade, da interação, até mesmo quem quer se sentir igual àqueles filmes sci-fi onde tudo era feito por voz e gestos. E quem não quer? Depois que se experimenta e vê que é útil (ou não) não se quer perder a comodidade. O problema não é a tecnologia, mas a empresa. E isso vale para todas, incluindo a Apple.
    O mais perto que teremos de algo entre esses dois mundos é a Assistent que teoricamente é para rodar direto no aparelho, mantendo informações pessoais ali e se adaptando ao seu uso. Você perde o progresso quando reseta muito provavelmente, mas pelo menos não estará em nenhum servidor.

  2. O texto está impregnado de palavras, termos e sentidos para denegrir o produto da Amazon. Quem o escreveu na certa deve ter tido algum pesadelo pouco com a Alexa pouco antes de escrever o texto. (Ou quem sabe recebeu um fora, da mesma, só fazer a famosa pergunta “Alexa, vc me ama?”

    Ao menos, nisso venho elogiar quem escreveu o texto, ele foi digno de no final do texto deixar claro sua aversão ao tipo de tecnologia. (Afinal todos tem direito a expor suas opiniões. E respeito isso desde que seja explícito e não manipulador)

    Já comprei o meu echo e tenho o home mini. Agora tanto a Amazon e o Google tem altas informações da minha vida… Já estou até imaginando seus funcionários chamando outros para comentar que eu estou indo pro banho ou que estou indo ao banheiro.

    🤦🏻‍♂️

  3. O título e o tom dessa matéria são os motivos pelos quais o Ghedin é o melhor jornalista cobrindo tecnologia de consumo no Brasil!

  4. Que legal ! Nao basta agora termos “teletelas” no melhor estilo 1984 – como ainda vamos pagar por elas.

  5. “Se você sempre quis colocar microfones super sensíveis e sempre ativos de uma mega corporação estrangeira dentro da sua casa”. Rindo de nervoso 😅

  6. Se eu brincar de Show do Milhão com a Alexa e ela fizer as perguntas imitando a voz do Silvio Santos, vendo meus dados com o maior prazer do mundo.

  7. Acho que no caso dos assistentes de voz, a galera que nasceu até as décadas de 80 e 90 ainda tem dificuldade de encarar como uma interface realmente útil (eu ainda me sinto estranho falando com a Alexa ou Google Assistente).

    Mas basta olhar para a geração mais nova (tenho duas crianças em casa), e ver como eles lidam de uma maneira absurdamente natural com esses dispositivos.

    Pode demorar ainda uns bons anos, mas com o avanço tecnológico e conveniência será praticamente impossível ficar alheio aos assistentes.

    Achei que o título forçou um pouco, pois, apesar de não ter um microfone tão poderoso já temos um dispositivo o qual carregamos no bolso diariamente (e até a defensora da privacidade Apple foi pega utilizando os dados de maneira não adequada).

    O desafio é achar o nível aceitável entre conveniência x privacidade.

  8. “..e, para momentos de autoflagelação, ouvir esquetes do Porta dos Fundos.”. hauohaoushuoahuoahuosah 🤣

    Acho que a grande sacada da Amazon de colocar Alexa em tudo que é geringonça é abocanhar o mercado de busca do Google.

    Daqui a uns anos consigo imaginar busca por voz sendo responsável por boa parte das pesquisas e fico com a impressão que é por isso que tudo que é empresa gigante tá investindo pesado nesses assistentes.

  9. Ghedin, sou teu fã e entendo as ressalvas da linha editorial do MdU com esse tipo de oversharing, mas o tom jocoso em algumas partes desse artigo quase me fizeram acreditar que ele poderia ter sido postado no Meio Bit, com aquela “soberba do conhecimento/cultural” nos comentários sobre as interfaces da Alexa. Sei lá, posso estar sendo ranzinza, mas acho que destoa um pouco do teu tom normalmente mais sóbrio.

    Não pretendo investir porque não creio que essas interfaces de voz tragam uma automação realmente sensível e bem integrada pro contexto brasileiro, ainda mais considerando a falta de qualidade dos links de internet. Mas já visitei uma amiga nos EUA que usa a Alexa e é realmente impressionante quando você já tem uma infraestrutura e uma cultura mais azeitada para uma implantação assim. Se vale a pena a exposição e o compartilhamento de informação sensível, aí é o julgamento particular de cada um. Eu creio que talvez não valha, mas não digo que dessa água nunca beberei.

    1. >Meio Bit, com aquela “soberba do conhecimento/cultural” nos comentários sobre as interfaces da Alexa

      irmão, até hoje eu lembro do cardoso batendo de pé firme que os smartphones jamais fariam sucesso porque abdicaram o teclado físico e seu retorno tátil.

      a blackberry deve ser fã dele.

      1. Eu não tenho nada contra as pessoas fazerem suas apostas pessoais, o problema é insistir em fazer as vozes discordantes se sentirem um lixo mesmo quando discordam respeitosamente. Essa régua o Meio Bit nunca teve. Ali ninguém nunca errava, era sempre “o universo teimando em ser idiota”.

        Eu sou um exemplo: usei BlackBerry por um tempo e adorava, senti falta do teclado físico por um tempo. Olhando em retrospecto não consigo enxergar como implementar de volta algo do tipo, considerando a arquitetura que o mercado mobile consagrou no mercado. Mas me adaptei, segue o jogo!

    2. “Se vale a pena a exposição e o compartilhamento de informação sensível, aí é o julgamento particular de cada um.”

      Ai que está…., Faz parte da propria opinião do Rodrigo que, assim como muitos de nós, também têm pavor dessa ‘permissão’ de privacidade.

      Cada um sabe o que faz com o proprio dinheiro, mas dentro da minha casa esse tipo de aparelho não vai entrar.

    3. Concordo com o fato que também – por gosto pessoal – o tom jocoso do texto não é minha parte favorita, mas entendo o fato do Ghedin usa-lo por aqui, dado que a expectativa do leitor padrão do MdU seria da pessoa avessa a invasão de privacidade das empresas.

      O ruim é justamente achar o tom para chamar a atenção sobre o assunto. Falar sobre privacidade eletrônica e uso de informações privadas é algo que infelizmente nunca foi um assunto sério no Brasil.

    4. Sou fã de carteirinha dos textos do MdU, mas vou ter que concordar dessa vez. Esse texto me lembrou o da “moedinha do Facebook” e isso não é nada bom.

      Estamos presenciando o retorno do Dark Ghedin no blog?

    5. Nem eu digo dessa água nunca beberei porque, sei lá, daqui a dois anos a minha TV pode quebrar e quando for às compras não terei opção sem microfone e um (ou vários) desses assistentes estúpidos. E não estou a criticar quem gosta ou usa; cada um faz o que quiser.

      Acho que o artigo está alinhado à premissa do Manual de questionar as motivações das grandes empresas de tecnologia. Talvez o título tenha incomodado, mas foi uma maneira de distinguir a minha abordagem (é um texto opinativo, afinal) da enxurrada de notícias de outros veículos.

      Que parte exatamente te lembrou o Meio Bit? Isso me deixou preocupado!

      1. Acho que o tom de boa parte do post, na minha opinião, foi de desdém, em alguns trechos beirando o deboche. Batendo o olho no título do post, achei até que era alguma participação do Gogoni ou do Fogaça (o Cardoso, até onde sei, não é lá muito focado em privacidade). Essa mesma impressão persistiu ao longo da leitura.
        É óbvio que a premissa do Echo, Alexa e afins vai contra tudo que o MdU prega e os argumentos pra tal são justíssimos. Mas acho que dá pra conciliar opinião contrária com um texto mais sóbrio, como costuma acontecer nos (sempre excelentes) posts daqui.

      2. Reforço: entendo perfeitamente que o artigo está mesmo alinhado à premissa do site. Não estava esperando uma guinada sobre isso, e acho que deixei claro também no comentário original que compactuo dos mesmos receios, talvez em dose diferente.

        Creio que o título mais esse trecho aqui “Dá para pedir comida no iFood, pegar receitas da Rita Lobo, jogar Show do Milhão e, para momentos de autoflagelação, ouvir esquetes do Porta dos Fundos. São as chamadas “skills” da Alexa, equivalentes a aplicativos de celulares, mas que você provavelmente só usará uma vez porque logo em seguida esquecerá a palavra-chave usada para invocá-las” me deram a impressão de subestimar como isso pode vir a ser importante para um determinado grupo de usuários, independente dele gostar ou não de Porta dos Fundos (uma provocação até engraçadinha, mas irrelevante pro objetivo técnico do texto) ou ter capacidade de lembrar de palavras chave. Como se já devêssemos presumir que é o tipo de aquisição que será feita por gente que não pensa muito sua vida online e, por isso, inferior?

        No fim, vejo que o MdU já obtém sucesso em se distinguir das notícias mais assépticas e incompletas em outros sites sem se fazer valer desse tipo de estocada de forma muito explícita. Ou de repente estou apenas vendo pelo em ovo, não acredito que mesmo nos piores dias do Ghedin o site conseguiria descer ao pior nível opinativo da internet nem que quisesse!

        1. Não era para ser um texto técnico, mas opinativo. (Eu nem tenho capacidade de opinar sobre tecnicismos porque não sou programador nem nada parecido.) Sobre as pessoas não se lembrarem das “skills”, seria melhor se eu tivesse colocado o link (como fiz agora) porque esse problema de esquecimento e dificuldade de descoberta é real, foi detectado em uma pesquisa feita em 2017:

          For starters, 69 percent of the 7,000-plus Alexa “Skills” — voice apps, if you will — have zero or one customer review, signaling low usage.

          What’s more, when developers for Alexa and its competitor, Google Assistant, do get someone to enable a voice app, there’s only a 3 percent chance, on average, that the person will be an active user by week 2, according to the report. (There are outliers that have week 2 retention rates of more than 20 percent.) For comparison’s sake, Android and iOS apps have average retention rates of 13 percent and 11 percent, respectively, one week after first use.

          Sobre o Porta dos Fundos, aí foi só gracinha mesmo. Eu não gosto, mas não estou demonizando quem goste. Cada um faz o que quiser do seu tempo.

    6. Eu nem ia abrir o link.
      Mas abri pq já gostei do título.
      Acho até que o Ghedin pegou leve.
      Eu pegaria mais pesado ainda.

    7. > Mas já visitei uma amiga nos EUA que usa a Alexa e é realmente impressionante quando você já tem uma infraestrutura e uma cultura mais azeitada para uma implantação assim.

      O ponto do texto é a absurda falta de privacidade a que esses dispositivos submetem os usuários. Nesse sentido, ter uma infraestrutura avançada e uma cultura mais “azeitada” agravam o problema, pois criam um cenário para que a coleta massiva de dados sensíveis seja ainda mais eficaz.

      1. Eu sei que esse é o ponto, isto não foi tirado de discussão e até reforcei que é um assunto de fato preocupante. Você está certo. Porém não há como negar que conforme o público veja maiores benefícios e praticidades num recurso desse, talvez ponha na balança também o quanto se importa (cada vez menos) em ter seus dados coletados. Se isso é bom ou não aí é outra conversa, mas se tanta gente deixa o “lembrar-me” marcado na hora de entrar no e-mail e nem sabe onde fica o botão de logout, imagina quando for apresentado a um nível de conveniência maior.

        1. O problema — que o texto ataca — é justamente esse: praticamente não existe balança. Noticiou-se a chegada da Alexa, um negócio absurdamente invasivo, sem as devidas ressalvas aos riscos que ela representa. Não é alarmismo, é informar o leitor. Aqui, pela linha editorial do blog e pelas minhas convicções, esse assunto tem mais peso nessa balança do que eventuais conveniências. (O nosso problema, enquanto sociedade tecnocrata, passa por aí; estamos nos tornando escravos de uma tirania da conveniência.)

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