Como a escritora e ilustradora Aline Valek trabalha

Foto da Aline Valek.
Nota do editor: Nesta seção, a cada 15 dias entrevisto profissionais de diferentes áreas a respeito de produtividade e da relação deles com a tecnologia. Veja os anteriores.
  • Nome: Aline Valek. Muita gente se surpreende quando pronuncio Válek, mas de acordo com a reforma ortográfica valekiana, a pronúncia abrasileirada Valéque também é aceita.
  • Cidade onde mora: São Paulo (SP)
  • Emprego atual: Escrevo e ilustro. Meus trabalhos estão em alinevalek.com.br :)
  • Computador: MacBook Pro.
  • Celular: Um Samsung Galaxy A5 todo rachado atrás.
  • Gadget favorito: Minha Wacom Bamboo Fun, daquelas pequenas e branquinhas. Sou do tempo que se chamava mesa digitalizadora de tablet! Ainda chamo, aliás. Tenho essa há mais de dez anos e continua firme e forte. Bem, e se conta como gadget, meu favorito atualmente é um controle de Super Nintendo USB, super falsificado, que uso para jogar Yoshi’s Island no emulador do computador.

Como você chegou onde está?

Quando criança eu já desenhava e fazia histórias em quadrinhos. Um pouco mais velha, comecei a fazer zines e sonhava em ser desenhista da Marvel Comics, why not? Depois de alguns anos de tentativas frustradas de entrar na faculdade e passar num concurso público, consegui entrar em Comunicação Social, como bolsista do ProUni.

Na faculdade, meu lado desenhista foi deixando espaço para o lado escritora surgir, quando fiz um curso de Redação Publicitária. Trabalhei uns anos como redatora em agências de publicidade, até largar tudo e virar escritora!! Mentira. Essa é uma idealização comum que as pessoas têm sobre essa jornada: “como foi LARGAR TUDO e virar escritora?” É nessa hora que decepciono, porque não houve uma ruptura brusca. Foi mais uma transição gradual. Foram muitos anos pegando freelas mal pagos até eu de fato poder me sustentar como escritora.

Vir para São Paulo ajudou. Aqui conheci muita gente, participei de muita coisa, e esse movimento gera visibilidade. Mas desde a época da faculdade eu escrevia com frequência no meu blog, que me abriu portas pra vários trabalhos, onde comecei a formar um público e que foi a base do que hoje é meu trabalho literário.

Como é um dia típico de trabalho seu?

Pela manhã, é meu momento de me organizar: atualizar agenda, planilhas, lista de tarefas, responder e-mails (tipo esse!1). Sou mais produtiva à tarde, e também fica mais fácil produzir quando passei a manhã organizando o que preciso fazer. Sento e escrevo. Ou ilustro. Não é todos os dias que consigo, mas gosto de fazer longas caminhadas — aproveito minhas idas aos Correios pra isso! À noite quase não produzo, no máximo anoto ideias. Mas é importante afastar a cabeça do trabalho, ver amigos, tomar um vinho, assistir a um filminho. Aliás, contei um pouco da minha rotina neste episódio do meu podcast.

Alguma história curiosa ou engraçada que já aconteceu enquanto trabalhava?

Na época em que eu estava produzindo uma zine mensal, começou a obra de um prédio bem ao lado da janela do meu escritório, no apartamento onde eu morava. Eu acompanhei o processo inteiro: vi derrubarem a casa do terreno (onde inclusive vivia um casal de periquitos), retirarem o entulho, furarem o chão pra fazer a fundação do prédio, tudo envolvendo MUITO barulho. Uns bate-estacas fazendo um barulho infernal a tarde toda. Esse início foi desesperador, até porque eu ainda estava tendo dificuldades com o processo de fazer a zine, porque eu não estava preparada para fazer tantas.

Então, enquanto eu sofria para terminar as primeiras remessas, eu pensava “não vai dar certo, eu nunca vou conseguir terminar, esse prédio vai ficar pronto antes de eu conseguir imprimir todas essas zines”. Claro que meu drama era exagerado e eu consegui sim. Quando começaram a subir as paredes, o pessoal da obra ficou tão próximo da minha janela que começaram a olhar para dentro do meu escritório e espiar o que eu estava fazendo. Eu só encarava de volta e eles voltavam a trabalhar. Mas eu escutava todas as conversas deles!


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O que eu achava impressionante é que era um monte de homem, mas parecia conversa de salão de beleza. Tinha horas que eu não sabia se eles estavam contando fofoca de gente que eles conheciam ou se estavam comentando alguma novela. Também tinham as discussões políticas. Na época a polarização não estava tão acentuada e radical quanto hoje, mas já era um processo em curso. O mestre de obras tinha alguma consciência de classe e metia bronca nos peões: “Vocês vão ficar defendendo o discurso que é do interesse do patrão? Vocês deixem de ser TROUXAS!” Acompanhei essa obra por um ano. A gente se acostuma a tudo, afinal. Mas felizmente me mudei para um apartamento sem barulho de marretada nas proximidades. Não sei se o prédio já foi terminado. Ah, tem um vídeo que confirma essa minha história.

Foto de alguns zines da Aline.
Foto: Aline Valek.

 

Você dá muita atenção à produtividade? Se sim, de que maneiras práticas isso se traduz em sua rotina?

Uso uma agenda para listar as tarefas mais importantes que preciso cumprir e para escrever o que de fato fiz a cada dia. Não é tanto uma preocupação com a produtividade e “fazer mais”, mas uma forma de registrar o meu processo, de registrar do que foram feitos os meus dias. Como um diário de bordo. Dou muito valor a manter registros do processo (fotos de “work in progress”, arquivos com as versões de um texto, esboços e anotações), porque me permite ver a minha jornada, o quanto evoluí, o que posso melhorar para os próximos ciclos. Comparar-me comigo mesma é sempre mais frutífero do que me comparar ao processo dos outros.

Qual o seu lifehack (atalho/dica/facilitador) favorito?

Um baita lifehack para mim foi quando aprendi a deixar o feijão de molho algumas horas antes de cozinhar. Aliás, panela de pressão é o meu lifehack favorito. É uma máquina do tempo.

Tá, mas falando de escrita, um que me ajuda demais é ler os textos que escrevo em voz alta. Ajuda a entender pontuação, estrutura, tom. Quando o texto soa bem, ele fica melhor. Outro que eu uso é revisar o texto com uma fonte diferente da que usei para escrever. Como o cérebro ficou tanto tempo acostumado àquele texto escrito da mesma maneira, uns errinhos acabam passando, escondidos atrás do arbusto. Quando mudo a fonte e releio, consigo encontrar muito melhor os erros e até ter uma clareza maior do que posso reescrever e melhorar.

Você consegue se desconectar de vez em quando?

Por algumas horas, sim. Quando entro em estado de flow, consigo me manter focada por bastante tempo, sem precisar mexer no celular. Mas ele está lá boa parte do tempo, em pequenos intervalos, em olhadinhas rápidas, que acumuladas me assustariam um pouco. Sou uma crackuda digital. Já passei alguns períodos sem redes sociais, mas acabo voltando. “Um dia eu paro”, digo pra mim mesma, com as mãos trêmulas.

Quais aplicativos não saem da tela inicial do seu celular?

Tenho um bocado de apps na tela inicial, que organizo por cor (acho mais fácil na hora de buscar). Aqueles que mais uso são Twitter, Instagram, WhatsApp, YouTube, Spotify e Netflix. Comunicação e entretenimento.

Você tem algum projeto paralelo? Se sim, fale um pouco sobre ele.

Todo o trabalho que eu faço faz parte do meu trabalho principal: escrever romances, ilustrar, escrever no blog, escrever para a newsletter, fazer zines, fazer podcast, dar aulas… Os galhos fazem parte da árvore.

Três ilustrações feitas pela Aline.
Algumas ilustrações da Aline. Veja outras aqui.

O que você está lendo no momento?

Homens elegantes, de Samir Machado de Machado. É um romance que se passa em 1700 e alguma coisa e conta a história de um soldado brasileiro que é enviado a Londres para investigar uma rede de contrabando que enviou uma remessa enorme de livros eróticos para o Brasil. Os personagens e diálogos são muito vivos, a pesquisa histórica envolvida é impressionante e o antagonista é um cara desprezível chamado Conde de Bolsonaro. Talvez ele tenha alguma ligação com a investigação do protagonista, mas ainda não sei o que vai acontecer! Fazia tempo não me divertia tanto com um livro.

Pratica atividade física (qual?) e/ou tem algum cuidado especial com a saúde?

Caminho bastante e faço yoga. Depois de passar tanto tempo sentada escrevendo, alongar a coluna e colocar tudo no lugar é fundamental.

Que conselhos você daria a alguém interessado em seguir carreira na tua área?

Um escritor é a pessoa menos indicada para dar conselhos profissionais, vai por mim. Além disso, pessoas que se tornam escritoras tendem a ser aquelas teimosas o suficiente para não ouvirem conselhos e entrar nessa do mesmo jeito.

Aline Valek é escritora e ilustradora. Encontre-a em seu site pessoal, newsletterTwitter, Facebook e Instagram.

Foto do topo: Arquivo pessoal.


  1. Nota do editor: as entrevistas desta seção são feitas por e-mail.
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5 comentários

  1. Grata surpresa ver a Aline por aqui! Acompanho a newsletter dela há um tempo e está entre as que eu mais gosto :)

  2. Acho que cheguei a conhecer ela quando acompanhava o Alex Castro. Não sei se são do mesmo grupo sei lá, o nome não me é estranho. Eu recebia um zine em casa que chamava casca de banana, há muitos anos. Talvez seja ela a criadora. O nome não me é estranho MESMO hahaha.

  3. AI MEU DEUS É A ALINE! que surpresa maravilhosa vê-la por aqui aaaaaaaa 😍 acompanho ela tem anos e tenho todos os zines ♥️ vocês aí que não a conheciam antes, vão ver o blog e a newsletter, vale muito a pena!

    Obrigada Rodrigo ❤️❤️

  4. Parabéns pela dedicação e pela qualidade gráfica do trabalho, os zines parecem mais com livros do que com os fanzines clássicos

    abs!

  5. Cara, bem legal a matéria!

    Fora que desconhecia esse universo de Zines. E achei o site da Aline (xará da minha irmã) muito maneiro! Parabéns!

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