Um rolê na loja física do AliExpress no Brasil

Pessoas em frente à loja pop-up do AliExpress.

A digitalização do varejo barateou custos e expandiu a seleção de produtos disponíveis ao consumidor, vantagens que criaram gigantes do setor como a Amazon nos Estados Unidos e o Alibaba na China, e que têm norteado as decisões das empresas mais antigas que melhor se adaptaram à nova realidade, caso emblemático do fenômeno brasileiro Magazine Luiza. Apesar disso, lojas nativas digitais e bem sucedidas no ambiente virtual têm experimentado, com objetivos diversos, o caminho inverso, materializando-se no mundo físico.

No último sábado (7), fui conferir a recém-inaugurada loja pop-up do AliExpress, o grande marketplace digital chinês e uma das lojas estrangeiras favoritas dos brasileiros. Ela foi montada no Shopping Mueller, no Centro Cívico em Curitiba (PR), cidade escolhida por ser a sede do Ebanx, fintech local parceira que processa todos os pagamentos no AliExpress feitos a partir do Brasil.

Leia também: O grande guia para comprar em lojas da China, EUA e Europa via internet sem ter surpresas desagradáveis

Chamá-la de “loja” talvez seja um exagero. A chamada “shopping experience” do AliExpress é um paredão no último piso do Mueller, próximo ao cinema, composto por um telão gigantesco ladeado por oito telas menores sensíveis a toques e apenas dois produtos físicos para degustação dos curiosos — dois celulares da também chinesa Xiaomi.

Havia duas promoters tirando dúvidas do público. Uma delas me disse que funcionários do Ebanx também ficam por ali, mas que eles não estavam naquele momento. Nos pouco mais de 30 minutos em que estive no espaço, notei um fluxo constante de pessoas se aglutinando nas telas para conferir detalhes de celulares, fones de ouvido e drones. Ela informou que o movimento havia sido intenso durante todo o dia.

Não há estoque nem vendedores nesta loja do AliExpress. Além de informações dos produtos, as telas interativas exibem um código QR para cada um deles que, ao ser acionado pelo celular, abre a página correspondente no site do AliExpress. Dali, o consumidor interessado pode fechar a compra tal qual faria em casa ou em qualquer outro lugar.

Pessoas interagindo com os telões e celulares expostos na loja pop-up do AliExpress.
Jovem mexendo em um celular da Xiaomi e casal escaneando um código QR na tela. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

A loja física, pois, é um negócio feito estritamente para aumentar a exposição da marca no Brasil. À Folha, André Boaventura, um dos sócios do Ebanx, disse que a loja pop-up foi montada para deixar os consumidores “mais seguros para comprar produtos da China pela internet”.

O objetivo se justifica. Apesar dos preços baixos — principal chamariz das lojas chinesas —, os problemas de comprar de vendedores do outro lado do mundo são conhecidos e, em alguns casos, suficientes para desestimular o consumidor mais desconfiado: a inexistência das garantias do Código de Defesa do Consumidor brasileiro, os riscos — de incidência de tributos, de receber produtos defeituosos ou errados ou de eles serem apreendidos pela Receita Federal — e, o que é mais provável, a demora na entrega que em alguns casos chega a ser de meses. É uma fina ironia que a loja tenha sido montada em Curitiba, cidade onde também fica o principal centro de distribuição dos Correios, que, não raro, responde pela maior parte do prazo de entrega dilatado das importações devido ao desembaraço alfandegário.


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A loja pop-up do AliExpress ficará aberta por 30 dias. Ela se soma a outras que estão pipocando no Brasil. Em maio, a fabricante chinesa Xiaomi abriu a sua — esta sim uma completa, com estoque e venda direta — no Shopping Ibirapuera, em São Paulo (SP). Parte da estratégia de sua segunda investida no Brasil, desta vez com um portfólio de produtos maior e em parceria com uma fabricante local, a DL Eletrônicos, o estabelecimento gerou burburinho na imprensa e entre os consumidores. Milhares fizeram fila para a inauguração.

A Xiaomi, aliás, aprendeu da pior forma a importância que o varejo físico e o contato direto com o consumidor ainda têm no Brasil. Na primeira vez que aportou no país, em 2014, a fabricante chinesa tentou replicar a estratégia que funcionava em casa e que naquela época justificava a sua existência, a de vender apenas em canais digitais. Foi um fiasco. A operação brasileira patinou por pouco mais de um ano até bater em retirada.

Kang Huang, diretor do Alibaba no Brasil, afirmou que não há planos para abrir uma loja de verdade do AliExpress por aqui.

Veja mais fotos da loja pop-up do AliExpress em Curitiba:

Panorâmica da loja pop-up do AliExpress.
Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.
Telão da loja pop-up do AliExpress em destaque com mulher passando em frente.
Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.
Menino mexendo em um Mi 8 Lite.
Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.
Casal de senhores conferindo detalhes de um gimbal chinês em tela do AliExpress.
Há 13 produtos “expostos” nos telões da loja pop-up do AliExpress. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.
Detalhe do Xiaomi Mi 8 Lite.
Xiaomi Mi 8 Lite. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.
Detalhe do celular Mi 9 SE, da Xiaomi.
Xiaomi Mi 9 SE. Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

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15 comentários

  1. E tudo que eu queira era umas peças para manutenção de computadores baratinhas… :'(

    Não sou muito fã de comprar online – geralmente faço isso para comprar usados via canais de anúncios (OLX, FB Marketplace) e pegar pessoalmente.

    A única vez que comprei online da China (DX), demorou 6 meses para chegar a encomenda, e ainda por cima tive que comprar diferente do que eu queria porque não tinha mais no estoque…

  2. Rodrigo, foi retirada a opção de voltar ou avançar para o próximo artigo sem ter que voltar para a tela inicial do site? Quero dizer, antes eu conseguia voltar ou avançar dentro desse próprio artigo, por exemplo, mas agora não tem mais o link de artigos anteriores e posteriores (ou eu não estou vendo…).

  3. É curioso como as pessoas são diferentes.
    Eu adoro comprar pela internet, uso sites das americanas, M. Luiza, Casas Bahia, Arte e cor, Ali express… uma infinidade. Faço supermercado pela internet às vezes. Detesto shopping, vou 1 a 2 x por ano.
    Mas, para celular, eu gosto de loja física. Talvez pq trabalho através do meu tablet e preciso de assistência imediatamente se precisar. E realmente precisei, fui na loja da Samsung do shopping e resolveram pra mim.
    Então, isso me leva a crer que um nicho de mercado não exclui o outro.

    1. É, acho que é por aí mesmo. Existem vantagens e desvantagens nos dois modelos e é curioso que tanto as lojas nativas digitais quanto as de rua estejam avançando nas áreas diversas. Para as de rua, é mais uma questão de vida ou morte — é muito difícil escapar da digitalização do comércio. Casos como o da Lojas Cem, que continua vendendo exclusivamente no offline, parecem ser exceções que confirmam a (nova) regra.

    2. Não é nicho não. Noto esta preocupação – parte das pessoas que conheço preferem comprar em loja física pois assim podem contar com as regras de garantia tanto da loja (os 3 meses) quanto do fabricante

  4. Esse trecho da matéria matou a pau o porquê de eu achar essa iniciativa fofinha, mas inútil pra ganhar novos consumidores:

    “Apesar dos preços baixos — principal chamariz das lojas chinesas —, os problemas de comprar de vendedores do outro lado do mundo são conhecidos e, em alguns casos, suficientes para desestimular o consumidor mais desconfiado: a inexistência das garantias do Código de Defesa do Consumidor brasileiro, os riscos — de incidência de tributos, de receber produtos defeituosos ou errados ou de eles serem apreendidos pela Receita Federal — e, o que é mais provável, a demora na entrega que em alguns casos chega a ser de meses. ”

    Daí o consumidor médio vai lá, escaneia o celular exposto na tela, e, na euforia da novidade, compra sem saber da parte de esperar 30 a 45 dias úteis e com a possibilidade de ser taxado em 60% do valor da compra. Daí pronto, um potencial consumidor novo frustrado e puto que vai espalhar a experiência ruim pra outros e afastar mais ainda o público-alvo de lojas chinesas.

    Se o Alibaba tivesse feito a ação com, pelo menos, um estoque mínimo dos aparelhos aqui no Brasil, teria sido uma ótima sacada. Mas, do jeito que tá, não consigo botar muita fé.

    1. Existe esse risco, sim, mas acho que a ação tem muito potencial para atingir o objetivo oficial, que é expor o consumidor brasileiro que ainda não compra no AliExpress/em lojas de fora à marca, o “brand awareness”. (Não por acaso enfiaram a loja pop-up em um shopping, dos lugares mais tradicionais do varejo físico.)

      Enquanto conversava com a promoter, duas pessoas se aproximaram para tirarem dúvidas de preços e como comprar e embora tivesse muita gente com pinta de que sabia do que se tratava, também tinha uma parte que chegava com jeitão de curioso, como se estivesse vendo uma marca alienígena.

    2. Talvez eu tenha tido apenas “sorte” no Aliexpress, mas compro bastante artigos como roupas, brinquedos, artigos para casa, como os de cozinha, capa de sofá, lápis de cor, eu só não usei ainda mesmo, para eletrônicos. Eu nunca tive que trocar um produto ou tive uma decepção muito grande. É uma questão também de ter os pés no chão e não acreditar em milagres. Quando vejo um produto que custaria no brasil R$ 500,00 por aproximadamente R$ 50,00, não posso acreditar que é apenas impostos que dão essa diferença. É claro que o material é diferente, o acabamento é diferente, mas não fico muito surpresa. Milagre no mundo dos negócios não existe então tenho uma idéia do que vou receber. Ás vezes até me surpreendo com algo melhor do que eu esperava. Aí, ano passado comprei uma caixa de som, essas que a gente leva pela casa com pen drive, de uns 30 cm de altura, na Casas Bahia. Quando chego em casa certo dia, vejo um pacote na minha sacada. ( moro no 1° andar). Abro o pacote e vejo que é minha caixa de som! Que ótimo? Não. O entregador veio sem avisar e, como não encontrou ninguém, simplesmente jogou pela sacada. Não pegou assinatura, nada. A caixa de som, com o impacto de ser jogada, quebrou. Aí foi aquela situação desagradável e dispendiosa de ligar, reclamar, fotografar, discutir com a atendente pq eu não podia provar que era da entrega, enfim. Podem imaginar. Outra vez o entregador das casas americanas deixou na casa da vizinha o presente de dia das mães e a vizinha viajou no dia seguinte da entrega e esqueceu de me entregar. Conclusão: penso problemas sempre podem acontecer, seja no produto, no pgto ou na entrega.

  5. Só um comentário aleatório que surgiu de uma conversa com amigos ontem: Ainda acho estranho terem feito isso no Mueller. Ninguém abre nada no Mueller.

  6. Vale lembrar que o Magazine Luiza não é nada novato em venda eletrônica como pode parecer pra muitos hoje. Desde 1992 eles criaram um conceito de “loja eletrônica” instaladas em shoppings que eram um tipo de quiosque on line para fazer compras. Numa época que bem pouca gente tinha acesso a internet era uma solução bem inventiva pra contornar essa barreira.

    Não muito longe do que a AliExpress fez agora.

    1. Ah sim, mas acho que experiência e pioneirismo não se traduzem em bons resultados se não forem bem aplicados, não?

      O Magazine Luiza era só mais uma loja de departamentos até 2015, quando Frederico Trajano assumiu a presidência da empresa e deu início à transformação digital que fez o — salvo engano — maior turnaround da B3 dos últimos anos. (Era de 3.360% no final de 2017 e continuou subindo desde então.) Eles integraram canais de vendas (“omnichannel”) antes de todo mundo, deram mais agilidade à operação nas lojas físicas, reformularam apps e site para uma experiência mais rica dos consumidores e investiram pesado em publicidade. O Magazine Luiza virou paradigma no varejo brasileiro e o rival a ser batido por estrangeiros que se aventuram por aqui, como a Amazon.

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