Paulo Freire na era digital

Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, tornou-se assunto espinhoso no Brasil nos últimos anos. Seu nome é gasolina em discussões inflamadas nas redes sociais que transbordam para embates políticos no mundo real — ou vice-versa.

Ao lado de outras quimeras da polarização entre direita e esquerda, como comunismo, ideologia de gênero e meritocracia, o pensamento de Paulo Freire é discutido com paixão por gente que, ao que tudo indica, nunca sequer folheou um de seus livros. Ou, se sim, de duas, uma: não os entendeu, ou serviu-lhe a carapuça.

Ainda que evite embates (virtuais ou não), às vezes eles são inevitáveis. Num desses, dei-me conta de que nunca havia lido o autor, de quem o meu conhecimento se limitava à batida frase invocada em várias das contendas que envolvem seu nome:

Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.

O que é curioso, dado que a frase não consta em Pedagogia do oprimido, de 1974, em que ele trata do assunto.

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Entrevista com Ludmila Primo, da newsletter Meus Discos, Meus Livros

Qual é a sua newsletter?

Meus Discos, Meus Livros.

Fale um pouco de você, Ludmila.

Olá, me chamo Ludmila e não vou usar esse espaço para falar o que faço profissionalmente, que é como comumente as pessoas se descrevem. Eu sou uma mulher de 36 anos num eterno aprender a ser gente. E a leitura, a música e a escrita são meios que me ajudam nessa jornada de entender o que se é.

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WP Engine consegue liminar contra Automattic e Matt Mullenweg

A Justiça da Califórnia concedeu uma liminar que obriga a Automattic e o CEO, Matt Mullenweg, a reverterem todas as ações infligidas contra a WP Engine desde setembro, quando Matt deflagrou uma guerra comercial contra a rival. / storage.courtlistener.com (PDF), wptavern.com (ambos em inglês)

A Automattic e Mullenweg têm 72 horas, a partir da publicação da decisão, para:

  1. Restaurar o acesso da WP Engine e seus funcionários aos sistemas do WordPress.org;
  2. Restaurar o acesso da WP Engine ao plugin Advanced Custom Fields (ACF); e
  3. Remover a declaração obrigatória de ausência de vínculo com a WP Engine da tela de login do WordPress.org;
  4. Remover os dados de clientes da WP Engine do site WP Engine Tracker.

Segundo a 404 Media, Mullenweg pediu para ter sua conta excluída do Post Status Slack, uma comunidade de ferramentas de código aberto para WordPress. / 404media.co (em inglês)

Antes de sair, ele teria escrito:

É difícil imaginar querer continuar trabalhando no WordPress depois disso. Estou farto e enojado por ser legalmente obrigado a fornecer mão de obra gratuita a uma organização tão parasitária e exploradora como a WP  Engine. Espero que todos vocês consigam o que você e a WP Engine queriam.

O julgamento do processo ainda não tem data para acontecer.

Sora, vídeos gerados por IA e seu uso na publicidade brasileira

A OpenAI liberou o Sora, IA generativa de vídeos, para assinantes do ChatGPT Plus (US$ 20/mês) e ChatGPT Pro (US$ 200/mês). Marques Brownlee tem um bom vídeo a respeito — ele teve acesso antecipado ao sistema. / openai.com, youtube.com/@mkbhd (ambos em inglês)

Não é loucura imaginar vídeos “falsos” do Sora sendo usados em produções profissionais. Digo isso porque sem o Sora, imagens e vídeos feitos com outras IAs já estão aparecendo na TV.

Algumas semanas atrás, estranhamos (aqui em casa) um comercial da Unifael. As peças mostram fotos pra lá de estranhas de supostos alunos. Não há qualquer sinalização do uso de IA generativa. / youtube.com/@UNIFAEL, youtube.com/@UNIFAEL

Nesta segunda (9), vi um comercial curtinho na TV da Ligga (Copel Telecom pós-privatização) que me chamou a atenção. A peça não está no YouTube da empresa, mas há outra, publicada há um mês, feita com imagens geradas por IA. (O aviso aparece aos 29 segundos do vídeo). / youtube.com/@liggavc

o(m)g:image

Jim Nielsen criou um quiz em que você tem que adivinhar qual o título do post vinculado à imagem do cartão de redes sociais — a quem entende do riscado, à og:image. / omgimg.jim-nielsen.com (em inglês)

Em seu blog, Jim publicou uma crítica a essas imagens junto ao anúncio do jogo, ou “à ideia de que toda página na web no mundo inteiro precisa trazer uma imagem que sintetize o seu conteúdo em uma única expressão visual”. O jogo, no caso, “ilustra o absurdo dessa noção tanto em princípio quanto na prática no mundo real”. / blog.jim-nielsen.com (em inglês)

A maioria dos posts do Manual usa uma og:image padrão (esta). Já acho que faço muito em compartilhá-los em redes sociais…

Relatório da moderação de comentários (outubro e novembro de 2024)

O experimento de fechar os comentários do blog, em novembro, fracassou. O meio eleito como alternativa, o e-mail, foi pouco usado pelos leitores. Até meados do mês, havia recebido menos de 50 mensagens.

(Para colocar esse número em perspectiva, é normal o Manual ultrapassa os 2 mil comentários por mês.)

Acabei antecipando o fim do experimento e para falar dos resultados em outro momento, que, a julgar pela falta do que falar (senti falta, foi ruim), vai neste relatório em dobro da moderação de comentários de outubro e novembro.

Em dezembro, defini uma nova “diretriz interna” para tornar o trabalho menos desgastante: deixarei de enviar e-mails com justificativas a leitores que publicam com frequência comentários problemáticos. Depois de certo número, eles sabem o porquê das mensagens barradas e, de verdade, ando meio sem energia para ficar escrevendo a mesma coisa de novo e de novo e de novo… A justificativa será dada nos relatórios mensais, como este.

Vamos aos casos.

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A mesa de trabalho do Tiago Celestino

Olá, me chamo Tiago Celestino, soteropolitano. Morei por nove anos e meio em São Paulo, voltei para a Bahia há dois anos.

Trabalho com tecnologia já tem alguns anos, como desenvolvedor, e nos últimos dois fui coordenador de um time de desenvolvimento. Atualmente, estou aproveitando o momento de uma demissão recente para poder descansar, ler os livros atrasados e fazer alguns cursos. Também voltei a escrever em blog.

Sempre gostei de ver as mesas e mochilas dos leitores do Manual, mas sempre tive preguiça de mandar o meu espaço, mas agora, com mais tempo, não tenho “desculpas”.

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Apps novos e atualizados

alto.daily: Transforme uma tarefa recorrente do Apple Lembretes em um monitor de hábitos. / iOS, macOS

Cinnamon Desktop 6.4: O ambiente gráfico padrão do Linux Mint passa a ter, nesta versão, um tema padrão bem cuidado para quando usado em outras distribuições Linux. (O tema do Mint é outro, exclusivo.) / Linux

iCloud Passwords: A Apple assumiu a extensão das Senhas do iCloud para Firefox. Por algum motivo desconhecido, ela só funciona no macOS. / Firefox (macOS)

Telegram: O cassino online, digo, app de mensagens Telegram ganhou um programa de afiliados para miniapps, busca de figurinhas com IA (!?) e colagens nos stories. / Android, iOS, Linux, macOS, Windows

Trace: App gratuito e com a promessa de ser simples, o Trace te ajuda a entender o tempo gasto no uso do computador. / macOS

ungoogled-chromium: O macOS agora tem instaladores “notarizados” deste navegador, uma espécie de Chrome sem vestígios do Google. / macOS

Unhinged: App relativamente novo para registrar o humor. UI/UX super agradável, mas senti falta de estatísticas e correlações. É um dos do Marcel Wichmann, que tem outros igualmente adoráveis. / iOS

A popularidade dos teclados mecânicos é um reflexo do nosso desejo de bater com mais força nos computadores porque eles são piores hoje.

@daedalus@eigenmagic.net (em inglês)

O 1600pr.sh é um gerador estático de fotologs…

O 1600pr.sh é um gerador estático de fotologs baseado em um shell script. (Veja um fotolog criado por ele.) Difícil imaginar uma maneira mais simples de criar um fotolog — desde que você tenha um mínimo de familiaridade com a linha de comando. / github.com/andersju

Ainda em seu voto, o ministro Dias Toffoli incluiu marketplaces, como Amazon, Mercado Livre e Shopee, às plataformas com responsabilidade sobre conteúdo de terceiros. Nesse caso, sobre a venda de produtos irregulares. / folha.uol.com.br

Em paralelo, Vicente Aquino, do Conselho Diretor da Anatel, justificou na recusa de um recurso da Amazon contra multa da agência pela venda de produtos não homologados, que “marketplaces não são meras vitrines virtuais, mas assumem papel ativo e indispensável na comercialização dos produtos”. / convergenciadigital.com.br

O ministro Dias Toffoli defendeu, nesta quinta (5), a inconstitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet. Ele relata um dos dois casos que estão sendo julgados a respeito da responsabilidade das plataformas digitais por conteúdos de terceiros. / folha.uol.com.br

É uma postura polêmica, provavelmente sem unanimidade na corte. Toffoli argumenta que, embora os conteúdos sejam de terceiros, as plataformas se beneficiam deles: “Ao recomendá-los ou impulsioná-los a um número indefinido de usuários, o provedor acaba se tornando corresponsável pela sua difusão.”

Meta complica, mas libera usuários do Threads para seguirem pessoas no fediverso

A Meta deu mais um passo na integração do Threads ao fediverso, ou seja, na compatibilidade com o ActivityPub e plataformas que usam esse protocolo, como o Mastodon: agora é possível a pessoas no Threads seguirem perfis de outros servidores do fediverso que já tenham interagido com o Threads. / @zuck@threads.net (em inglês)

Achou complicado? Calma, ainda estamos na parte simples.

Adam Mosseri, executivo que lidera o Threads, deu mais detalhes:

Você pode ver as postagens deles [pessoas do fediverso] navegando até seus perfis e também pode optar por ser notificado quando eles postarem em seus servidores. / @mosseri@threads.net (em inglês)

Em outras palavras, os posts vindos do fediverso/Mastodon não aparecem no feed e em outras linhas do tempo públicas.

Para piorar, o caminho para de fato seguir alguém de outro servidor/instância é cheio de pedras. O site We Distribute deu uma fuçada e explica:

O Threads oferece um link especial que pode ser usado para procurar perfis específicos [de outros servidores], desde que cumpridos estes requisitos:

  1. Você tem o “Compartilhamento no fediverso” definido como Ativado em sua conta no Threads. [Ative-o aqui.]
  2. Essa pessoa não te bloqueou.
  3. Essa pessoa ou quem administra o servidor não bloqueou o threads.net. / wedistribute.org (em inglês)

Ficarei surpreso se aparecer algum seguidor do Threads no meu perfil no Mastodon

Alienação e aceleração

Em 1985, o educador estadunidense Neil Postman publicou Amusing ourselves to death1, uma crítica à TV e o seu poder de reduzir qualquer matéria ao entretenimento.

No livro, Postman faz o alerta de que o mundo contemporâneo não é o imaginado por George Orwell em 1984 (opressor, totalitário), mas sim o que Aldous Huxley apresenta em Admirável mundo novo, ou seja, um em que as pessoas sacrificam seus direitos voluntariamente em troca de felicidade artificial. A diferença é que em vez do “soma”, a droga sintética que dava barato no livro, a do mundo real dos anos 1980 seria a TV.

O argumento de Postman contrasta os Estados Unidos do século XIX, quando alguns bolsões apresentavam índices altíssimos de alfabetização e os debates entre políticos e figuras públicas eram acontecimentos e demoravam horas, às vezes dias, com o distraído pela TV, evocando Marshall McLuhan e sua máxima (“o meio é a mensagem”) para sustentá-lo:

A duração média de uma cena na televisão é de apenas 3,5 segundos, de modo que o olho nunca descansa, sempre tem algo novo para ver. Além disso, a televisão oferece aos espectadores uma variedade de assuntos, requer habilidades mínimas para compreendê-los e visa em grande parte a gratificação emocional.

Se trocarmos “televisão” por “TikTok” ou “Instagram”, a frase continua valendo nos anos 2020 sem demandar outras alterações.

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Entrevista com Marcio, da newsletter Imagina Só

Hoje é dia de estreia no Manual! Uma série de entrevistas com pessoas que mantêm newsletters presentes no nosso diretório de newsletters brasileiras. Espero que goste!

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Imagina Só.

Fale um pouco de você, Marcio.

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