Futuros alternativos da web

Que é difícil combater problemas sistêmicos com ações individuais, nós já sabemos. Isso não significa, porém, que pequenas atitudes simples e, por vezes, benéficas ao indivíduo devam ser ignoradas.

Nesta quarta (16), Cory Doctorow escreveu em seu blog que “você deveria usar um leitor de RSS”. Você deveria mesmo! Digo isso desde antes do finado Google Reader surgir e continuo, a exemplo do Cory, repetindo sempre que posso.

É bem provável que você já use, de uma forma ou de outra, feeds estruturados do tipo RSS1. Quem ouve podcasts, por exemplo, depende desses feeds. É graças a eles que os apps ficam sabendo de novos episódios e conseguem baixá-los sozinhos.

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Dois elefantes de pelúcia amarelos sendo segurados por mãos, iluminados pelo sol à esquerda.
Foto: @Gargron@mastodon.social.

Uma gracinha a pelúcia do mascote do Mastodon. Por ora, à venda apenas na Europa por € 39,99 (~R$ 245). Quem comprou está compartilhando fotos no Mastodon com a hashtag #plushtodon. Esta acima é do Eugen Rochko, fundador do projeto. / shop.joinmastodon.org

A mesa de trabalho (em Portugal) do programador André

Nesta seção, leitores do Manual mostram suas mesas (e o que tem em cima delas), explicam o que usam e como, e nessa todo mundo aprende alguma coisa nova. Veja outras mesas e, se puder, envie a sua.

Sou o André. Moro em Portugal há 3 anos, atualmente numa cidadezinha chamada Ovar.

Trabalho com TI há mais de 20 anos. Já fui programador, suporte, gestor e agora novamente programador. Trabalho com Python e alguma coisa em Vue.js (mas não sou fã de desenvolver front-end!), prestando serviço para uma empresa alemã como terceirizado a partir de uma empresa portuguesa. Apesar de disso, não sou o típico “nerd”. Não gosto de filmes de heróis, não gosto de ficção científica, não jogo jogos eletrônicos (meu último vídeo game foi um saudoso Nintendo 64) e não gosto de café. Estou trabalhando apenas remotamente, mas como eu “não sou todo mundo” (MÃE, Minha), preferia a época que eu podia ir para o escritório de vez em quando. Sei lá, sinto falta das conversas, das pessoas…

No meu cantinho, que fica num dos três quartos do apartamento que eu moro, é onde passo boa parte dos dias da semana. (No fim de semana em geral só passo por ele para ir para o terraço e o anexo, que é onde gostamos de fazer churrasco, jogar jogos de tabuleiro ou só tomar umas cervejas ou vinhos.) Investi pouco nele, o suficiente para me manter com um mínimo de conforto. Na mesa, que hoje está bem organizada, você vai ver:

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O CEO do Duolingo, Luis von Ahn, quer te viciar em aprender

É sempre bom ouvir um executivo que abre números. É o caso desta entrevista com Luis von Ahn, fundador e CEO do Duolingo, a Nilay Patel no podcast Decoder.

Separei alguns destaques da conversa, começando pelos referidos números que chamaram a minha atenção:

  • Os anúncios chatos da versão gratuita do Duolingo respondem por menos de 10% do faturamento. São as assinaturas, que ~10% dos usuários ativos pagam, que sustentam o negócio com ~80% do faturamento. Para Luis, os anúncios “são um bom motivo para as pessoas assinarem”.
  • Apenas 20% dos usuários são estadunidenses. (O Duolingo é uma empresa sediada nos EUA.)
  • O inglês é o idioma mais estudado, por 45% da base de usuários, seguido pelo espanhol e o francês.

Outras curiosidades:

  • O app para iOS é priorizado. O do Android costuma estar entre 6 meses e 1 ano atrás em recursos. Luis diz que há mais desenvolvedores especializados em iOS e é mais fácil desenvolver para a plataforma da Apple, mas que dinheiro também é um fator: o faturamento “per capita” no iOS é quatro vezes maior que o do Android.
  • Apesar disso, a base de usuários Android é maior (60% contra 40% do iOS), em especial no resto do mundo (leia-se: fora dos EUA).
  • Luis pontua, porém, que a principal correlação com usuários pagantes está no país onde moram. “Uma pessoa com um emprego bom e estável em um país rico […] é quem paga pelo Duolingo.” Esse pequeno público (~10%) meio que subsidia o serviço para o resto do mundo.
  • Vencer a alta tolerância de países subdesenvolvidos a anúncios é um desafio para o Duolingo aumentar a receita além dos países ricos. Luis cita a Netflix como um exemplo nessa frente.

A conversa também passou pelo uso de IA generativa no ensino de idiomas. Luis diz que, embora as pessoas manifestem o desejo de treinar o idioma com outros seres humanos, na prática poucos querem isso por vergonha/timidez.

É aí que entram os grandes modelos de linguagem (LLMs), recurso do Duolingo Max, uma assinatura mais cara do serviço.

Os principais problemas dos LLMs, como a tendência a inventar coisas — que arruina sua aplicação em cenários onde precisão é imprescindível —, são ignoráveis na prática da conversação. Se uma personagem do Duolingo inventar alguma coisa durante uma conversa, não há prejuízo ao estudante porque o assunto é só uma desculpa para praticar o idioma.

Há outros bons momentos na conversa, como o foco quase obsessivo do Duolingo com design, a mensuração (meio furada) que atesta que a metodologia funciona e as motivações por trás da gamificação e dos apelos do mascote para que os usuários mantenham a sequência. Se o seu inglês estiver em dia, vale a audição. / theverge.com (em inglês)

Bolsa-carteiro (com alça) do ícone do WinRAR (três lombadas de livros empilhados, nas cores rosa, azul e verde).
Foto: tern/Divulgação.

Uma bolsa-carteiro inspirada no ícone do WinRAR. Feita sob demanda em uma campanha (já encerrada), sai por € 137,63 (~R$ 850). Seria um caso de “app vestível”? / in.tern.et

A Amazon, enfim, vai lançar um Kindle com tela colorida. O dispositivo, parte da linha totalmente renovada, vazou no site espanhol da loja. Tem previsão de lançamento para 30/10, por US$ 279,99 lá fora, ou 154,5% mais caro que o Kindle básico. Será que ver as capas dos livros e grifos em cores vale essa diferença? / theverge.com (em inglês)

Começaram a aparecer as primeiras impressões do Kindle Colorsoft no mundo anglófono. É, em resumo, um Kindle Paperwhite com tela colorida. / theverge.com (em inglês)

Dois trechos do do The Verge, assinado por David Pierce:

Em uma breve demonstração no evento de lançamento da Amazon, fiquei impressionado com a tela do Colorsoft. Não é uma tela de iPad, mas é nítida e brilhante o suficiente para fazer HQs se destacarem sem ficarem tão saturadas. A desvantagem mais óbvia é que, quando há uma imagem colorida na página, a tela pisca por inteiro quando você vira a página; [o responsável pelo Kindle na Amazon, Kevin] Keith diz que isso só acontece quando há uma imagem grande o bastante na tela, mas aconteceu comigo mesmo com algumas imagens bem pequenas. Mas essas imagens parecem boas!

E:

A maior vantagem de uma tela colorida até agora é que ela deixa a interface um pouco mais agradável. Sua tela inicial e biblioteca ficam melhores para navegar, agora que você pode ver as capas dos seus livros em cores. Também é um grande salto para a tela de bloqueio, que agora apresenta imagens de espera muito mais vibrantes enquanto [o Kindle] repousa em sua mesa de cabeceira. (Keith acha que uma galera “aesthetics” do BookTok vai adorar a tela colorida.) A única função realmente específica das cores é que agora você pode fazer destaques coloridos e depois procurá-los por cor no aplicativo Kindle no celular.

A propósito, a Apple atualizou o iPad mini com duas novas cores, 128 GB no modelo de entrada e um chip A17 Pro. Ainda não tem data de lançamento no Brasil, mas já tem preço sugerido: a partir de R$ 6 mil. / apple.com

[…] O chamado “boom da IA” em que estamos agora na real vende duas coisas, e nenhuma precisa ser muito boa: uma maneira de automatizar o trabalho que você não valoriza o suficiente para contratar um ser humano para fazê-lo ou, no mínimo, uma maneira de esconder os seres humanos que fazem esse trabalho para que você possa se sentir melhor a respeito da miséria que você paga a eles.

— Ryan Broderick.

Bom resumo — ainda que meio cínico — do que a inteligência artificial generativa, e talvez num geral, representa de fato.

O comentário foi feito em um texto sobre os robôs Optimus, da Tesla, mostrados na última quinta (10), desta vez controlados remotamente por seres humanos. / garbageday.email (em inglês)

/ano 11

O Manual do Usuário sempre refletiu o que acontece comigo fora da internet.

O site surgiu, no final de 2013, como a antítese do ritmo acelerado do Gizmodo, onde eu era repórter na época. Daí o “slow web” e tudo mais.

Durante o curso de comunicação (2013–2016), as influências de lá se manifestaram na linha editorial, com tentativas — algumas ok, outras meio nada a ver — de análises que se pretendiam acadêmicas.

A partir de 2017 e já em Curitiba, veio a fase concomitante e pós-Gazeta do Povo, quando pesei na carga político-ideológica1 em uma espécie de resposta imunológica ao ambiente micro (redação) e macro (Brasil) onde me vi. Sinto que ela se encerrou nas eleições de 2022, quando declarei meu voto aqui.

Faz alguns meses que me dei conta de que estou numa espécie de ressaca desde então. Ressaca de 2022 e dos anos anteriores.

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Alarmo, o relógio-despertador da Nintendo

A Nintendo lançou o Alarmo, um relógio-despertador de cabeceira com sensor de movimentos e cinco temas baseados em suas franquias, como Mario e Zelda. (E a promessa de atualizações gratuitas no futuro.) O sensor funciona como uma espécie de “adiar” sem sair da cama, mas só funciona para quem dorme sozinho. Lá fora, por US$ 99,99 (~R$ 560). / nintendo.com, youtube.com (ambos em inglês)

“Expropriação” do Advanced Custom Fields pela Automattic

A Automattic “expropriou” o plugin Advanced Custom Fields (ACF) da WP Engine no diretório do WordPress e o rebatizou de Secure Custom Fields (SCF). / wordpress.org (em inglês),

O movimento foi apresentado como um “fork”, ou seja, uma derivação do original. O que seria válido, mas não o é porque o SCF substituiu o ACF no diretório de plugins do WordPress e nas instalações ativas do ACF. (Note que até a URL ainda diz advanced-custom-fields.) Foi a tomada hostil de um dos plugins mais populares do ecossistema WordPress apenas para pressionar um desafeto do “dono da bola” a quem ele tenta extorquir. / wordpress.org

O “fork” foi feito com base em uma falha de segurança (legítima) descoberta no ACF e negligenciada pela WP Engine. A cláusula 18 das diretrizes do diretório de plugins, invocada por Matt, dá ao WordPress o direito de “… fazer alterações em um plugin, sem o consentimento do desenvolvedor, no interesse da segurança pública”. / github.com/wordpress (em inglês)

O que Matt não conta no post em que anunciou o SCF é que a WP Engine não pode atualizar o plugin porque todos os seus funcionários foram expulsos dos sistemas do WordPress.

A WP Engine já havia corrigido a falha e publicado orientações par atualizar o ACF por fora do fluxo normal do WordPress.org. / advancedcustomfields.com (em inglês)

Além de corrigir a falha, o SCF removeu todas as chamadas para a versão paga do ACF.

Pelo X, o perfil @WordPress (Matt?) respondeu ao do ACF dizendo que restaurará o acesso da WP Engine aos sistemas se eles desistirem do processo judicial, desculparem-se e “ficarem numa boa com o uso da marca”, ou seja, pagar 8% da receita à Automattic. Acho que não vai rolar. / @WordPress@x.com (em inglês)

A repercussão da atitude de Matt vai além do WordPress. É a manifestação mais óbvia (e perigosa) do risco a que DHH, da 37signals, se referiu em seu post original. / world.hey.com/dhh (em inglês)

DHH voltou à carga para criticar a tomada do ACF pela Automattic no diretório do WordPress. / world.hey.com/dhh (em inglês)

Matt publicou uma “resposta ao DHH” em seu blog e levou a trocação para o lado pessoal. Atacou o colega pelos vários softwares proprietários da 37signals, indicou terapia a ele e até criticou seu carro de corrida de (supostos) US$ 2 milhões. Que vença a briga. / ma.tt (em inglês)