Foto de divulgação do WisePlus Pi.

WisePlus, a empresa brasileira que quer lançar um smartphone Windows, tem sérios problemas


13/12/16 às 13h25

Em julho, a WisePlus se revelou ao mundo com uma proposta quase anacrônica: lançar, no Brasil, um smartphone rodando Windows. A inusitada promessa foi suficiente para chamar a atenção de consumidores carentes do sistema móvel da Microsoft em um dispositivo mais moderno e de parte da imprensa nacional. O Manual do Usuário, em parceria com o Pinguins Móveis, investigou os bastidores da empresa para saber os detalhes da operação.

Breve histórico da WisePlus

Uma das primeiras manifestações online da WisePlus.

Uma das primeiras manifestações públicas da WisePlus foi pelo Twitter, no dia oito de julho de 2016. A mensagem dizia que o WisePlus Prism estava chegando e foi seguida de alguns links de blogs pequenos explicando o que, afinal, era aquilo.

WisePlus Prism seria um smartphone com Windows 10 Mobile, o sistema móvel da Microsoft que, no Brasil, jamais foi lançado pré-instalado em um dispositivo — nem mesmo os da própria Microsoft. Preterido sob a gestão de Satya Nadella, atual CEO da Microsoft, o Windows 10 Mobile sobrevive em alguns dispositivos de nicho, com destaque para o HP Elite x3, vendido para públicos corporativos nos Estados Unidos. Seu grande apelo é o Continuum, a capacidade de, conectado a um monitor e periféricos de entrada (mouse e teclado), transformar o smartphone em um quase-computador.

Elite x3, smartphone da HP com Windows 10 Mobile.
HP Elite x3. Foto: TechStage/Flickr.

Os sites que divulgaram a notícia sobre o WisePlus Prism apresentaram também desenhos do suposto aparelho e suas especificações, ainda que algumas importantes fossem ausentes ou desconhecidas. É o caso do SoC, informado apenas como sendo “Qualcomm Snapdragon”, sem especificar o modelo.

A promessa da WisePlus sofreu uma reviravolta no dia 15 de novembro. Em um comunicado no Facebook, a empresa anunciou outro dispositivo, o WisePlus Pi, mas esse rodando Android. A alegação dada foi de que “após longos 5 (cinco) meses de procura intensa, conseguimos encontrar apenas uma fabricante disposta a desenvolver um smartphone com Windows, porém não em curto prazo e isso foi atrasando cada vez mais nossos planos de fazer um lançamento nacional em dezembro de 2016.”

O prazo dado pela fornecedora foi de oito meses, o que empurrou o lançamento do WisePlus Prism, o modelo com Windows 10 Mobile, para o segundo semestre de 2017. Sem explicar o motivo de, nesse meio tempo, lançar outro smartphone rodando Android, o comunicado pelo menos garantia que o novo, rodando Android, “de maneira nenhuma veio para substituir o projeto Prism, ou qualquer outro dentro da startup, veio apenas para mostrar que somos capazes de criar produtos incríveis, por preços mais incríveis ainda.”

No começo de dezembro, o site oficial da WisePlus foi tirado do ar e o endereço redirecionado para uma ambiciosa campanha no Catarse, uma das plataformas de crowdfunding mais proeminentes do Brasil. A meta é alcançar R$ 2.872.500 através da venda direta de 2.500 unidades do WisePlus Pi pelo valor de R$ 1.149 cada. É uma campanha do tipo “tudo ou nada”, ou seja, eles só receberão o valor se baterem a meta.

Desde o início essa história pedia um olhar mais atento, alguma investigação sobre quem está por trás da WisePlus, quais as motivações e até que ponto a empresa está de acordo com o que se espera de uma operação minimamente preparada para importar e comercializar smartphones no Brasil. Manual do Usuário e Pinguins Móveis debruçaram-se sobre o assunto por quase duas semanas e reuniram materiais importantes que trazem algumas respostas e colocam outras interrogações nessa história.

Estranhezas fiscais

A primeira coisa que fizemos foi consultar a situação cadastral da empresa junto à Receita Federal. Já aqui a luz de alerta acendeu.

Comprovante de inscrição e situação cadastral da WisePlus.
Comprovante de inscrição e situação cadastral da WisePlus.

A data de abertura da empresa é de 21 de novembro de 2016. Em conversa por Skype com Sued Henrique Alves, um dos fundadores da WisePlus, residente em Araguaína, norte do Tocantins, ele disse que a empresa havia sido aberta antes, em setembro, por um cofundador que depois abandonou a empreitada. Disso veio a necessidade de se abrir a nova no final de novembro.

De qualquer forma, chama a atenção outro aspecto além da jovialidade da empresa: a modalidade dela. Trata-se de uma MEI, ou micro empreendedor individual, criada pelo governo alguns anos atrás a fim de formalizar profissionais liberais com faturamento baixo, de até R$ 60 mil por ano.

O MEI goza de algumas vantagens interessantes, em especial a desburocratização e uma carga tributária leve. Todos os encargos tributários são consolidados em uma única guia no valor de R$ 50 por mês. Só que, para usufruir dessa vantagem, existem contrapartidas. Victor Serrão, coordenador fiscal corporativo no ramo da mineração e especialista em tributação, apontou, a pedido do Manual do Usuário, algumas que revelam um cenário “um pouco inapropriado para os planos que eles [WisePlus] alegam ter”, nas palavras dele. Além do teto em faturamento, a MEI só pode ter um funcionário e, mais importante no nosso contexto, é impedida de importar produtos.

Na conversa que tivemos com Sued, ele se justificou dizendo que a modalidade escolhida é temporária, a fim de minimizar os custos da operação enquanto a empresa não tem fluxo de caixa. Disse, ainda, que caso a campanha no Catarse seja bem sucedida, a modalidade do CNPJ mudará e, com isso, será possível realizar o processo de importação.

Mas há tempo hábil para cumprir todo esse trâmite e respeitar o prazo estabelecido, de entregar os aparelhos aos consumidores em fevereiro de 2017? Segundo o cofundador, sim. Victor ratificou a declaração. É possível, bastando “desenquadrar” a empresa de MEI para micro empresa, cenário em que ele poderia “usar os caminhos normais via SISCOMEX para importar, ou pode terceirizar com um despachante aduaneiro, que irá fazer o trâmite por ele.” Fosse só esse o problema, desligaríamos agora aquela luz de alerta que se acendeu. Mas tem mais.

Quem faz a WisePlus

Ainda nessa conversa, Sued revelou quem são as pessoas envolvidas na WisePlus: ele próprio e dois sócios, Danilo Oliveira e Paulo Ridgeford; Igor Cabral, relações públicas; e um designer, denominado simplesmente Lucas.

Sued tem 18 anos e estuda Sistemas de Informação. Ele diz que atua na área de tecnologia há bastante tempo, embora essa experiência se restrinja ao posto de redator em alguns sites de tecnologia, todos focados em Windows. Sued admite que ele e o sócio Danilo não têm experiência em negócios, mas que algumas parcerias possibilitaram a investida com a WisePlus — a principal sendo com Paulo Ridgeford, uma espécie de investidor e mentor da dupla, residente em Belém do Pará.

Paulo é tradutor e tem uma empresa de soluções linguísticas. Segundo Sued, “ele ajuda com toda a parte de falar com fabricantes internacionais (…) Ele tem um vasto conhecimento empresarial, de legislação empresarial, esse tipo de coisa”. Ativo no Twitter, não há sequer um tuíte em seu histórico mencionando a WisePlus.

Igor Cabral, assessor da WisePlus, entrou em contato com a empresa pelo Facebook a fim de constar no mailing, ou seja, receber informações dela enviadas à imprensa. Acabou convidado a integrar a equipe. Ele é conhecido por alguns jornalistas de eventos da Xiaomi (era um “Mi fã”) e da Asus. Atualmente, é redator do blog Design Culture.

Os cinco membros trabalham fora da WisePlus e não recebem qualquer tipo de remuneração dela. Segundo Sued, estão conciliando o tempo entre trabalho, faculdade e empresa a fim de lucrar mais à frente. Da mesma forma, não estão tendo gastos operacionais com a WisePlus. É uma empresa, no momento, que não gera gastos (fora a força de trabalho), tampouco faturamento, e que não conta com nenhum centavo de investimento, próprio ou externo.

WisePlus Pi

Imagem do Pi divulgada na página oficial da WisePlus no Facebook.

O WisePlus Pi, anunciado de surpresa alguns dias atrás, é um smartphone Android com SoC da Mediatek, tela Full HD de 5,5 polegadas e perfil fino — tem apenas 7,2 mm de espessura. Seu visual lembra um pouco o do Huawei P9. Deve lembrar de outros smartphones também. Na verdade, ele deve ter outros nomes ao redor do mundo.

O desenvolvimento do WisePlus Pi é todo feito na China. A fabricação, também. A única coisa da WisePlus acrescentada nesse processo é o logo da empresa gravado atrás do aparelho. Esse e outros projetos são vendidos no atacado por empresas chinesas, passando por uma ligeira personalização após o negócio ser fechado, sendo comercializados em outros países sob marcas locais.

Então, o WisePlus Pi é, na realidade, o “5.5-inch high-end 4G smartphone” de uma empresa chamada Vinroad, de Shenzen, China, fundada em 2007 e especializada nesse tipo de negócio. Você pode ver um anúncio do modelo neste site de vendas no atacado, comercializado por US$ 155 cada, com pedido mínimo de mil unidades.

Anúncio de venda no atacado do WisePlus Pi por fabricante chinesa.

Importar, mesmo passados aqueles obstáculos com a Receita Federal que ainda estão pendentes, é só metade da equação. Sued garante que o preço cobrado de R$ 1.149 deixa margem para cobrir os custos agregados, pagar a taxa do Catarse (13% do total arrecadado) e ainda garantir algum lucro que será usado no projeto do WisePlus Prism.

Pedimos ao Victor para fazer os cálculos de importação. Gentilmente, ele respondeu o seguinte:

No Brasil, uma empresa que importe para revenda irá recolher Imposto de Importação, IPI, ICMS, e PIS e COFINS Importação:

II: 12%
IPI: 15%
ICMS/SP: 18%
PIS-Importação: 2,1%
COFINS-Importação: 9,65%

Então, considerando o câmbio de hoje, de R$ 3,38, o bem importado chegaria aqui no Brasil a R$ 821,21. E isso é preço de compra (!). Depois virão os custos operacionais diversos, despesas com marketing e assistência etc. Apurado então o valor de venda, já com margem, sobre este valor ainda incidirão os impostos da própria operação brasileira, a saber: IRPJ, CSLL, e PIS e COFINS novamente, agora sobre o valor agregado — além do ICMS, que também incidirá sobre o valor agregado.

Se fosse fácil importar da China, não teríamos nenhuma fábrica de celulares aqui no Brasil, afinal de contas. Eu estimo que um aparelho desses, para “fazer” dinheiro, teria que custar algo em torno de R$ 1.200.

É uma margem apertada. Conversamos com um economista, que pediu para não ter a identidade revelada devido à escassez de informações públicas sobre a WisePlus, o que prejudica a sua análise. Uma frase dele, porém, referente a processos de importação, ecoou: “O risco Brasil geralmente faz qualquer coisa a ser vendida aqui usar 100% [de margem total] como um número mínimo.”

Ainda que consideremos que o valor seja suficiente para cobrir todas as despesas e dar lucro, sobram outras pendências relevantes.

Não há nenhum produto homologado pela WisePlus na Anatel. Também não consta nada em nome da empresa fabricante original, a Shenzhen Vinroad Technology Co. Ela poderia aparecer ali sozinha, sem menção à WisePlus, o que significaria que alguma trading estaria fazendo o trabalho de importação. Não é o caso.

A homologação junto à Anatel é um requisito fundamental para comercializar qualquer produto que emita e receba sinais no Brasil. Ela é feita por uma terceira, que elabora o certificado técnico (SAR, bandas suportadas etc) e faz as fotos externas — mas o manual de instruções do dispositivo deve ser fornecido pela própria WisePlus. Sued disse que está negociando esse processo com a CPqD, empresa especializada nisso.

Manual do Usuário entrou em contato com a assessoria da CPqD a fim de confirmar se eles foram contatados e estariam trabalhando junto à WisePlus. Recebemos a seguinte resposta:

“Falei com o responsável pela área de certificação (OCD) do CPqD e ele disse que, pelo nome da empresa e o nome comercial do produto (WisePlus Pi), ele não consegue identificar o processo de homologação. Mas isso não quer dizer que o CPqD não esteja envolvido — pode ser que os testes do produto estejam sendo feitos nos laboratórios deles, mas com suporte de outro OCD, ou mesmo que o produto tenha um codinome (não comercial).”

Em nenhum momento Sued falou sobre outro OCD (organismos de certificação designados) além da CPqD e não há notícia de que o produto esteja sendo trabalhado com um codinome interno.

Entre a emissão dos certificado de homologação e a publicização da passagem, pode levar em torno de um mês. Se o certificado de homologação do WisePlus Pi for emitido hoje, ele só vai aparecer nos registros públicos em janeiro. Esse processo, porém, ainda sequer começou, o que coloca mais dúvidas sobre a viabilidade de cumprir o prazo estabelecido para a entrega dos produtos.

A WisePlus também não tem, ainda, um pós-venda definido. Na conversa, Sued disse que negociará com assistências técnicas em grandes centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Belém, mas esse é outro trabalho que ainda não começou. Casos de troca por defeito serão cobertos pela encomenda de 500 aparelhos extras, além dos 2500 vendidos aos consumidores pelo Catarse.

Parece curto o tempo destinado para cumprir tantos requisitos imprescindíveis para que possam entregar o aparelho aos compradores já em fevereiro de 2017. É menos de três meses. E, como eles não pretendem e não têm um investimento inicial para adiantar os trâmites que precisam de dinheiro para correrem, esse prazo tende a ser ainda menor, já que dependem diretamente do sucesso na campanha do Catarse.

Mais desejo que empreendimento

Em uma das matérias sobre o WisePlus Pi veiculadas na imprensa recentemente, o texto começa dizendo que “o mercado brasileiro não é para principiantes”. De fato. Empresas grandes e estabelecidas em mercados maiores, como a Xiaomi, erraram a estratégia por aqui e pagaram caro por isso.

Sued, ao final da nossa conversa, disse que sua empresa “precisa de pessoas que acreditem, que comprem as 2500 unidades, porque as pessoas mais interessadas no Windows teriam que nos ajudar a vender o [smartphone com] Android, porque se não vendermos o Pi, não sabemos se o Prism existirá de fato ou não”. Questionado sobre as saídas para o caso de um eventual fracasso nas vendas do Pi, ele disse que ainda não sabe o que farão — e há até a possibilidade de fecharem a empresa.

Em outro momento, Sued revelou que o projeto do Prism foi rejeitado por inúmeros fornecedores porque quando diziam que queriam o sistema Windows, eles respondiam que não era possível “porque o Windows não dá lucro, não traz retorno financeiro, a gente só vai ter dor de cabeça”. Conseguiu com a Vinroad, mas o processo de desenvolvimento levaria oito meses e o pedido mínimo teria que ser de 100 mil unidades. “Super inviável” para a WisePlus. Diria que é para a maioria das empresas — não é por birra ou qualquer outro motivo que não comercial que não se vê smartphones com Windows nas gôndolas das lojas.

A WisePlus parece estar em um patamar diferente do de apostas mais tangíveis como a da Quantum, por exemplo, outra marca brasileira pequena e focada em uma comunidade forte e que, além disso, conta com apoio de uma empresa maior — no caso, a Positivo. E essa ajuda vai além do investimento financeiro, pois facilita várias etapas do processo como logística, fabricação e suporte.

A WisePlus soa mais como o desejo de fãs do Windows em smartphones de terem um aparelho desses vendido aqui. Há uma fragilidade quase palpável na estratégia, o que não inspira exatamente a confiança do consumidor interessado. Reflexo disso se vê na própria campanha de crowdfunding que, em seis dias, ainda não saiu da estaca zero.

A prova maior de que há algo profundamente errado na WisePlus é que os fundadores da empresa nunca mexeram no produto que estão vendendo. Quando perguntado se já tinha usado o WisePlus Pi, Sued disse que não, nunca sequer viu o dispositivo, mas que Paulo, o sócio influente, testou ele na sede da Vinroad, na China. Ele não conseguiu trazer na bagagem, de volta ao Brasil, sequer uma unidade do smartphone.

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