ThinkPad 8 rodando Windows 10.

O Windows 10 em tablets


29/2/16 às 16h18

Mesmo com a revolução do smartphone, computadores tradicionais ainda estão presentes na rotina de muita gente. A maioria deles é movida pelo Windows. Há quem o ame e quem o deteste, mas para a maioria o sistema operacional da Microsoft é indiferente — parte do dia a dia, apenas mais uma ferramenta de trabalho. Independentemente da sua opinião, uma característica do Windows é indiscutível: a resiliência.

Em quase três décadas, o Windows foi adaptado e aperfeiçoado para funcionar numa multiplicidade de plataformas. Sem passar por grandes revoluções e com visíveis tropeços entre uma versão e outra (Me, Vista), acompanhou os saltos geracionais dos PCs, em muitos casos servindo, ele próprio, de estopim para grande ondas de atualização do hardware. Em vários momentos a Microsoft dividiu para conquistar: o Windows se desdobrou em sistemas para workstations, servidores, sistemas embarcados e, desde muito antes do iPhone e do Android, para PDAs e smartphones. A marca, porém, foi sempre a mesma, única.

Em 2012 vivemos o auge do tablet. A Microsoft viu aquele momento como crucial para mudar profundamente o Windows; não criando uma variação, mas mudando toda proposta dele. O Windows 8 foi uma grande aposta em tablets. Para azar dos envolvidos, uma aposta que se revelou perdedora.

Afinal, três anos depois os tablets ainda não conquistaram o mundo. Pior: eles passam por um forte declínio de vendas — em 2015, elas caíram mais de 10% em relação ao ano anterior. Além de ter errado na previsão, aquele Windows otimizado para tablets ainda teve um efeito colateral bastante destrutivo: ele alienou a base sólida dos que usam computadores com teclado e mouse.

Print do Windows 8.
Windows 8 (2012).

Foram três longos anos até voltar aos trilhos com o Windows 10. Nele a Microsoft focou novamente no usuário de teclado e mouse, colocando-o no centro da sua estratégia; bebeu da fonte do Windows 7 e entregou, com algumas arestas ainda restantes, uma nova geração do sistema. Agora, o Windows é híbrido: adapta-se ao formato em uso de forma fluida, sem comprometer nenhum tipo de experiência. E é universal, também, o que significa que o mesmo núcleo opera em diversas plataformas, do smartphone ao HoloLens, passando por computadores, tablets e o Xbox One, característica que se estende aos apps.

Mesmo tendo perdido aquele potencial para o protagonismo dos dias anteriores ao lançamento do Windows 8, o formato tablet não foi deixado de lado pela Microsoft. O Windows 10 também traz boas ideias e soluções para ser manipulado com os dedos na tela. Mas isso é o bastante para posicionar os tablets com Windows frente a concorrentes mais tradicionais (iPad) e baratos/acessíveis (Android)? Ou para despertar o interesse de alguém que esteja em busca de um notebook e, de repente, esteja considerando um 2-em-1? É o que pretendo responder depois de ter usado, por quase dois meses, um ThinkPad 8, tablet da Lenovo que roda Windows.

O ThinkPad 8

Visão geral do ThinkPad 8.

A marca “ThinkPad” é reconhecida e, em geral, uma garantia de tranquilidade de que tudo funcionará bem. Com este tablet, batizado Thinkpad 8, não é diferente. É um projeto relativamente antigo — foi lançado no começo de 2014 — e que, nos últimos meses, entrou em liquidação no varejo nacional. Por cerca de R$ 600, transformou-se numa ótima compra, independentemente do sistema que roda.

Isso porque suas especificações ficam acima das de tablets dessa faixa de preço. A tela é o melhor exemplo. Enquanto tablets Android mais recentes de até R$ 1.000 chegam ao mercado com painéis de baixa resolução, a do ThinkPad 8, com 1920×1200 pixels numa área de 8,3 polegadas, se sobressai. Ela poderia ser melhor; é perceptível o vazamento de luz nos cantos inferiores contra fundos pretos, problema típico de painéis mais econômicos, mas a legibilidade da tela, a intensidade do brilho e o equilíbrio das cores são ótimos. E, novamente, por R$ 600, toda essa qualidade é uma pechincha.

O restante das especificações é composto por um SoC Atom Z3770 “Bay Trail” (quad-core, 2,4 GHz), 2 GB de RAM e um SSD de 64 GB. É uma configuração básica, mas para os apps modernos, o que se espera que sejam usados em tablets, uma capaz de rodar tudo muito bem. Existem ainda uma saída USB 3.0, infelizmente com aquele plug esquisito igual ao do Galaxy S5, uma micro HDMI, conector de áudio de 3,5mm híbrido (microfone e fones de ouvido) e um slot para cartão microSD. Não é o caso desta unidade, mas alguns modelos também contam com um slot para SIM card. É notável a ausência de uma porta USB convencional ou de um adaptador, na caixa, para usar a USB 3.0 a fim de conectar acessórios.

O acabamento do ThinkPad 8 tem muito plástico. A parte de trás acumula marcas feias de dedos com facilidade. Ainda que algo meramente estético, é um ponto negativo. Problema maior são os botões físicos. Todos na lateral esquerda (liga/desliga e os de volume), eles são pequenos, mal posicionais e sem muita profundidade. Acertá-los de primeira, sem olhar, é difícil. O botão tátil do Windows, na borda inferior frontal, parece ter a área sensível desalinhada do logo do Windows. É, de outra forma, também difícil de tocar — e igualmente frustrante.

Botões de liga/desliga e de volume do ThinkPad 8.

O maior problema desse equipamento, porém, é a bateria. Fosse um smartphone ela seria ruim; para um tablet, é inaceitável. Com frequência, mesmo sem usá-lo tanto, preciso recarregar a bateria mais de uma vez ao dia. O modo stand by consome muita energia e, em uso, a drenagem acontece num ritmo assustador. Seria o caso de um tablet a ser usado na tomada, mas apenas se o cabo que o acompanha não fosse tão curto.

Fora esse da bateria, os outros defeitos são poucos e toleráveis. O ThinkPad 8 ainda vem de fábrica com o Windows 8. Na unidade que usei, esse não durou nem uma hora. Em pouco tempo e sem qualquer efeito colateral decorrente do processo, o tablet da Lenovo passou a rodar o Windows 10, atualizado gratuitamente via Internet.

O Windows 10 em um tablet

O ThinkPad 8 é um tablet, logo, o Windows 10 o identifica como tal e se adapta para funcionar melhor nesse formato. Você talvez já tenha visto alguma demonstração da capacidade adaptativa do sistema, tipo este, da própria Microsoft:

É uma solução, analisando bem, simples, elegante e funcional. Ela resolve o dilema de conciliar os dois casos de uso do Windows, com os dedos e com mouse e teclado, sem que um afete o outro. O Windows 10 para tablets é tão próximo do Windows 8 quanto o Windows 10, em computadores com teclado e mouse, fica do Windows 7. E isso é ótimo.

Os blocos dinâmicos formam uma interface interessante num tablet. Eles dão um vislumbre rápido do que está acontecendo dentro de cada app e, mais que isso, são “alvos” grandes e fáceis de tocar. Mesmo o modo retrato, que acabo usando mais por encarar o tablet majoritariamente como dispositivo de leitura, fica aceitável no layout do Windows 10. Achei estranho, porém, os botões da lateral esquerda da Tela Inicial. São pequenos (mesmo com o “zoom” do sistema corrigido para 200%, o que tive que fazer manualmente) e dois deles, meio redundantes — no mínimo, sem distinções significativas ou claras ao usuário.

A barra de tarefas do sistema também muda em modo tablet. A principal diferença é que ela não exibe os apps abertos embaixo, como o Windows faz desde a versão 95. Não há espaço para tanto e é preferível deixar os botões do sistema ali, em vez de apps que, por serem exibidos em tela cheia, são mais fáceis de alcançar via multitarefa do que por mini-botões permanentes na tela. Uma adaptação que eu fiz foi mover a barra para o topo em vez de deixá-la no rodapé. Faz mais sentido considerando a forma como seguro o tablet na maior parte do tempo.

Os gestos a partir das bordas continuam existindo no Windows 10, só que com resultados levemente diferentes dos do Windows 8. Arrastando da borda direita para dentro, uma barra lateral, muito similar à do OS X, surge. Ela traz a “Central de ações”, com notificações e uma profusão de atalhos, tantos que levava algum tempo para achar um específico nos primeiros dias de uso. A partir do outro lado, o deslizar do dedo revela a multitarefa com miniaturas dos apps abertos espalhadas na tela — em outra comparação com a Apple, é muito similar ao Exposé, só que num tablet, ou seja, muito mais útil. Arrastar o dedo de cima para baixo revela as opções dentro de alguns apps.

Central de ações.
A Central de ações aparece arrastando o dedo a partir da borda direita da tela.
Multitarefa.
A multitarefa aparece arrastando o dedo a partir da borda esquerda da tela.

Esses novos comportamentos são mais tradicionais. No Windows 8 o arrastar da direita abria a barra de “charms” e exibia o relógio, que pela primeira vez em muito tempo deixara de ser um elemento permanente na interface, e o da esquerda puxava o último app usado — para exibir a lista de todos abertos era preciso deslizar o dedo e depois voltar um pouquinho para a mesma borda. As novas soluções são mais familiares e, portanto, mais compreensíveis.

De resto, os elementos de interface ficaram bons de serem manipulados com os dedos e é bem raro ter que recorrer à área de trabalho clássica do sistema, aquela feita para o mouse. Esse é o grande trunfo do Windows 10 em tablets, anos depois da Microsoft ter mirado esse caminho. O tapete da interface moderna finalmente está grande o bastante para esconder o legado do Windows embaixo.

Os desenvolvedores de terceiros também têm uma (grande) participação nessa transição, afinal, sem apps modernos, seria impossível livrar-se dos clássicos e, consequentemente, da área de trabalho. Mas, apesar do progresso e de já estarmos num nível decente, o cenário como um todo ainda não é o ideal.

Os apps modernos do Windows 10

Tela inicial do Windows 10 e navegador Edge.

Nenhum smartphone ou tablet sai do chão sem bons apps. O Windows, ou a porção moderna dele, sempre teve dificuldades em suprir essa exigência para o sucesso.

Nem mesmo os apps da própria Microsoft eram bons no início. Quando o Windows 8 foi lançado, escrevi um livro sobre o então novo sistema para o Gizmodo Brasil. Boa parte daquele material era um tour aprofundado pelo que vinha pré-instalado no Windows, ou seja, muitos apps modernos assinados pela Microsoft. Para quase todos a conclusão era a mesma: faz pouco e de um jeito pior que os apps clássicos, da área de trabalho. Reinventar a roda, que nesses termos se traduz em refazer com outra tecnologia e novos paradigmas de uso os mesmos apps a que estávamos habituados há tanto tempo, é muito difícil.

Três anos depois, os apps que acompanham o Windows 10 demonstram um amadurecimento esperado e bem-vindo, para não dizer tardio. Coisas como o app de e-mail e o novo navegador Edge são modernos e, ao mesmo tempo, passam aquela sensação positiva de robustez, não a de que são arremedos de apps feitos para suprir uma nova exigência auto-imposta pelo sistema. Não dá para dizer o mesmo de todos; Mensagens e Groove, por exemplo, ficam aquém dos respectivos da época do Windows 7 (Skype e Windows Media Player), mas pelo menos a Microsoft faz o mínimo, que é mostrar aos desenvolvedores terceiros que, sim, a plataforma permite a criação de bons apps.

Curiosidade: pelas regras da Microsoft, este tablet é elegível aos apps móveis do Office. A empresa define como “móvel” qualquer coisa que tenha uma tela menor que 10,1 polegadas e, para esses dispositivos, oferece Word, Excel e PowerPoint sem custo algum, nem a necessidade de se assinar o Office 365.

Word Mobile com documento introdutório aberto.
Obrigado, Microsoft!

Pouco antes do lançamento do Windows 10 fiz um compilado de apps legais para Windows 8. Alguns deles continuam valendo na nova versão e outros tantos exclusivos dessa poderiam facilmente integrar uma eventual atualização daquela lista. Ainda se nota uma escassez brutal de apps oficiais, apesar de algumas lacunas supridas (Twitter e TuneIn, por exemplo). Por isso, ter à disposição alternativas bem feitas de desenvolvedores terceiros é um alívio.

Como disse antes, uso o tablet para ler. Nesse sentido o Windows 10 me serve através do Poki, um cliente do Pocket recomendado pelos criadores desse, e o Nextgen Reader, um leitor de RSS que conversa bem com o Feedly.

Qual seta apertar? App Nextgen Reader.

O Nextgen tem uma pequena falha de interface, notada também em outros apps ainda não adaptados ao Windows 10 como o do Facebook (antigo, não o universal-recém-lançado-ainda-em-beta do próprio Facebook1), referente ao botão “voltar”. Existe um “system-wide” na barra de tarefas que, em apps atualizados como o do Twitter, funciona nas camadas internas do app, para voltar dentro dele. Já o Nextgen e o Facebook têm outro botão “voltar” para navegação interna; ao tocar no “voltar” do sistema, ele te leva para a Tela Inicial independentemente de onde você estiver. Uma das consequências negativas de mudar radicalmente as diretrizes de interface e no próprio sistema, mas não a pior.

Kindle no Windows.

O app oficial do Kindle, esse sim, demonstra como que tais mudanças podem quebrar feio um app. Abri-lo em modo retrato é perda de tempo; ele surge em uma bizarra coluna estreita no meio da tela. O acesso às opções é confuso e até o mais básico num app desses, que é ler, é ruim: a paginação se enrola vez ou outra, tanto em velocidade quanto para se lembrar do ponto onde o leitor parou.

Esses pequenos erros poderiam ser facilmente sanados com uma atualização simples, mesmo que não fosse o caso de tornar os apps universais. Mas não são, porque o Windows não é prioridade para a maioria dos desenvolvedores. Reina, na loja de apps do sistema, a ideia de lançá-los e nunca mais dar atenção ao que quer que ocorra com eles. A ideia dos apps universais, ou seja, o mesmo app que se adapta, a exemplo do próprio Windows, ao dispositivo em uso, seja ele um notebook, tablet, smartphone, Xbox One ou até mesmo o HoloLens, é incrível na teoria, mas não resolve o problema fundamental da escassez de apps na plataforma: o incentivo para, em primeiro lugar, criá-los. Toda essa esperança parte da falsa premissa de que o Windows no desktop sempre foi um playground para desenvolvedores. Nunca foi. Antes do iOS e do Android, a web estava a um clique de distância. Ela segue lá, mais robusta até do que antes, e ainda mantendo outras características determinantes como baixo custo, facilidade de manutenção e, de quebra, ser um ambiente inerentemente multiplaforma.

O grande desafio da Microsoft a fim de consolidar a plataforma Windows nessa nova dinâmica de computação pessoal, com dispositivos móveis e apps ditando os rumos do mercado, ainda é trazer apps para ela. À parte o descaso que acomete alguns mais tradicionais, como o do Facebook e do Kindle, e as ausências de apps oficiais populares em outras plataformas, houve algumas vitórias decorrentes do lançamento do Windows 10, como as vindas do Twitter, Netflix, TuneIn, Todoist e Dropbox na forma de apps universais. Mas ainda é pouco. Os novos apps, os que tomam o mundo por alguns dias antes de sumirem ou virarem parte integrante do dia a dia na Internet, ainda passam longe. Onde está o Periscope, Snapchat, Tinder? Cadê os diversos apps que o Facebook mantém em outras plataformas? O Peach chegou e já meio que sumiu, ganhou versão para Android nesse meio tempo, mas nem sinal de que um dia chegará ao Windows. Pior: nada exclusivo do Windows consegue ter a mesma força que um app minimamente popular, de nicho, alcança no iOS ou Android.

Botão Windows do ThinkPad 8.

O Windows 10 é bom o bastante e para muitos perfis isso não é ruim. Para o meu, por exemplo, para o que quero usar num tablet, ele satisfaz: tem os apps-chave, ou equivalentes genéricos de ótima qualidade, um cliente de e-mail ok e um bom navegador. A interação com o sistema é agradável, no mesmo nível do iPad, frequentemente melhor que em tablets Android. Porém, até pela dinâmica do mercado nesse momento em que tablets estão em declínio e nenhuma ideia para recuperar as vendas parece surtir efeito, o bom trabalho da Microsoft em preparar seu sistema para dispositivos 2-em-1 e tablets puros acaba soando como um último suspiro, um esforço derradeiro sem muita chance de dar retorno.

De uma grande aposta com resultado ruim que colocou em risco o legado do Windows e sua hegemonia em PCs tradicionais, a interface moderna finalmente se encontrou. Pena ter sido no ponto de menor interesse no formato dos tablet desde que ele foi introduzido, no começo da década. Às vezes só se tem uma chance de fazer certo.

  1. Esse tem problemas maiores, como abrir. Aqui, pelo menos, não passa da tela azul com o logo do Facebook no meio.

Colabore
Assine o Manual

Privacidade online é possível e este blog prova: aqui, você não é monitorado. A cobertura de tecnologia mais crítica do Brasil precisa do seu apoio.

Assine
a partir de R$ 9/mês