Tim Berners-Lee falando em uma conferência da ONU.

No aniversário de 25 anos da web, Tim Berners-Lee luta pela liberdade da Internet


14/3/14 às 10h00

Em 1989, de sua sala no CERN, em Genebra, Tim Berners-Lee escreveu uma proposta de sistema com o intuito de facilitar a comunicação dentro da instituição. Um sistema tão genialmente concebido que não demorou muito para que seu criador visse nele algo com muito mais potencial do que uma ferramenta para comunicação interna. Algo que conquistaria o mundo.

O aniversário da web foi muito celebrado, com todos os méritos, na última quarta-feira (12), data em que há 25 anos Berners-Lee escreveu a proposta de web. Ela conseguiu, em um quarto de século, acumular uma quantidade inestimável de conhecimento, construir e destruir grandes nomes, dar voz a quem, de outra forma, falaria para poucos ou acabaria no silêncio.

Concebida com as melhores intenções do mundo, livre de royalties ou quaisquer outras cobranças desde 1993 e ignorando solenemente quem previu sua morte ou agoura sua existência, a web provavelmente seguirá presente em nossas vidas por muito tempo.

Mas… você sabe o que é a web?

Web é diferente de internet

Bem-vindo à Internet.
Bem-vindo à internet. Arte: SharpWriter/DeviantART.

Essa associação é incrivelmente popular entre as pessoas e com frequência é feita pela imprensa.

Web não é sinônimo de Internet. A World Wide Web, WWW, W3, Web, chame-a como quiser, é um serviço que funciona na internet. Um dos vários que, talvez sem se dar conta, você utiliza em paralelo no dia a dia: e-mail, apps, Netflix, YouTube, BitTorrent… A bem da verdade, em termos de ocupação, ou tráfego que rola na internet, a web sequer ocupa a primeira posição.

A confusão se dá pela “cara” e finalidade que a web tem, bem definidos, ao passo em que outras aplicações que também rodam na internet nem sempre se apresentam de uma forma tão óbvia, ou delineada. Tratar as duas coisas como iguais, embora compreensível, não deixa de ser um equívoco.

A web é um sistema de documentos conectados por links, o hipertexto, que se acessa via Internet. O acesso pelos usuários se dá, geralmente, através de programas especializados, os navegadores, e sua estrutura se baseia na relação cliente-servidor. Na prática, quando você (cliente) requisita uma página (URL/URI), o faz a um computador remoto quase sempre mais poderoso (servidor) que processa o pedido e o retorna ao cliente.

A grande sacada de Berners-Lee foi juntar duas ideias que estavam dando sopa e que ninguém ainda havia vislumbrado trabalhando juntas. De um lado, o hipertexto, que deriva do memex descrito em 1945 por  Vannevar Bush e já inspirara alguns projetos predecessores da web no intervalo até 1989. De outro, a internet, uma rede global de computadores fundada em bases sólidas, com tecnologias abertas, extensível e acessível como poucas coisas já criadas pela humanidade.

O NeXTcube de Tim Berners-Lee.
Este NeXTcube de Berners-Lee foi o primeiro servidor web do mundo. Foto: Coolceasar/Wikipédia.

A junção das duas partes foi possível com a criação de três tecnologias basilares:

  • Um sistema de identificadores, no caso, as URLs, ou URIs. Uma URL é, pois, o endereço de uma página na web, “traduzido” de IPs para domínios através de um serviço chamado DNS. Esse localizador é universal e independe da aprovação do seu dono para ser usado (linkado) por outras páginas.
  • Uma linguagem para a escrita na web, o bom e velho HTML — acrônimo para Linguagem de Marcação em Hipertexto, em inglês. Um sistema simples de tags permite formatar, diagramar e exibir textos, imagens e outros elementos diversos. Com o tempo, linguagens de programação passaram a rodar nos servidores e a formatação visual foi “terceirizada” para outra linguagem, o CSS — Folhas de Estilo em Cascata, na sigla inglesa.
  • Um protocolo, uma espécie de “linguagem de máquina” que compreende e faz todo o trabalho de bastidores para que a ideia da web ganhe vida e funcione de fato. É o famoso HTTP, ou Protocolo de Transferência de Hipertexto.

Em 1990, Berners-Lee passou a contar com a ajuda de Robert Cailliau, um cientista da computação belga, na finalização da proposta oficial e criação do primeiro navegador (que também fazia as vezes de editor web), o WorldWideWeb. Em dezembro daquele ano o primeiro site da web foi lançado pela dupla e, um ano mais tarde, em agosto de 1991, uma breve mensagem de Berners-Lee em uma lista de discussão apresentou a World Wide Web ao mundo e a tornou acessível a qualquer um.

O WorldWideWeb, primeiro navegador/editor web.
WorldWideWeb, primeiro navegador/editor web. Foto: Wikipedia/Wikimedia Commons.

O resto é história.

A web como uma plataforma aberta

A web não estagnou no que era no início da década de 1990. Seu desenvolvimento foi e ainda é constante, e em muito se orienta pelas diretrizes do W3C, ou Consórcio da World Wide Web, órgão fundado por Berners-Lee em 1994 no Laboratório de Ciência da Computação do MIT com o apoio da Comissão Europeia e da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA, órgão de inteligência militar norte-americano que lançou as bases para a criação da internet comercial).

O W3C tenta manter a linguagem técnica da web padronizada, a fim de resguardar a sua natureza aberta. Esse problema já foi mais grave, na época do monopólio do Internet Explorer (IE). Após “vencer” a batalha contra o Netscape Navigator em um duelo injusto que culminou em processos antitruste, a Microsoft desviou do caminho da W3C e criou recursos exclusivos para o IE que tornavam mais complexo e custoso o desenvolvimento de sites funcionais em qualquer navegador. A ressurreição da concorrência, liderada pelo Firefox a partir de 2004, reequilibrou o cenário e, hoje, ainda com alguns deslizes e saídas de rota, os principais navegadores trabalham em um consenso mínimo norteados pela W3C.

Nada impede que, a exemplo da Microsoft, outras empresas criem variações, padrões ou extensões do HTML. Se por um lado isso cria diferenciais para seus respectivos navegadores e aplicativos, tal abordagem tem potencial para “quebrar” a web. A mensagem “Site melhor visualizado no Internet Explorer” é um atentado à natureza aberta da rede. O trabalho do W3C é instituir e conscientizar as organizações a seguirem padrões.

Apesar de tudo isso, a web amadurece. Novas linguagens, novas abordagens, tecnologias mais eficientes nas transações entre clientes e servidores e até o comportamento dos usuários afetam tanto a sua natureza técnica quanto a forma com que a utilizamos.

Uma das evoluções mais destacadas ocorreu em meados da década 2000. Naquele ponto, sites que atuam não como provedores de informação, mas como plataformas despontaram. Wikipédia, Flickr, Twitter, Facebook. Todos surgiram nesse período efervescente, quando um lampejo somado à viabilidade técnica permitiu que se criassem, na web, sites dinâmicos, alimentados pelos próprios visitantes. Uma das premissas da web citada explicitamente na proposta original de Berners-Lee, a de possibilitar “a criação de novos links e novos materiais pelos leitores, [de tal forma que a] autoria se torne universal”, só foi alcançada plenamente com essa guinada.

Uns chamam essa fase de “Web 2.0”, mas essa denominação soa mais como um termo marketeiro do que algo tangível. A web, em essência, não mudou; ela evoluiu. Dá para traçar inúmeros paralelos de coisas e situações que evoluíram sem que com isso ganhassem um novo nome. O futebol de hoje é muito diferente do que era praticado por Charles Miller, mas nunca alguém achou que nos beneficiaríamos se mudássemos o nome do esporte ou o chamássemos de futebol 2.0. O próprio Berners-Lee se mostrou contrário a esse termo, classificando-o como “jargão”, nesta entrevista à IBM em 2006:

“(…) Web 2.0, para algumas pessoas, significa avançar algumas ideias do lado cliente para torná-lo mais imediato, mas a ideia da web como interação entre pessoas é realmente o que é a web. É para isso que ela foi projetada, para ser um espaço colaborativo onde as pessoas podem interagir.”

De GIFs à Wikipédia, passando pelo e-commerce, os blogs, redes sociais e memes, a web é a plataforma de todas essas ideias e outras tantas, umas boas, outras ruins, todas com esse espaço garantido. Por ora, já que a luta de Berners-Lee e tantos outros, 25 anos depois do nascimento da web, é para mantê-la dessa maneira.

Uma constituição para a Internet

No aniversário de 25 anos da web, Tim Berners-Lee lançou, com o apoio da World Wide Web Foundation (que ele mesmo fundou), a iniciativa Web We Want. Apesar do nome e da ligação com o criador e órgãos relacionados à web, a proposta é maior, engloba a Internet. Basicamente, ela visa a criação de “constituições”, ou uma constituição para a rede. Do texto de apresentação:

“(…) A web permite que todos no planeta participem de um fluxo livre de conhecimento, ideias, colaboração e criatividade. E ela precisa ser cuidada e protegida.

Mas ações de algumas empresas e alguns governos ameaçam nossas liberdades fundamentais na web.

Nos últimos anos, cidadãos do mundo inteiro — da Finlândia ao Brasil, do México aos EUA, das Filipinas à Rússia — têm lutado para barrar leis ruins e construir uma agenda positiva para a web que empodera todos nós. Com a sua ajuda, podemos fazer crescer esses movimentos e alcançar vitórias em todos os países.

É por isso que a campanha Web We Want está convocando pessoas ao redor do mundo para lutarem pelo direito a uma Internet livre, aberta e realmente global. O primeiro passo: rascunhar uma Lei de Direitos dos Usuários da Internet para cada país, propondo-a aos governos e dando início à mudança de que precisamos.”

É como se Berners-Lee quisesse um Marco Civil da Internet para cada país, ou um para o mundo todo. A proposta do Marco Civil brasileiro, que desde outubro tranca a pauta do Congresso e segue envolta em polêmicas quanto à neutralidade da rede, pode ser um documento legal pioneiro nessa recente investida para assegurar as características mais importantes da Internet.

Nos 25 anos da web, Berners-Lee pede a atenção de todos para tentativa agressivas de empresas e governos de controlar a Internet, de instituir pedágios na rede, de ferir-lhe a neutralidade, uma das suas marcas e o que a diferencia de outras mídias. Tão importante quanto a web é a equidade no acesso ao meio onde ela reside, a Internet. O futuro da web e da Internet de modo geral depende disso. Palavra do pai da web.

Links legais

Foto: Violaine Martin/Flickr.

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3 comentários

  1. Pingback: O Pai da WWW
  2. Discordo do texto aqui divulgado, porque a Web é sim a Internet. O resto era transmissão de dados via cabos ou satélites.
    Para esta data comemorativa dela criei o texto: O Vulcão da Espionagem Mundial. Descrito logo abaixo:
    A WWW vulgo World Wide Web, que em tradução oficialmente inofensiva para o português é Rede Mundial de Computadores, mas que literalmente é Grande Teia Mundial. Tão fatal aos terráqueos como teias de aranhas o são para alguns insetos.
    Para quem todos pseudos independentes sistemas de informática estão submetidos com nomenclaturas que lhes, e nos, dão ilusão de segurança e privacidade com ferramentas inibidoras de ataques cibernéticos e criptografias. Exemplificando entre outros as redes bancárias, os cartões de créditos, as agências de espionagem e os sites de relacionamento. Disponibilizando-nos e a si, senhas que supostamente protegem seus proprietários, mas que na verdade só nos protegem daqueles como nós, simples usuários sem acesso aos binários códigos dos computadores. Como também proporcionando incontáveis oportunidades de indução a erros e destruir populações carentes de conhecimento como de diferentes culturas, por criminosos travestidos até de autoridades. Até tu Internet simpaticamente inofensiva! De todas as WWW subalternas a WWW mãe. Cujas reuniões de seus diretores tem ares acima das da ONU, tamanha a sua importância para o planeta.
    Iludidos aqueles que creem deter privacidade de qualquer tipo de informação em seus sites, e-mails e dados privados, incluindo donos das grandes redes de relacionamento deficitárias financeiramente em sua maioria ou totalidade, mas valendo fortunas ilogicamente e sempre temporariamente, para por fim; dar prejuízos à maioria dos milhões de seus acionistas. Por questões óbvias. Porque sua história leva-nos a crer que não passam de um incrível engodo coletivo, totalmente inconsciente e que o bom do momento, em questões de horas, torna-se cansativo e obsoleto.
    Manipulado por dúzia de conspiradores que levam todos ao equívoco de que a WEB é segura. Mas na realidade sua existência é que não passa de alimentadora do gigantesco sistema financeiro e principalmente da espionagem.
    Pois tudo que passa pelo Éter ou hipoteticamente fluído cósmico (transmissões via radares, rádios e satélites entre outros), como transmissões de imagens, dados e vozes via celular. São arquivados há mais de trinta anos em três lugares secretos espalhados pelo mundo. Um deles obviamente é nos EUA e os outros já foram largamente divulgados na Net. De acordo com o acima não se faz necessário detalhar a espionagem da telefonia fixa.
    Facilitando a espionagem por hipercomputadores usando programas que decodificam qualquer código criptografado e analisam trilhões de conteúdos de fotos ou conversas por imagens e palavras chaves, em milésimos de segundos. Buscando comprometimentos e escândalos por palavras como; ataque terrorista, homem bomba, corrupção, acesso a sites adultos, conversas íntimas, homossexualismos e relacionamentos extraconjugais de pessoas em posições chaves da política ou grandes multinacionais das indústrias metalúrgicas, petrolíferas, midiáticas, mercado financeiro e etc.
    Algumas das provas deste tipo de ações foram as recentes espionagens divulgadas de entre outros membros da política: A presidente do Brasil Dilma Rousseff e a Primeira Ministra da Alemanha Ângela Merkel, via conversas telefônicas há pouco tempo.
    Internet esta cujo fundador o Inglês nascido em Londres e formado em física na universidade Oxford depois trabalhando no CERN, Sir. Timothy John Berners Lee ou Tim Berners – Lee seu criador (ou seja, do HTTP e HTML) há 25 anos. Que quer criar uma ingênua Carta Magna Internacional para o seu uso. Ao mesmo tempo em que os EUA lançam uma teórica ideia de cobrar por aquilo que muitos países como a si pagam a peso de ouro, a informação confidencial comprometedora. Como também o seu presidente divulga que esta nação irá mudar o modo de operação para estes casos. O que é impossível, abrir mão da vantagem que lhe dá um processo que avança cada vez mais rápido. Resta-nos o consolo que este monstro máquina prende em sua teia primeiramente quem o usa contra os humanos ingênuos.
    ZéM.

  3. Muito bom Rodrigo. Bastante esclarecedor em termos de história de internet – ou web? Brincadeira, até então desconhecia essa distinção. Mas não me culpo, pois me considero um usuário médio. Mas é um conhecimento importante, já que o nosso mundo tende a evoluir mais tecnologicamente.

    Aliás, Rodrigo: um texto sobre a que se presta realmente o Marco Civil brasileiro seria um bom tema para discussão! Que achas?

    Abraço.