Futuros alternativos da web
Que é difícil combater problemas sistêmicos com ações individuais, nós já sabemos. Isso não significa, porém, que pequenas atitudes simples e, por vezes, benéficas ao indivíduo devam ser ignoradas.
Nesta quarta (16), Cory Doctorow escreveu em seu blog que “você deveria usar um leitor de RSS”. Você deveria mesmo! Digo isso desde antes do finado Google Reader surgir e continuo, a exemplo do Cory, repetindo sempre que posso.
É bem provável que você já use, de uma forma ou de outra, feeds estruturados do tipo RSS1. Quem ouve podcasts, por exemplo, depende desses feeds. É graças a eles que os apps ficam sabendo de novos episódios e conseguem baixá-los sozinhos.
Quando Cory se refere a “leitores de RSS”, fala de um tipo de aplicativo diferente, meio esquecido do grande público desde a derrocada do Google Reader2, em 2013. Eles são como “podcasts para texto”: você se inscreve em alguns sites e toda vez que sai um conteúdo novo, recebe um aviso e o conteúdo para ler offline3, em uma interface livre de distrações, scripts de rastreamento e anúncios invasivos.
Parece bom demais para ser verdade, mas é — verdade e bom.
O fato de leitores de RSS não serem mais divulgados é um mistério, ainda que existam indícios que nos ajudam a entender o porquê, como a dependência, da maioria dos sites, por visualizações para gerar receita. Atrair as pessoas para o site a fim de verem anúncios é um forte incentivo para não promover os feeds RSS. Como dito, um texto lido pelo app de RSS não gera visualizações.
Apesar disso, surpreende o tanto de sites que suportam feeds. Em parte, por ignorância: o WordPress, por exemplo, um dos sistemas de gerenciamento de conteúdo mais populares do mundo (talvez o mais popular), tem ótimo suporte a feeds, que são nativos, variados e ativados por padrão.
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O uso de um leitor de RSS é muito similar ao do de um app de podcasts, ou seja, basta escolher um aplicativo ou site e cadastrar alguns sites ali.
Antigamente, os sites exibiam o ícone laranja do RSS para sinalizar suporte à tecnologia. Ele sumiu da web. Por sorte, os leitores de RSS não dependem mais do link exato de um feed para capturá-lo. Basta informar o endereço do site e, se houver um feed presente ali, ele será detectado.
Em relação aos apps, o Feedly é dos mais populares e tem um bom plano gratuito para começar. Outra rota promissora é a dos aplicativos nativos, como NetNewsWire (iOS, macOS) e Feeder (Android), ambos gratuitos e de código aberto.
Quem assina o Manual4 tem direito a uma conta vitalícia em nossa instância do Miniflux no PC do Manual, um sistema web minimalista e muito versátil. É o que uso no dia a dia, tanto na web quanto sincronizado com o NetNewsWire.
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O RSS é quase um resquício de quando o futuro da web prometia ser revolucionário. Era assim por coisas como o RSS, que democratiza o acesso à informação e coloca nas mãos das pessoas o controle do fluxo a que se expunham.
Em fevereiro deste ano, relatei meu desconforto com cenas de uma web que agoniza. Quando paro para pensar no assunto, concluo que a web periga ter o mesmo destino do RSS: presente, mas cada vez mais nos bastidores, em segundo plano, perdendo espaço para apps e outras tecnologias mais complexas, menos acessíveis — piores.
Talvez o futuro da web seja um pouco mais triste, com o lixo do SEO promovido pelo Google e, agora, o tsunami de mais lixo gerado por inteligência artificial.
A web imaginada por Tim Berners-Lee no início dos anos 1990 era uma via de mão dupla. Os primeiros navegadores web tinham editores de sites embutidos, porque esperava-se que as pessoas consumissem e criassem ao mesmo tempo.
O HTML, uma linguagem de marcação fácil de assimilar, viabilizava esse cenário. Os sites, por sua vez, eram simples, estáticos. Construí-los estava ao alcance de qualquer um.
Hoje, temos tecnologias super poderosas, que permitem criar sites super complexos, muitos deles com o objetivo de… facilitar a publicação na web.
É o caso do WordPress, que desde 2018 adota o Gutenberg, um código macarrônico para construir posts e sites inteiros arrastando blocos na tela e fuçando em botões. A facilidade aparente oculta uma complexidade técnica que afasta aqueles que se interessam em saber mais.
Parece que não há mais espaço para sites simples. Pouca gente se interessa em aprender HTML e as expectativas não são as mesmas de 30 anos atrás.
A antítese do WordPress e o medonho Gutenberg seriam os geradores de sites estáticos (SSGs, na sigla em inglês), que “cospem” sites muito similares aos dos primórdios da web.
Se nos bastidores os SSGs são simples (é só um punhado de pedaços de páginas que um script usa para gerar páginas HTML), lidar com eles não é.
Loris Cro chamou isso de “paradoxo do site estático”:
Somente alguns engenheiros de software profissionais podem se “dar ao luxo” de ter a segunda opção [sites estáticos simples] como sites pessoais, e quase todos os usuários normais estão presos a soluções excessivamente complicadas.
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Faz alguns dias, juntei meu site pessoal (escrito à mão, como faziam os Maias) e blog (feito com a ajuda do Jekyll, um SSG dos mais populares) em um endereço só.
Continuei com o Jekyll. Aproveitei o embalo para tirá-lo do disco virtual do Fastmail, que funcionava sem qualquer problema. (Não sei se renovarei a assinatura ano que vem.) Hospedei o site no Cloudflare Pages, que pega o código-fonte hospedado no GitHub e, após cada “commit”, gera uma nova versão e a publica, automaticamente.
Jekyll, Cloudflare Pages, GitHub, commit… é tudo muito eficiente e funciona, mas evidente que não é para qualquer um. A experiência pesada e visual — o WordPress, para continuar no mesmo exemplo — consiste em acessar o wordpress.com, criar uma conta e começar a postar.
Se estendermos o conceito de “publicar na internet” às plataformas sociais centralizadas — Instagram, Threads, X etc. —, a comparação é ainda mais vergonhosa para a web aberta. Não à toa muitas pequenas e micro empresas abdicaram de manterem sites em prol de perfis em redes sociais ou — cada vez mais — um número de telefone no WhatsApp.
- RSS é só um dos padrões para esse tipo de tecnologia. Existem outros, como Atom e JSON. Quando eu mencionar “RSS”, entenda como se estivesse me referindo a todos eles. ↩
- Apesar do baque na popularidade dos leitores de RSS, o fim do Google Reader foi positivo. Em uma linha do tempo alternativa em que ele continua por aí, provavelmente o Google já teria instrumentalizado e “bostificado” — para usar um termo cunhado pelo Cory — o protocolo. ↩
- Alguns sites enviam apenas um resumo curto, de um parágrafo, via feeds RSS/Atom/JSON. Uma pena! ↩
- A assinatura custa R$ 9/mês ou R$ 99/ano, e a conta no Miniflux é vitalícia, ou seja, mesmo que você deixe de assinar o site, continuará tendo acesso a ela. ↩
Acabei de ler um texto sobre o uso de um recurso do Cloudlflare contra bots que no também impacta os leitores de feeds: https://openrss.org/blog/using-cloudflare-on-your-website-could-be-blocking-rss-users
Uma pena que não exista uma solução mais simplificada pra sites estáticos
Sobre a questão dos sites estáticos serem difíceis para pessoas leigas, entramos aqui naquela questão da last mile que um serviço de perfil mais comunitário e gratuito geralmente deixa para o usuário fazer, e que é crucial para ganhar adoção em massa. Vide Mastodon, Linux, software open source como um todo, ou mesmo qualquer tipo de atividade DIY. No fim das contas, sempre vai ser mais fácil e conveniente comprar um produto pronto do que por a mão na massa pra fazer do jeito que você gosta. Dado que grande parte dos negócios consistem basicamente em dar às massas leigas ou atarefadas acesso a produtos e serviços prontos para serem usados, essa é a maneira como as coisas vão continuar a funcionar, e iniciativas individuais e sem fins lucrativos, slow web, etc., vão ficar relegadas a profissionais e hobbistas da tecnologia, da mesma maneira que 95% do público bebe cerveja industrializada, e os entusiastas compram seu kitzinho de cerveja artesanal pra produzir 5l no quintal.
Tem como limitar o número de itens novos em cada feed? Gostaria de sempre puxar os últimos 10, mas em casos como o da Folha de SP, sempre que abro tem mais de 100 itens novos.
vc pode colocar filtro pra não aparecer o que vc não gosta
O número de itens é definido no feed. Talvez exista algum aplicativo/serviço que permita manipular esse número no lado do cliente, mas desconheço.
(Para sites de alto volume, prefiro acessar a capa uma ou duas vezes por dia. Alto volume significa que se publica muita porcaria em meio ao que importa — coisa que não lerei — e o que importa costuma ter destaque nas capas dos sites, logo…)
eu usava o finado Google Reader, depois passei para o Feedly
Ghedin, não é o local para perguntar, mas você atualiza aquela tabela de newsletters ainda ?
Sim!
Algo que gostei foi acompanhar sites de promoções através do RSS, muito prático.
Dá exemplos disso ai, que me interessei.
Ótimo texto!
Será que as pessoas em geral sabem o que é RSS? Não seria o caso de deixarmos um tutorial em nossos blogs, com o mesmo destaque de um “Sobre”?
Digo isso porque, na época em que os Podcasts em áudio estavam em voga, “assinar” RSS era a maior dúvida que as pessoas tinham, até por imaginarem que isto exigiria algum pagamento ou cadastro. Àquela altura, cheguei até a fazer um tutorial de como assinar Podcasts usando o iTunes.
Hoje, talvez as pessoas estejam familiarizadas com os termos “Inscrição” e “Seguir”, por conta do YouTube e diversas redes sociais. Mas esta ação é realizada dentro do próprio app ou site da plataforma. Não algo que elas ou site / app de terceiro gerencie. Daí, surge a ideia também de um “repositório”, com indicações e pequenos “reviews” das soluções disponíveis (como as que costumamos fazer aqui nos comentários e/ou no Órbita).
Quanto às reflexões deste post:
Eis um dos maiores motivos de o RSS não ser disseminado por muitos blogs e sites que seguem um modelo de monetização baseado em propagandas e afins.
Não sabia disso, fiquei curioso!
Acho que hoje, com o Markdown, ficou ainda mais simples para quem está disposto a fazê-lo.
Isso é uma das coisas que mais me incomodam. Mais um sintoma da enshittificação.
O Netscape era uma suíte de aplicativos contendo email e editor HTML, acho mais alguma coisa. Depois se tornou Mozilla, e foi fatiado (Firefox, Thunderbird para email, e o editor foi descontinuado)
O SeaMonkey mantém a suíte ainda.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Netscape_Composer
https://pt.m.wikipedia.org/wiki/SeaMonkey
Muito obrigado pelas informações e explicação. Que legal isso! Não lembro se cheguei a instalar o Netscape alguma vez, mas com certeza nunca passei por esse editor. Conhecia apenas o navegador em si. Não sabia ou não lembrava que o Mozilla vinha dele também.
Vou testar o SeaMonkey aqui.
O que sinto falta nos aplicativos de RSS é poder grifar textos, inserir notas, ter modo de paginação e ter marcação de página para retomar depois o lugar que parou, etc.
São essas coisas que me fazem ter uma leitura de fato comprometida. Que é realmente a minha preocupação central.
Hoje em dia tenho app de RSS (que sim, muito melhor receber por ali), de lá jogo pro Instapaper e em seguida para o Kindle, onde consigo ter esses recursos todos.
Enfim, o RSS virou uma etapa para mim e não um fim em si mesmo.
O Instapaper tem todas essas opções (no plano pago), não?
Quaaase todas hehe…falta, na minha modesta opinião, depois que colocou no modo paginação a possibilidade de marcar a página. Tudo bem que quando você sai do app e volta abrindo o texto de novo, ele fica estacionado na pagina que você parou. Mas é que marcador é marcador hehe
Reivindica isso pra eles Ghedin, lembro que você já conseguiu algo com eles hehe
Mas tem mais um recurso que esqueci de mencionar que gosto no Kindle…é a busca por palavras. Enfim, se o Instapaper conseguisse mais esses 2 recursos me conquistava 100 por cento. Mas também entendo a pegada mais simples deles.
Já experimentou o Omnivore?
Não possui modo de paginação, mas permite grifos e notas.
E, para quem usa Obsidian, há um excelente plugin que sincroniza um arquivo texto em Markdown do artigo, que também vem com os grifos e notas realizados.
Sim, adoro o Omnivore. Acho inclusive os grifos e notas mais agradáveis que o do Instapaper. O meu problema é que com textos maiores ou longos o modo paginação e marcadores se tornam fundamentais pra eu de fato ler.
Meu sonho é um dia os grupos do Facebook terem feeds rss. Único motivo que ainda uso ele.
Para quem quer consumir Web de maneira espaçada, RSS é vida.
Comecei a usar RSS para acompanhar os canais do Youtube que mais assisto, o que me deu uma nova forma de acompanhar: Sem precisar navegar no site/aplicativo, sem precisar rolar o feed para ver os canais que quero ver (e pular os canais que o algoritmo quer que eu veja) e principalmente serei notificado de quase 100% de todos os vídeos que os canais postam (tem canal que posta mais de 15 vídeos por hora, e o limite do RSS do Youtube é 15 vídeos recentes). Outro inconveniente é que se você passar dos limites de requisição do Youtube, o Youtube bloqueia o IP de acessar o feed de 12 a 24 horas, assim, é necessário escolher um tempo de atualização para não ter problema nisso.
Depois parti para os sites, e me deu uma economia gigante de tempo, pois não preciso acessar site a site para ver as notícias. As notícias que mais interessam estarão no meu agregador, e de lá eu vejo.
A respeito de agregador, depois de usar o Feedly e o Feedbro, uso hoje na minha hospedagem Apache/PHP/Mysql padrão (não é VPS) o FreshRSS no meu site pessoal. Além de pegar os feeds do Youtube passando o link do canal diretamente, há uma alternativa para hardusers que conhecem a sintaxe do XPath – a possibilidade de através de especificação de comandos XPath, criar um feed de um site que não tem RSS.
Usei muito RSS com o finado Google Reader, mas o que me fez parar de usar foi a maioria dos sites que eu acompanhava publicar apenas o primeiro paragrafo no RSS me obrigando a entrar no site pra ler o texto completo.
Imagine ouvir apenas 10 minutos de um podcast num agregador e ter que entrar no site para continuar ouvindo o restante.
Sei que os sites vivem das visualizações, mas isso meio que tirou o propósito da ferramenta e eu apenas larguei mão.
Leitores de RSS modernos, como o Miniflux e o NetNewsWire, têm um “parser” embutido que puxa o texto completo de feeds parciais. Funciona muito bem na maioria dos casos.
Feedbro tb faz isso.
Opa, vou baixar o NetNewsWire pra testar!
São essas coisas que estão salvando meu acesso à internet atualmente: feeds RSS e newletters no e-mail. Quase não acesso mais sites para ler algo, porque sempre sou recebido por inúmeros pop-ups pedindo para: aceitar cookies, liberar as notificações, 10 frames diferentes espalhados na páginas mostrando o mesmo Ad (invariavelmente alguma Bet) e ao final a caixa do Taboola.
Este Manual é consumido via RSS, mas de vez em quando venho aqui deixar um view. Geralmente nos posts das mesas, já que nem todas a fotos carregam pelo feed.
Vc limpa propaganda e afins em um monte de site utilizando ou DNS alternativo (uso o NextDNS) ou arquivos de hosts. Não chega nem a requisitar aqueles ads, e não precisa de extensão.
“aceitar cookies, liberar as notificações, 10 frames diferentes espalhados na páginas mostrando o mesmo Ad (invariavelmente alguma Bet) e ao final a caixa do Taboola.”
Isso quando também não aparece aquele pop-up de “Desativar seu adblock” pra navegar no site e apelar para a tecla F12 pra tirar a janelinha “na unha” (tendo que usar um script “Anti-antiadblock”, que coisa medonha isso) e ainda travam a barrinha de rolagem.
A internet de hoje não foi projetada para o usuário final
A não ser quando estou numa “quest” em busca de algum arquivo ou informação eu encaro esses “anti Adblock” como uma violência, simplesmente não merece meu esforço e o site deve ser ignorado.
Newsletter no leitor de RSS, eu uso assim.
Sites como Brasil de Fato se for só no RSS fica poluído, uso a newsletter deles através do kill the newsletter e leio somente o que foi enviado na curadoria.
Ah, o Vivaldi tem leitor nativo que é uma mão na roda.
Além disso, pros outros navegadores tem o Feedbro, que é uma extensão quase perfeita pra ler feeds.
Eu, Vivaldi e Feeder.
Já usei o Feedbro (usava o Feedly antes, mas teve uma vez que ficou fora do ar e me deixou na mão), o problema é que as vezes, se alguém postava muito, eu perdia esses feeds com o browser fechado e o computador desligado. Mudei para o FreshRSS por causa disso.
Não utilizo esses serviços web mais (utilizava o Innoreader, por ter o melhor serviço gratuito), pq eles além de saberem o que c tá vendo, podem bloquear algum feed caso eles não queiram (como por exemplo de torrents).
O problema dessas soluções self-hosted é deixar uma máquina separada pra isso. No dia que montar um servidor em casa, talvez migre.
Esqueci de mencionar, o FreshRSS é um software open-source, eu hospedo na hospedagem padrão que roda meu site pessoal (LAMP não-VPS e não-CPanel). Assim, tenho controle dos dados perante a isso.
E parece que o Feedbro pode rodar em breve. Fui ver as extensões e apareceu uma lista de extensões instaladas que serão removidas se não atualizar para o Manifest V3 (E o Feedbro é uma delas)
Peguei essa lista e instalei no Floorp (Fork do Firefox). Aí vamos ver o que vai acontecer nos próximos dias.
Eu prefiro o texto completo no feed. Mas só o fato de ter o parágrafo inicial já ajuda pra saber se vou querer abrir, e é talvez um bem-bolado pro site não perder a visualização e eu não perder a comodidade do feed.
Sim, mas por exemplo o Brasil de Fato faz um resumo das notícias e deixa os trechos marcados como link, acho bem legal isso.