Gatinho deitado em cima de um notebook.

Web Design: Os 100 primeiros anos


25/9/15 às 13h13

Nota do editor: Este texto é a adaptação de uma palestra de Maciej Cegłowski, um programador que vive em San Francisco. Maciej escreve o blog Idle Words, tem um perfil divertidíssimo no Twitter e é fundador e único funcionário do Pinboard, o melhor serviço de bookmarks da Internet. É uma honra poder traduzir e publicar parte do seu trabalho aqui, no Manual do Usuário.


Designers! Sou um programador de San Francisco, mas venho em paz! Gostaria de começar com uma parábola sobre aviões.

Em 1981, minha mãe e eu viajamos de Varsóvia para Nova York neste avião, um Ilyushin-62:

Avião soviético Ilyushin-62.

O Il-62 personifica uma abordagem de design soviética que gosto de pensar como “coloque motores até conseguir voar”. Os engenheiros soviéticos não tinham computadores para calcular as dobras e vibrações nas asas, caso colocassem motores embaixo delas, então eles os acoplavam atrás do avião. Tanto que ele ficava num pequeno suporte quando estava parado, vazio, para evitar que empinasse, apontando para o céu como um foguete.

Naquela época, havia em Varsóvia talvez dez voos diários. Ver um avião no céu era um evento. O aeroporto consistia em um pequeno prédio de alvenaria, não muito maior que este auditório, então minha mãe e eu ficamos perplexos ao chegarmos ao aeroporto JFK, com seu labirinto de portões de embarque. Para completar, nenhum de nós falava inglês.

Corremos por todo o aeroporto, quase sem fôlego, até finalmente encontrarmos o caminho para a sala de espera onde outros passageiros aguardavam sentados pelo vôo da Pan Am para Houston. Sentamo-nos e esperamos também. Então, sem qualquer alarde, a sala de espera decolou.

Foi assim que fui apresentado ao Boeing 747.

Foto do Boeing 747.

O 747 é uma obra prima do design industrial. Tudo que consideramos normal em viagens aéreas, para o bem ou para o mal, foi inventado para este avião e seu predecessor imediato, o 707. Isso inclui assentos em fileiras, bagageiros na parte superior, carrinhos de bebidas, cortinas deslizantes, o pequeno ventilador sobre o assento e por aí vai.

Existem muitas histórias maravilhosas sobre o 747. Ele era duas vezes e meia mais largo que qualquer jato de passageiros construído até então. Foi preciso construir uma fábrica especialmente para montá-lo e ela ainda não estava totalmente pronta quando as primeiras aeronaves saíram da linha de montagem. Nesse momento o design do avião ainda estava mudando. Engenheiros corriam pelo chão de fábrica, balançando desenhos alterados enquanto supervisores irritados os xingavam e botavam todos para fora.

O 747 exigiu mais de 75 mil desenhos técnicos. Todos eles foram feitos à mão. Não havia computadores para auxiliar no design e ajudar os engenheiros a descobrirem como montar as peças, apenas um gigantesco sistema de arquivos.

A Boeing teve que construir um modelo de madeira compensada, em escala natural, com base nesses desenhos, a fim de garantir que tudo se encaixaria corretamente e que os múltiplos sistemas não estavam tentando ocupar o mesmo espaço.

Desenho técnico do trem de pouso do Boeing 747.

Minha curiosidade favorita sobre o 747 é que ele foi construído pelo segundo escalão da empresa, como a equipe de reservas que joga no Brasileirão enquanto o time principal disputa a Libertadores. Todos os melhores engenheiros e os mais influentes estavam envolvidos com o projeto de maior prestígio da Boeing, o 2707, ou transporte supersônico (SST, na sigla original).

O SST voaria a quase três vezes a velocidade do som, a aproximadamente 2900 km/h. Ele tinha geometria variável e era o primeiro design de corpo largo. Todos acreditavam que o SST era o futuro das viagens de avião a jato.

O 747 foi feito para ser um tapa-buraco. Ele deveria servir as linhas aéreas até o SST entrar em serviço na década de 1970, quando ele seria rebaixado a cargueiro. Veja este anúncio da Pan Am da época, apresentando os “aviões do amanhã” que estavam “logo além do horizonte”:

Anúncio da Pam Am dos seus novos aviões.

Na verdade, aquela famosa “corcunda” no 747 está lá especificamente para facilitar a entrada de carga. Não era um avião com um futuro glamouroso.

A infame corcunda do 747.

Não era apenas a Boeing que trabalhava num SST. Os europeus estavam desenvolvendo o Concorde e a União Soviética também trabalhava em sua própria versão.

Foi um período de ascensão para a aviação. A Pan Am chegou a reservar voos comerciais para a Lua! Havia uma lista de espera com 90 mil nomes.

O objetivo de minha parábola é: imagine se você pudesse voltar no tempo e oferecer a algum daqueles engenheiros da Boeing uma amostra do que as viagens de avião se tornariam em 2014, cinquenta anos adiante.

O que ele esperaria ver?

Certificado de entrada no clube dos primeiros que voariam à Lua.

Tenha em mente que em 1965 o projeto Gemini tinha acabado de começar. Astronautas estavam na órbita da Terra, testando a tecnologia e os procedimentos necessários para se chegar à Lua. A corrida espacial estava a todo vapor. Os soviéticos e os europeus estavam ambos desenvolvendo gigantescas aeronaves supersônicas.

Gráfico da velocidade de transporte na década de 1960.Como este gráfico do período mostra (ao lado), a velocidade de transporte aumentava em taxas exponenciais e estávamos prestes a alcançar aquela subida íngreme rumo às viagens interestelares. Embora as tecnologias aplicadas continuassem mudando, a tendência geral era tão clara quanto inevitável.

Uma coisa que o engenheiro talvez pudesse esperar ver em 2014 seria um deserto radioativo. A Guerra Fria era uma dura realidade e muitos achavam que ela terminaria em desastre.

Mas se nós não tivéssemos nos matado uns aos outros, ele teria esperado ver bases na Lua, talvez uma em Marte. Ele não ficaria surpreso em ver carros voadores em todos os lugares ou aviões atômicos com alcance ilimitado.

Sem dúvidas, haveria viagens supersônicas rotineiras, com conforto e velocidade inimagináveis, entre quaisquer duas cidades do mundo inteiro.

Projeção de como seriam os aviões do futuro nos anos 1960.

Considere o que o engenheiro viu acontecer em seu próprio tempo de vida:

  • As primeiras tentativas de voo motorizado aconteceram por volta do momento em que ele nasceu.
  • Nos anos 1920, quando ele era um garoto, aviões como o Junkers G-24 poderiam voar com 14 passageiros a 170 km/h.
  • Os anos 1930 trouxeram o DC-3, totalmente feito de metal. Ele poderia transportar 30 pessoas a 333 km/h. Esta também foi a fase dos famosos Boeing Clippers. Eles tinham luxuosas beliches e levavam seis dias para viajar de San Francisco a Hong Kong.
  • Nos anos 1940, a Boeing apresentou o Stratocruiser, um avião pressurizado que poderia voar a 480 km/h.
  • Finalmente, nos anos 1950 a Boeing entrou na era dos jatos com o Boeing 707, que poderia cruzar o Oceano Atlântico a quase 1000 km/h.

A última coisa que aquele engenheiro da Boeing esperaria ver em 2014 é o que de fato aconteceu. Este é o avião de passageiros mais avançado da atualidade, o Boeing 787:

Boeing 787 decolando.

A não ser que seja um especialista em aviões, você dificilmente consegue distinguir o 787 de seu avô:

Boeing 747 e 787.

Aliás, esse novo e revolucionário avião é mais lento que o 707.

A configuração básica de uma aeronave não mudou em sessenta anos. Há um longo tubo, motores instalados sob asas amplas e uma velocidade máxima de aproximadamente 900 km/h.

O que aconteceu com o futuro?

Não é que a tecnologia fracassou. Nós construímos, testamos e voamos em aeronaves gigantes que poderiam se mover três vezes mais rápido que a velocidade do som.

Este é o Valkyrie, um bombardeiro estratégico gigantesco pintado de branco para não pegar fogo devido ao brilho das bombas nucleares que ele mesmo carregava. Esse avião foi testado em 1965 e quase chegou a ser produzido:

O bombardeiro Valkyrie.

O SR-71 Blackbird, outro avião Mach-3, chegou a ser produzido e voou por décadas. Ele ainda detém todos os recordes de velocidade:

SR-71 Blackbird, recordista em velocidade.

Nós até conseguimos aviões de passageiros supersônicos! O Concorde iniciou suas atividades comerciais e transportou idiotas esnobes de um lado a outro do Atlântico com segurança por 25 anos. Se você tem a minha idade talvez se lembre de ter visto um taxiando no aeroporto:

Concorde levantando voo.

Os russos também tiveram os seus, com um avião sarcasticamente batizado de Concordeski. Ele se mostrou muito barulhento e não confiável para passageiros, então acabou transformado num jato de transporte. Ele trazia frutas e legumes da Ásia Central a pelo menos duas vezes a velocidade do som.

Meu trecho favorito no artigo da Wikipedia é o que diz que o avião era tão barulhento que “não era possível ouvir um passageiro gritar a dois assentos de distância”. Ele teria que te passar um bilhete dizendo “Aaahhhhhh”.

A primeira vez que colocaram jornalistas a bordo, havia tantos alarmes apitando que o piloto teve que pegar um travesseiro emprestado de um dos passageiros para abafar a sirene. Mas ele voou!

E não é como se o programa espacial tenha sido um fracasso. Nós aterrissamos homens na Lua não uma, mas seis vezes. E porque somos americanos, nós não levamos apenas o homem — nós colocamos carros na Lua, três deles.

Teve até um cara que jogou golfe lá.

Alan Shepard jogando golfe na Lua.
Alan Shepard, da Apollo 14, em 6 de fevereiro de 1971.

Nosso pobre engenheiro teria todo o direito de achar que as conquistas que ele viu ao longo de toda a sua vida de trabalho estavam alinhadas para continuarem. Ele viveu um tempo de mudanças tecnológicas velozes, onde em dez anos nós fomos de aviões movidos a hélices à exploração lunar.

A próxima geração tecnológica não era apenas um sonho, ela já era um protótipo. Mas tudo isso meio que parou.

Nós temos uma estação espacial em 2014, mas é muito constrangedor falarmos sobre ela. De vez em quando enviamos uns canadenses para lá.

Nem se incomode com a Lua — não podemos mais sequer colocar astronautas em órbita. Se quisermos ir à nossa patética estação espacial, temos que pedir aos russos, e eles são maus com a gente.

Você consegue imaginar a expressão nos olhos daquele engenheiro? A tecnologia apontava para uma direção, o futuro era claro e inevitável. E então ele nunca aconteceu. Por quê?

Primeiro, deparamo-nos com retornos financeiros reduzidos. Na medida em que esses aviões se tornavam mais rápidos, eles também ficavam mais caros para serem projetados e operados. Empurrar todo aquele ar para fora do caminho exige materiais exóticos e grandes quantidades de combustível.

Com o programa espacial era ainda pior. Aqueles foguetes usavam muito dinheiro público que poderia ser melhor gasto bombardeando o Vietnã.

Segundo, problemas inesperados aconteceram. Economistas usam aquela palavrinha ótima, “externalidades”, para qualquer coisa que eles encontram que não encaixe em seus modelos de mundo. Uma externalidade para os aviões supersônicos era o estrondo sônico. A Força Aérea dos EUA gastou seis meses voando com supersônicos sobre a cidade de Oklahoma para se convencer de que barulhos constantes incomodam as pessoas.

Outra externalidade foi que as emissões dos SSTs danificavam a camada de ozônio. A Boeing ficou genuinamente surpresa que as pessoas se importassem com isso. O que tem de mais o Sol atravessar sua janela quebrada e queimar a sua pele se você pode ter um avião supersônico?

Mas não valia a pena, porque as tecnologias que já tínhamos eram boas o bastante. No final, pouquíssimas pessoas precisavam cruzar o oceano em três horas em vez de seis. A caminho dessa conferência voei da Suíça para San Francisco. Isso me tomou onze horas e eu gastei em torno de US$ 1.000. Foi um longo vôo, meio desconfortável e entediante. Mas eu cruzei o planeta em meio dia!

Aeroporto JFK, visto de cima.
Foto: Daniel Piraino/Flickr.

Ser capaz de chegar a qualquer lugar no mundo em um dia é realmente bom o bastante. Nós reclamamos muito das viagens de avião, mas considere que por uns dois mil dólares você consegue chegar a qualquer lugar literalmente de um dia para outro.

As pessoas que projetavam os aviões do amanhã ficaram tão obcecadas pela tecnologia que se esqueceram de fazer a pergunta crucial: “Para que estamos construindo isto?”

Hoje eu espero persuadir vocês de que a mesma coisa que aconteceu à aviação está acontecendo com a Internet. Cá estamos, cinquenta anos após a revolução dos computadores, no que parece o nosso momento de maior progresso. Os contornos do futuro parecem claros e, cara… como eles são futuristas.

Mas estamos nos deparando com barreiras físicas e econômicas que não valem a pena ultrapassar. Estamos começando a ver que colocar todas as coisas online tem custos sociais reais e problemáticos. E os dispositivos que usamos estão se tornando “bons o bastante”, ao ponto em que podemos nos concentrar em torná-los mais baratos, mais eficientes e acessíveis a todos.

Apesar das aparências e do sentimento de que as coisas estão acelerando e mudando mais rápido do que nunca, quero fazer a previsão chocante de que a Internet de 2060 será basicamente a mesma Internet de hoje.

A não ser que nós estraguemos tudo.

E eu quero convencê-los de que essa é a melhor notícia possível para vocês, designers, e para todos nós, pessoas comuns.

Crescimento exponencial e a Lei de Moore

A característica definidora de nossa indústria desde a invenção do transistor foi o crescimento exponencial.

Crescimento exponencial é um daqueles chavões que têm um significado técnico exato. Ele apenas significa que a coisa continua dobrando de tamanho repetidamente. Pessoas que escrevem sobre divulgação científica não se cansam de dizer que temos uma intuição fraca para o crescimento exponencial.

Por exemplo, aqui está Britney Gallivan com uma folha de papel dobrada onze vezes:

Britney Gallivan dobrando uma folha de papel.

Se ela pudesse dobrar aquela folha cinquenta vezes, a pilha de papel chegaria perto do Sol e teria o diâmetro de meio próton. (Dobrar esse último próton que é a parte realmente difícil.)

Esse exemplo ilustra as duas coisas que você precisa saber sobre crescimento exponencial: ele torna possível alcançar números enormes rapidamente e ele sempre bate em barreiras físicas.

Estou certo de que vocês já ouviram falar da Lei de Moore. Em sua forma original, ela diz que “o número de transistores que nós podemos produzir em larga escala numa pastilha de silício dobra” a cada um ou dois anos. Moore fez esta observação em 1965 e ela se manteve desde então.

Há também uma interpretação popular da Lei de Moore, que diz que “os computadores sempre ficam mais rápidos e capazes”.

Por 50 anos nós nadamos nessa onda. Quem viveu os anos 1990 e 2000 deve se lembrar da sensação. Você comprava um computador e poucos meses depois haveria um modelo melhor, duas vezes mais rápido, pelo mesmo preço.

Naqueles dias havia uma corrida armamentista entre Intel e AMD, as principais fabricantes de chips para o mercado de consumo. A Intel lançava um processador com 1 GHz e a AMD vinha em seguida com um rival de 1,1 GHz. As CPUs eram definidas pela velocidade, e as velocidades continuavam aumentando. Até que, repentinamente, por volta de 2005, surgiu uma barreira.

A Intel estava trabalhando num monstruoso chip de 7 GHz. O problema era o calor gerado por esse chip, 150 Watts, ou o mesmo que um forno de cozinha.
150 Watts é o tipo de lâmpada que pode te colocar numa enrascada durante a faculdade, porque ela ameaça atear fogo em seu pôster do Bob Marley.

Impedida por todo esse calor, a Intel mudou a estratégia. Em vez de tornar as CPUs menores, mais quentes e mais rápidas, eles iriam começar a colocar mais de uma delas em cada pastilha.

De repente tínhamos “núcleos”. O software não podia apenas ficar mais rápido com cada geração de processadores. Agora, ele precisava ser escrito de forma que pudesse usar esses “núcleos”. Até hoje os programadores estão se engalfinhando com esse conceito.

Embora a Lei de Moore tecnicamente ainda se mantenha — o número de transistores em um chip continua aumentando –, seu espírito está partido. Computadores não se tornam mais rápidos com o tempo. Na verdade, eles estão ficando mais lentos!

Isso acontece porque estamos migrando de desktops para notebooks, e de notebooks para smartphones. E agora algumas pessoas estão ameaçando nos empurrar para relógios de pulso.

Em termos de capacidade, esses dispositivos são um passo para trás. Comparados aos seus irmãos desktops, eles têm memórias limitadas, processadores fracos e armazenamento minimamente adequado.

E ninguém se importa, porque as vantagens de se ter um dispositivo conectado, portátil e leve são sensacionais. E porque para os objetivos de tirar fotos, fazer ligações e navegar na Internet, eles já cruzaram a barreira do “bons o bastante”. O que as pessoas esperam dos computadores hoje é telas melhores, maior autonomia de bateria e, acima de tudo, uma conexão melhor à Internet.

Smartphones genéricos rodando Android.

Algo similar aconteceu com o armazenamento, onde a taxa de crescimento foi ainda mais rápida que a Lei de Moore. Lembro-me do disco rígido mais avançado, de 1 MB, o estado da arte em nossa sala de computador no ensino médio. Ele custou mil dólares.

Este (abaixo) é um HD com capacidade de alguns megabytes, da década de 1970. Gosto de pensar que o cara da foto não precisava vestir a roupinha de coelho, só era algo que ele curtia usar:

Um enorme e caro HD de alguns mega bytes.

Os discos rígidos modernos são cem vezes menores, com capacidade cem vezes maior e custam uma mixaria. A Seagate recentemente lançou um HD de 8 TB para consumidores.

Mas, novamente, nós escolhemos recuar ao começar a usar memórias em estado sólido (SSD), as que você encontra em smartphones e computadores mais modernos. A memória flash sacrifica capacidade em troca de velocidade, eficiência e durabilidade. Ou então colocamos nossos dados “na nuvem”, que tem vasta capacidade, mas é mais lenta em muitas ordens de magnitude.

Essas são as vitórias do bom o bastante. Essa coisa é suficientemente rápida.

A Intel provavelmente poderia fazer um processador de 20 GHz, assim como a Boeing pode fazer um avião de passageiros Mach-3. Mas elas não vão. Há uma lógica acessória à Lei de Moore, a que a cada vez que se dobra o número de transistores, o custo de produção se eleva. A cada dois anos a Intel precisa construir uma nova fábrica e uma nova linha de produção para esse produto. E a indústria está se afastando do altíssimo desempenho, porque a maioria das pessoas não precisa dele.

O hardware ainda está melhorando, mas está melhorando juntamente a outras dimensões, as quais já alcançaram seus limites de miniaturização e não podem mais usar esse truque que nos proporcionou aquele crescimento exponencial.

Autonomia de bateria, por exemplo. Os limites na densidade energética são muito mais severos que os de velocidade do processador. E é muito difícil progredir. Até aqui, nossos avanços vieram de tornar os processadores mais eficientes, não de alguma revolução na química das baterias.

Outro limite que não cresce exponencialmente é a nossa habilidade de mover informação. Não há utilidade em ter um HD de 8 TB se você está tentando preenchê-lo baixando arquivos pela conexão da sua operadora móvel. Limitações de dados nos atingem em múltiplos níveis. Há limites na velocidade com a qual cada núcleo do processador conversa com a memória, quão rápido o computador conversa com os periféricos e, acima de tudo, quão rápido os computadores conversam com a Internet. Nós conseguimos armazenar quantidades incríveis de informações, mas não conseguimos movê-las por aí.

O mundo do futuro próximo é um de dispositivos limitados pelo consumo de energia em um ambiente de conexão de dados limitada. É muito diferente do passado recente, quando o desempenho do hardware aumentava regularmente, com mais armazenamento e processadores mais rápidos a cada ano.

E como designers, vocês deveriam estar dando pulinhos de alegria e alívio, porque essas limitações severas são a parteira do bom design. As duas últimas décadas nos deixaram com o que eu chamo de ressaca exponencial.

Ressaca exponencial

Nossa indústria está em completa negação de que a onda do crescimento exponencial acabou. “Por favor, faremos qualquer coisa! Computação óptica, computadores quânticos, o que for preciso. Nós trocaremos o silício para qualquer coisa que vocês queiram. Só não leve nossos brinquedos embora.”

Todo esse crescimento exponencial nos deixou com hábitos terríveis. Um deles é ignorar o presente.

Quando as coisas estão dobrando, a única posição sã de se estar é na tecnologia de ponta. Por definição, o crescimento exponencial significa que o produto que virá depois do atual será de igual importância a tudo que veio antes. Assim, se você não está trabalhando na próxima grande coisa, você não é nada.

Isso nos leva a desprezar o passado. Muito do que foi criado nos últimos 50 anos se perdeu porque ninguém teve o cuidado de preservar.

Como eu tenho e vivo de um site para salvar links, fiz uma pequena pesquisa de links quebrados. Links favoritos, salvos ali, são diferentes de URLs normais porque presumivelmente qualquer coisa que você salva valeu a pena guardar em algum momento. O que eu aprendi é que aproximadamente 5% disso tudo desaparece todo ano, num ritmo bem acelerado. Um cliente meu postou recentemente sobre como 90% das coisas que ele salvou em 1997 já não existe mais. Isto é comum, infelizmente.

Temos esforços heroicos, como o Internet Archive, para preservar as coisas, mas é como queimar casas e então comemorar quando os bombeiros chegam para resgatar o que ficou dentro delas. Não é a melhor forma de organizar uma cultura. Nós tomamos mais cuidado com anotações em papel do que com os primeiros anos da Internet porque no mínimo olhamos os papéis antes de descartá-los.

Esse desprezo pelo passado também ignora a realidade da nossa indústria, na qual trabalhamos quase exclusivamente com tecnologias legadas:

  • O sistema operacional que faz funcionar a Internet tem 45 anos.
  • Os protocolos sobre como os dispositivos conversam entre si têm 40 anos.
  • Até o que nós pensamos ser a web já tem mais de 25 anos.
  • Parte do que usamos é definitivamente antigo — telas planas foram inventadas em 1964 e o teclado tem 150 anos.
  • O processador que é o modelo para os CPUs atuais data de 1976.
  • Até o e-mail, que todo mundo vive tentando reinventar, está se aproximando da idade de aposentadoria compulsória.

Slide com o ano de invenções ainda usadas hoje na tecnologia de consumo.

Eu trapaceei quando chamei esta palestra de “Web Design: Os primeiros 100 anos” porque nós já estamos quase na metade deles. Não importa quanto desprezo tenhamos por essas coisas, nem o quanto nós insistimos que elas serão substituídas por uma nova geração de tecnologias melhores; as antigas se recusam teimosamente a irem embora. Nossa indústria tem raízes profundas no passado que deveríamos celebrar e reconhecer.

O outro lado do nosso desdém pelo passado é o amor pela mudança gratuita. Qualquer funcionário de escritório que usa os produtos da Microsoft conhece esse martírio. Em algum momento razoavelmente cedo, o Microsoft Office se tornou bom o bastante. O Windows se tornou bom o bastante.

Mas isso não impediu a Microsoft de lançar constantemente novas versões e forçar as pessoas a atualizarem seus sistemas. Eu implico com a Microsoft porque muitos de nós temos experiência com seu software, mas essa é uma verdade válida para todos os desenvolvedores de software.

Wallpaper padrão do Windows XP.

Considere a guerra que a Microsoft está travando contra os usuários do Windows XP. Depois de anos de correções, o XP se tornou um sistema estável, amado e útil. Quase 25% dos PCs desktops ainda o utiliza.

Isto é considerado uma crise nacional.

Em vez de oferecer aos usuários razões persuasivas para atualizar o software, as fabricantes insistem para que olhemos as atualizações como se fosse um dever moral. A ideia que algo deve funcionar bem do jeito que está não tem lugar na cultura da tecnologia.

Um outro sintoma da nossa ressaca exponencial é o inchaço (“bloat”). Assim que os sistemas demonstram sinais de desempenho, os desenvolvedores acrescentam abstração suficiente para deixá-lo à beira do inutilizável. O software permanece para sempre nos limites do que as pessoas conseguem tolerar. Desenvolvedores e designers, juntos, criam sistemas inchados na esperança do hardware alcançá-los a tempo e cobrir seus erros.

Reclamamos por anos que os navegadores não conseguiam processar layout e JavaScript de maneira consistente. Assim que isso foi resolvido, ocupamo-nos em escrever bibliotecas que reimplementavam o navegador dentro de si, só que mais lento.

Estamos em 2014, considere uma plataforma de blogs do momento, o Medium. Um PC de última geração me toma uns dez segundos para carregar e renderizar uma página do Medium (que é, literalmente, um arquivo de texto formatado). Essa experiência era mais rápida nos anos 1960.

A web é cheia desses abusos, animações extravagantes, etc, sempre um passo adiante do hardware, esperando que ele a alcance.

Essa ressaca exponencial leva a uma sensação de desespero exponencial.

Qual é o objetivo de dedicar tanto esforço a algo que vai desaparecer ou se transformar em apenas alguns meses? A empolgação que sentimos quando algo novo está prestes a sair também traz um desgosto sobre qualquer coisa em que estejamos trabalhando agora e o medo de estarmos perdendo a próxima grande coisa.

Outra parte da nossa ressaca exponencial se manifesta na forma como montamos nossos negócios. O culto do crescimento nega a ideia de que é possível construir qualquer coisa útil a não ser que você esteja preparado para trazê-la à “escala da Internet”. Não há motivo para abrir uma barraquinha de limonada se você não estiver preparado para bater de frente com a PepsiCo.

Sempre imaginei que as coisas deveriam seguir noutra direção. Uma vez que se removem as barreiras da distância, há espaço para todos os tipos de produtos de nicho malucos encontrarem um pequeno público online. As pessoas podem tirar seu sustento de formas que não seriam possíveis no mundo físico. O capital de risco tem seu lugar como uma forma útil de financiar projetos grandiosos, mas nem tudo se encaixa nesse modelo.

O culto do crescimento nos levou a uma web estéril e centralizada. E, tendo queimado todas as ideias fáceis em nossa indústria, estamos convencidos de que é nosso destino manifesto começar a sacudir todos os outros mercados.

Acho que é hora de nos perguntarmos uma questão típica do design: “para que mesmo é a Internet?”

As três visões

Vou argumentar que existem três visões sobre a web competindo neste momento. A que nós definirmos como vencedora determinará se a divertida e idiossincrática Internet atual sobreviverá.

Visão 1: Conectar conhecimento, pessoas e gatinhos

Gatinho no PC.

Esta é a visão correta.

A web apaga as barreiras da distância entre as pessoas e coloca todo o conhecimento humano nas pontas dos dedos. Ela também nos permite olhar imagens e vídeos de milhões de gatinhos, todas praticamente de graça, de nossas casas ou de pequenos dispositivos que carregamos no bolso.

Ninguém é dono dela, ninguém a controla e você não precisa de permissão para usá-la. E a melhor parte é que você é encorajado a contribuir, a dar um retorno. Você pode postar suas próprias fotos de gatinhos.

Por que isso não é o suficiente?

A visão felina da Internet é, fundamentalmente, uma visão humilde, pois ela não presume que desenvolvedores e designers saibam o que estão fazendo. Não há limites sobre o que as pessoas e os gatinhos podem alcançar, uma vez que você os conecta. Em um planeta de sete bilhões de pessoas e milhões de gatinhos, as chances de você ser capaz de ter as melhores ideias sobre tudo é zero. Alguém sempre virá com algo que você não esperava. Uma web que conecta pessoas de uma forma que elas podem contribuir dá aos seus autores a chance de se surpreenderem.

Já vimos essa história diversas vezes, no sentido de que os aspectos mais produtivos e revolucionários da cultura da web vieram do nada. A ideia de uma enciclopédia livre e universalmente editável parecia maluca. A ideia de que um sistema operacional gratuito poderia ser a base de metade da Internet era insana. Que voluntários nos comentários de blogs poderiam escrever artigos colaborativos de matemática com alguns dos mais brilhantes matemáticos do mundo parecia fora da realidade.

Uma moeda totalmente baseada na indexação criptográfica ainda soa insana, mas é certamente algo interessante.

Até a própria World Wide Web é o produto de um aficionado por física trabalhando nisso e convencendo seus colegas a experimentarem algo novo.

A internet está cheia de grandes e pequenos projetos cujo traço definidor é que eles vieram do nada e captaram a imaginação das pessoas. E ainda está cheia de vídeos de gatinhos sensacionais. A parte mais importante dessa visão é que a Internet sucede ao permanecer aberta e participativa. Ninguém age como um porteiro e ela não é apenas um canal para consumo despretensioso.

Visão 2: Consertar o mundo com software

Cara usando um óculos bem esquisito.

Esta é a visão majoritária no Vale do Silício.

O mundo é apenas uma enorme bagunça, um acidente da história. Nada é feito de forma tão eficiente ou inteligente quanto poderia se fosse desenvolvido desde o início por programadores da Califórnia. O mundo é um sistema legado, abandonado e desesperado por otimização.

Se você já usou algum software, reconhecerá essa como uma ideia apavorante. Consertar o mundo com software é como cortar cabelo com um cortador de grama. Na teoria, funciona, mas não há espaço para erros na implementação.

Essa visão sustenta que a web só é um primeiro passo necessário para um futuro brilhante. Para consertar o mundo com software, temos que fazer a ligação do software com as vidas das pessoas. Tudo deve ser instrumentalizado, quantificado e interligado. Todos os dispositivos, construções, objetos e até mesmo nossos corpos devem se tornar “smart” e acessíveis pela rede. Assim, conseguiremos otimizar muito das nossas vidas.

Marc Andreessen, investidor do Vale do Silício.

Marc Andreessen (acima) disse esta frase cativante, que “o software está comendo o mundo.” Ele está feliz com isso. A ideia é que indústria após indústria cairá nas mãos de programadores que as automatizem e racionalizem.

Nós começamos com a música e a imprensa. Depois, foi a vez do comércio. Agora, aparentemente, estamos fazendo com o serviço de táxis. Vamos mover uma sucessão de indústrias para a nuvem e descobrir como torná-las ainda melhores. Se temos o direito de fazer isso, ou se é uma boa ideia, são discussões acadêmicas que serão esvaziadas pela força implacável do Progresso. É um tipo de destino manifesto do software.

Para alcançar essa visão, devemos ter o software como intermediário em cada interação humana e no nosso espaço físico. Mas e se depois que o software comer o mundo, ele transformá-lo em bosta?

Considere o quão fundamentalmente antidemocrática esta visão da web é. Porque a web começou como uma conquista técnica, pessoas técnicas são aquelas que vão dar as ordens. Nós decidiremos como mudar o mundo e o resto de vocês deve se adaptar.

Há algo muito colonial, também, sobre coletar dados dos usuários e reempacotá-los para vender de volta a eles. Penso nisso como a Responsabilidade do Nerd Que Se Acha.

Anúncio em outdoor do Facebook.

A utopia tecnológica já foi tentada antes e levou a resultados bem ruins. Não há desculpa para não estudar a história do positivismo, do Marxismo científico e outras tentativas de racionalizar o mundo, antes de fazer promessas similares sobre o que será feito com software.

Assim como tudo na tecnologia, há algo anterior!

E então temos a terceira visão da Internet.

Visão 3: Tornar-nos deuses, criaturas imortais de pura energia vivendo em um paraíso cristalino que nós mesmos construímos

Bebê estilo Matrix.

Esta é a visão insana. Estou um pouco envergonhado de abordá-la, porque ela é muito estúpida. Mas as circunstâncias exigem.

Nessa visão a Internet e a web são apenas o primeiro degrau de uma escada que leva a implantes neurais, computadores sencientes, nanotecnologia e, eventualmente, a Singularidade, aquele momento místico em que o progresso acontece tão rapidamente que todos os problemas da humanidade desaparecem e são substituídos, presumivelmente, por outros problemas que estão além do nosso entendimento atual.

Essa é a visão dos “retornos acelerados”, muito similar àquele gráfico do taco de Hockey que mostrei antes, no qual nós supomos que teríamos viagens interestelares em 2010.

Tal visão apocalítica da Internet e do progresso técnico influenciou a imaginação de algumas das pessoas mais influentes de nossa indústria. Pessoas adultas, capazes de amarrar os próprios sapatos e com permissão para atravessar a rua, acreditam seriamente que estamos andando em uma corda bamba entre o risco existencial e a imortalidade.

Alguns deles são as pessoas mais poderosas da nossa indústria, gente que pode dar um toque no Barack Obama sobre os perigos da nanotecnologia, e aí o Obama tem que dizer “Michele, eu preciso atender esta ligação”.

“Barack, são três horas da manhã.”

“Eu sei, mas esse cara tem medo de inteligência artificial senciente, e é um grande doador.”

E, então, Obama precisa sentar e ouvir toda aquela baboseira.

Barack Obama falando ao telefone.

Pelo fato de que as pessoas poderosas da nossa indústria leram ficção científica ruim quando eram crianças, agora nós confrontamos uma visão estúpida da web como passagem para o paraíso dos robôs.

Ray Kurzweil, o imortal.
Ray Kurzweil.

Este é Ray Kurzweil, um homem que acredita sinceramente que nunca morrerá. Ele trabalha no Google. Presumivelmente, ele continua no Google por acreditar que isso promove sua teoria. O Google trabalha em algumas coisas malucas além de encher a Internet de anúncios.

Elon Musk.
Elon Musk.

E este é Elon Musk, co-fundador do PayPal, construtor de foguetes e carros elétricos. Musk tem uma mochila preparada para a rebelião das máquinas:

“O risco de algo seriamente perigoso acontecer está num intervalo de cinco anos adiante. Dez anos, no máximo.

Com a inteligência artificial, estamos invocando o demônio. Em todas essas histórias onde há um cara com um pentagrama e a água benta, é tipo — ‘sim, claro que ele vai controlar o demônio.’ Nunca funciona.

Precisamos ser super cautelosos com IA. É potencialmente mais perigosa que bombas nucleares.

Espero que nós não sejamos apenas o bootloader biológico para a super inteligência digital. Infelizmente, isto é cada vez mais provável.”

Deixe-me dar um pouco de contexto aqui.

Caenorhabditis elegans, um verme nematoide.
Caenorhabditis elegans.

Este amiguinho acima é o Caenorhabditis elegans, um verme nematoide que tem 302 neurônios. O estado da arte absoluto da simulação de inteligência é este verme. Nós conseguimos simular seu cérebro em super computadores e fazê-lo se mexer e reagir, embora não com total fidelidade.

E aqui estou falando apenas da nossa capacidade de simular. Nós nem mesmo sabemos por onde começar a ensinar este c. elegans virtual a se tornar um verme nematoide melhor e mais esperto.

Ou melhor, esqueça os vermes — nós sequer temos computadores poderosos o suficiente para emular o hardware de um Super Nintendo.

Se você conversar com alguém que faz um trabalho sério em inteligência artificial (e é significativo que as pessoas mais amedrontadas com IA e nanotecnologia são as que têm menos experiências com elas), essa pessoa te dirá que o progresso é lento e linear, como ocorre em outros campos da ciência.

Mas enquanto pessoas irracionalmente medrosas forem os cabeças da nossa indústria e tiverem o ouvido dos governos, nós temos que levar a sério a visão idiota delas.

Tomei a liberdade de ilustrar o maior medo do Elon Musk:

O maior medo de Elon Musk.

Na melhor das hipóteses, ter no topo da nossa indústria figuras que acreditam em contos de fadas é uma distração. Na pior delas, isso promove um tipo de pensamento messiânico e utopias apocalípticas que podem levar as pessoas a fazer coisas perigosas com todo seu dinheiro.

Essas três visões levam a três mundos radicalmente diferentes.

Se você pensa que a web é um jeito de “conectar conhecimento, pessoas e gatinhos”, então seu trabalho é colocar as pessoas e os gatinhos online, colocar uma fonte bonita no conhecimento, e então relaxar e assistir à magia acontecer.

Se você pensa que seu trabalho é “consertar o mundo com software”, então a web é só o começo. Ainda há muito trabalho a fazer. Você precisará de sensores em cada casa e será útil se todo mundo passar a enxergar através de óculos especiais e se cada geladeira puder conversar com a Internet e confessar seu conteúdo. Você promete conectar todas essas coisas para nós e, em troca, lhe daremos todos os detalhes de nossas vidas particulares. E nós não precisamos nos preocupar com pessoas fazendo coisas ruins com eles, pois sua política existe para evitar que isso aconteça.

E se você acredita que o objetivo da internet é “tornar-nos deuses, criaturas imortais de pura energia vivendo em um paraíso cristalino que nós mesmos construímos”, então seu objetivo é a revolução total. Tudo deve acabar. O futuro precisa chegar o quanto antes, porque seu relógio biológico não para!

O primeiro grupo quer CONECTAR O MUNDO.

O segundo grupo quer COMER O MUNDO.

E o terceiro grupo quer ACABAR COM O MUNDO.

Essas visões não são compatíveis.

Sei que tudo isso soa um tanto grandioso. Vocês vieram aqui para ouvir sobre seletores de mídia, não aviação ou escatologia.

Mas todos vocês precisam escolher um lado.

Neste momento existe um profundo senso de irrealidade na indústria de tecnologia. Todos os problemas serão resolvidos com tecnologia, especialmente aqueles causados por tecnologias anteriores. A nova tecnologia vai consertá-los.

Nós vemos negócios que não produzem absolutamente nada, operando com perdas embasbacantes e, ainda assim, avaliados em bilhões de dólares. Vemos um ecossistema inteiro de startups e negócios que parecem existir apenas para servir uns aos outros ou às necessidades de trabalhadores da indústria da tecnologia muito ricos e ocupados, uma fatia ínfima do nosso mundo.

Ao mesmo tempo, ouvimos grandiosas promessas sobre como a tecnologia vai melhorar fundamentalmente a vida de cada pessoa do mundo, embora isso contradiga nossas próprias experiências nos últimos 30 anos.

Há algo suspeito sobre todo esse progresso prometido. O motor está acelerando mais e mais. É possível ver que o acelerador está travado, mas de alguma forma a paisagem fora da janela nunca muda.

Quando dizemos que o Vale do Silício não parece estar em sintonia com o mundo real, que os salários não avançaram em 30 anos, que a Utopia parece ainda mais distante do que estava para a geração anterior, recebemos desculpas impacientes.

A cultura da tecnologia age como um caloteiro que vive no sofá do nosso porão. Você pergunta a ele:

— Quando você fará todas as coisas que prometeu?

— Ah, espere até todos terem computadores.

— Todos já têm.

— OK, então espere até todos estarem online.

— Todos estão. Por que o mundo não melhorou?

— Bem, espere até todos terem smartphones… e dispositivos vestíveis…

E as desculpas continuam.

A resposta verdadeira é que a tecnologia não mudou o mundo porque nós não nos importamos o suficiente para mudá-lo.

Tem uma frase do William Gibson que Tim O’Reilly gosta de repetir: “O futuro está aqui, ele só não está bem distribuído ainda.” O’Reilly quer dizer que se nos cercarmos das pessoas certas, isto pode nos dar uma prévia das atrações futuras.

Gosto de interpretar essa frase de forma diferente, como um chamado à ação. Em vez de esperar passivamente pela tecnologia mudar o mundo, vamos ver o quanto podemos fazer com o que já temos em mãos.

Vamos exigir de volta a web dos tecnologistas que nos dizem que o futuro que eles imaginaram é inevitável e que nosso papel nele é de consumidores.

A web pertence a todos nós, e aqueles de nós que estão aqui passarão o resto de suas vidas trabalhando nela. Assim, precisamos torná-la nosso lar.

Vivemos num mundo onde não milhões, mas bilhões de pessoas trabalham em campos de arroz, fábricas têxteis e onde crianças crescem numa pobreza assustadora. Desses bilhões, quantos são as mentes brilhantes de nosso tempo? Quantos merecem mais do que recebem? E se, em vez de sonharmos em mudar o mundo com a tecnologia do amanhã, nós usássemos as tecnologias de hoje e deixássemos o mundo nos mudar? Por que precisamos temer tanto a inteligência artificial, quando estamos perdendo tanta inteligência natural?

Slide 'A Internet para pessoas'.
A Internet para pessoas.

Quando falo sobre cem anos de web design, falo como um desafio. Não há uma lei garantindo que as coisas continuarão melhorando. A web que temos hoje é linda. Ela destrói a tirania da distância. Ela abre as bibliotecas do mundo para você. Ela te dá uma forma de testemunhar o que pessoas do outro lado do mundo têm a dizer, com suas próprias palavras. Ela está cheia de gatinhos. Nós a criamos por acidente e, ainda assim, não a valorizamos. Nós deveríamos lutar para mantê-la!

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.
Revisão por Guilherme Teixeira.
Foto do topo: Camille Gévaudan/Flickr.

Cadê os anúncios?

O Manual do Usuário é um projeto independente, que se propõe crítico e que respeita a sua privacidade — não há scripts de monitoramento ou publicidade programática neste site. Tudo isso sem fechar o conteúdo para pagantes. Essas características são vitais para o bom jornalismo que se tenta fazer aqui.

A viabilidade do negócio depende de algumas frentes de receita, todas calcadas na transparência e no respeito absoluto a você, leitor(a). A mais importante é a do financiamento coletivo, em que leitores interessados sustentam diretamente a operação. A assinatura custa a partir de R$ 5 por mês — ou R$ 9/mês para receber recompensas exclusivas:

Assine no Catarse

Newsletter

Toda sexta-feira, um resumo do noticiário de tecnologia, indicações de leitura e curiosidades direto no seu e-mail, grátis:


Nas redes sociais, notícias o dia todo:
Twitter // Telegram