O cérebro humano tem um bug

Detalhe de uma página de V.I.S.H.N.U.

O estupor que causa a leitura de V.I.S.H.N.U., de Eric Acher, Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco, é algo impressionante, similar a um filme de ação visto no cinema. Talvez as falas não sejam o ponto forte, porque algumas perdem o ritmo em sua banalidade, mas a combinação de uma história frenética com desenhos imersos numa espécie de permanente penumbra de insólita imprecisão em preto e branco, te arrastam junto com os personagens que se agarram desesperadamente nas poucas chances que têm de sobreviverem em um mundo em constante conflito com as máquinas e, claro, com os próprios humanos.

Daí você (é, você!), leitor assíduo e voraz de tudo relacionado a tecnologia, pode listar um sem número de ótimos textos entusiasmados e inflamados a respeito do quão poderosa pode ser a vida com a ajuda ou a batuta da inteligência artificial, mas o problema, ou melhor, a questão, é que o argumento dessa bela graphic novel é de um consultor de informática (Eric Acher) e não de um cara, digamos, de fora do meio… Isso me surpreendeu bastante. As referências desse consultor são boas o bastante para qualificá-lo, seja nas suas preocupações verdadeiras ou nas que ele imagina, a criar uma história bem consistente e, principalmente, para adultos. Talvez, aos desatentos, os gibis, como os chamamos por aqui, sejam um gênero tão incrível que seu lugar, juntamente com certos jogos de video game, que formam um contexto mais recente que a da velhíssima literatura ocidental. Ele está assegurado naquilo que se pode considerar como o melhor da criação humana.

Vale ver essa entrevista com os criadores:

A superioridade que uma máquina com grande poder computacional pode atingir ainda é algo restrito ao plano ficcional, porque, até o momento, nos incomodam mais a derrota humilhante que enfrentou o enxadrista Sergey Kasparov, os mortos por ataques feitos com Drones e os empregos perdidos nas áreas rurais e urbanas por conta de sofisticadas “engenharias sociais” envolvendo seja o uso de computadores ou de maquinário robotizado. Essas coisas são apenas arranhões que perpassam nossas vidas realmente vividas no plano concreto (é preciso essa sequência de palavras para contornar o mundo virtual que se expande acelerado) do que o que pode vir por aí com as inteligências artificiais funcionando a todo vapor e com “melhorias” constantes.

Se você se entusiasmar com a obra — que ganhou formato físico especial, ao emular a forma de uma capa de disco de 29×29 cm (e isto não é gratuito na história), transformam o livro num lindo trambolho: difícil de carregar por aí, mas extremamente prazeroso de ler esparramado num canto sossegado –, serão necessárias apenas algumas horas e uns poucos minutos para se assimilar a proposta gráfica, ambientada num futuro impossível de precisar, mas repleto de robôs e de um assistente pessoal, o “Dude”, que ao facilitar a vida de todos os humanos, resolveu por arruiná-las, levando-as ao caos completo. A inteligência artificial pirou, do nada (já que um histórico psicológico progressivo talvez não se aplique ainda às máquinas), e lançou a todos numa espiral de morte que culminou em seu próprio “suicídio”.

Cena extraída da série Mr. Robot.
Cena de Mr. Robot em que há a total impossibilidade de diálogo íntimo entre uma personagem solitária e o assistente pessoal da Amazon, Alexa.

Assistentes pessoais como Cortana, Siri, Google Now e Alexa, dos quais ainda não sou adepto, não me preocupam. Preocupa-me a predominância e, talvez, o seu caráter inevitável, como já o é no recém-atualizado Windows 10 se ele se acentuar. Não se trata de repulsa, mas da falta de confiança em um serviço que, além do idealizado, vai ser demasiadamente íntimo. Muito mais íntimo que o simples histórico do buscador, já que se se atingir a desejada naturalidade os diálogos com esses assistentes serão mais complexos e, consequentemente, mais carregados de informações pessoais. Daí que seu histórico médico, seus passos, sua agenda, seus trabalhos e correspondências, além de contatos e fotos, ficarão disponíveis para que conexões diversas e sofiticadas sejam feitas e as respostas cada vez mais precisas surjam para questões cada vez mais complexas…

Se hoje há pessoas implicando com a coleta de meta dados, imagine quando uma inteligência artificial terapeuta (que, quando há um humano, trabalha-se sob sigilo) surgir: seus segredos serão ouvidos, gravados, processados e, sem dúvida, serão enviados para algum lugar onde podem fugir ao seu controle. Nada muito diferente de hoje, mas a escala será muito maior… Se há tantos interessados em big data, não é à toa.

A difícil convivência

Entre algumas questões éticas presentes na história (experiências com prisioneiros humanos, por exemplo), vislumbramos uma inteligência artificial que, de tão destrutiva, fez com que os humanos tomassem medidas para se precaver de um evento similar no futuro da trama: todas os projetos com IA passaram a ter um rigoroso controle, com tudo sendo gerido por uma empresa bem sinistra.

Depois disso, e inspirado na realidade que nos exaspera a ponto de cogitarmos que somos joguetes numa simulação de uma simulação, nos deparamos em um mundo organizado, já dividido em nove partes estratégicas (assim como colonizadores dividiram a África conforme seus interesses há não muito tempo), diluindo nacionalismos, que moveram e ainda movem paixões, fazendo emergir outras bandeiras.

Cena do episódio Be Right Back, de Black Mirror.
Cena do episódio “Be Right Back”, de Black Mirror.

A leitura e o que ela apresenta, inevitavelmente, desembocam em outras obras de ficção igualmente inteligentes, que talvez lhe ocorram a depender de suas referências, como os episódios do já distante seriado Black Mirror, de Charlie Brooker, em breve sendo retomada justamente por uma empresa ciente dos nossos interesses imagéticos, a Netflix, porque os poucos episódios, um tanto perdidos e dispersos em arquivos de torrents pela rede, vieram pra sublimar de vez nossos anseios quanto a essas possibilidades (das mais otimistas até as mais pessimistas).

O episódio “Be right back”, em que o luto de uma mulher é destituído pela recriação do parceiro perdido através do histórico de uso da Internet e pela materialização em um corpo que facilmente seria confundida com uma pessoa, é um ato de prestidigitação tão convincente que instaura imediatamente uma penca de dilemas e situações ridículas ante o instável e frágil ser humano que somos (mesmo que você se ache o centro do universo, amigo, acredite: tem algo aí que também te derruba).

Se esse episódio em particular foi um esboço possível, apesar de muitas relações harmoniosas também o serem (como a interação entre humanos e seus animais de estimação já o é há séculos), estaremos em pé de guerra, de um jeito ou de outro, com essa ameaça fantasma que nos ronda desde já. O mais fascinante nesse futuro não são nem as máquinas em si, mas os rearranjos que serão necessários para estabelecer novas formas de convívio com elas, as máquinas, e com os humanos já transformados pela presença intensa delas.

Um aspecto difícil de ignorar, mas que não achei tão atraente, a questão mitológica, referente ao nome da inteligência artificial, V.I.S.H.N.U., que alude ao deus hindu ordenador do universo, não ganha força suficiente na história. Funciona mais como elemento acessório e vai de encontro ao que se vislumbra como uma fé tão grande nas máquinas e na tecnologia, tamanho o suficiente para dar vida a uma nova religião. Não é algo jogado na trama, mas diluído, como os traços do ilustrador. A materialização de V.I.S.H.N.U., a inteligência artificial, usando água, não deixa de nos levar ao filme O Segredo do Abismo, dirigido por James Cameron. Outros filmes podem dialogar com essa trama, especialmente a trinca de filmes dirigidos por Neill Blomkamp (Distrito 9, Elysium e Chappie).

Mas um filme, além, claro, dos famosas obras literárias cyberpunk que nutriram os três autores da graphic novel em questão, se sobrepõe: 2001: Uma Odisseia no Espaço, de um longínquo, e repleto de simbolismo, 1968. O computador HAL 9000, com sua fala impassível, tem o mesmo “espírito”: age com intuito ordenador e assume conotações próprias de uma inteligência artificial que ganha vida. Mas as falas iniciais do livro não deixam dúvida a deferência em relação ao filme de Stanley Kubrick:

Então é assim…
Antes , eu estava atrás do que está do meu pensamento
Agora… só não queria que me levassem…
Para onde eu vim!
Mas… estou.
Ou… sou.
E apesar de fora…
Me sinto dentro.

Os luditas, esses seres que nutrem total aversão às máquinas, talvez representem a parte mais cheia de ação da trama (já que o jogo psicológico e intelectual que a inteligência artificial V.I.S.H.N.U. joga interessa mais aos cientistas). Agem de modo sorrateiro, como guerrilheiros embrenhados numa selva: uma mistura de FARC com os zapatistas liderados pelo misterioso Marcos, no México. El Mecanógrafo é a figura revolucionária se você se identificar com essa turma ou pode ver como revolucionário os intentos da inteligência artificial. Tudo imbricado pra mostrar a fúria humana contra as máquinas dominantes, seja pelos robôs e sistemas na vida cotidiana ou pelo total domínio tecnocrático dos gestores humanos desse mundo imaginado — quem sabe eles são apenas desprovidos de humanidade já que atentam contra sua própria espécie sem qualquer traço de misericórdia.

E, coincidência ou não, ler algo que expõe os ardis de uma conspiração de velhacos confabuladores para destruir um laboratório vital agora, justo quando estamos rememorando os atentados contra as torres gêmeas americanas, ocorridos há 15 anos, em meio a uma onda de teorias conspiratórias que surgiram com embasamento científico para contestar a versão oficial do governo.

Parindo um ciborgue

Outra página de V.I.S.H.N.U. no detalhe.

Determinado trecho da história apresenta um nascimento. Não importa dar muitos detalhes para não tirar o valor da surpresa, mas a alusão é clara. Apesar de não recorrer ao mesmo expediente usado pela crença cristã — a de uma virgem que dará à luz o filho de Deus, uma segunda fecundação ou inseminação artificial, por assim dizer,  porque é difícil precisar em termos biológicos o que se passa já que é impossível de se dar no mundo real –, ocorre por uma espécie de processo telemático, desenvolvido por um dos personagens e que é admirado pela V.I.S.H.N.U., dando origem a uma nova espécie. (Se se levar em conta os consagrados processos evolutivos e desenrolar da trama em novos episódios, o que não é o caso.) E essa me pareceu a proposta, mas com outra finalidade:

Uma cultura nasce no momento em que uma grande alma despertar do seu estado primitivo e se surpreender do eterno infantilismo humano; quando uma forma surgir em meio ao informe; quando algo limitado, transitório, originar-se no ilimitado, contínuo. Floresce então no solo de uma paisagem perfeitamente restrita, ao qual se apega, qual planta.

— Ricardo Gaiotto de Morais, Macunaíma, um esboço do Brasil.

Os autores foram demasiados místicos nesse ponto e, pelas ilustrações, não deixam dúvidas que aludem ao nascimento do “escolhido”. É curioso que o nascimento de um ciborgue tenha ganhado esse contorno. Trata-se de um trecho breve, mas está tudo lá. Melhor seria se se apelasse como referência a Macunaíma, de Mário de Andrade. Um pequeno flerte com essa obra surreal, de uma pauliceia distante no tempo, seria um invólucro, ou melhor, uma trilha mais adequada ao ritmo que se impôs ao longo da trama. Não parecia haver necessidade de tamanha solenidade nesse nascimento, dando contornos religiosos aparentemente pouco representativo na trama até esse ponto…

Aproveitando a deixa, me parece válido esclarecer o seguinte:

Um ciborgue é um organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção. (…) A ficção científica contemporânea está cheia de ciborgues-criaturas que são simultaneamente animal e máquina, que habitam mundos que são, de forma ambígua, tanto naturais quanto fabricados. A medicina moderna também está cheia de ciborgues, de junções entre organismo e máquina, cada qual concebido como um dispositivo codificado, em uma intimidade e com um poder que nunca antes, existiu na história da sexualidade. (…) O processo de replicação dos ciborgues está desvinculado do processo de reprodução orgânica.

— Tomaz Tadeu (Org.),Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano.

Capa da graphic novel V.I.S.H.N.U.

Como o grande filme de referência que é Matrix, com seus personagens ciborgues que adentram diretamente à máquina ligando-se a ela através de acesso direto pela consciência, a todos que se interessaram por ficção científica (e o ilustrador diz que procurou um efeito similar ao de um filme ao usar técnicas de ilustrações diferentes), os autores de V.I.S.H.N.U. apenas roçaram em conceitos filosóficos e políticos que poderiam dar mais densidade à trama. Talvez seja o “mal” de toda peça de entretenimento de alta qualidade, isto é, não se aprofunda nas questões mais abstratas e conceituais, apesar de ostentar tal pretensão por um tempo e pelo retorno de parte da crítica.

Seja por limite do formato (o que não creio ser o caso), seja por limites pré-estabelecidos pelos autores (impossível saber exceto perguntando aos três), após o frenesi da trama, ficam reflexões interrompidas nos limites físicos e imaginativos da obra, mas que podem ganhar ramificações novas e impensadas se você mesmo resolver se embrenhar nas possibilidades, isto é, se você, de algum jeito, também resolver ser um ciborgue caso não seja um. Lastimo apenas que os autores, e quanto a isso também não se pode dar muito detalhes, não deram chance a um protagonismo maior de uma mulher da trama. Na verdade, incorreram ou impediram que a proposta de simbiose entre homem e máquina aflorasse outra discussão, a de gênero:

Por um lado, com a redução e a demonização das tecnologias do sexo, o corpo da mulher se apresenta como puramente natural, e o poder dominador dos homens, transformando em técnicas de controle e de possessão, é exercido sobre o que seria capacidade mais essencial das mulheres: a reprodução. Esta é descrita como uma capacidade natural do corpo feminino, a matéria crua sobre a qual vai se desdobrar o poder tecnológico. Nesse discurso, a mulher é a natureza e o homem é a tecnologia.

— Beatriz Preciado, Manifesto contrassexual.

Uma leitura recomendável

Por ser um livro repleto de referências, algumas óbvias e outras nem tanto, é possível uma série de abordagens diferentes ou apenas uma forma de diversão a partir de V.I.S.H.N.U.. O livro não é caro e, provavelmente, a essa altura, já possa ser encontrado em bibliotecas. Se faltava algo interessante ao universo da ficção científica ou mesmo cyberpunk no repertório nacional, agora não falta mais.

Compre V.I.S.H.N.U. na Amazon, Americanas, Livraria Cultura, Ponto Frio ou Submarino.

Ficam aqui meus agradecimentos ao Flavio Moura e à Clara Dias, ambos da Companhia das Letras, que cederam o exemplar ao Manual do Usuário.

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17 comentários

  1. Parabéns pelo texto Fábio, fiquei impressionado e com certeza comprarei um exemplar (pelo link do MdU, claro hehe).
    Fica a minha sugestão para mais críticas de HQ’s, adoraria ler uma sobre Daytripper do Gabriel Bá e Fábio Moon

      1. Ela é sensacional cara, tocante, sensível e ao mesmo tempo tem momentos fortes.
        Vale a pena :)

          1. se houver por onde falar de tecnologia com essa história é bem provável q o grande ghedin autorize a publicação, do contrário ele carimba sem dó: “RECUSADO”.

  2. Realidade:
    Uma frase: “O sistema vai continuar evoluindo e quem pensa que está fora, está enganado”
    Não há como correr. Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come. Seja comido. Será menos cansativo.

    Perspectiva:
    A resistência não se entregará tão fácil.

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