Um apelo: pare de filmar com o smartphone em modo retrato


16/1/14 às 13h11

Frame extraído de um vídeo feito em modo retrato.
Minha expressão quando vejo um vídeo em modo retrato :-/

Não é de hoje que todo smartphone é, também, uma câmera bem decente. A fotografia foi uma das primeiras áreas absorvidas pela convergência dos smartphones. Por estarem presentes neles há tanto tempo, já temos câmeras em celulares que rivalizam em qualidade com as compactas.

A conectividade e os incrementos qualitativos que as câmeras de smartphones apresentam não foram capazes, ainda, de barrar um desvio fotográfico-comportamental bem característico desse cenário: a gravação de vídeo em modo retrato. Não é muito difícil, em filmagens caseiras hospedadas no YouTube ou compartilhadas entre amigos, se deparar com uma feita com o celular “em pé”, da forma que o seguramos ao realizar outras atividades.

Uns podem dizer que isso é imposição pura e simples, que é ditar um modo de uso aos demais. Não acho que seja o caso porque… bem, o mundo é uma grande paisagem. TVs, monitores, cinema: tudo está em modo paisagem, com telas widescreen. E, diferentemente de celulares, que podem ser usados tanto em modo retrato quanto paisagem, girar uma TV a 90º é um pouco mais complicado. Uma tela de cinema? Acho que não dá.

Há casos em que o vídeo em modo retrato se justifica. O Snapchat incentiva isso — e é compreensível, visto que o consumo desse materal se restringe ao próprio celular. Para todos os casos, ou ainda, na dúvida, optar pelo modo paisagem é o mais sensato. Pena que não existe uma maneira de lembrar a todos disso. Ou será que existe?

Tem um app para isso

Os apps nativos de câmera das três principais plataformas móveis fazem pouco caso com a maneira com que o usuário segura o smartphone. No máximo, rotacionam os ícones e outros elementos da tela de acordo.

Terceiros mais preocupados com esse fenômeno têm surgido com a difícil missão de acabar com os vídeos em modo retrato.

O YouTube Capture só funciona em modo paisagem.
Foto: Rodrigo Ghedin.

O YouTube Capture, um app para iOS do Google para filmar, editar e subir vídeos no YouTube, simplesmente não funciona em modo retrato. Nesta posição ele pede, gentilmente, para que o usuário coloque o iPhone em modo paisagem e só aí libera o botão de gravação.

Mais recente, o Horizon1 tem uma abordagem diferente na luta para sanar o mesmo problema. Em vez de obrigar o usuário a usar o smartphone assim ou assado, ele adapta o vídeo para estar sempre em modo paisagem, mesmo quando filmado em retrato. Usando o giroscópio do aparelho, a área gravada é mantida na posição correta independentemente da posição do smartphone.

É mais conveniente, sem dúvida. Na prática, porém, os vídeos sofrem um pouco com essa liberdade dada ao usuário. O sensor da câmera não é quadrado, ele é projetado para ser usado em modo paisagem. No caso do Horizon, parece que acontece um crop (recorte) no vídeo em tempo real; apesar de um dos desenvolvedores ter me garantido que não há perdas, na prática é fácil notar que a qualidade final fica levemente prejudicada e o fator de corte aumenta — parece que a câmera dá um zoom, mas é apenas a limitação física do sensor que se mostra ao ser usado de forma “inadequada”.

Horizon em ação: filmagem em modo paisagem mesmo com o celular na vertical.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Tanto o Horizon quanto o YouTube Capture são duas tentativas de contornar um problema não técnico, um de natureza comportamental. Por isso, talvez o maior desafio deles não seja contornar o modo de operação do usuário, mas sim serem lembrados. Em outras palavras, é difícil concorrer com o app nativo da câmera. Na hora de filmar, a pessoa que grava vídeos em modo retrato se lembrará de abrir o Horizon em vez do app a que está acostumada?

Pós-produção?

Algumas pessoas pediram à Evil Window Dog, desenvolvedora do Horizon, uma forma de converter vídeos já filmados em modo retrato para o modo paisagem. Seria uma solução conveniente ao problema, considerando o hábito das pessoas de sempre recorrerem ao app nativo da câmera.

Com um software de edição adequado é fácil fazer essa alteração. Os resultados nem sempre ficam perfeitos, há perda em qualidade, mas antes isso do que uma faixa estreita no meio da tela ladeada pelo breu.

Ainda falta um passo, que é facilitar o processo. Numa pesquisa rápida não encontrei apps que fazem o serviço com alguns cliques, sem complicações — e se você conhecer algum, por favor diga aí nos comentários. Facilidade conta pontos em sistemas móveis, além de impulsionar o alcance da prática. Por mais simples que seja a operação em um Movie Maker da vida (e é), a coisa precisa ocorrer no próprio smartphone para ser considerada. Saiu dele? Esqueça.

Algum dia ficaremos livres dos vídeos em modo retrato? Dificimente. Mas a esperança, ah a esperança… é a última que morre, né? Wired, The Verge e este esquilo engraçado já imploraram para que as pessoas parem com isso. Agora, o Manual do Usuário engrossa o coro. Faça a sua parte, compartilhe este post com aquele amigo ou parente que insiste nessa prática errada. Um a um, devagar e sempre, conseguiremos conscientizar mais pessoas sobre as desvantagens do vídeo em modo retrato e assim faremos do mundo um lugar melhor!

  1. Entra aí no site, é bem maneiro. Tem um iPhone no meio da tela que fica rodando de acordo com o mouse e dois viewfinders à esquerda mostrando como fica o vídeo com e sem a tecnologia deles.

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