Ensaio fotográfico na Avenida Paulista.

Um pequeno universo particular


16/2/16 às 9h53

No dia 25 de janeiro de 2016, São Paulo comemorou 462 anos de uma sofrível existência. Desde seus primeiros registros fotográficos em 1860, quando a então província era habitada por apenas 30 mil almas, chegamos aos dias de hoje numa das maiores metrópoles do mundo em que tirar fotografia é algo banal para qualquer habitante. O que nos faz pensar o seguinte: o que vai sobrar disso tudo?

A depender do cenário apontado por Vint Cerf, vice-presidente do Google e cocriador da Internet, pode ser que tenhamos um futuro incerto quanto a todos esses registros digitais. E, por conta do volume extraordinário, é bem provável que todas as imagens feitas nos séculos XIX e XX tenham sido superadas em quantidade já nos primórdios do século XXI. Pelo menos é o que sugerem os números apontados por Benedict Evans: foram compartilhadas mais de três trilhões de fotos no mundo só em 2015 — e isso não inclui as fotos que não foram compartilhadas!

Só pra termos uma ideia, de em que pé estávamos há não muito tempo, Militão Augusto de Azevedo (1837-1905), célebre por ter fotografado São Paulo no século XIX, deixou em seu acervo, sob a guarda do Museu Paulista (fechado já faz três anos), as 12 mil fotos que tirou em toda sua vida. Parece ser este, então, um traço agora permanente da fotografia digital: apesar de numerosa, fica evidente a sua baixa durabilidade, afinal preservar tudo isso requer cuidado, dedicação e manutenção permanente, coisas que pessoas comuns não estão habituadas a fazer.

Meu intuito, quando saio pra fotografar, é puramente documental. Tenho grande interesse e fascínio nos tipos humanos que encontro por aí. Mas para essa seleção de imagens me concentrei em perceber o smartphone e seus usos. Por conta da data especial, a Avenida Paulista ficou aberta às pessoas (assim como ocorre aos domingos), isto é, fechada ao trânsito de carros. Converge ali todo tipo de gente, portanto. E, de cara, dá pra sacar que os jovens fazem uso desenvolto dos aparelhos e parecem ter em mãos algo que dificilmente estariam sem, porque, além dos registros fotográficos que fazem, eles ouvem música e se comunicam intensamente. É praticamente um moto-contínuo, e dissociar disso tudo a fotografia de hoje, quando estão a registrar algo, é cabível tão somente a um tiozão como eu, que pensa a fotografia ainda isoladamente, lembrando as lições dos mestres do século XX, que não conviveram com a Internet ou simplesmente a ignoraram, ou ignoram.

Aos que perambulam sós pela cidade parece não haver melhor companhia e, aos que estão em grupo, o aparelho é quase como um passaporte ao convívio social. Sim, o smartphone, independente do uso que fazem dele, parece drenar a atenção de todos, inclusive a minha.

Clique nas fotos para vê-las maior e em novas abas.

Paulista 1

Paulista 2

Paulista 3

Paulista 4

Paulista 5

Paulista 6

Paulista 7

Paulista 9

Paulista 8

Paulista 10

Paulista 12

Paulista 11

Paulista 13

Paulista 14

Paulista 15

Paulista FIM

Revisão por Guilherme Teixeira.

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20 comentários

  1. Não quero ser muito “Beneva” mas o que mais me impressiona (ainda!) na matéria é a super dependência dos smartphones. Não é mais só um acessório tecnológico, tornou-se um esteio comportamental.

    1. Acho curioso que isso está acontecendo não só com a geração Y, Z, milenals, seja lá qual for o nome. Minha tia, com quem moro, e já tem seus 60 e tantos anos é muito dependente do social do smartphone. Muito. E ela só foi ter smartphone ano passado.

  2. A questão dos porta retratos digitais mostra bem o que ocorre na fotografia familiar, principalmente.
    Tira-se foto de tudo e de todos sem critérios, assim ao final de uma festa onde antes teríamos, talvez, umas 72 fotos tiradas (sem sabermos como ficarão ao revelar), hoje temos facilmente mais de 100 em dispositivos distintos e que provavelmente não serão compartilhadas ou revistas numa próxima reunião.
    O porta retrato digital é isso. Colocamos várias e variadas fotos num dispositivo que ficará repassando as imagens sem muito esforço e daremos pouca atenção.
    Fora a pouca preocupação em listar imagem na mesma posição. Digo, colocar um porta retrato em posição paisagem com fotos para transmiti onde algumas estejam em retrato. Perdemos espaço para reproduzir a foto e fica mais como “ah, coloquei aquela pelo menos”, sem a preocupação que existia antes.

  3. Penso muito nisso enquanto registro todos os passos do meu pequeno… como será que, no futuro, essas imagens serão resgatadas/revistas? Praticamente nenhuma existe em meio físico (impressa, digo). É de se pensar em uma época em que até os porta-retratos são digitais…

  4. Cara, fotos fantásticas! Parabéns. Com relação ao texto, me recordo de um curso que fiz, sobre formação de acervos digitais, há uns 14 ou 15 anos atrás, quando câmeras digitais ainda eram inviáveis para qualquer uso sério. O principal desafio era justamente como manter e preservar imagens digitais, uma vez que não há mídia segura. O consenso era de que deve existir a redundância dos dados, mas pouca gente tem essa percepção e talvez menos gente ainda tenha grana, tempo, espaço e conhecimento para manter esses acervos pessoais.

    1. Justamente. A primeira vez q peguei uma câmera digital nas mãos, isso, sei lá, 1996 ou 1997, era uma da Casio QV-10. Era algo muito interessante pra época e acho q ninguém botava muita fé naquilo e, claro, todas as fotos q tirei com ela se perderam todas… Acho q hj uma parcela bem pequena dessas pessoas tem essa preocupação. Talvez se elas passarem a jogar as fotos na nuvem, talvez a coisa melhore, mas ainda assim muita coisa vai se perder, com certeza. Todo registro q sobrar dessas décadas em q há predominância do digital será, certamente, muito valioso (em termos de memória) no futuro. E, sim, haja grana pra manter esses arquivos, a redundância etc…

      1. Com certeza será de muito valor, mas as vezes também levanto a questão. Será que deixar algumas coisas morrer não é interessante pelo fator de “sobrevive apenas o que é relevante”?

        1. Sem dúvida. E geralmente o q fica é o q é mais relevante, mas num âmbito mais restrito, o familiar, por exemplo, parte significativa das imagens de uma criança de hj podem se perder. Pra essa criança, no futuro, isso será uma perda e tanto qdo ela já crescida quiser ver a si mesma no passado. Mas é só um exemplo. Guardar tudo seria uma loucura tb. É um dilema…

        2. Sem dúvida. E geralmente o q fica é o q é mais relevante, mas num âmbito mais restrito, o familiar, por exemplo, parte significativa das imagens de uma criança de hj podem se perder. Pra essa criança, no futuro, isso será uma perda e tanto qdo ela já crescida quiser ver a si mesma no passado. Mas é só um exemplo. Guardar tudo seria uma loucura tb. É um dilema…

          1. Sim, é uma decisão complicado. O Google Photos hoje em dia já tem a opção de fazer backup de todas as fotos, com espaço ilimitado. Acho que daqui a 10 anos teremos bem mais fotos guardadas do que de 10 anos atrás. Sem contar que hoje publicamos muita coisa no Instagram, Factbook, Twitter, algumas coisas tem que sobreviver…. Hahahah

      1. não gosto desse tipo de propaganda, mas pelo menos a moça não tem q ficar parada como os homens placa do centro.