Perfil do Twitter no Twitter.

Remover o limite de 140 caracteres do Twitter não seria o fim da rede


30/9/15 às 11h18

Surgiu o rumor de que o Twitter, em breve, removerá o limite de 140 caracteres por mensagem. O povo que usa e leva a sério o Twitter num nível além do saudável surtou, dizendo que isso descaracterizará a rede social, que ela ficará cheia de textões como o Facebook, que será o seu fim. Eu acho que não e explicarei aqui meus motivos.

O maior bem de uma rede social

Tendemos a achar que as características mais evidentes de um produto são as que o define. Nem sempre é o caso, especialmente em redes sociais. O Instagram flexibilizou o formato das imagens recentemente e o Snapchat há muito perdeu a efemeridade que fez sua fama inicial — as Histórias, mais populares que os snaps individuais, podem ser revistas infinitamente no intervalo de 24 horas e mesmo os snaps podem ser vistos novamente. Mais de uma vez, inclusive, desde que você esteja disposto a pagar.

O principal bem de uma rede social não é ter só fotos 1:1, limitar o discurso a 140 caracteres ou exibir fotos apenas uma vez e depois (pretensamente) sumir com elas. Nada disso. Essas características são, em determinado ponto, diferenciadores, elementos que geram manchetes na mídia e atraem o interesse de gente entediada (todos nós) querendo (ainda) mais distração de seus smartphones. Tanto é verdade que clones do Instagram, com filtros até melhores, e clones do Twitter, com o mesmo limite de 140 caracteres e um ecossistema menos nocivo a desenvolvedores terceiros, não progrediram. Uma execução melhor não garante o sucesso. A imitação, tampouco, e não é só o caso de simplesmente fazer diferente. É, em grande parte, um mistério — e o Google, com todo o dinheiro do mundo para investir em seu Google+, está aí de prova.

O Facebook é o exemplo-mor de como uma rede social não precisa, na verdade, como uma não deve ficar presa a convenções iniciais. Se Mark Zuckerberg tivesse batido o pé e mantido a rede fechada em universidades, o Facebook poderia ser grande hoje, mas jamais tão grande quanto é. O produto também mudou muito ao longo da década. O feed de notícias surgiu dois anos depois do lançamento do Facebook. Hoje, é o que segura a maioria dos usuários. Amanhã, quem sabe? É por isso que o Facebook testa tantas coisas malucas e fica obcecado por competidores que inovam em sua área e não aceitam ser comprados.

Já deu para sacar aonde quero chegar, certo? Não? Então lá vai: o maior bem de uma rede social é ter uma base de usuários grande e engajada.

Quando o Instagram passou o Twitter em número de usuários, Evan Williams, co-fundador do último, disse à Fortune:

“Se você pensar no impacto que o Twitter tem no mundo versus o do Instagram, é bem significativo. No mínimo, é uma comparação errada. O Twitter é o que queríamos que ele fosse. É essa rede de informação em tempo real onde tudo do mundo acontece no Twitter — coisas importantes são divulgadas pelo Twitter e líderes mundiais conversam no Twitter. Se isso estiver acontecendo, eu sinceramente não dou a mínima se o Instagram tem mais gente olhando para fotos bonitinhas.”

Eu concordo com ele. Infelizmente, para a empresa Twitter ter breaking news e líderes trocando replies em seu principal produto não é o bastante. Isso nos leva ao cerne do debate.

Os problemas do Twitter

O Twitter vive um problema de escala. Com quase 300 milhões de usuários, não é algo supérfluo. Esse número, porém, empalidece perto dos 1,5 bilhão de usuários do Facebook. E, sendo uma empresa de capital aberto, sujeita à pressão dos investidores que sabe-se lá por qual motivo enfiaram na cabeça que a métrica que importa é o tamanho da base de usuários, o objetivo do Twitter (produto e empresa) passou a ser esse: crescer.

É por isso que toda semana tomamos um susto com alguma coisa nova ou fora do lugar no Twitter. Esses experimentos, a maioria irritante para quem usa regularmente o serviço, focam em quem está do lado de fora. São tentativas de atrair o público que não se deixou fisgar pela premissa de mensagens curtas num fluxo infinito na timeline. Se algo no produto não funciona para o fim que a empresa almeja, o que a impede de mudar?

É um caso especialmente complexo porque estima-se que quase um bilhão de pessoas já experimentaram o Twitter e não ficaram. Nesse caso a primeira impressão conta. Como convencer quem já viu e não gostou do que viu a dar uma segunda olhada? No produto Twitter, promovendo mudanças radicais, tentando torná-lo mais atraente para quem não gostou da oferta básica; na empresa Twitter, lançando e comprando novas ideias — Periscope e Vine, por exemplo.

Mas, mesmo tirando o papo de crescimento e as circunstâncias comerciais da jogada, faz sentido que o Twitter evolua e se afaste de decisões que, hoje, não fazem mais sentido. E, antes mesmo de entrarmos na questão dos 140 caracteres, número escolhido por compreender o tamanho de um SMS, método de postagem que fazia sentido em 2006, mas hoje é inócuo, vale dar uma parada e observar como as coisas estão mudadas. O Twitter que usamos em 2015 é muito diferente daquele de alguns poucos anos atrás.

Hoje ele tem cards que expandem (em muito) os limites de caracteres. Exibe fotos, galerias de fotos, vídeos e Vines, tudo rodando inline. Links adaptados mostram a manchete, uma imagem e um resumo do que o usuário encontrará caso clique nele:

Mesmo o texto puro encontrou meios de burlar o limite de 140 caracteres através de “hacks” da própria base de usuários. Daí os tweetstorms:

E os screenshorts:

Ambos são fenômenos recentes que deveriam ser integrados pelo produto. E talvez serão. No que isso atrapalharia a experiência? Em pouco, ou nada.

O meu ponto é: já ultrapassamos o limite de 140 caracteres. Embora o campo de texto para digitar tweets ainda mantenha essa limitação, a comunicação pelo Twitter já transcende os 140 caracteres há tempos. Assim, cada vez mais aquele contador regressivo no campo de mensagens se mostra deslocado, uma peça legada que parece ter sido esquecida ali por algum motivo qualquer que ninguém consegue explicar direito.

Como será, na prática, a remoção do limite?

Ninguém sabe e, veja, a história toda ainda está na base do rumor. Há indícios de que a ideia vem sendo discutida internamente e de que ela tem o apoio do co-fundador e atual CEO do Twitter, Jack Dorsey. Apesar de toda a incerteza, é bem provável que, se removido o limite de caracteres, a experiência do Twitter não deverá mudar muito. Como?

Uma solução seria usar o sistema de cards para esconder o “excesso” de texto. Seriam exibidos os primeiros 140 caracteres com um botão “leia mais…” ao final. Quem quiser, clica e lê tudo; os que não seguem em frente, tem mais tweets na timeline.

Independentemente de como vier, é possível que os próprios usuários rejeitem a novidade e se auto-limitem aos 140 caracteres habituais, ou que se convençam de que o Twitter é para mensagens curtas e passem, porém não muito, do antigo limite. Cerca de 80% dos usuários ativos do Twitter utilizam a rede via dispositivos móveis e, por melhor que seja o seu corretor ortográfico, escrever um textão no celular não é tarefa das mais simples.

Uma característica histórica do Twitter é o molde que a base de usuários dá a ele. Retweets, replies, hashtags, tweetstorms… todas essas ações, algumas absorvidas e oficializadas, outras ainda marginais, surgiram dos usuários. Apostar no fim do Twitter devido à eliminação do limite de caracteres é subestimar demais a base de usuários.

Não discordo de que, mesmo assim, alguns ainda ficarão insatisfeitos com o Twitter, mas não é como se estivéssemos assinando o atestado de óbito da rede. Mudanças graduais, até naturais, têm o risco de desagradarem a alguns — toda mudança tem isso implícito.

Eu mesmo preferia quando a versão web era absurda de rápida e estou achando deprimente voltar ao app oficial depois de quase dois anos de Tweetbot, mas… faz parte. Vale para outras redes também. Não gosto das Histórias do Snapchat e, desde que o foco passou a ser esse, diminuí muito o uso do app.

Mas eu sou só um na multidão, um pontinho fora da curva. O Snapchat vai bem e o Twitter, pior do que é não ficará. E, veja você, eterno insatisfeito, o lado positivo dessa história: se ficar muito ruim mesmo e você resolver abandonar o barco, pelo menos o textão de despedida poderá ser feito no próprio Twitter. Estou ansioso para lê-lo.

Foto do topo: Christopher/Flickr.

Cadê os anúncios?

O Manual do Usuário é um projeto independente, que se propõe crítico e que respeita a sua privacidade — não há scripts de monitoramento ou publicidade programática neste site. Tudo isso sem fechar o conteúdo para pagantes. Essas características são vitais para o bom jornalismo que se tenta fazer aqui.

A viabilidade do negócio depende de algumas frentes de receita, todas calcadas na transparência e no respeito absoluto a você, leitor(a). A mais importante é a do financiamento coletivo, em que leitores interessados sustentam diretamente a operação. A assinatura custa a partir de R$ 5 por mês — ou R$ 9/mês para receber recompensas exclusivas:

Assine no Catarse

Newsletter

Toda sexta-feira, um resumo do noticiário de tecnologia, indicações de leitura e curiosidades direto no seu e-mail, grátis:


Nas redes sociais, notícias o dia todo:
Twitter // Telegram

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

23 comentários

  1. Sou a favor que o Twitter mostre uma espécie de Articles do Facebook. Um modo expandido diferente do twiit original. Isso não mataria o core do twitter, mas expandiria para mais conteúdo.

    Por fim o Facebook vive pensando em como ser o próximo Facebook. E provavelmente é o maior caso de êxito até agora. Inibir o Twitter de tentar expandir é pedir pra empresa acabar

    Bom texto Rodrigo. Saiu da curva-de-reclamações que estava o Twitter (opa… pera)

  2. Eu gosto do Twitter, mas sou menos engajado nele justamente pelo limite ridículo de apenas 140 caracteres.

    Uma das coisas que mais me chamaram atenção no não bem sucedido competidor, App.net, foi justamente o limite maior de 256 caracteres (https://alpha.app.net/kaarlows/post/5099131), e na época eu pude observar que vários usuários utilizavam este limite com inteligência, expondo suas idéias de forma melhor elaborada mas sem serem prolixos.

    Um Twitter sem limite algum de caractere seria horrível, mas se adotassem a idéia do App.net, tenho certeza que quase ninguém reclamaria e teríamos uma timeline mais enxuta e interessante, pois haveriam muito menos tweetstorms ou screenshots de textos.

  3. No Android tem o Twidere e o Hootsuite como bons clientes do serviço, mas continuo com o app oficial. O último usei por bastante tempo, mas não dá pra ver as menções a um twitter. Bizarro.
    Até hoje não entendo por que o twitter matou o tweetdeck mobile. Todos estaríamos mais felizes caso o TD tivesse de tornado o app oficial do twitter.

  4. Não acredito que essa mudança venha pra o bem. Se por acaso tirarem o limite de caracteres, deveriam colocar o botão de leia mais caso passe do limite atual, como você disse, além de um contador pra saber quantos caracteres tem o tweet. Mas isso tudo deixaria o uso da rede mais complexo, sendo que o modo atual funciona muito bem.

    Tweetstorms são utilizados poucas vezes se comparados com os tweets normais. Liberar a quantidade de caracteres poderia ser útil nesses casos, mas se tem uma coisa que o povo sabe ser é verborrágico. Já imaginou como ficaria sua TL?

  5. Se a ideia é apenas fazer um Twitlonger oficial e inline não vejo problema, mas se realmente acabarem com o limite eu apenas digo tchau e vou ficar só no Facebook, já que a razão de ser do Twitter vai acabar.

    O que torna o Twitter legal é a rapidez do conteúdo, a facilidade de rolar uma timeline com centenas de pessoas falando e não se perder, porque as mensagens são curtas e dá pra passar rapidamente de uma pra outra. Se ficar aparecendo textão no meio acaba o que ele tem de bom.

    1. “eu apenas digo tchau e vou ficar só no Facebook, já que a razão de ser do Twitter vai acabar.”

      o tuíter tem uma graça que não vejo no feicebuque (que é sério demais). Muitos grandes memes viralizam no twitter antes de aparecer no facebook — embora eu esteja falando isso baseado em evidência nenhuma, apenas achismo…

      acho que a empresa devia tentar explorar essa cultura própria

    1. Tbm fiquei com essa dúvida! Ainda mais agora com o Tweetbot 4 Universal já submetido na App Store

  6. Meu maior problema com o fim do limite seria o fim da “objetividade” dos textos. Na grande maioria dos tweets, quem os posta pensa, antes, numa forma de “resumir” a ideia naquela quantidade de caracteres e isso trás como consequência essa objetividade no que você lê. Com o fim desse limite, isso se perderia: para que ser “sucinto” se não tenho mais limite de caracteres? E um botão de “leia mais” não resolveria, porque nada obrigaria a pessoa a “resumir a ideia nos caracteres sempre visíveis”, o que faria com que tenhamos que “ler mais” quase sempre para entender a ideia por trás do tweet, ideia essa que antes era facilmente interpretada no máximo em 140 caracteres.

    1. Um exemplo bem claro para isso: quando quero saber a situação de determinado transporte publico uso o Twitter, pois se pesquisa o nome de determinado assunto estará lá “Linha X opera normalmente”, do contrário teria aquela enrolação: “Na manhã desta quinta feira etc etc bla bla bla …. e agora ela opera normalmente”

  7. Ghedin, acho que você é um otimista hehehe. Screenshots são comuns no Twitter, é verdade, mas a sua função não é ampliar o twit e sim a ideia do “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Ou até mesmo 140 caracteres. Pra mim a magia da rede está nos insights, as pílulas que consumimos numa TL rapidamente e que vão direto ao ponto.

    Se o Facebook com seus textões e compartilhamentos imensos – dignos das antigas correntes de Powerpoint – virou um antro de verborragia, com temáticas que se cruzam tendo pouco a ver umas com as outras e gerando rios de falácias, no Twitter vejo uma grande oportunidade para todos exercitarem o poder de síntese. Claro que é possível cultivar uma TL melhor no Facebook, há artifícios para isso e mais espaço para compartilhamento de conteúdo. Porém se o engajamento dos usuários é fundamental para uma rede dar certo, vejo os twitteiros “sérios” falando com muito mais propriedade e engajamento/foco do que as contas corporativas de Facebook, que geram buzz difuso e sofrem com a trollagem de quem sucateia debates, às vezes até por pura desinformação e não malícia.

    Essa é apenas minha opinião, claro. Acho mais fácil consumir um assunto destrinchado em 5 rápidos twits do que ter que clicar em vários “leia mais” durante o dia. Mas vamos ver o que acontecerá e o que as pessoas acharão :)

      1. A síntese se perderia se quisermos. Esse discurso me passa a sensação de que em vez de remover o limite máximo, o Twitter estaria planejando um limite mínimo. Eu prezo o tempo e a atenção de quem me segue e acho que o Twitter é um ambiente propício para mensagens curtas, logo, mesmo sem limite, acho que continuaria publicando mensagens curtas.

        E, mesmo assim, não ter o teto de 140 caracteres me seria benéfico. Às vezes preciso escrever “ñ”, “vc” e “tb”, ou mesmo sacrificar a legibilidade de um Tweet por conta da limitação do meio. Sem ela, poderia mandar uma mensagem igualmente sucinta, mas mais legível, de 160, 180 caracteres. Todos ganham.

        1. Eu, por exemplo, sigo diversos sites de notícia e de e-commerce. Eu imagino os primeiros twittando notícias completas, ao invés de uma síntese, e esses últimos postando listas extensas de promoções. Seria um pesadelo continuar
          Hoje pra mim é tranquilo tê-los na minha timeline porque consigo em questão de 10 segundos ler dezenas de notícias e apenas clicar para “ver mais” nas que me interessam.

          1. Sites têm pouco interesse em publicar conteúdo completo em plataformas externas que não dão dinheiro, mesma coisa para lojas que não podem vender diretamente nessas ou, ainda que sim, têm que pagar comissão.

    1. Então, porquê não aumentar (dobrar) a quantidade de caracteres ? Creio
      eu que seria o meio termo. Sim, acho que 160 caracteres é pouco, logo
      tem que ficar fazendo abreviações, remoção de acentuação, cortando
      termos de junção e etc…
      Sou a favor SEMPRE de um texto mais limpo e
      claro, sem / pouquíssimas abreviações. Resumindo esta opinião que ficou
      com mais de 160 caracteres. Sou a favor de um aumento de caracteres. =D

    2. Então, porquê não aumentar (dobrar) a quantidade de caracteres ? Creio
      eu que seria o meio termo. Sim, acho que 160 caracteres é pouco, logo
      tem que ficar fazendo abreviações, remoção de acentuação, cortando
      termos de junção e etc…
      Sou a favor SEMPRE de um texto mais limpo e
      claro, sem / pouquíssimas abreviações. Resumindo esta opinião que ficou
      com mais de 160 caracteres. Sou a favor de um aumento de caracteres. =D