Thiago Rotta, da IBM: “Não vejo uma área que não possa ser beneficiada por inteligência artificial”

Thiago Rotta, da IBM.

Inteligência artificial é um dos temas mais quentes do momento. Empresas como Google, IBM e Microsoft estão praticamente se refazendo em torno dessa ideia. Não é à toa: os ganhos da aplicação de técnicas baseadas em aprendizagem de máquina e big data são assombrosos — das melhorias dramáticas nos sistemas de tradução de idiomas ao reconhecimento de imagens sem qualquer classificação prévia feita por humanos. É difícil pensar em uma área que não se beneficie desses avanços.

Já discutimos isso bastante por aqui. E continuaremos, porque há muitas implicações que transcendem a tecnologia — éticas, políticas, psicológicas. Para enriquecer o debate, tive a oportunidade de entrevistar Thiago Rotta, líder da IBM Watson Solutions na América Latina. Como o próprio me explicou, sua tarefa é monitorar o mercado e o que a IBM está produzindo na área, a fim de levar aos clientes as melhores soluções para seus problemas.

Thiago é uma das atrações do Wired Festival Brasil 2016, o primeiro da tradicional revista norte-americana por aqui, que começa amanhã (2/12) no Armazém da Utopia, no Rio de Janeiro. Gentilmente, ele se dispôs a responder oito perguntas sobre inteligência artificial para o Manual do Usuário. Suas respostas, muito pertinentes, nos ajudam a entender a questão por um ponto de vista raro de ser lido por aí: o de quem cria essas soluções.

As respostas foram levemente editadas para maior fluência em texto escrito.


Rodrigo Ghedin: Oi Thiago! Obrigado por conceder essa entrevista. Para começar, você pode detalhar melhor o que faz na IBM?

Thiago Rotta: Hoje eu sou responsável, na IBM, pela estratégia para levar a tecnologia de inteligência artificial da empresa, o Watson, ao mercado. Também sou responsável por gerar ofertas de distribuição de inteligência artificial que atendam aos clientes da América Latina.

Meu papel, desde a criação unidade Watson no Brasil, é de analisar aquilo que está funcionando bem e o que precisa ser melhorado, do ponto de vista de tecnologia e a sua própria evolução, a fim de atendermos as demandas dos nossos clientes. É como se eu fosse um chefe de tecnologia que estivesse de olho em tudo que lançamos mundialmente em computação cognitiva, de inteligência artificial, e avaliasse o que pode ser utilizado pelos clientes da América Latina.


RG: O Watson foi criado para vencer humanos no Jeopardy, um jogo de perguntas e respostas da TV, certo? Hoje, porém, ele é usado em aplicações diversas. Quais são as mais interessantes atualmente?

TR: Hoje, o Watson é uma plataforma de serviços cognitivos na nuvem, que está disponível na plataforma IBM Bluemix. A aplicação do Watson vai desde criar agentes cognitivos para responder questões por meio de texto e de voz até atuar como assistente apoiando o médico na tomada de decisões.

No Brasil, nós temos vários casos públicos. Por exemplo, o Bradesco, que foi nosso primeiro cliente aqui, utiliza o Watson no apoio aos gerentes das agências. Há mais de 700 agências do Bradesco utilizando o Watson, que foi treinado para responder perguntas sobre produtos específicos do banco.

A aplicação mais interessante, apesar dos agentes cognitivos serem algo bem público, bem popular, é o fato de o Watson ser utilizado na ajuda de diagnósticos médicos. Isso causou um impacto social muito grande, é uma das coisas que realmente faz com que as pessoas se interessem em conhecer um pouco mais do que se trata o Watson.

https://www.youtube.com/watch?v=yUGx4Fpps8s


RG: Corrija-me se eu estiver enganado: a IBM meio que antecipou a onda de aprendizagem de máquina via big data em aplicações mais pragmáticas com o Watson, algo que, hoje, está na moda. Esse pioneirismo se deve à visão dos executivos na época (final dos anos 2000) ou teve um pouco de sorte?

TR: O que acontece na IBM é algo bem interessante: promovemos um estudo relacionado às mudanças tecnológicas que devem acontecer nos próximos cinco anos. Em meados de 2000, não foi diferente quando a gente apontou que a inteligência artificial seria uma das áreas a serem exploradas na resolução de problemas humanamente impossíveis de serem resolvidos.

Realmente, o fato de termos percebido isso [IA como tendência futura] se deveu à percepção dos sistemas programados de então, sistemas aos quais se dizia exatamente o que eles precisavam exercitar. Em algum momento, deparávamos com um caso de edição onde ele receberia um dado que nunca viu antes e esse dado precisaria ser interpretado. Nesse momento é que entraria a inteligência artificial, para que aquele dado pudesse ser interpretado e uma ação que não tivesse sido programada no passado pudesse ser tomada. Isso não aconteceu por acaso, foi de fato um acerto que tivemos, assim como várias outras coisas com relação à evolução da tecnologia a cada cinco anos.


RG: Pelo que acompanhamos na imprensa, a inteligência artificial baseada na aprendizagem de máquina é uma tendência ainda na ascendente, com grandes empresas como IBM, Microsoft e Google investindo pesado na área. O que, na sua visão, justifica esse entusiasmo?

TR: Na minha opinião, o alto investimento em inteligência artificial é fruto da evolução de diversas áreas da computação. O aumento do poder de processamento dos computadores e a evolução dos algoritmos, sobretudo os de inteligência artificial, por exemplo, bem como a criação de novos métodos sobre como aplicar esses algoritmos de forma a atingir resultados mais rápidos e também a possibilidade, hoje, de armazenar esses dados quase que de forma infinita — já que atualmente quase não há limitação em relação a armazenamento.

Acho, ainda, que o crescimento no volume de dados não estruturados motivou as empresas a investirem em inteligência artificial — falo de textos, vídeos, áudios, fotos etc. Esses dados precisam ser interpretados e isso é algo que sistemas programados não conseguem fazer, justamente porque foram programados para executar uma sequência de atividades conhecidas. Essa é uma das razões pelas quais eu vejo as empresas se interessando cada vez mais em IA.

Outro aspecto relevante foi o crescimento dos dispositivos móveis. Hoje, a gente tem mais de 2,6 bilhões de pessoas usando-os, há sete bilhões de aparelhos móveis no mercado e tudo isso facilita muito a geração e o crescimento desses dados não estruturados. Você vai a uma padaria, tira fotos do seu café e publica. Uma foto é um dado não estruturado. Ou você vai lá e comenta que está feliz no Twitter. Isto é um dado valioso, ainda que difícil, mas é um dado valioso que, quando interpretado, torna-se interessante. Eu saber que hoje você está de bom humor me ajuda a, eventualmente, lhe fazer uma oferta de, sei lá, um sapato novo. É mais provável que você compre nessas condições.

Então, falando disso tudo, eu acho que é do interesse das companhias que poderiam utilizar inteligência artificial para interpretar esses dados não estruturados.


RG: Consegue pensar em alguma área que *não* se beneficie da aplicação de inteligência artificial?

TR: Eu não vejo uma área que não possa ser beneficiada por essa tecnologia. Costumava dizer que áreas como a da criatividade não seriam, de alguma forma, atingidas pela inteligência artificial. Mas hoje é diferente, vejo que não é mais assim. Até mesmo em áreas onde a criatividade é necessária, há maneiras de a IA contribuir.

Vou te dar um exemplo: a área da música. O Watson foi recentemente utilizado para ajudar o Alex Da Kid, produtor de cantores como Rihanna, Eminem e Imagine Dragons. A inteligência artificial o ajudou a produzir uma música que na semana de lançamento teve mais de 18 mil downloads. Ela se chama Not Easy:

Não estou dizendo que a inteligência artificial vem para substituir o ser humano em sua totalidade em áreas onde a gente não imaginava que ela seria aplicada — principalmente quando se fala em criatividade. Em vez disso, ela vem para ajudar no que está mais distante, baseada em texto, no tom de comunicação das pessoas, em como as palavras que você coloca no texto podem ser usadas em uma frase, a fim de contribuir para que você tenha um insight que não teria sem a utilização da tecnologia. Essa é uma das razões pelas quais não consigo ver uma área não que não se beneficiaria da IA.


RG: Já existe demanda por inteligência artificial/aprendizagem de máquina no Brasil? Se sim, e se puder, cite alguns casos de uso dessas técnicas em ambientes de produção.

TR: Posso citar várias — esta é realmente a resposta. Vários desses casos são públicos e posso, assim, detalhá-los. Já abordei um, o caso do Bradesco, que utiliza o Watson para auxiliar os gerentes das agências no atendimento ao cliente final. Às vezes é um gerente novo que, ao receber um cliente, em vez de sair da sua mesa para pedir a outro gerente mais experiente uma informação que ainda não sabe ou ter que consultar documentações sobre um produto específico, ele simplesmente transfere sua dúvida para o Watson, que o ajuda a respondê-la.

Outro caso público é o do Banco do Brasil, que vem com um conceito um pouco diferente do Bradesco. O Banco do Brasil está focando em utilizar IA em aplicativos, em transações em seu aplicativo do internet banking, fornecendo informações [diretamente ao cliente final].

É um conceito no qual você não mais somente navega no app, mas onde você fala com o seu banco. Imagine que você queira saber seu saldo; você pergunta ao aplicativo. E até em coisas mais complexas como “vou viajar para os EUA em determinada data e gostaria de ativar o aviso viagem.” Você não precisa mais procurar esta opção de aviso viagem nos menus e telas do app. Outra: quando for fazer uma transferência de dinheiro para a sua mãe, o sistema saberá quem é sua mãe pelo fato de ela estar cadastrada no banco de dados.

Todas essas são formas em que vemos o Watson sendo aplicado em novas maneiras de engajar o cliente. Ações que levariam alguns minutos para serem executadas agora tomam apenas alguns segundos.

Simulação de bate-papo com Meeka, o robô do Mecasei.Uma outra empresa bem interessante, uma startup, no caso, é a Meeka do Mecasei. A Meeka é um avatar, como se fosse a melhor amiga dos noivos que se dispõe a ajudá-los na organização do casamento. Então, ela pode ajudar você a planejar o que precisa ser executado e em que época, baseada na data do casamento.

Você pode fazer perguntas em linguagem natural, como se fosse realmente a uma amiga. É até engraçado, porque quando você fica alguns dias sem entrar em contato com a Meeka, ela joga frases do tipo “pensei que você nunca mais iria aparecer”, “pensei que não fosse voltar”, “pensei que você havia desistido de casar”.

No mês de lançamento desse aplicativo, eles tiveram mais de mil downloads na App Store. Hoje, trata-se de uma startup reconhecida internacionalmente. O time do Mecasei é chamado constantemente para falar sobre seu trabalho, principalmente porque conseguiram desenvolver e colocar esse bot em ambiente de produção em apenas três semanas. E eles trabalham de uma forma ágil mesmo, [a fim] de colocar as coisas em produção bem rápido.

Outro caso super interessante é o do Fleury. Em outubro de 2016, o Fleury e a IBM fecharam uma parceria para validar a otimização de um produto chamado Watson Genomic aqui no Brasil. O Watson Genomics é uma ferramenta de apoio à decisão médica de acordo com o mapeamento do genoma humano.

Para finalizar, mais um caso legal, o da Fundação Dom Cabral, focada na área de educação. Os participantes do Programa de Gestão Avançada (PGA) utilizam o Watson em dois momentos do programa. Primeiro, os executivos interagiram com um chatbot que responde perguntas sobre a computação cognitiva e como essa tecnologia pode ajudar diversos setores como varejo, finanças, óleo & gás, governo, saúde, comunicação etc.

O segundo momento aconteceu durante o módulo realizado na França, na escola Insead. Essa fase do programa é focada em coaching em liderança. Por isso, todos os participantes escreveram um texto sobre sua avaliação da primeira fase do curso no Brasil e esses conteúdos foram analisados pela ferramenta Watson Personality Insights, que foi ensinado sobre psicologia e consegue avaliar a personalidade de uma pessoa por meio do conteúdo que ela escreve. Assim, o professor conseguiu ter mais uma fonte de informação sobre o perfil de cada executivo, auxiliando a direcionar as aulas.


RG: Vocês consideram as implicações éticas no uso de inteligência artificial/aprendizagem de máquina por parte dos clientes da IBM? É feito algum trabalho de conscientização nesse sentido ou medidas para evitar abusos?

TR: Sim. Essa é uma das razões pelas quais na IBM a gente adota medidas de aprendizado supervisionado do Watson. O sistema de inteligência artificial trabalha por meio de feedback positivo e negativo. É assim que ele aprende — que é como a gente aprende também.

Se você me der uma resposta e eu, como conhecedor desse assunto, lhe disser que ela está errada, e da mesma forma outras pessoas conhecedoras do mesmo assunto disserem a você que sua resposta está errada, o que vai acontecer com a sua opinião é que ela mudará graças a esse feedback. A IA funciona da mesma forma. Esse feedback positivo ou negativo é, de alguma forma, avaliado por um grupo de especialistas que integram o centro de computação cognitiva, que a IBM treina, para que eles possam em conjunto avaliar tudo aquilo que está acontecendo e a forma como esse sistema de inteligência artificial está se comportando.

No Bradesco, por exemplo, eles possuem um time que ajuda a fazer a curadoria dessa informação. Então, mesmo que lá eles tenham treinado o sistema para responder sobre os produtos do Bradesco, quando um determinado cliente, no caso o gerente da agência, faz uma pergunta, o Watson dá uma resposta para ele, mas ele dá um feedback negativo, não é naquele exato momento que aquele feedback negativo é absorvido pelo sistema de inteligência artificial. Muitas vezes um feedback negativo não significa que aquilo está errado, mas sim que a pessoa pode não ter gostado daquela resposta ou que a resposta pode estar incompleta.

Essa forma de fazer a avaliação, com o feedback retroalimentando o sistema de IA, é a que encontramos para evitar abusos, inclusive “trollagem”, que poderiam, com feedbacks maliciosos, dar a entender que o sistema não é tão inteligente como a forma que pensavam que ele fosse.

Vale também ressaltar que a IBM estabeleceu parceria com outras empresas de tecnologia, por meio da ONG Partnership on IA, para manterem as melhores práticas em projetos de inteligência artificial. Segundo essa parceria, elas conduzirão e publicarão pesquisas sob licença aberta em áreas como ética, equidade e inclusão.


Ava, de Ex Machina.
No filme Ex Machina, Ava é um robô com consciência.

RG: Viajando um pouco. Alguns pesquisadores e uma farta produção ficcional imaginam cenários em que a inteligência artificial adquire consciência e a linha que a separa de seres humanos meio que desaparece. Acha isso, pelo menos, plausível? Se sim, qual a sua opinião a respeito da ideia?

TR: Constantemente recebo perguntas sobre se a máquina vai superar o ser humano ou a raça humana ser extinta do planeta quando as pessoas começarem a ver a evolução da inteligência artificial.

Sinceramente, não vejo a inteligência artificial ganhando consciência e esse é um papo bem filosófico. A consciência implica em uma máquina conseguir absorver uma porção de coisas como sentimentos, senso moral, abstração, senso comum, intuito, imaginação. Até o momento, eu não tenho visto nenhuma linha de estudo que visa realmente fazer as máquinas absorverem todos esses fatores que viabilizem a criação de uma consciência. Mesmo porque você deve se questionar: qual seria real objetivo em fazer um sistema ganhar consciência?

Hoje, o que mais precisamos é de ajudar as pessoas a processarem aquilo que não conseguimos devido à nossa própria limitação humana, nossa incapacidade de armazenar toda a informação que é gerada atualmente. 
Eu vejo que os algoritmos de inteligência artificial visam, sim, analisar o mundo externo mas para gerar conhecimento para o ser humano.

Essa é a razão, inclusive, pela qual a IBM criou esse sistema chamado de Computação Cognitiva, que visa traduzir a informação e o conhecimento de forma a aumentar a capacidade do ser humano de processar informações que não consegue normalmente. E essa é uma das razões, também, pela qual eu não vejo a máquina tendo uma consciência própria. Porque a gente não precisa da opinião dela, mas a gente precisa que ela processe os fatos existentes para que a tomemos decisões melhores.


Fecho a matéria agradecendo o Thiago pela entrevista. Valeu!

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6 comentários

  1. Gostei dessa observação que: “se o aprendizado de máquina não for supervisionado, alguém pode trollar e induzir a entrada falsa de informações”….

    1. Em vários momentos lamentei não ter feito a entrevista ao vivo (foi por e-mail); esse foi um deles. O trabalho de supervisão é importante, mas seria legal saber o que eles fazem para tentar detectar inclinações e padrões que emergem antes no processo, algo que tanto a máquina quanto o ser humano interpretam como “normal”, embora, numa visão holística da coisa, seja mais um vício enraizado do que um traço de normalidade. Fica para a próxima, talvez.

  2. Excelente entrevista, eu amo estudos sobre IA e acredito que ele esteja errado enquanto consciência, pois não fica muito explícito qual consciência é baseada essa teoria. Seres humanos possuem consciência, possuem sentimentos, senso comum, senso ético, porém se analisar somos apenas replicadores de conteúdo, muitas vezes falamos que algo é certo mas não comprovamos se aquilo realmente é certo, apenas passamos a diante o que um outro falou. Uma IA com consciência deixaria de se denominar IA, ela testaria por si só o que está certo ou errado e mudaria caso necessário, mas num nível que as atuais IA não podem entender. Um cachorro possui consciência, possui sentimentos apesar de limitados, e adquire senso de certo ou errado de acordo com o que aprende, porém muitas vezes alguns burlam regras, descobrem que aquilo realmente está errado e se dão mal, ou descobrem que não há problema, mas não possuem capacidade cognitiva de pensar no por que disseram que estava errado sendo que não está. Penso que no começo inteligência artificial consciente será assim, como um cão.

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