Brave, Firefox e Opera ganharam mais usuários na Europa. E agora?
A entrada em vigor do Regulamento Mercados Digitais (DMA, na sigla em inglês), em 7 de março, apresentou aos cidadãos da União Europeia uma tela de escolha ao abrirem o Safari no iOS 17.4 ou configurarem novos dispositivos Android. (O porquê dessa discrepância me escapa.)
Os primeiros resultados parecem animadores. Ao menos, as empresas beneficiadas com a medida demonstraram empolgação:
- O Brave notou um salto na média de downloads diários no iOS de ~7,5 mil para 11 mil (aumento de ~46%);
- A Mozilla, via The Register, disse ter visto os downloads do Firefox subirem +50% na Alemanha e quase 30% na França; e
- A Opera alardeou um aumento de 164% em novos usuários no iOS entre 5 e 7 de março.
Não deve ser à toa que somente o Brave divulgou números absolutos. E números baixos. Quando a Opera alardeia um aumento de 164% de novos usuários, deve-se questionar: 164% em cima do quê?
No Twitter, o perfil do Brave publicou que “quando os consumidores têm uma escolha clara de navegadores no iOS, eles estão escolhendo alternativas ao Safari”.
E… ok, eles estão escolhendo mesmo, talvez num concurso de ícone mais bonito. (O do Brave é bem bonito.) Acho que há perguntas mais importantes pós-tela de escolha que precisam ser respondidas, em especial se as pessoas continuam usando o navegador alternativo escolhido nela.
Talvez seja importante relembrar que não é como se fosse impossível instalar navegadores alternativos antes, nem algo complexo. (Mudar o padrão, uma possibilidade desde o iOS 14, de 2021, talvez sim, mas nem isso era tããão complexo.)
A outra grande amarra do iOS, a obrigatoriedade do uso do motor do Safari (WebKit) por todos os outros navegadores, homogeneíza o mercado concorrencial. Isso, sim, é uma vantagem artificial que a Apple impõe aos rivais.
O DMA, entre outras coisas, obriga a Apple a aceitar navegadores com motores distintos do WebKit. Nenhum ainda está disponível. Talvez não valha o esforço de manter dois apps, um com WebKit e outro com motor próprio só para a União Europeia. É esperar para ver.
O Safari é um navegador muito, muito bom no iOS. Arrisco dizer que é o melhor — em grande parte pela integração profunda com o sistema e recursos exclusivos, como o suporte a extensões. São essas exclusividades desleais que deveriam estar na mira de legislações que visem fomentar a concorrência.
A maioria das determinações do DMA parece acertar o alvo. (Algumas consequências surpreendem, são difíceis de antecipar; por isso digo que “parece”.) A tela de escolha dos navegadores — e a dos buscadores web, por extensão — não é uma delas.
Aliás, já vimos essa história com a Microsoft e o Windows nos anos 2010, na mesma União Europeia.
Em março de 2010, quando a tela de escolha pipocou nos PCs com Windows dos europeus, houve um salto no uso de navegadores alternativos ao IE, mas ao final do programa, em 2014, Firefox e Opera tinham fatias do mercado menores do que quatro anos antes. Só o Chrome subiu, e feito um foguete. Arrisco dizer que não foi por causa da tela de escolha.
“Talvez seja importante relembrar que não é como se fosse impossível instalar navegadores alternativos antes, nem algo complexo.”
Eu não gostei dessa da forma irônica, porque na minha opinião retrata o assunto de forma insincera/enganadora/desonesta.
Pode não existir complexidade para nosso querido autor do post ou para a audiência deste site, assim como outros sites que tem a tecnologia como um tema recorrente. Todavia, as pessoas leigas não necessariamente possuem o conhecimento para modificar o navegador padrão, ou ainda, não sabem da existência da opção que possibilita a mudança do navegador padrão. Crédito da Maçã por querer forçar seu usuário a continuar preso(a) em seu cercadinho.
Deveria ser igual a Rússia, onde a escolha do navegador é na configuração.