Empresas de tecnologia estão descobrindo que tudo é político
A Framework, que produz e vende computadores modulares e reparáveis, está enfrentando uma pequena revolta em seu fórum oficial após anunciar o patrocínio dos projetos Hyprland e Omarchy — um gerenciador de janelas para Linux e uma pseudo-distro baseada no Arch, respectivamente.
Ambos são liderados por sujeitos extremistas, de acordo com os críticos: Vaxry e David Heinemeier Hansson (DHH), que também está envolvido no racha da comunidade da linguagem de progranação Ruby. Aqui tem um resumo das polêmicas em que DHH se meteu.
Nirav Patel, fundador da Framework, defendeu os patrocínios dizendo que a empresa criou “deliberadamente uma grande tenda porque queremos que o software de código aberto vença”, e que “não fazemos parcerias com base nas crenças, valores ou posições políticas de indivíduos ou organizações fora de seu alinhamento conosco no aumento da adoção de software de código aberto”.
Outra startup sob fogo cerrado é o Bluesky. Lá, a celeuma se originou pela reação da co-fundadora e CEO, Jay Graber, à exigência de parte dos usuários pelo banimento de Jesse Singal, jornalista estadunidense acusado de ter um histórico de transfobia.
Jay deu algumas respostas atravessadas quando questionada, como afirmar que os insatisfeitos não são seus clientes porque não estão pagando, sugerir uma “greve de usuários” e WAFFLES. Funcionários do Bluesky também entraram no debate.
No outro lixão da internet, o X, Singal está se divertindo com a implosão do Bluesky.
Ambos, Framework e Bluesky, apelam a públicos sensíveis a características subjetivas, que transcendem o produto ou serviço oferecido. A primeira, a sustentabilidade e o direito ao reparo; o Bluesky, comunidades marginalizadas (incluindo pessoas trans) que encontraram nele um refúgio de plataformas que se revelaram abertamente hostis, em especial o X.
O caso do Bluesky é de especial interesse porque o “produto”, ali, é o próprio discurso. A atual crise desnuda os limites à abordagem tradicional de plataformas de interação (redes sociais): ainda que Singal não tenha ferido os termos de uso da plataforma (eu não sei se isso aconteceu), ele é percebido como uma ameaça por parte dos usuários. Bani-lo acalmaria o ambiente, mas, se ele de fato não infringiu os termos de uso, abriria um precedente perigoso e, de qualquer forma, reforçaria a pecha sectária do Bluesky, para muitos um “Twitter de esquerdistas”.
É nesse contexto que o fediverso, protocolo descentralizado alternativo usado em apps como o Mastodon, revela-se uma solução mais “pronta” para lidar com dilemas do tipo.
A descentralização que já existe no fediverso permite que cada comunidade tome as suas próprias decisões, banindo personas non-gratas ou mesmo outras comunidades inteiras (como muitas fizeram com o Threads, da Meta), sem que isso afete todo o ecossistema. E os insatisfeitos podem mudar de comunidade/servidor sem muita dificuldade, o que não se pode dizer do Bluesky.
O protocolo AT, que move o Bluesky, ainda engatinha na descentralização. Os PDS (servidores de dados) são mais difíceis de subir e ainda dependem de permissões e de parte da infraestrutura da empresa Bluesky. Em bom português, não há para onde correr.
Para não dizer que o problema só afeta startups, a Apple, uma das maiores empresas do mundo, cedeu à pressão do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, e removeu dois aplicativos da sua App Store relacionados a abusos cometidos pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE, na sigla em inglês), o ICEBlock, que informava a posição de agentes do ICE, e o Eyes Up, que agregava evidências de abusos de agentes do ICE para serem usadas em processos judiciais.
Além das implicações políticas e morais, as remoções enfraquecem a distribuição de aplicativos exclusivamente pela App Store. Afinal, são aplicativos que não infringiam as regras impostas pela Apple.
Estão descobrindo que tudo é político e que quando você normaliza uma fração extremista da sociedade, fica difícil colocar a pasta pra dentro do tubo novamente.
verdade