É impossível avaliar o sono com apenas um número
O iOS 26 trouxe uma nova pontuação no aplicativo Saúde, a da qualidade do sono. (Não é algo exclusivo do Apple Watch; qualquer pulseira ou relógio compatível com o iOS pode compor esse número.)
Tenho um pé atrás com números do tipo. É redutivo e pode ser enganoso atribuir uma pontuação a algo tão complexo como o sono. E, numa grande ironia, os meus números (!) meio que provam isso.
Faz algumas semanas, tirei uma pulseira da gaveta — Huawei Band 8 — e voltei a usá-la. Estou mais comprometido com os exercícios físicos e, especialmente nos aeróbicos, é útil ter a frequência cardíaca à vista, em tempo real.
Escolhi essa pulseira, aliás, pela precisão do sensor de batimentos cardíacos nos testes do canal The Quantified Scientist. É uma pulseira honesta, leve e que passa despercebida, o que me levou a deixá-la no pulso quando vou para a cama.
Tanto o aplicativo da Huawei (que é… passável) quanto o Apple Saúde indicam um sono de qualidade. Em quase um mês de noites de sono registradas, a Apple classifica o meu sono como “Excelente”, com vários dias de pontuação acima de 95 (a escala vai de 0 a 100).
A Huawei me deu 82 pontos pelas noites de setembro. Seu aplicativo oferece “insights” que apontam o que pode ser melhorado (mais sono profundo, acordar menos à noite).
Alguém que olhe tais números pode achar que meu sono é maravilhoso. São, pois, números enganosos: tenho bruxismo e um sono muito leve, e preciso de um remédio para diminuir a tensão enquanto estou apagado, ou acordo com os ombros, pescoço e as escápulas travados, por vezes doloridos e, mesmo medicado, vez ou outra com uma dor de cabeça incapacitante.
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Uma hipótese para números tão discrepantes da realidade é que essas pulseiras e relógios monitoram apenas aspectos superficiais do sono. Insônia, estágios do sono, quantas vezes alguém acorda à noite. O Apple Watch, um dos mais avançados do tipo, também acusa apneia, embora não crave um diagnóstico. A própria Apple esclarece que o aviso se trata de “sinais de apneia do sono” e, caso ele apareça, que a pessoa procure um médico.
Ainda de acordo com a minha hipótese, aspectos menos óbvios do sono escapam aos sensores presos no pulso. É preciso mais sinais para detectar o bruxismo e movimento das pernas, por exemplo.
O teste “padrão ouro” do tipo se chama polissonografia. Estou investigando as causas do meu sono conturbado e mitigações para o bruxismo e, como parte desse processo, passei uma noite na clínica ligado a um computador por fios e eletrodos. Não tem como comparar um relógio, por mais avançado que seja, com isto:

Os resultados são detalhados. Até demais, a ponto de dificultar a leitura por um leigo. (A conclusão do laudo faz um bom trabalho em “traduzir” os dados.) É um contraste chocante com os relatórios gerados por apps como o da Huawei e da Apple.
O ponto negativo da polissonografia é que, em regra, os dados são extraídos de uma noite de sono desconfortável (devido à parafernália grudada no meu corpo) em um lugar estranho. Na minha vez, consegui dormir por cerca de 6h num período de 7h30 na cama, um pouco abaixo das médias de tempo de sono em casa — segundo a Huawei, 6h57 e 7h16, respectivamente.
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O avanço das empresas de tecnologia na direção do sono (as mesmas que já colonizaram boa parte do nosso tempo de vigília) me chama a atenção. Há startups dedicadas ao tema, como a Thrive Global de Arianna Huffington e a Eight Sleep, que vende “pods” (colchas e lençóis conectados) e afirma em seu site que “membros experimentam até 25% a mais de sono profundo”. Nada como números para te convencer a comprar!
Enquanto ruminava esta coluna, lembrei-me de um livro do autor estadunidense Jonathan Crary, 24/7: Capitalismo tardio e os fins do sono, publicado em 2013. Para Crary,
O sono é a única barreira restante, a única “condição natural” persistente que o capitalismo não pode eliminar.
Será que ainda é?
No alto da minha ignorância, não acredito que dificuldades no sono sejam (só) uma “externalidade” do capitalismo. Outros fatores — genéticos, por exemplo — devem ter sua parcela de culpa. Seria ingenuidade, porém, descartar o argumento de Crary, que ao longo do livro cita o excesso de telas (em 2013!) como um dos mais recentes desdobramentos de mudanças comportamentais nas últimas décadas que minam o sono.
O sono coincide com a metabolização do que ingerimos durante o dia: drogas, álcool, todos os detritos da interação com telas luminosas; mas também a enxurrada de ansiedades, temores, dúvidas, desejos, fantasias de fracasso ou sucesso total. Essa é a monotonia do sono e da insônia, noite após noite. Em sua repetição e sinceridade, é um dos remanescentes irredutíveis da vida cotidiana.
Exames, consultas, relógios e pulseiras inteligentes não são gratuitos. Talvez o mercado tenha, afinal, cravado seus dentes no sono e, seguindo uma cartilha conhecida, está vendendo soluções individuais a um problema sistêmico.
pena que até agora mesmo demorando eles conseguem estrair dinheiro de qualquer coisa
Não discordo da análise, mas em contrapartida quando tinha um relógio para monitorar o sono o app Rise Sleep sempre apresentava um "gráfico de energia" assustadoramente preciso, ele prediz o ciclo de energia que você vai ter no dia e quando eu começava a sentir cansaço e bocejar logo recebia a notificação do aplicativo informando que eu estava entrando num período de baixa energia, quando sentia mais energia e olhava no aplicativo sempre batia com a predição. Me ajudava muuuito a planejar e organizar as tarefas do dia e combater a ansiedade de "produtividade 8h por dia" e outras fábulas.
Eu já tive vários episódios de insônia, mas sempre relacionados ao stress do trabalho. No momento estou desempregado, me virando com alguns frilas.
Se por um lado a falta de grana pesa bastante, por outro a falta de cobranças, pressões, stress e carga excessiva de trabalho melhoraram bastante meu sono. Não lembro de ter tido insônia nesse período, e quando acordo um pouco antes das cerca de 8h de sono é por barulhos externos.
Lembro que no livro do Crary ele fala de estratégias que o capitalismo busca para acabar literalmente com o sono, para não precisarmos mais dormir. Nesse sentido a luta ainda não foi totalmente perdida. Mas é inegável como o stress do trabalho pode afetar nosso sono, então acho que a melhora passa por aí.
Acho que esses dispositivos servem apenas como referência pessoal. Cada pessoa obtém resultados diferentes: faço 10 voltas na pista com um Garmin e o registro de distância não bate com o da minha parceira, que usa um Apple Watch. Se eu usar o Apple Watch, idem. E o mesmo vale para o sono, em que até o movimento de quem dorme ao lado pode interferir nos resultados. O ponto é entender que as métricas não são exatas e usar apenas como referência, pra ir aos poucos entendendo e interpretando o que o dispositivo lhe diz e como você se sente de fato.
Acho que há pelo menos duas camadas para olhar:
1) a mais elementar é de que muita coisa "inteligente" nos relógios é hiper superficial ou por aproximação (não se perca pelo nome). Precisão mesmo eu quero é das horas :D. Eu tenho usado as métricas mais gerais do relógio, principalmente para controlar o horário de acordar e dormir, pq a oscilação desse horário é um dos gatilhos certeiros para minha enxaqueca; nisso eu não tenho do que reclamar.
2) 1/3 da nossa vida é dormindo, e isso foi desconsiderado por muito tempo, já que cuidar do sono parecia coisa de gente preguiçosa. Já há algum tempo que a "indústria do sono" deixou de ser somente de vendedores de colchão e travesseiros na esquina, passando por astronautas e, finalmente, aos dispositivos inteligentes (ex.: bugigangas para aprender idiomas enquanto dormimos). Profissionais de educação física e outros ramos ligados ao corpo têm prestado cada vez mais atenção ao sono. Tudo isso contribui para a criação de um mercado, ora baseados nos benefícios reais, ora inventando problemas para necessidades que ninguém tem.
Numa cena do filme alemão No Decorrer do Tempo, do Wim Wenders, um personagem conta que de vez em quando se pega cantando em pensamento músicas em inglês. E comenta: é, os americanos colonizaram até o nosso subconsciente. Esse filme é de 1976. Hoje a coisa evoluiu bastante: tá chegando a hora em que nós vamos receber propaganda online alimentada por dados garimpados nos nossos sonhos.
Ghedin, também tenho problemas com sono muito leve e uso abafadores de ruído para dormir. Há dois anos passei 20 dias com dores de cabeça constantes. Acordava com muita dor e essa mesma tensão nos ombros e pescoço. Pensei que estava com bruxismo e fui atrás.
Consultei um bucomaxilo e ele deu o diagnóstico de "apertamento" dos dentes. Não era bruxismo pois eu não rangia, apenas apertava os dentes. Com isso os nervos na região da mandíbula estavam ficando inflamados e a dor de cabeça surgia.
Segundo o médico, usar uma placa nos dentes para bruxismo não resolveria porque eu continuaria apertando, já que muitas dessas placas são maleáveis e permitem o encaixe dos dentes. A solução foi usar uma placa nos dentes da parte superior da boca de material rígido, e a parte inferior da placa (que entraria em contato com os dentes da mandíbula) reta, não permitindo que os dentes encaixassem ao fechar. Assim, sempre que meu cérebro tentasse encaixar os dentes não funcionaria e a mandíbula voltaria ao estado inicial, impedindo que eu mordesse. A placa parece uma resina transparente. É bem fina e feita sob medida para o encaixe perfeito com meus dentes superiores. Inclusive foi bem interessante ver como ela é produzida (fazem uma varredura 3d da minha boca e depois ela é produzida em impressora 3D).
Adicionalmente fiz sessões de fisioterapia na mandíbula e pescoço e meu problema foi totalmente resolvido. Passei a dormir bem melhor.
Oi Fellipe! Isso mesmo, eu uso esse mesmo tipo de placa, porque eu aperto os dentes, não tenho tanto rangido. Fui atendida também por um bucomaxilo e vale demais esse investimento, é qualidade de vida. Cheguei a quebrar 8 dentes, fora as dores de cabeça; agora, tudo certo!
Oi Rodrigo! O capitalismo já dominou o nosso sono, infelizmente: de vender essas traquitanas até a gente ter que criar estratagemas de deslocamento entre casa/trabalho ou tempo de trabalho (no caso do home office), podemos considerar que o direito a dormir está pra lá de prejudicado. Quem nunca dormiu no ônibus, chegou tarde em casa, cochilou e foi "virado" trabalhar? Então, esses estratagemas de monitorar são mais para "ter ideia" do estrago que efetivamente uma "solução" para um sono de qualidade (o que também é praticamente impossível). E, como o Moisés disse, é preciso saber qual a "régua" desses aplicativos/dispositivos usam para mensurar se o sono é considerável ou não. No mais, você não usa placa de bruxismo, Rodrigo? Eu utilizo há 4 anos nos dentes (além de dormir com tampões nos ouvidos) e melhorou bem. Boa sorte e sucesso!
Uso sim, faz muitos anos. E tampões para os ouvidos também.
Qual app usa para monitorar o sono? Concordo sobre a poli. 1 noite de sono parece pouco para tantas conclusões. A poli devia ser feita em mais dias. Converse com o médico sobre canabidiol. Surtiu efeitos positivos no sono em alguns casos.
Uso a própria pulseira da Huawei, que faz esse monitoramento e exporta os dados para o app Huawei Health.
Eu tentei faz uns dois meses. Em mim, não surtiu efeito algum :(
o que melhorou muito meu sono não foi nada tecnológico, foi deixar de usar celular e televisão 1h antes de ir pra cama e trocar colchão e travesseiro por outro "mais duros", chamados de ortopédicos.
Mas Ghedin, vc está comparando uma polissonografia com pulseiras que apenas medem padrões comportamentais. A polissonografia é tão completa que dependendo do caso, vc é filmado e monitorado por um profissional da área. Já as pulseiras não sabem se você está sonhando, se teve apneias reais (só suspeita), se rangeu os dentes ou acordou confuso (despertar cortical não detectável por acelerômetro). No mais, vale pesquisar como a Apple e outras montam o sleep score, quais critérios, etc.
Heheh, sim, eu sei que a comparação é descabida e é isso que me acendeu o alerta; as empresas de tecnologia vendem relógios e pulseiras como se fossem indicadores precisos da qualidade do sono. Mesmo com as ressalvas de que não são equipamentos clínicos, essa mensagem acaba sendo uma nota de rodapé nos materiais de divulgação.
Em tese, sabem (ou dizem saber): é o estágio REM do sono.