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Os sete pecados capitais na era digital: ainda há salvação

Numa dessas coincidências da vida, dia desses assisti a Seven, filme de David Fincher, e na manhã seguinte, ao sentar-me em frente ao computador, caí neste especial sobre os sete pecados capitais digitais do Guardian.

Lançado em 1995, Seven acontece em um tempo quase remoto, quando smartphone não existia, a ideia de não sermos contatados era concebível e as palavras “não sei” não eram sempre precedidas de uma consulta ao Google. Filmes como esse, se passados hoje, precisariam ser totalmente repensados. Vários conflitos imprescindíveis ao desenvolvimento da trama seriam evitáveis com SMS, buscadores (quem vai a bibliotecas?), redes sociais, big data.

Não sei se você faz isso, mas sempre que vejo filmes situados em épocas passadas fico imaginando duas possibilidades: 1) como eles seriam se seus enredos fossem contemporâneos, e 2) como eu me sentiria se vivesse naquele período. No caso, 1995 nem está tão longe no tempo. Tenho algumas lembranças vagas dos meus 9 anos, terceira série na escola, um ano meio apagado — não teve o Tetra de 1994, nem as grandes amizades escolares, os momentos divertidos da quarta série, e o PlayStation que ganhei em 1996.

Criança jogando Minecraft em um Galaxy Nexus.
Foto: rom/Flickr.

Hoje, alunos processam professores que lhes tomam o smartphone durante a aula. E piora: o aluno, amparado pela mãe, recorre à justiça, alegando “sentimento de impotência, revolta, além de um enorme desgaste físico e emocional”. Longe de mim ser o cara nostálgico, o chato do “no meu tempo…” É que essa notícia, além do espanto que a situação por si só causa, coloca no seu devido lugar, ou seja, no centro um objeto que de inexistente passou a ter um valor enorme na sociedade.

O smartphone, não me entenda mal, é um aparelho fascinante. Sempre que paro para pensar nele acabo chegando ao fato de que em sete anos esse aparelho mudou nosso comportamento — inclusive em centros menores, como aqui no interior do Paraná. Até onde isso vai? Os limites, como ilustra o caso do aluno que processa o professor por ter o celular confiscado durante a aula, ainda não são muito claros.

Os pecados capitais digitais da linda matéria do Guardian apontam para um cenário ainda mais preocupante. Quando a diversão passa a obsessão? Em que ponto o que apenas distraía vira prioridade? Qual a medida saudável para o uso de redes sociais?

Gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça, orgulho. As adaptações digitais conseguem abranger muitos comportamentos que, sob olhares críticos, são no mínimo questionáveis. Aos nossos, às vezes passam imperceptíveis. E não adianta se esquivar: pode parecer maluquice ficar 10 horas por dia jogando League of Legends, mas a esse cara, talvez, tirar selfies o dia todo para postar no Instagram cause a mesma estranheza — e, certamente, alguns abalos sociais. Se não isso, que tal ficar xingando no Twitter e em portais de notícias? Ou então sentir a inveja que você sentirá das fotos e declarações dos casais de namorados e seus relacionamentos pretensamente perfeitos daqui a alguns dias?

A ciência já estuda algumas dessas implicações. Sabe-se, por exemplo, que o excesso de fotos prejudica a memória. A ratificação dos pesquisadores vai de encontro ao que alguns sentem, ainda que nem sempre manifestem, na prática. É humanamente impossível tirar 300 fotos de uma tarde no parque sem que alguns bons momentos sejam presenciados pelo viewfinder, mediados por uma tela.

Se tivermos a dimensão dos estragos que o excesso no uso do smartphone está nos causando via estudos científicos, nos reeducaremos?

Dois caras fumando.
Foto: olsch/Flickr.

Talvez chegaremos a um ponto em que isso passará a ser encarado como problema grave e, sob essa ótica, passível de tratamento. Uma doença? Ou um comportamento socialmente reprovável, como o tabagismo virou nas últimas duas décadas? O paralelo com o fumo, aliás, parece adequado. Quando vejo grupos à espera de alguma coisa ou alguém, todos com celulares na mão, absortos, olhando fixamente e passando os dedos nas telinhas, é como se presenciasse uma versão digital-moderna do cigarro que tira a ansiedade e relaxa. Aparentemente, um menos degradante ao organismo. Será? Até que ponto?

A plaquinha do bar que diz que não tem Wi-Fi e pede às pessoas que conversem é uma bobagem. Uma que expõe, de modo meio torto, sem querer, o verdadeiro problema: não deveríamos ser orientados a fazer o que ela diz, mas sim termos essa atitude naturalmente. Quando precisamos de placas e lembretes para sermos humanos, para demonstrarmos o mínimo de empatia a quem escolhemos estar junto em um ambiente social como um café, é sinal de que alguma coisa deu errado e precisa ser revista.

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3 comentários

  1. Como sempre, um ótimo texto. A comparação com o cigarro já mostra o quanto devemos ficar atentos com tais comportamentos e tal. Tenho cobrado de uns amigos que tenhamos uma passei onde possamos dizer “Nossa, ontem foi tão legal que nem tiramos fotos ” , porque uma hora fica insuportável D:
    []’s

    1. E geralmente acontece o contrário: “Foi tão legal e tiramos tantas fotos…”. Só acho que tecnologia deve fazer parte e os excessos que devem ser evitados.

      1. O que me deixa mais encabulado na real, é o uso que as pessoas fazem em eventos, como um show, por exemplo. Muita gente fica extremamente preocupado em filmar/tirar fotos para mostrar pros outros depois, ao invés de aproveitar toda a carga emocional foda que um show traz. Vêem o show todo pela tela do telefone D:

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